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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como vai um português pela primeira vez ao espaço?
"This Redstone missile is the center of world attention as Commander Alan B. Shepard Jr. watches some final preparations before the United States attempts to put its first man into space."
Em 1961, Alan Shepard tornava-se no primeiro norte-americano a ir ao espaço. Passou 15 minutos num voo suborbital. O problema é que semanas antes os soviéticos já tinham feito o mesmo com Yuri Gagarin, que até completou uma órbita em torno da Terra, o que em plena Guerra Fria, foi sentido como uma humilhação pelos Estados Unidos. Seis décadas depois, é em homenagem a este primeiro americano no espaço, que foram batizadas as cápsulas New Shepard, da empresa Blue Origin, que é uma das responsáveis pelo advento do turismo espacial. O dono é nada menos do que o multimilionário Jeff Bezos, fundador da Amazon. A Blue Origin já levou 26 pessoas ao espaço e agora chegou a vez do primeiro português, de seu nome Mário Nuno dos Santos Ferreira, que como em tantas outras coisas na vida, valeu-se do olho e do sentido de oportunidade para agarrar o lugar.
O que aconteceu e esta surpresa tão repentina, porque os lugares estavam todos tomados. O que aconteceu foi que desistiu uma pessoa com o problema destas criptomoedas e da queda das criptomoedas. Notou-se ali uma falha e eu tinha um amigo meu que tinha lá um bom contacto e que estava à espera que houvesse uma falha. Ele disse: "Olha, tiveste sorte, queres?" E eu assinei logo o contrato, paguei e tomei aquele lugar que ficou livre.
Mário Ferreira não é, obviamente, um português qualquer. Isso vê-se logo no preço do bilhete que pagou para ir ao espaço. Nem sequer é público, mas não é coisa pouca. O atual dono da Pluris, empresa que detém a TVI e a CNN Portugal, subiu a pulso na vida. Depois de aos 16 anos ter ido trabalhar como empregado de mesa para Londres e aos 20 ter entrado por baixo no mundo dos cruzeiros até ter a sua própria empresa no Douro. Mais recentemente, foi notícia pelas suspeitas de fraude fiscal na venda do navio Atlântida. Agora integra o 22º voo da cápsula New Shepard e o sexto com tripulação a bordo. Quem é Mário Ferreira e como conseguiu tornar-se no primeiro português a ir ao espaço? Como se preparam e como funcionam estes voos, que não são para todas as carteiras? E qual o futuro do turismo espacial? Hoje vou falar com Marta Leite Ferreira, jornalista do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Bem-vinda, Marta.
Obrigada, João.
Comecemos pelo nome que está no bilhete. Quem é Mário Ferreira?
É empresário, é investidor e é presidente do grupo Pluris, que detém empresas de turismo como a Douro Azul e de comunicação social como a CNN Portugal, entre empresas de outros setores. Mas a Blue Origin descreve-o de uma forma mais exótica. Diz que é uma pessoa com paixão por aventura, porque correu no Dakar em 2007, correu a Maratona de Londres em 2010 e faz mergulho desde os 20 anos. E é este espírito aventureiro que convence Jeff Bezos a levá-lo ao espaço, porque é uma condição sine qua non para voar na Blue Origin. É uma questão de prestígio para a empresa.
Para fazer essa seleção de quem vai nestes voos, não é?
Exatamente.
No entanto, ultimamente Mário Ferreira também não está isento de algumas polémicas.
Sim, é verdade, não se pode ignorar que esta viagem acontece num momento tenso da popularidade de Mário Ferreira, porque a Douro Azul, precisamente, foi alvo de buscas no mês passado, por exemplo, e Mário Ferreira é agora suspeito de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais e pediu mesmo para ser arguido neste caso, a Operação Ferry. Além disso, foi criticado quando o Banco de Fomento anunciou que a Pluris, de Mário Ferreira, ia receber um empréstimo de €40 milhões ao abrigo de um fundo de capitalização que ia ajudar empresas a recuperar das dificuldades financeiras impostas pela pandemia de Covid-19. Só que este fundo tem menos de €80 milhões, portanto, isso significaria que a empresa de Mário Ferreira receberia mais de metade. E, portanto, depois de todas as críticas, Mário Ferreira anunciou que a Pluris ia desistir do empréstimo.
Eu inscrevi-me pela primeira vez em 2004, com uma frase muito simples na altura para a Virgin Galactic, dizendo: "Eu sou português e gostava de ser o primeiro português a ir ao espaço."
Falemos então das questões espaciais, por assim dizer. Este desejo de Mário Ferreira de se tornar o primeiro português no espaço não é de agora. Recorda-nos esta história.
Sim, a história remonta a 2004. Foi nessa altura que Mário Ferreira anunciou à Virgin Galactic que queria ser o primeiro português a ir ao espaço. Depois, dois anos mais tarde, em 2006, pagou qualquer coisa entre os 200 e os 300 mil dólares por um bilhete ao espaço com a Virgin Galactic, até porque depois tornou-se próximo de Richard Branson. Mas entretanto, a Virgin teve algumas dificuldades técnicas no caminho, não consegue transpor a linha de Kármán, que é a linha imaginária a 100 km de altitude que separa virtualmente a Terra do espaço. E, portanto, Mário Ferreira virou-se para outro projeto, para a Blue Origin, que é de Jeff Bezos. E quanto pagou desta vez não se sabe bem, porque há esta política de privacidade e secretismo também da Blue Origin. Os bilhetes, na verdade, até foram leiloados e sabe-se que alguns dos lugares foram comprados por 28 milhões de dólares. Não se sabe se este bilhete foi o preço que Mário Ferreira pagou, mas este pelo menos é o limite que pode ter acontecido.
Não é para todas as carteiras.
Não é, de todo.
"Hello, everyone. I'm Kaitlin Dietrich. I'm here in beautiful West Texas watching the sunrise over Blue Origin's Launch Site 1." "This site is where our astronauts fly to space, and today I want to take you on a tour of some of the highlights they'll experience before their mission."
Os foguetões da Blue Origin são lançados no Texas, nos Estados Unidos. Esta é já a sexta viagem tripulada. Como é que isto tudo funciona? Como é que Mário Ferreira e os outros tripulantes se preparam primeiro para ir para o espaço?
Uma das coisas que é interessante é que talvez teria sido mais entusiasmante para Mário Ferreira viajar com a Virgin só pelo facto de o local do lançamento ser Roswell, que é um lugar de muitas aparições de extraterrestres nos Estados Unidos. Mas escolheu, portanto, a Blue Origin, e ele já disse que tem andado em treinos físicos porque precisa de perder peso. A cinco dias da viagem, ainda lhe faltavam perder 5 kg. Os últimos dias têm passado, portanto, no ginásio, mas também em treinos dentro de cápsulas semelhantes àquela onde ele vai voar. Já tem treinado 13 horas por dia para saber viver em gravidade zero durante os minutos, memorizar todos os passos da viagem. O primeiro dia de treinos foi passado em aulas teóricas sobre segurança, sobre como ajustar os fatos, como ajustar as cadeiras e também a reunir todos os objetos que os tripulantes queiram levar para o espaço. A parte mais fácil é que nenhum deles vai ter de aprender a comandar uma nave, porque esta cápsula é totalmente autónoma.
Não há ninguém aos comandos.
Não há ninguém aos comandos. Essa deve ser a parte mais entusiasmante, é que ninguém se tem de preocupar se a cápsula vai cair ou não.
Falando da viagem em si, no fundo, se pensarmos bem, o princípio não é muito diferente daquele que foi usado com Alan Shepard há 60 anos, no som que ouvimos também no início deste episódio. Trata-se de um foguetão que depois larga uma cápsula tripulada, mas que neste caso, como dizíamos, não tem ninguém a pilotar.
Exatamente. E ainda bem que falas de Alan Shepard, porque a cápsula que vai levar Mário Ferreira e outros cinco viajantes ao espaço chama-se precisamente New Shepard, em homenagem ao primeiro norte-americano a ir ao espaço. E sim, o que acontece é que esta cápsula fica no topo de um propulsor, que sobe até pouco mais de 100 km de altitude, porque é aqui que fica a tal linha de Kármán. E enquanto esse propulsor começa a descer em direção à plataforma para ser reaproveitado para outros voos, a cápsula continua a subir mais ou menos até aos 107 km. E quando chegar a este apogeu, já terão passado quatro minutos desde a descolagem. Só que desde os três minutos de voo, portanto, um minuto antes de chegar a esse pico, os astronautas já vão estar em gravidade zero e será assim até quatro minutos antes de aterrar. Portanto, no total, eles vão estar três minutos em gravidade zero, em que podem sair das cadeiras onde estão presos com cintos, com cinco pontos de segurança, e depois vaguear pela cápsula, porque no teto há umas pegas como as que nós, comuns mortais, vemos nos autocarros, nos metros. Para se segurarem. E também, o que é especial nesta cápsula são as janelas, porque nas laterais há seis janelas, uma para cada viajante, que são as maiores que existem neste momento numa nave espacial e por onde os astronautas podem apreciar a vista. Depois, no meio, há também um sistema de fuga para o caso de alguma coisa correr mal, mas esta já é a sexta viagem tripulada com uma cápsula New Shepard da Blue Origin e, na verdade, nunca correu mal. Este sistema nunca teve de ser utilizado.
E depois a cápsula, quando regressa à Terra, aterra com a ajuda de paraquedas, não é?
Exatamente. A certa altura, abrem-se uns paraquedas. Nesta altura, a nave já está a viajar a 26 km/h, mais ou menos. Depois já chega muito suavemente ao deserto do Texas, aterra, levanta-se um pouco de poeira, mas depois fica tudo bem.
É a primeira vez que uma garrafa de vinho do Porto com uma rolha de cortiça portuguesa vai ao espaço. É um vintage, um Taylor's 2003, e a ideia é, quando regressarmos, ver o que é que aconteceu, se as forças G, se a ausência de gravidade alteraram no sabor, na cor.
Já percebemos que, entre outras coisas, Mário Ferreira vai levar com ele uma garrafa de vinho do Porto. Sendo certo que não pode fazer um brinde lá em cima, porque com a ausência de gravidade seria um desperdício de vinho. Mas para além do português, quem mais integra a tripulação deste voo e que tipo de coisas podem levar consigo?
Uma das companheiras de viagem de Mário Ferreira é a Sara Sabry, que é engenheira biomédica. Ela tem uma organização que quer tornar a investigação espacial mais acessível e já se tornou também a primeira astronauta análoga do sexo feminino no Egito. Ela conseguiu este feito por ter estado num treino intensivo que simulava as condições extremas de uma estadia no espaço. E será também a primeira egípcia a ir ao espaço, portanto, partilha com Mário Ferreira este marco. Depois temos Vanessa O'Brien. Ela também vai. Foi ela que já chegou ao ponto mais alto da Terra, o Monte Everest, já foi ao ponto mais profundo do planeta, que é o Challenger Deep. Alcançar a linha de Kármán para bater o recorde do Guinness de chegar aos três pontos mais extremos do planeta. Depois temos Clint Kelly III. É especialista em ciências computacionais e robótica e é um dos pais dos carros autónomos. E há um YouTuber também a bordo. Ele faz vídeos cômicos e desafios na internet, mas também é o representante de uma empresa que quer descentralizar o acesso à exploração espacial. É essa empresa que está a patrocinar a viagem dele ao espaço. E depois Steve Young, que foi CEO da maior empresa de telecomunicações da Flórida e que agora se dedica literalmente à pesca, porque se reformou e é um dos seus hobbies favoritos. Portanto, é o que ele faz, pesca.
E todas as missões da Blue Origin têm um logotipo que representa a missão. Esta não é exceção. Que elementos tem este símbolo da New Shepard 22, que conta com um português a bordo?
Sim, eles escolheram um símbolo para cada um dos tripulantes. Mário Ferreira vai ser representado pela caravela de Fernão de Magalhães, até porque um dos sonhos do empresário português era precisamente fazer uma circum-navegação. Depois, para representar Sarah Sabry, desenharam-se as pirâmides do Egito. A representar Vanessa O'Brien, as fossas das Marianas, porque é lá que está o ponto mais profundo do planeta, onde Vanessa já foi. No caso de Coby Cotton, o YouTuber, pôs-se uma bola de basquetebol, porque os vídeos dele concentram-se principalmente em encestar bolas de formas inusitadas. Steve Young é representado por peixes, precisamente por causa do gosto que tem pela pesca. E Clint Kelly III é uma carruagem, porque já que desenvolveu os carros autónomos, fica assim simbolizada a evolução automóvel.
A Blue Origin fez o primeiro voo há pouco mais de um ano, em julho de 2021. Na altura, o próprio Jeff Bezos seguiu a bordo da cápsula e este é agora o sexto voo feito pela empresa. No ano passado, assistimos ao lançar em definitivo do turismo espacial. Que outras empresas estão a apostar forte neste setor e que tipo de propostas já oferecem?
Além da Blue Origin, há outros dois grandes nomes de peso na indústria neste momento. A Virgin Galactic, claro, que também fez a primeira viagem no ano passado, mas que não satisfez uma das condições para poder afirmar que chegou efetivamente ao espaço, porque não alcançou uma altitude mínima de 100 km. E depois há a SpaceX de Elon Musk. As mesmas cápsulas que podem agora lançar astronautas para a Estação Espacial Internacional e levar também carga útil para experiências científicas, por exemplo, também já consegue fazer voos privados e fê-lo pela primeira vez em abril deste ano.
A própria Blue Origin já fala numa estação espacial na segunda metade desta década e até também há quem já fale em viagens à Lua, por exemplo. Qual o futuro do turismo espacial?
Muito se tem falado, de facto, da democratização das viagens espaciais, mas isso está longe de ser uma realidade. Não é uma daquelas histórias em que estamos todos no mesmo barco. Porque estas viagens, de facto, têm contribuído muito para essa ambição. O facto de conseguirmos reaproveitar cápsulas, propulsores e foguetões, como faz a SpaceX e a Blue Origin, é ótimo, porque o custo de uma viagem ao espaço tornou-se muitíssimo inferior ao que era quando dependíamos apenas de agências governamentais. Mas mesmo sendo muito mais barato, o preço continua inacessível para a esmagadora maioria da população. Quem não tem dinheiro, tem mesmo de continuar a ir de férias para as praias, para as nossas montanhas e para as cidades em terra firme, porque as estrelas ainda estão ao alcance apenas dos mais ricos.
E vai continuar a ser assim durante muito tempo, provavelmente.
Durante muito tempo. Sim, ainda não vamos ter voos a €20 como temos em algumas companhias aéreas.
Obrigado, Marta.
Obrigada, João.
Marta Leite Ferreira é jornalista do Observador e assina um artigo sobre a missão da New Shepard, que leva Mário Ferreira ao espaço. Esta foi a história do dia. Neste episódio, ouvimos um som histórico da Associated Press e também sons da TVI. A sonoplastia é do Diogo Casinha e a música do genérico, do João Ribeiro. Tenha um bom dia.