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Esta é a história do dia: cinco cenários para a guerra na Ucrânia.
A Ucrânia deve mudar a sua Constituição pra ficar a garantia de que não se juntará nem à NATO nem à União Europeia, deve reconhecer a Crimeia como parte da Rússia.
A via negocial mantém-se aberta, apesar de no terreno a guerra continuar. Boris Johnson, o primeiro-ministro britânico, é o porta-voz da desconfiança em relação ao Putin.
He's decided that he is going to continue with an all out onslaught on centers of habitation in a way that we think is utterly repugnant. It’s clear that we are gonna have to do more and as friends and partners that's what we're gonna do.
Ainda é possível uma saída diplomática que ponha fim às mortes? Que cenários estão em cima da mesa e qual deles é o mais provável? Na História do Dia vou conversar com a professora da Universidade Católica, Mónica Dias, sobre cinco eventuais cenários para a guerra na Ucrânia. Bem-vinda, Mónica Dias.
Muito obrigada.
Colocamos aqui cinco cenários mais ou menos possíveis. Podiam ser mais, podiam ser menos?
Podiam ser certamente mais, porque no nevoeiro, na neblina da guerra tudo é sempre possível e um incidente pequeno pode alterar tudo completamente. E são às vezes essas faíscas que nos escapam da nossa análise e que vão contra todas as teorias e probabilidades, que acontece o inesperado.
Vamos ao cenário um: uma guerra curta. Quais é que seriam as consequências de uma guerra curta na Ucrânia?
Seriam terríveis, porque poderiam dar a ideia a Putin de que conseguiria alcançar todos os seus objetivos e sobretudo seria sempre uma invasão em que tudo é destruído à sua frente. Portanto isso do ponto de vista humanitário seria obviamente uma catástrofe. Mas também seria muito mau no sentido político, ideológico. Significaria que a vontade da força bruta iria impor-se e que tudo vale, que nenhum acordo internacional é válido, que todas as instituições internacionais falham. Uma guerra rápida não significa que há menos baixas civis. Pelo contrário, as consequências podem ser terríveis.
O grau de destruição seria muito maior, não é?
Parece-me que sim.
Por oposição a uma guerra curta temos a guerra longa.
Exatamente! Ninguém define o que é uma guerra longa. Uma guerra longa já foi definida como uma guerra de 30 anos.
Já tivemos uma de cem.
E já tivemos várias. Obviamente que uma guerra longa também não é uma solução neste cenário. Quando nos referimos a uma guerra longa falamos numa guerra média. Isto significa que Putin terá muitas dificuldades em afirmar-se militarmente e ainda mais dificuldades em afirmar-se política e ideologicamente. Significa também que a resistência será muito grande e podemos ter algo como o cenário do Afeganistão. Uma guerra muito longa que vai cansar os russos, vai cansar os militares, vai cansar as possibilidades económicas de financiamento desta guerra mas também a moral das tropas. Significa que os ucranianos seriam capazes de, com táticas de guerrilha prolongar, resistir también. Tudo isso tem outra face da moeda. Significa que haveria muitas baixas civis e que os sacrifícios seriam enormes mesmo do ponto de vista dos Estados europeus ou da aliança das democracias, dos estados da NATO. A democracia ou as alianças exigem sacrifícios e este é talvez um dos cenários que me parece mais provável portanto não uma guerra longa mas sim uma guerra média que teria também sempre o imprevisto porque numa guerra média a probabilidade daquilo que não é previsto é também muito maior
Há um terceiro cenário, que eu diria perigoso, em que a guerra alastra outros países europeus. Em que circunstâncias é que isto poderia acontecer?
Parece-me que sim, na sequência dessa guerra média, que leva mais tempo, Putin poderia desesperado com o culminar da sua obsessão, contrariado, precisamente avançar para atos de atrocidade extrema e avançar pra assaltos a outros Estados, invasões dos outros Estados. Na teoria podemos fazer essa hipótese. No entanto, pra isso tem que haver os meios, tem que haver a logística. E parece-me quanto mais tempo passar, menos capacidade logística, menos capacidade de planeamento está do lado de Putin. E portanto, parece-me que a possibilidade de os estados europeus terem de intervir de uma forma mais ativa vai acontecer. Não me refiro a uma intervenção militar, mas refiro-me a uma intervenção econômica cada vez mais duras, em consequências da parte diplomática cada vez mais acutilantes. Refiro-me também talvez a um apoio às batalhas de guerrilha na Ucrânia cada vez mais decisivas e determinadas.
This is the moment for Ukraine's friends to create a coalition of humanitarian, economic and defensive military support to ensure that Putin fails.
E ainda não estamos a falar sequer nas hipóteses nucleares, que essas seriam obviamente o fim de todas estas ações desesperadas de Putin. Eu acho que infelizmente não podemos excluí-las de todo.
E por quê? Por que diz isso? Por que não podemos excluí-las?
Porque Putin não é neste momento político racional, é um senhor da guerra que tenta salvar.
Não confiável. É isso?
Não confiável, que tenta sobretudo salvar a sua própria imagem e o seu próprio poder quando se vê encurralado, que estar nas mãos da China tem preço muito mais elevado, e mesmo que seja esse o preço que ele está disponível a pagar, mas que demora muito tempo a concretizar. Quando começar a ver que a população russa no interior do seu próprio país começa a ser cada vez mais forte,quando se sentir acuçado, aí obviamente que a imprevisibilidade das suas ações ainda vai ser muito maior.
Professora Mónica Dias e em relação à possibilidade de haver botas de militares da Aliança Atlântica ou ocidentais na Ucrânia, essa é pra já uma hipótese que temos?
Pra já não é possível do ponto de vista dos próprios tratados. Uma vez que nem mesma Moldova e obviamente a Ucrânia neste momento também não pertencem à NATO. No entanto, se houvesse, por exemplo, ataque a qualquer estado membro da NATO, que poderia acontecer, portanto estamos a falar deste senhor da guerra imprevisível e que está obviamente a desafiar todos os tratados, todos os acordos que foram feitos e que obviamente está a cortar esta linha que sempre foi respeitada e que tem a ver com as leis internacionais. No momento em que sentir que, de fato, toda a sua estratégia falhou, aí não sabemos em que medida isso poderá ser difícil. Aí, sim, teriam os estados da NATO ativar essa possibilidade, que neste momento ainda me parece muito remota. No entanto, parece-me que há cada vez mais voluntários, também de estados europeus disponíveis numa base voluntária, aliarem com a Ucrânia.
E isso pode ser visto como uma provocação por parte de Moscou?
Eu creio que neste momento tudo é visto como uma provocação. Construir ou tentar fazer corredor humanitário é visto como uma provocação. Portanto, não estamos no âmbito de qualquer negociação racional e no sentido razoável. Esse ponto acabou. E quanto mais rapidamente entendermos que passamos esse rio,mais fácil também será enfrentar Putin, obviamente com muito cuidado e nunca esquecendo que a diplomacia tem que ser uma via possível.
Vamos então falar da diplomacia, uma vez que já olhámos aqui para três cenários: uma guerra curta, uma guerra longa, uma guerra a alastrar outros países europeus. Neste quarto cenário, tudo se resolve pela diplomacia. Era bom que assim fosse,não é?
Sim,é essa nossa esperança. E nós temos que ser diferentes de Putin, temos que ser diferentes dos senhores da guerra. E, portanto, não podemos utilizar os mesmos meios, nem os mesmos princípios. Não nos podemos tornar senhores da guerra, por muito terrível que seja essa percepção. A diplomacia é fundamental. As conversas com Putin, por exemplo,do presidente da França, que representa toda a União Europeia neste momento, as conversas não são inúteis.
Não conheço muitos ucranianos que estejam com vontade de ir se refugiar na Rússia. É uma hipocrisia.
É importante, sobretudo, ganhar tempo.
E manter o canal aberto.
Manter o canal aberto. Mas isso muitas vezes é confundido e é uma pena. A diplomacia precisa de tempo, tal como as democracias são regimes também que precisam mais tempo. Aliás, as decisões que os estados da União Europeia, que são democracias, conseguiram tomar agora foram extremamente rápidas. Geralmente, a democracia precisa muito mais tempo e portanto, as sanções econômicas são eficientes, mas precisam de tempo.
Ninguém esperava que as sanções impedissem alguma coisa de acontecer. Isso vai levar tempo e temos que mostrar resolve para que ele saiba o que está por vir e para que o povo russo saiba o que ele trouxe sobre eles.
Não podemos querer a diplomacia, por um lado, esperar consequências rápidas ou imediatas e, sobretudo, no campo de apoio, e deixar uma janela de oportunidade, sobretudo, e uma mensagem fortíssima à população russa. Nós não podemos nunca confundir as decisões de Putin ou do governo de Putin com a população russa, que sofre há anos, obviamente, as consequências de um autoritarismo cada vez mais despótico e obviamente que temos que apoiar a população russa.
Isso leva-me ao quinto cenário: a queda de Putin. Este é o cenário mais improvável nesta altura?
Não sei. E eu acho que é talvez esse o cenário que o Ocidente deve ter como seu horizonte. Obviamente, a diplomacia, obviamente, as sanções, obviamente, uma mão musculada, mas que é sempre exibida a Putin, esta unidade também, e este cenário de uma queda de Putin, porque as consequências económicas vão, com o passar das semanas, com o passar dos meses, ferir cada vez mais Putin e a população russa, que vai cansar-se de não ter acesso às suas contas bancárias, a não poder fazer as suas encomendas, não poder ter os bens que costuma ter.
Mas isso implicaria quase uma revolução.
Eu acho que a revolução já existe em grande parte. Imagine essa população que entra pelas cidades de Moscovo e de outras cidades russas justamente a protestar contra a guerra. Este domingo foram detidas mais de 4300 pessoas por protestos contra a guerra em mais de 50 cidades. Imagine a coragem. Imagine essas pessoas que, obviamente são presas em condições muito diferentes, de prisões muito diferentes. Veja este apelo de Navalny, que está na prisão e que tem toda a legitimidade. Não podemos esquecer que a Rússia não é Putin. Obviamente, que um regime de opressão quer fazer passar essa imagem, mas a Rússia não é Putin e há muito mais russos. E parece-me que essa seria uma solução interessante. E não esquecer aqui outro fator, o fator Brutus. Portanto, não esquecer que neste momento, enquanto nós estamos a conversar, há certamente já alguns outros senhores, alguns também senhores da guerra infelizmente, mas há outros senhores já com a navalha na mão, apenas à espera que Putin dê um passo em falso e, portanto, esse é um cenário que me parece possível, porque esta fortaleza, por mais bem montada por Putin que esteja, tem sempre pontos fracos.
Pegando em tudo isso que acabou de dizer e olhando pra estes cenários, qual é, para si, o ou os cenários que são mais prováveis?
Neste momento, não sabemos ainda como responder e parece-me que por essa razão, porque todos os dias há novos desenvolvimentos, o mais provável será vários cenários agirem em conjunto, acontecerem em conjunto, e termos que enquanto analistas, observadores, olhar sempre para aquele ponto que é invisível agora, e é esse ponto do imprevisível que poderá acontecer e virar a guerra. Gostaria aqui, talvez, de invocar aquele romance maravilhoso de Milan Kundera, em que precisamente uma artista, uma pintora pinta em todos os quadros um espaço negro que representa precisamente o espaço da liberdade. Eu penso que em todas as resoluções de conflito há sempre também esse espaço invisível, mas que está lá, que neste momento se está a formar e é aí que podemos ter talvez alguma esperança.
E sendo a professora Mónica Dias especialista na resolução de conflitos, na construção da paz, em sua opinião quais é que podem ser aqui os quadradinhos negros que vamos conseguir encontrar?
Primeiro, a resiliência do Ocidente, esta firmeza. O Ocidente tem que continuar firme, tem que entender que, de facto, a democracia é um bem precioso e por isso mesmo vale a pena sacrifícios para defendê-lo. É importante apoiar a população da Ucrânia e temos que mostrar inequivocamente que apoiamos e que somos também um pouco ucranianos. Essa é uma mensagem muito importante. E essa também é a mensagem que mais irrita Putin e que mais pedras joga no caminho dos tanques de guerra. Parece-me que essa solução já não se vai conseguir fazer com Putin e por isso mesmo temos que apostar na via do apoio à população, da guerrilha, do apoio musculado, também com meios militares, mas sobretudo com meios económicos e soprattutto com esta persistência de que os regimes de liberdade vão ter o fôlego mais longo.
Muito obrigado, professora Mónica Dias.
Obrigada eu.
Além da incerteza, a guerra está a provocar número crescente de refugiados e alguns deles já chegaram a Portugal. Outra dimensão desta guerra está relacionada com os preços que vão continuar a subir nos próximos tempos e em vários produtos. No jornal e na Rádio Observador continuamos a acompanhar ao minuto as notícias que chegam dos palcos dessa guerra e as consequências que este conflito armado tem na vida de muitos milhões de pessoas. Esta foi a História do Dia. Neste episódio ouvimos vários sons retirados de discursos oficiais e uma declaração de Emmanuel Macron até a fim. A música do genérico e a sonoplastia são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.