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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que muda na Hungria com a derrota de Orbán e a vitória de Péter Magyar?

O resultado da eleição é doloroso para nós, mas é claro, a responsabilidade e a oportunidade de governar não nos foram dadas. Parabenizo o partido vencedor e agradeço pelo seu trabalho árduo.

16 anos depois de ter chegado ao poder, Viktor Orbán assume a derrota. É uma saída pela porta pequena. Orbán fala de um momento doloroso perante uma derrota estrondosa com o principal opositor a conquistar uma supermaioria. Péter Magyar vence as eleições na Hungria.

Caros compatriotas húngaros. Conseguimos! O Tisza e a Hungria venceram esta eleição. Não por pouco, mas por muito, muito mesmo. Juntos derrubamos o regime de Orbán, juntos libertámos a Hungria, reconquistámos a nossa pátria. Obrigado.

Péter Magyar consegue mais de 50% dos votos e vai ter uma maioria de dois terços no Parlamento húngaro. Hoje falamos do que muda com esta derrota de Orbán, apontamos os principais objetivos de Magyar e abordamos o clima de satisfação entre os líderes europeus. Fazemos uma ligação a Budapeste para conversar com a jornalista Madalena Moreira, enviada do Observador à Hungria. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia, de segunda-feira, 13 de abril. Madalena, bem-vinda.

Obrigada, Miguel.

Já estás fluente em húngaro depois de tantos dias na Hungria?

Sei dizer o nome de três partidos e de três líderes políticos e acho que foi o que foi preciso.

Já não é nada mau. Vamos ao que aconteceu nesta eleição da Hungria. Viktor Orbán sofre uma dura derrota, Péter Magyar consegue um resultado impressionante. Estiveste em reportagem nos últimos dias na Hungria. Foste percebendo esta vontade da mudança?

Eu perdi a conta às vezes que eu vi as pessoas definirem estas eleições como uma eleição histórica, porque não foi a primeira vez que Viktor Orbán enfrentou a oposição numas eleições e que havia esta esperança que Viktor Orbán pudesse cair, mas foi a primeira vez que a esperança era realista, que havia esta possibilidade concretizável de Viktor Orbán cair. E toda a gente com quem eu falei me dizia: "Eu nunca vi umas eleições assim, eu nunca experienciei isto, só se fala sobre eleições e sobre a possibilidade do regime cair".

E Péter Magyar conseguiu mesmo isso. Conseguiu derrubar um regime com 16 anos, essa liderança de Viktor Orbán. Consegue também Péter Magyar, não só isso, como uma supermaioria. Estamos a falar aqui de uma maioria de dois terços e estamos também a falar de algo que acaba por ser comum na Hungria, certo?

É comum na Hungria que Viktor Orbán desenhou, porque ao longo dos últimos 16 anos, ele fez uma série de reformas eleitorais e criou uma nova Constituição. Com essas reformas e essas novas leis que ele impôs, ele tornou necessários os dois terços do Parlamento para uma grande parte das decisões e por isso também mudou o sistema eleitoral para que fosse mais fácil alcançar esses dois terços e, portanto, facilitar a sua governação e permitir que muitas das leis que queria implementar fossem aprovadas no Parlamento. Ou seja, uma supermaioria na Hungria é quase o equivalente em muitos países europeus a uma maioria simples, porque é necessária para aprovar muitas leis.

Mas vamos aqui a alguns exemplos. Que poderes é que tem, por exemplo, agora, Péter Magyar com esta supermaioria?

Se confirmarem estes dois terços do Parlamento para Péter Magyar, ele basicamente pode reverter todas estas mudanças, como dizia, por exemplo, reformas eleitorais, os novos círculos eleitorais que desenhou Viktor Orbán nos últimos 16 anos, a Constituição, que é uma das coisas que deverá ser uma das primeiras decisões de Péter Magyar e a partir daí, leis mais corriqueiras que nós aqui não daríamos tanta atenção, como leis do trabalho, por exemplo.

Vamos tentar conhecer este homem, Péter Magyar. Será o novo líder da Hungria. Quem é que ele é? Como é que chegou aqui?

Péter Magyar sempre esteve ligado à política no Fidesz, no partido de Viktor Orbán, mas ele nunca foi a estrela em ascensão da política húngara, era a sua mulher, Judit Varga, que chegou a ser ministra da Justiça de Orbán. E depois, Varga apresenta a demissão em 2024 devido a um escândalo de um perdão presidencial que ela assinou enquanto ministra da Justiça e E Péter Magyar utiliza este escândalo para expor informações que ele próprio tinha enquanto membro do Fidesz na altura e criar a sua base de apoio para denunciar a corrupção no governo. E depois, desde aí, foi uma ascensão meteórica. Nós estamos a falar de um partido que há dois anos e meio Péter Magyar era um membro do Fidesz. O partido é muito recente e em dois anos concorreu a apenas duas eleições em que consegue um segundo e agora um primeiro lugar. Estamos a falar de uma pessoa que tem uma formação em Direito, viveu em Bruxelas, trabalhou em Bruxelas e pertence às elites de Budapeste. Portanto, é ainda mais significativo ter conseguido conquistar os votos numa Hungria que, excluindo Budapeste, é principalmente rural.

Sim, mas continua a ser um homem de direita, não tão à direita como Viktor Orbán, podemos dizer assim, mas continua a ser um homem à direita. Nós já vamos falar dessa arrumação parlamentar que fica na Hungria, mas ainda sobre Péter Magyar, quais são as prioridades que este homem tem para a Hungria?

Ele fez a campanha inteira focado nos assuntos internos e aqueles que as pessoas mais deram atenção foi a questão dos transportes públicos, da saúde, da educação. São três temas que dizem que Viktor Orbán descurou durante os últimos 16 anos enquanto estava focado em guerras ideológicas e neste momento em política internacional. E portanto, foi nessas três áreas que têm um impacto muito direto na vida das pessoas que ele se focou e as principais promessas dele são de recuperação destas três áreas. Agora, no seu discurso de vitória, já tivemos um piscar de olho à União Europeia, que ele foi deixando de fora na campanha e que deixou muito claro esta noite.

Já regressamos a esta análise às eleições da Hungria. Fazemos por agora uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com a Madalena Moreira. Falemos agora de Viktor Orbán. Ele assume a derrota, fala em derrota dolorosa. O que se espera do futuro de Orbán?

Eu falava há uns dias, enquanto estive aqui, com uma professora da Central European University, que originalmente foi deputada do Fidesz na mesma altura em que Viktor Orbán entrou para o Parlamento, que dizia que depois de Donald Trump, Viktor Orbán é um dos líderes internacionais mais imprevisíveis, e que portanto se recusava a fazer previsões sobre o futuro de Viktor Orbán, ganhasse ou perdesse as eleições. Temos que ter isto em atenção. Mas a verdade é que ninguém esperava que Orbán assumisse a derrota tão cedo e de forma tão inequívoca como fez esta noite. E portanto, é mais uma variável na equação que torna tentar avaliar o que pode acontecer no futuro de Viktor Orbán ainda mais difícil.

Sim. Nesta nova arrumação parlamentar da Hungria, ficam apenas três partidos e não há um único deputado de esquerda. Há o partido de Péter Magyar, o partido de Viktor Orbán, há ainda um partido de extrema direita e nenhum lugar para a esquerda.

Isso é ainda mais gritante quando pensamos que há quatro anos os partidos de esquerda, numa coligação de seis partidos liderada pelo Partido da Esquerda, que agora se apresentava novamente a eleições, ficou em segundo lugar e era o principal opositor de Viktor Orbán. Portanto, é uma queda acentuada. Temos que pensar que houve aqui uma reformulação destes partidos que saíram fragmentados da coligação falhada de 2022, mas ao mesmo tempo perderam muitos votos, o chamado voto útil para o Tisza. Falei com várias pessoas que diziam: "Ideologicamente, eu sou muito mais à esquerda do que Péter Magyar, mas eu vou votar em Péter Magyar se tivermos uma hipótese de tirar o Viktor Orbán do poder". E portanto, o que acontece aqui é que um país que já por si é bastante conservador e bastante à direita, quando se soma a isto um voto útil também num partido de direita, a esquerda desaparece do Parlamento.

Mais do que esquerda e direita, há aqui, e discutimos isto ao longo deste período eleitoral, a escolha que os húngaros também estavam a fazer, ser uma escolha de ligação à União Europeia. Com estes resultados, nós podemos dizer que a Hungria escolheu a Europa?

Sim, parece que ficou muito clara essa escolha. Como eu dizia antes, Péter Magyar não fez uma campanha baseada na União Europeia, ou seja, na sua proximidade ou não à União Europeia, mas esta noite deixou muitas mensagens claras e disse com as palavras todas: o povo húngaro disse sim à Europa e anunciou ainda que a Hungria vai aderir à Procuradoria Europeia. Ou seja, ele teve aqui uma estratégia de, sabendo que Orbán fazia campanha contra a União Europeia, ele não se quis pôr do lado da União Europeia, mas toda a gente sabia que ele é deputado europeu neste momento, deputado do Parlamento Europeu. Toda a gente sabia que seria um passo diferente, um passo muito distante da posição de Viktor Orbán, e esta noite ele fez questão de deixar isso bem claro e de firmar este sim a Bruxelas.

E já temos reações de várias figuras, vários líderes europeus, chefes de governo, figuras da União Europeia, e são quase todas estas reações em tom de felicidade.

Eu acho que mais do que felicidade, é algum alívio dos líderes europeus, porque a Hungria tem sido a principal força de bloqueio dos 27 ao longo dos últimos anos, principalmente dos últimos quatro anos, no que toca aos apoios à Ucrânia. E portanto, ver aquela que tem sido a pedra no sapato dos líderes europeus a desaparecer e logo no seu discurso de De inauguração não, mas o discurso de aceitação da vitória, ter o novo primeiro-ministro da Hungria a aproximar-se tão claramente da Europa é motivo de celebração em Bruxelas.

E agora, o que se vai seguir neste processo de transição? O que acontece na Hungria? Como é esse processo de transição?

O processo de transição agora depende um pouco de como Viktor Orbán vai lidar enquanto ainda estiver em funções como primeiro-ministro, mas esta noite Péter Márki-Zay já deixou muito claro que quer cortar pela raiz o regime de Viktor Orbán, o sistema que Viktor Orbán construiu nos últimos 16 anos. Portanto, o que ele exigiu foi a demissão do que disse ser os fantoches de Orbán, incluindo do presidente da República, e disse que estes sistemas de corrupção que ele tem denunciado ao longo da campanha e que fez disso o centro da sua campanha, quem esteve envolvido nesses, quem roubou o país, disse ele, deve ser responsabilizado. Portanto, há aqui um grande desejo de Péter Márki-Zay regressar à estaca zero, que seria a Hungria que existia em 2009, antes de Orbán ter chegado ao poder, mas Orbán, enquanto primeiro-ministro em transição, ainda pode dificultar um pouco esta aplicação destes sonhos de Péter Márki-Zay.

Obrigado, Madalena.

Obrigada eu, Miguel.

A Madalena Moreira é jornalista do Observador, enviada à Hungria para estas eleições. O processo de transição deve demorar cerca de um mês e os líderes europeus suspiram de alívio com a escolha do povo húngaro. Depois de 16 anos de uma relação difícil com Viktor Orbán, há uma nova página na ligação da Hungria à União Europeia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.