Uma tenda azul, de aspeto frágil, é erguida no ar na praça D. Pedro IV, em Lisboa. Uma multidão aplaude e assobia. Às 17h30 de sábado a manifestação da CGTP ainda está a dispersar no Rossio, misturando-se com as pessoas que chegam para a acampada de Lisboa pelo direito à habitação. Junto à estátua da praça forma-se um círculo com os abrigos. Aos primeiros minutos do protesto ainda ninguém quer arriscar dizer se vai passar aqui a noite, mas ao longo da tarde e início da noite os sinais são claros: “É para aguentar”.
Quando o relógio marca a meia-noite e meia — o horário limite definido por lei para uma manifestação — chega o derradeiro aviso: “Pedimos que quem decida ficar na praça que o faça de forma pacífica. E pedimos que os agentes respeitem o nosso protesto”. Ninguém parece disposto a partir. É ao som de Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, e de cânticos contra o primeiro-ministro, que marcaram todo o protesto, que se forma um cordão humano à volta das tendas. Há de desfazer-se e reagrupar-se ao longo das duas horas seguintes. É só perto das 02h30 que os cânticos abrandam até cessarem quase completamente. Ao microfone sugere-se a criação de “grupos de afinidade” para passar a noite e para se criarem vigias, caso a polícia apareça.
▲ Durante a colocação das tendas foram-se ouvindo inúmeras palavras de ordem e, por várias vezes, o barulho de centenas de chaves a serem agitadas.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Uma vida digna não é só pagar contas”
Às 17h30, ao mesmo tempo que terminam de ser montadas as primeiras tendas, agitam-se centenas de chaves — umas a pender de cordões, outras enfeitadas com bonecos — para lembrar o mote do protesto: Habitação para todos.
Erguem-se por toda a praça D. Pedro IV cartazes: “A política é bela, os políticos é que dão cabo dela”, “Casa mobilada com eletrodomésticos e dívidas”. Mas o principal alvo é o primeiro-ministro. “Se protesto é egoísmo, ter 55 imóveis é o quê?”, lê-se numa cartolina, uma referência às palavras de Luís Montenegro, quando apelou aos manifestantes para que não fossem egoístas. As críticas ao primeiro-ministro marcam toda a tarde e noite. “Oh Montenegro, presta atenção, a tua casa vai virar ocupação”, ouve-se ao som de tambores. Já numa versão da tradicional música “Laurindinha” cantam também: “Oh Montenegro, vai para o c******”.
“Eu acho que o primeiro-ministro, que é uma pessoa que tem 55 casas, está bastante confortável para nos chamar egoístas quando estamos a lutar pelo nosso direito“, começa por dizer Adriana Lima, uma das porta-vozes da acampada de Lisboa. “E também acho muito curioso, quanto mais ele tenta diminuir a nossa luta, mais na verdade ele está a mostrar o medo que tem de nós”, afirma. Sublinha que está em causa “a luta mais importante” em todo o país.
Apesar dos abrigos que vão surgindo, que são já mais de uma dezena, ao início da tarde muitos ainda não arriscavam dizer se iriam dormir na rua. “Vamos ficar aqui enquanto nos deixarem”, vão explicando alguns manifestantes ao Observador.
Dentro do círculo de tendas, onde se torna quase impossível passar sem pisar algum canto, há vários rostos tapados, quer por máscaras cirúrgicas, quer por lenços. Aos megafones gritam-se palavras de ordem — “Habitação é um direito, sem ela nada feito” — enquanto os manifestantes se vão acomodando.
▲ As primeiras tendas começaram a ser montadas por volta das 17h30.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Sentado dentro de uma tenda, de rosto parcialmente tapado, Gabriel, de 22 anos, enumera os motivos que aqui o trouxeram. “Não consigo arrendar uma casa neste momento. Estava a dividir a casa com três pessoas, uma saiu e agora temos todos de sair”, conta. Pagavam dois mil euros pelo apartamento. Agora tem até ao final do mês para encontrar outra opção. “Não temos ideia mesmo [se vamos conseguir arranjar]. Talvez tenhamos de ir para a rua, não sei“.
Não faltam exemplos. Adriana Lima, uma das porta-vozes da acampada de Lisboa, tem 26 anos, um contrato efetivo como professora e não antecipa sair da casa que aluga e conseguir comprar casa num futuro próximo. “Apesar de ter feito tudo o que nos mandam fazer — ir para a faculdade, ter mestrado, arranjar trabalho na minha área — não consigo comprar casa em Lisboa. Estou a pagar 600 euros por uma casa que estou a dividir com seis pessoas”, explica.
Há muitos outros que se juntam à manifestação por solidariedade. Ana Loureiro, de 43 anos, há muito que conseguiu comprar casa e veio para se juntar aos muitos que passam dificuldades para conseguir a mesma conquista. “Aquilo que eu estou a fazer, que é um trabalho essencial — eu sou enfermeira —, o ordenado que eu ganho com este modo de vida, com este incremento do custo médio de vida, eu não sei se vou conseguir até ter uma vida digna”, admite. “E uma vida digna não é só pagar contas”.
A enfermeira veio com uma tenda e está pronta para ali ficar enquanto for possível. Quanto tempo? Não sabe dizer. “Acima de tudo estarmos aqui a marcar todos presença. Deixem os bares, deixem os cafés, tragam tudo para aqui, acho que é o lema destes dias”.
Há também quem recorde que o problema não é só em Portugal, aludindo ao país vizinho. O caso de Maricarmen, uma idosa de 87 anos despejada da casa onde vivia há 70 anos, lançou os acampamentos em Puerta del Sol, em Madrid, que já duram há três semanas. “No fundo, houve uma visibilidade maior dessa senhora, mas há montes de gente nesta situação”, diz Liliana (nome fictício), de 26 anos. “Não são só jovens, é uma questão muito etária, mas não são só jovens”, sublinha.
“Não se fala com a bófia”
Os cânticos de ordem são interrompidos a meio da tarde para um breve alerta à multidão: “Não se fala com a bófia”. “Se alguém for detido, se alguém perguntar alguma coisa não falem. Toda a gente tem o direito de fechar a boca”, diz uma mulher ao megafone. “A bófia não é nossa amiga”. “Não precisam de saber as nossas informações, como viemos aqui ter, toda a gente que aqui está veio aqui ter por mero acaso”, afirma. Explica que, se alguém for detido, a primeira coisa que deve fazer é pedir um advogado.
As palavras recordam os momentos vividos nas manifestações no Porto, nos últimos dias. Na quinta-feira pelo menos 37 pessoas ficaram feridas, algumas com gravidade, e sete precisaram de assistência hospitalar após uma operação policial na Praça D. João I. Um agente também ficou ferido.
Das tendas à carga policial. O que aconteceu no Porto e o que diz a lei sobre a atuação da PSP
Os manifestantes e autoridades apresentam versões diferentes do que se passou. De um lado alegou-se que não chegaram ordens claras para dispersar e desmontar o acampamento, mantendo-se por isso um “cordão pacífico” à volta das tendas. Já a PSP recordou que a lei impede manifestações a partir das 00h30 e garante que agiu porque os manifestantes resistiram e tentaram impedir a sua ação.
No Rossio olha-se com desconfiança para os agentes da PSP, das equipas de intervenção e polícia municipal que patrulham na praça. O número de carrinhas das autoridades vai aumentando durante a tarde. Adriana Lima sublinha que os manifestantes não se sentem intimidados: “Ninguém deve ter medo de sair à rua”.
“Otimista”, a enfermeira Ana Loureiro espera que não haja problemas esta noite. Mas para prevenir, e porque vê “muita raiva acumulada daquele lado, sem razão”, trouxe consigo um kit de primeiros socorros. “Como já deu para ver ali atrás, parece que vai haver uma guerra. A pressão visual é muito grande, a quantidade de carros que está aqui para a quantidade de pessoas que aqui está (…). Tenho até pena deles de uma certa forma, porque eles também vivem em casas partilhadas, vêm de aldeias, ganham muito pouco e são instrumentalizados desta maneira”, diz.
A tarde ainda é marcada pela assembleia geral da acampada, com espaço para os manifestantes interessados falarem, dentro de um limite de dez minutos. “O que é que podemos esperar de Luís Montenegro, que tem 55 casas?”, começa logo por dizer o primeiro interveniente. No final são aprovadas as seis reivindicações: a reversão da lei do arrendamento; o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional; um travão à aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários; o aumento de habitação pública; a iniciativa pública de recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais; e a aplicação de tetos de renda acessíveis.
▲ A assembleia popular, onde participaram centenas de manifestantes, começou poucos minutos depois das 19h.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“É para aguentar”
Os cânticos e testemunhos prosseguem noite fora até serem interrompidos para um novo aviso. São 23h e ao microfone alertam que, legalmente, a manifestação não pode continuar para lá das 00h30, que nessa altura a polícia pode intervir para retirar os manifestantes. Apela-se a que, ainda assim, as pessoas não desmobilizem: “É exatamente depois dessa hora que temos de estar aqui, por isso aguenta!”. Garantem que estão preparados para, se necessário, enfrentar a polícia, mas pedem que todos o façam de forma pacífica. Indicam como organizar as tendas, em meia lua, com “espaço suficiente para passar uma pessoa, mas não o suficiente para passar a bófia”.
Às 00h30 o cordão humano está formado. Há muitos manifestantes de cara tapada, alguns com capacetes na cabeça. Durante as próximas duas horas as pessoas vão descontrair, conversando e cantando madrugada fora, retomando o cordão humano apenas quando há algum aviso dos megafones ou há sinais de movimentação das autoridades. Foi o caso quando elementos da Polícia Municipal vieram retirar algumas grades deixadas para trás durante o protesto da CGTP, que tinham sido aproveitadas na acampada para reforçar a corrente à volta das tendas.
O ritmo só abranda cerca das 02h30. Algumas manifestantes de megafone espalham-se pela praça para aconselhar a criação de grupos de afinidade (que, em protestos, servem para impedir que alguém fique sozinho) e apelar ao descanso. Sugerem também que se escolham vigias para estarem atentos às movimentações das forças policiais, mas são poucos os carros das autoridades na praça.
▲ No limite de hora legal formou-se um cordão para "aguentar" de forma "pacífica".
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Depois do anúncio, cessam os cânticos e os tambores. Alguns grupos vão abandonando o local lentamente, mas permanecem ainda algumas centenas de pessoas no Rossio. A maior parte ainda não recolheu às tendas. Para amanhã já estão previstas novas ações. Às 10h está marcado “boxe popular”, seguido de uma “corrida popular solidária” e nova assembleia. O lema mantém-se: “É para aguentar”.