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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como Israel fez explodir milhares de pagers do Hezbollah?
We are covering by way of breaking news this hour, dozens of members of the Lebanese armed group Hezbollah appear to have been simultaneously targeted by their pagers being remotely detonated. We don't know the full extent
Aconteceu praticamente em simultâneo. Na terça-feira, às 15h30 em Beirute, milhares de pagers, pequenos aparelhos de comunicação de militantes do Hezbollah, primeiro tocaram e depois começaram a explodir, matando mais de 20 pessoas e ferindo 3 mil no Líbano, mas também na Síria e no Irã.
Hezbollah has described this as a major security breach. Big questions about now, what Israel's potential next move is.
Depois, repetiu-se na quarta-feira com mais explosões, de novo a partir de aparelhos de comunicação, desta vez walkie-talkies. Israel não reivindicou o ataque, mas parece haver poucas dúvidas sobre a autoria, até porque não seria a primeira vez. Como é que milhares de pagers e outros aparelhos semelhantes foram armadilados antes de serem distribuídos pelo Hezbollah aos próprios militantes? Que mensagem está por trás do ataque e que resposta pode provocar? Vou conversar com o major-general Arno Moreira, especialista em geopolítica e autor do podcast "O Domínio da Guerra" da Rádio Observador. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia, quinta-feira, 19 de setembro. Bem-vindo, senhor general Arno Moreira.
Olá a todos.
Se calhar, muitas das pessoas que ouviram a notícia do atentado na terça-feira pensaram: "Mas alguém ainda usa pagers?" Por que é que nesta região, pelo menos 3 mil pessoas, que nós saibamos que foram alvo deste atentado, ainda usam estes aparelhos?
O pager é uma tecnologia muito antiga. Ela teve grande difusão a partir dos anos 50 do século passado. É uma tecnologia que com este tempo todo também se tornou bastante robusta. Naturalmente que com o aparecimento dos telemóveis, as pessoas passaram dos pagers para os telemóveis. Os telemóveis têm muito mais funcionalidades do que aquilo que tinham os pagers. Mas, na verdade, à medida que nós vamos acrescentando funcionalidades no equipamento eletrónico, também vamos acumulando fragilidades e, sobretudo, vulnerabilidades. Há quem diga que a morte do número dois do Hezbollah há algum tempo ocorreu porque ele se associou a um determinado número de telefone e foi possível segui-lo através da localização do seu telemóvel. O que significa que o uso dos telemóveis também comporta um conjunto de riscos associados. Mas, na verdade, o que é um pager? Um pager é um dispositivo de comunicações, sobretudo destinado a receber mensagens escritas. Mensagens com um número limitado de caracteres, tem um pequeno visor onde aparecem essas mensagens. Ele é particularmente útil ainda hoje em dia, porque ele, em algumas situações, é mais resistente do que as próprias redes dos telemóveis. Imagine, por exemplo, uma falha qualquer numa rede telemóvel. As pessoas podem ficar todas sem comunicação. Imagine um hospital, por exemplo. É possível que as pessoas tenham pagers. Os pagers têm uma rede independente daquilo que são as redes dos telemóveis e, portanto, o chefe do serviço pode convocar rapidamente ou avisar rapidamente todos os funcionários através destas mensagens. O Hezbollah, portanto, tinha um problema, e o problema do Hezbollah é que ele perdeu a confiança nos telemóveis. E, portanto, foi à procura de um sistema, o sistema pager, um sistema antigo, robusto, testado, que lhe permitisse evitar as vulnerabilidades do telemóvel. E o que fez o Hamas? Isto é adequado para o Hamas, porque esta forma de enviar mensagens é adequada a organizações muito hierarquizadas, em que as comunicações se fazem basicamente do chefe para os subordinados. E, portanto, enviar ordens, por exemplo, do chefe para os subordinados.
Não implica propriamente uma conversa.
E, portanto, é muito adequado para uma organização como o Hezbollah. O Hezbollah pretendeu substituir a utilização dos telemóveis entre os seus membros pela tecnologia pager e encomendou, aparentemente, a uma empresa de Taiwan, que era conhecida pelo fabrico de modelos desenvolvidos de pager, cerca de 5 mil pagers. Só que, e estas são as questões da globalização, nós, na verdade, não sabemos quem fabrica. Nós sabemos a quem encomendamos, mas depois o processo de fabrico muitas vezes não é a quem nós encomendamos. E parece ter sido esse o caso. Aparentemente, quem fabricou não foi a tal empresa de Taiwan. A empresa de Taiwan concessionou o seu nome, permitiu que o seu nome fosse utilizado por uma empresa, agora vamos investigar qual é essa empresa, aparentemente até sediada na Europa, que terá produzido os telemóveis Certamente que este tipo de ordem terá sido acompanhado por Israel, e nós não temos dúvida nenhuma que só a tecnologia israelita permitiria fazer uma ação deste gênero.
Nós já vamos a essa parte da ação, mas nós também percebemos, olhando para quem foram as vítimas destes ataques, que estes pagers não chegaram apenas a militantes do Hezbollah. Alguns pagers também terão matado e ferido elementos, por exemplo, da Guarda Revolucionária do Irão. O que isto nos diz?
Isto nos diz que a rede do Hezbollah é uma rede bastante mais complexa do que aquilo que nós podemos pensar numa organização de natureza militar como o Hezbollah. Por exemplo, nós temos também a indicação de que o próprio embaixador do Irão no Líbano terá sido vítima da explosão do seu pager, o que significa que também altos funcionários, representantes do Estado do Irão, estão envolvidos na própria rede do Hezbollah. Isto mostra a complexidade do Hezbollah e o conjunto muito grande de ramificações que tem com um conjunto de entidades, todas elas apoiadas e lideradas pelo Irão, que naturalmente utilizam os serviços disponibilizados também pelo Hezbollah.
Estava há pouco a falar da tal fábrica ou da empresa de Taiwan e da fábrica que de fato produziu estes aparelhos. Como é que, pelo que se sabe, é possível que aparelhos de comunicação muito simples, muito pequenos, tenham sido transformados em uma espécie de minibombas, minienjões explosivos, que de repente ninguém sabia que representavam aquele risco e levavam simplesmente à cintura?
Este processo da introdução de pequenos explosivos em telemóveis já aconteceu no passado, mas aconteceu a uma escala individual. Isto é, foi possível substituir um determinado telemóvel de uma pessoa por um outro, que é exatamente igual, mas que já está armadilhado. E isto já aconteceu anteriormente, mas em casos de natureza individual. Ora, a dimensão é brutal neste caso, porque houve provavelmente milhares de pagers que foram sabotados para que isto acontecesse. Esta foi uma ordem única. Portanto, os pagers não foram adquiridos no mercado. Os pagers foram encomendados através de uma encomenda específica do Hezbollah e, portanto, Israel sabia que eles iriam ser entregues a pessoas da confiança do Hezbollah, fossem eles a guarda revolucionária iraniana, fossem eles embaixadores, fossem eles funcionários administrativos do Hezbollah. É a escala aqui que é o fator surpreendente neste momento. O que significa que esta empresa, que teve a possibilidade de fabricar os telemóveis, vai nos obrigar agora a perceber os seus métodos de trabalho, quem foram as pessoas que empregou, etc. É impossível que isto não tenha sido uma tremenda operação de natureza logística montada por Israel. A fábrica poderia ser israelita? A fábrica também poderia ser israelita, nós não sabemos. É uma parte que vamos ter que perceber. Como é que é possível fabricar para esta encomenda uma quantidade tão grande de pagers que estão armadilhado.
Depois, só terá sido preciso fazê-los detonar em simultâneo.
O sistema de pager permite muitas funcionalidades. Uma das funcionalidades é o estabelecimento de grupos, isto é, pode ser enviada mensagem para um grupo ou pode ser enviada uma mensagem geral. E se o pager está preparado para com uma determinada mensagem explodir, se for feita uma chamada geral a todos os pagers, todos eles vão explodir ao mesmo tempo. Esse foi aqui o problema, porque não sei se já imaginaram que se cada pager explodisse individualmente, rapidamente a notícia faria com que as pessoas se descartassem dos pagers. Ora, não foi o caso. As pessoas foram todas apanhadas em simultâneo por esta explosão. Portanto, não houve tempo sequer de aviso para as pessoas se afastarem dos pagers. A grande dúvida que se coloca aqui, do meu ponto de vista, é a oportunidade. Por que isto foi feito agora? Isto pode não ter sido feito agora de propósito. Isto é uma questão que certamente nos próximos dias teremos mais dados para o fazer. Mas isto pode ter sido também uma questão de oportunidade, em face de dúvidas que começaram a aparecer em alguns setores do Hezbollah relativamente a esta aquisição em particular. E as dúvidas que se podem ter gerado relativamente a esta aquisição, podem ter feito com que Israel decidisse que não sendo esta a altura que estaria a pensar para a execução da operação Seria este o último instante em que teria a oportunidade de fazer antes de os pagers serem descartados.
Já voltamos à conversa com o major-general Arnaut Moreira. Na segunda parte vamos tentar perceber que mensagem está por trás destes ataques e que resposta se pode esperar. Estamos de regresso à conversa com o major-general Arnaut Moreira, especialista em geopolítica e autor do podcast "O Domínio da Guerra", da Rádio Observador. Senhor General, Israel, já o disse, continua sem reivindicar qualquer ataque. Por que parece não haver dúvidas da autoria, ainda assim?
Porque no Médio Oriente, num quadro de natureza regional, Israel é a superpotência tecnológica. Existem outros actores, nomeadamente o Irão, que são também detentores de alguma tecnologia, mas não com a sofisticação daquilo que é a capacidade tecnológica israelita. Portanto, todas as dúvidas em face daquilo que é o agravar, e este agravar é muito visível, das tensões entre Israel e o Hezbollah, que o autor desta proeza tecnológica seja Israel. Nós recordemos que mesmo do ponto de vista político, da gestão política interna da segurança de Israel, tem havido críticas no governo relativamente à incapacidade de se assegurar que as populações que foram deslocadas à força pelo conflito, as populações do norte de Israel, possam voltar às suas casas. Até porque entretanto começaram também as aulas, etc.
Isso, aliás, foi posto agora como um dos objectivos da intervenção em Gaza.
E, portanto, este agravar desta tensão pode-se explicar, mas no meu ponto de vista não é uma explicação completa. Eu, neste momento, atribuiria mais este ataque à questão da oportunidade. Isto é, o plano podia vir a ser conhecido e esta possibilidade ser abortada.
Até por causa disto, de nesta quarta-feira ter havido uma nova série de ataques com os tais walkie-talkies?
O Hezbollah tem pouca forma de reagir que seja diferente. Isto é, o Hezbollah gostaria de conduzir agora um conjunto de ações de natureza militar que parecessem uma espécie de um castigo sobre a ação de Israel. Mas essas ações parecem-se sempre com as ações que já fazia antes. Isto é, enquanto a de Israel é uma escalada de natureza tecnológica, não é previsível que o Hezbollah consiga, no patamar tecnológico, fazer uma escalada deste género para contrariar Israel. E, portanto, o Hezbollah já reagiu entretanto, bombardeou um conjunto de posições de artilharia de Israel, no norte de Israel, mas isto não tem o mesmo significado perante aquilo que é a leitura geral que devemos fazer, que é basicamente esta: Israel é a superpotência tecnológica no quadro regional e nenhum dos outros actores consegue responder a este nível a Israel. As respostas são sempre no nível que já conhecemos, que é o nível convencional dos rockets e dos mísseis.
E isso também ajuda a passar a mensagem de que Israel consegue atacar os seus inimigos onde quer que eles estejam?
Sim, sem dúvida. E neste caso, de uma forma tremendamente eficaz, porque na verdade, eram as pessoas do Hezbollah que tinham a confiança, pelo menos do Hezbollah, para lhes ter sido distribuído o equipamento deste, as pessoas que foram afectadas. Provavelmente haverá uma ou outra pessoa que estando perto ou que tendo acesso a ele, acabou por sofrer também com isso, mas isto foi muito selectivo, porque os pagers não são distribuídos a toda a população. Os pagers estavam distribuídos essencialmente à estrutura operacional do Hezbollah.
Obrigada, senhor General.
Foi um prazer.
O major-general Arnaut Moreira é especialista em geopolítica e autor do podcast "O Domínio da Guerra", da Rádio Observador. Esta foi a história do dia. No episódio de hoje ouvimos sons retirados da Al Jazeera. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.