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Esta é a História do Dia da Rádio Observador. O que é o 25 de Abril para quem nasceu nesse mesmo dia de 1974?

As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa, no sentido de se recolherem às suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma.

Quando as primeiras palavras do Movimento das Forças Armadas começam a soar na rádio a anunciar a revolução, os pais do Ricardo estão quase a sair de casa, em Paço de Arcos, em direção à maternidade na baixa de Lisboa.

Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue.

Veem tropas ao passar no Terreiro do Paço, mas não lhes dão importância. E por essa altura, às 5h, o diretor da PIDE já informou Marcelo Caetano: a revolução está na rua e é melhor ir para o quartel do Carmo, porque a GNR está fixe. Mas aqueles pais só estão preocupados com uma coisa: faltam 12 horas para o Ricardo nascer. Como é que ter nascido a 25 de abril de 1974 marca a história de uma pessoa? Como foi ser criança naqueles anos, logo a seguir à revolução? E 50 anos depois, estamos, nós e o Ricardo, onde sonhávamos estar? Vou conversar com o Ricardo Conceição. Sim, o Ricardo desta história, que é subdiretor do Observador, autor e apresentador habitual da História do Dia e, como costuma dizer-se, filho do 25 de Abril. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a História do Dia, quarta-feira, 24 de abril. Bem-vindo, Ricardo.

Olá, Sara.

Quão esquisito é estares a fazer a História do Dia nesse microfone, o microfone do convidado?

É muito esquisito. Não estou nada habituado a estar deste lado e deixa-me assinalar, isso é mesmo muito esquisito, é muito estranho.

Vou tentar tratar-te bem.

Obrigado.

Tu és a única pessoa que eu conheço que nasceu a 25 de abril de 1974. Ainda que, curiosamente, a Beatriz Martelo Garcia, a sonoplasta desta História do Dia, que está aqui no estúdio conosco, também tenha nascido a 25 de abril.

Duas pessoas neste estúdio.

Certo.

E a Beatriz está nesta altura mais envergonhada do que eu.

Mas a Beatriz nasceu muitos anos mais tarde.

É verdade.

Eu sou muito antiga. Como é que foi esse dia, 25 de abril de 74, para ti e para a tua família?

Para mim foi espetacular, foi incrível. Segundo os relatos, os meus pais viviam em Paço de Arcos, perto de Lisboa. Saíram de madrugada de casa, 4h, 5h, e fizeram o trajeto até Lisboa, na altura ainda pela Marginal. Eu vim à nascer no Largo do Caldas, aqui no centro de Lisboa. E o meu pai conta que já se cruzou com tropa na rua. Tanques, militares, caminhões com pessoal, mas em contexto de guerra colonial não era algo de muito estranho ver tropa na rua. Eu, quando era miúdo, lembrava-me de ver tropa na rua, portanto, nessa altura não seria muito estranho. Mas as movimentações não eram muito normais, pelo trajeto cruzaram-se com tropa, com militares. Não sei que coluna seria, acho que àquela hora ainda não seria a de Salgueiro Maia, ainda estaria a caminho, e viria de norte e não do lado da linha do Estoril, mas houve ali alguma coisa de estranho naquela madrugada.

Como era madrugada, eles ainda conseguiram chegar com relativa normalidade ao Largo do Caldas, onde irias nascer, mas havia médicos, estava tudo bem, estava tudo pronto?

O médico da minha mãe não conseguiu passar. Não conseguiu chegar ao local onde eu nasci, à maternidade, mas havia uma equipa médica e havia enfermeiras que tentaram, no meio daquilo tudo, o trabalho de parto foi prolongado, desculpa, mãe. Foi muito prolongado. E que durante o dia foram tentando acalmar a minha mãe, porque entretanto o meu pai saiu, foi para casa dos meus avós maternos, que era no Príncipe Real. Temos os Restauradores Rossio entre o Largo do Caldas e o Largo do Carmo. O meu pai foi para o Príncipe Real, que era perto do Largo do Carmo, imagina depois com a confusão toda.

Epicentro do que estava acontecendo.

Na rua. Ter que atravessar a cidade numa tentativa de ir ver nascer o rapaz. E as enfermeiras e os médicos tentaram acalmar a minha mãe, na medida do possível, porque obviamente era audível a confusão no Largo do Caldas e ninguém percebia bem o que é que estava a acontecer. Havia qualquer coisa, mas durante aquela altura e não havia internet, nem havia TikTok, nem Instagram, nem nada disso, e não se percebia para que lado é que era, para que lado é que tudo isto ia cair.

Mas no final, estou aqui a ver à minha frente, correu tudo bem.

É a doutrina divits. Se falares com quem me conhece muito bem, se calhar vai dizer que não. Sim, acabou, felizmente, por correr tudo bem. Segundo os registos oficiais, eu nasci por volta das 17h15, já a coisa estaria mais ou menos-

Caramba, 12 horas depois dessa saída para a maternidade.

Desculpa, mãe. Desculpa outra vez. Já a coisa estaria mais ou menos resolvida, mas o país e a cidade estavam num alvoroço, como podes imaginar. E ter um bebê no meio de todo este alvoroço deve ser algo de muito assustador, mas depois ficaram muito felizes por tudo o que estava a acontecer.

Todas essas memórias são, obviamente, para ti, memórias construídas com as memórias dos teus pais e das pessoas que estavam à volta da tua família, mas depois começaste tu próprio a construir memórias de uma data que era um bocadinho diferente das datas de aniversário dos outros meninos da tua idade.

Era, porque os outros meninos levavam bolos para a escola. Eu, no meu dia de anos, não havia escola. Ainda hoje não há escola, no meu dia de anos. E depois havia uma coisa incrível que era no dia de anos, em que havia sempre uma festa lá em casa, estamos a falar de anos 70, anos 80, como toda a gente compreende, havia um desfile Um desfile incrível de tropa militar, tanques, soldados, espingardas, cravos. E eu pensava realmente, é uma homenagem que me fazem, que é muito merecida.

Estavas convencido que aquilo era por causa do teu dia de aniversário?

Estava. Demorei alguns anos a perceber que não era. Não, estou a brincar. Mas houve uma altura em que eu depois percebi que aquilo não era para mim, era para o país e era para os portugueses.

E no teu aniversário as pessoas falavam sobre o dia de 74?

O meu aniversário era um bando de miúdos à solta a brincar, a tentar brincar com os presentes e com os brinquedos novos, e uma série de adultos a terem conversas chatíssimas sobre política e a revolução, e o antes e o depois, e agora, e quando é que vai, onde é que não vai. Discussões que se prolongavam durante horas infinitas, enquanto os miúdos queriam brincar. Eu cresci enquanto brincava aos cowboys, ou o que quer que fosse, ouvia discussões políticas e discussão de atualidade. Sempre, desde que me lembro, acompanho aquilo que é a atualidade política, e a atualidade não só nacional, mas internacional também, um bocadinho por causa disso.

E hoje em dia, quando vais a um serviço público qualquer e te dizem: "A data de nascimento, por favor." Há reações?

Há quase sempre reações. Agora já começa a haver menos, porque há mais gente nova a trabalhar, não é? E porque não fazem logo a ligação.

Notas essa diferença?

Sim, sobretudo que é 25/04/74. Eu próprio já digo a data de nascimento, 25/04/74. Não digo 25 de Abril.

O clique não é imediato.

Sim, mas faço isso de propósito. Por quê? Porque quando as pessoas percebem, há sempre uma reação. Há uns que quase choram, há outros que praticamente me dizem: "Por que não tem vergonha de nascer nesse dia?" Levo um bocadinho sempre com esta conversa, de um lado ou do outro, e confesso que ao fim de 50 anos já me custa um bocadinho ouvir estas reações, por isso já evito. Mas quase sempre há reações e muitas vezes há histórias, que é: "No dia em que você nasceu, eu não sei o quê, estava onde, estava não sei o quê." E as pessoas partilham essas histórias comigo, e essa parte eu obviamente gosto bastante.

Como foste tu que te lembraste que passam 50 anos dessa data, fico mais à vontade pra perguntar, já foste renovar a carta?

Sim, Sara. Quem já passou por isto, por certo poderá identificar-se com aquilo que eu vou dizer. Eu entrei, olhei e disse, assim num tom baixinho: "Venho renovar a carta." Sim, 50 anos e tenho que renovar a carta, porque na nossa cabeça eu continuo com 25 e não 50.

Nós já voltamos à conversa com o Ricardo Conceição. Na segunda parte, vamos olhar para estes 50 anos. Sim, Ricardo, 50. As esperanças dos pais do Ricardo cumpriram-se, claro, e as do país? Estamos de regresso à conversa com o Ricardo Conceição, subdiretor do Observador, autor e apresentador habitual da História do Dia, e hoje convidado do podcast. Ricardo.

Nem quem merece.

Há uma coisa que se discute muito no teu dia de anos e que te enerva muito. Tu és o menino do dia, claro, 25 de abril, mas de quem é o dia, afinal?

Sim, essa é uma questão que me enerva. Eu percebo que exista, mas há uma apropriação do dia, há uma apropriação daquilo que foi a revolução, do que foi o 25 de Abril, daquele dia, por parte dos partidos políticos, por parte de setores políticos, intelectuais, enfim. Muito se atribui à esquerda, que o 25 de Abril é da esquerda, e foi a esquerda. E isto enerva-me um pouco, porque no meio disto tudo esquecemos que o 25 de Abril é dos portugueses. Foram os portugueses que saíram à rua, foi o país que saiu à rua. Eu olho sempre para isto com um ar romântico ou um pouco romanceado sempre para este dia, porque foram os portugueses que fizeram a revolução e que permitiram que a revolução resultasse.

Eram os portugueses que estavam no Largo do Carmo, nos Restauradores, a dificultar a vida ao teu pai quando ele andava a tentar fazer essas viagens.

Eram aquelas pessoas que estavam penduradas nas árvores, em cima das guaritas, amontoadas num largo, apinhado com armas a sério, com carros de combate, com militares armados, numa espécie de convívio caótico que eu acho que só é possível aqui em Portugal. Quer dizer, a forma como tudo aquilo correu, e eu sonho com aquele dia, olho para este dia como um sonho e emociono-me quando falo nesse dia, precisamente porque quem é o dono do 25 de Abril são os portugueses, é o país. Não é a esquerda, não é a direita, não é o partido A, não é o partido B. E esta apropriação continua, faz-me mal.

Achas que esse debate de quem é o 25 de Abril acaba por contaminar a forma como a tua geração, a minha geração, que nasci muito depois.

Mas muito depois.

Olham pro 25 de Abril. É esse o problema?

Sim, acho que sim.

Cria distanciamento.

Sim, cria uma clivagem que eu acho que é artificial e que não faz sentido, porque o 25 de Abril foi uma vitória dos portugueses. A vida hoje é melhor do que era, já podemos falar também sobre isso, mas põe as pessoas em trincheiras, põe as pessoas em barricadas. E lá vamos nós assistir à história dos que vão a desfile, e os que não vão a desfile, e os que ficam em casa, e os que não vão E sinceramente, 50 anos depois, continuamos a viver este filme. Isto só vai acabar quando a tua filha ou os nossos filhos festejarem o 25 de Abril e olharem para o 25 de Abril de uma forma distante. Eu espero que com igual emoção. Mas a ligação deles não vai ser aquela que nós temos, ou que eu tenho, porque eu nasci na data, os meus pais viveram isto, é muito diferente. E eu tenho esperança nesse dia, em que os miúdos de hoje, as crianças de hoje, vão olhar para o 25 de Abril como algo de normal, bom, uma data boa para recordar, um bom feriado para ir à praia, muito importante para a vida deles. Mas é isso, é uma coisa que é importante para a história do país, para o coletivo, para as pessoas. Não é uma coisa de clivagem política. Acho que temos mesmo de deixar de pensar assim, porque acho que o próprio 25 de Abril não merece.

E já alguma vez pensaste no que é que serias se não tivesses nascido naquele dia, se aquele dia não tivesse acontecido, o 25 de Abril?

Eu tenho a sorte de fazer aquilo que gosto. Eu gosto muito do que faço, sou jornalista há 26 anos, sempre na rádio. Sempre trabalhei em liberdade, com liberdade. Adoro aquilo que faço e sou muito afortunado por conseguir fazer o que faço. Eu não sei se seria feliz a fazer o que faço antes do 25 de Abril. Não sei se o conseguiria fazer. Não sei se o meu feitio, os ouvintes se calhar não imaginam.

Mas eu sei, eu digo não. Não dava.

Mas eu às vezes tenho mau feitio e não sei como é que isto ia correr, se calhar ia correr mal.

Ia correr lindamente com os colegas da censura.

Ia correr mal. E só a ideia de não poder fazer aquilo que eu amo fazer, só essa ideia é trágica. E nem quero imaginar o que seria, mas seria outra coisa qualquer, seguramente.

Isso significa que, até mesmo apenas por esse valor da liberdade, cumpriram-se os sonhos e as esperanças daquelas tropas que enchiam o Terreiro do Paço, a que os teus pais não ligaram nenhuma, quando passaram para a maternidade.

Eu acho que sim. E outra coisa que me enerva é aquela coisa do-

Desabafa, Ricardo.

Sim, estou a desabafar demais. Sim, mas antigamente, nós vivemos tão melhor. Estes miúdos são a geração mais habilitada de sempre. As pessoas têm casa de banho. Eu lembro-me, quando era miúdo, de casas sem casa de banho, de aldeias sem luz, sem água canalizada. Não havia médico, não havia assistência médica. E isto hoje não é espetacular, mas é tão melhor do que era. Ainda estamos, obviamente, a fazer um percurso de aprendizagem e sem isso, não sei quanto tempo iria demorar a chegar aqui. Nós temos este dia de rutura, foi uma rutura, portanto, a partir daqui para frente vai ser outra coisa diferente, e melhorou. E a nossa vida melhorou, a vida de todos nós. Eu sou o primeiro licenciado da família. Também sou bisneto de sapateiro, neste caso, e sou o primeiro licenciado da família. Isto só é possível, eu acredito, porque esse dia existiu, porque se calhar eu hoje não seria licenciado.

Refletir sobre esse dia, concluir que há coisas que não seriam iguais hoje se não tivesse acontecido esse dia, não significa não reconhecer que há coisas que ainda não aconteceram.

Claro, como é óbvio.

E que estão em falta.

Sim, como é óbvio. Acho que 50 anos depois não somos uma democracia madura e a democracia nunca pode ser dada por garantida. Acho que será um erro adormecer na forma. E há muitas coisas que faltam fazer, mas eu aqui olho de novo para os portugueses. Os políticos são o espelho daquilo que nós somos. Os políticos somos nós.

São as nossas escolhas.

Exatamente. Portanto, aquelas pessoas somos nós. E eu acho que falta ainda maturidade democrática, falta abertura ao país. Eu tenho uma esperança gigante na geração da Beatriz Martel Garcia, que também faz anos agora no 25 de Abril e é sub 30, porque esta geração está bem preparada e tem o mundo todo à sua disposição. E isto ajuda a ver mais longe e a ver o mundo de outra forma. E ajuda também àquilo que eu acho que falta muito aos portugueses, que é sobressalto cívico, que é a vontade de participar, de querer agir, de querer mudar a vida, nem que seja do vizinho, do colega, do prédio. As pessoas nem à reunião de condomínio vão. E não, isto tem de mudar. Nós não podemos continuar a depositar a nossa vida e as nossas esperanças no "eles". Temos que ser nós. E eu acho que esta é a parte que falta.

Obrigada, Ricardo.

Obrigado, Sara.

Ricardo Conceição é subdiretor do Observador, autor e apresentador habitual da História do Dia e hoje convidado por ter a perspectiva diferente de alguém que tem uma ligação especial ao 25 de Abril. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até sexta.