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Esta é a história do dia da Rádio Observador: porque caiu o avião da Air India. Alguns bombeiros tentam apagar as chamas dos destroços do avião que se despenhou esta quinta-feira. Há centenas de pessoas no local do acidente, num ambiente de caos, chamas, fumo e detritos. O Boeing 787 Dreamliner caiu pouco depois de descolar do aeroporto de Ahmedabad, a antiga capital do estado de Gujarat, no noroeste da Índia. O aparelho não conseguiu ganhar altitude e viria a cair num dormitório de uma escola de medicina, elevando o número de vítimas. A bordo seguiam 242 pessoas, sete das quais terão nacionalidade portuguesa. Que razão ou razões podem estar na origem de um acidente desta magnitude, o pior desde 1996 na Índia? É sobre isto que vou conversar com o antigo comandante da TAP, José Correia Guedes. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia, sexta-feira, 13 de junho. Bem-vindo, José Correia Guedes.

Muito obrigado pelo convite.

O avião da Air India despenhou-se pouco depois da descolagem. Nos vídeos nós conseguimos perceber que o aparelho tem o nariz apontado para cima, mas está a perder altitude. Olhando para aquilo e com tudo o que ainda desconhecemos, o que poderá ter acontecido ali?

Estamos no domínio da pura especulação, ou seja, não sabemos o que aconteceu. Vamos aos factos. Olhando para aquele vídeo e assumindo que o vídeo é real e tudo leva a crer que seja real, há ali um fator que imediatamente salta à vista: o trem de aterragem não subiu. A seguir a uma descolagem, logo que o avião começa a subir, ou seja, larga o contacto com o solo e começa a subir pelos próprios meios, com o impulso dos motores, o que se faz quase imediatamente, a partir do momento em que há uma razão de subida positiva, aliás, até temos vozes para isso, o piloto que está a descolar pede gear up, ou seja, para subir o trem de aterragem. E isso por quê? Porque o trem oferece uma enorme resistência aerodinâmica e uma vez recolhido, facilita a vida ao avião e aos motores, portanto, sobem mais à vontade. Isso não aconteceu, portanto, eles não chegaram a recolher o trem de aterragem, que é a primeira coisa que salta à vista. E o avião perde altitude. A atitude, aquilo que me falou de levar o nariz em cima, é a atitude normal de um avião que acaba de descolar e que vai subir. Ele aí vem a deslizar em relação ao solo e isso em linguagem aeronáutica tem um nome, que é o CFIT, que é o controlled flight into terrain. O avião vem completamente controlado até ao chão e depois explode. Estamos a falar de um avião grande, que vai fazer uma viagem de longo curso, vai para Londres, e que muito provavelmente, contas em cima do joelho, deve levar umas 40, 50 toneladas de combustível.

Mas esse controlled flight into terrain pode significar que ainda houve uma tentativa de aterragem, de pousar em terra no solo?

Não. Quer dizer que o avião não cai descontrolado. Ou seja, ele vai a voar, ele vai com as asas direitas, só vai é perder altitude, mas está perfeitamente controlado até bater no solo. Portanto, ele não cai descontrolado. Por exemplo, numa situação de perda, o avião cai descontrolado, mete uma asa embaixo, depois vem em parafuso para aí baixo. Não é o caso, até porque o avião ia muito baixo quando começa a perder altitude. Claro que podemos especular o que está na origem disto. O que parece evidente, para já, é essa realidade do trem que-

Não subiu

...de que falámos há pouco. Depois, parece evidente que há uma perda de energia, ou seja, o avião vai a descolar e perde a energia necessária para continuar a subir. Ou então, essa é uma possibilidade, ou seja, qualquer problema com os motores, não podemos descartar colisão com pássaros, não podemos descartar falha de motores, sei lá, qualquer coisa. Uma dupla falha de motores é quase uma impossibilidade.

É catastrófico.

Às vezes acontece haver uma falha de motores, mas falhar um motor, agora falharem os dois, é quase uma impossibilidade, a menos que um fator externo, como sejam os pássaros, provoque isso, como aconteceu, de resto, no Rio Hudson, em Nova York, aqui há uns anos. Eles perderam os dois motores em consequência de uma colisão com pássaros. Portanto, essa será uma possibilidade que vai ser investigada, com certeza.

Essa investigação, já agora, é feita por organismos internacionais ou por organismos indianos, do país em que acontece o acidente?

Quem lidera a investigação é a entidade aeronáutica da Índia, que é responsável pela investigação, mas vai convidar certamente, seguramente, a Boeing a participar na investigação, que é o fabricante do avião, e vai convidar outras entidades que ache necessárias, nomeadamente o National Transportation Safety Board, que é uma entidade americana especializada em investigação de acidentes. Há muitos anos que se dedicam a isso. Acidentes de todo o tipo, de aviões, de navios, de autocarros, de comboios, o que quer que seja. São uma entidade muito especializada neste tipo de acidentes. Dentro de um mês haverá um relatório preliminar. Isto segundo as normas ICAO, dentro de um mês haverá um relatório preliminar, que será completamente inconclusivo. É apenas uma formalidade, não vai apontar rigorosamente nada, penso eu. E dentro de um ano, segundo também a regulamentação ICAO, deverá sair o relatório final. A comissão tem um ano para fazer esse trabalho. Com alguma frequência, esse ano não chega. É necessário mais tempo, as investigações demoram mais tempo que isso. Eu receio que este acidente seja muito complexo. Todos os acidentes são complexos, mas este parece-me particularmente complexo e vai ser difícil colocar as peças todas no puzzle.

O acidente acaba por acontecer numa zona residencial, o que nos faz pensar sempre em Lisboa, que tem o aeroporto no meio da cidade. Isto é algo que nos deve preocupar?

É algo que nos deve preocupar. Eu há muitos anos que falo nisso, que o aeroporto de Lisboa devia sair daqui. Eu sei que é muito conveniente para os passageiros.

Dá muito jeito.

Apanhar um táxi em 10 minutos no centro da cidade é muito vantajoso pro turismo também, mas não podemos correr o risco de acontecer uma tragédia destas. Bem, em qualquer circunstância. O aeroporto está situado no centro da cidade e haver um avião que se despenha, e um avião de grandes dimensões, bem, o melhor é nem sequer especularmos sobre isso. Nós, que andamos nos aviões estes anos todos, sabemos que já esteve para acontecer. E felizmente não aconteceu, temos o nosso Santo António, que é o dia de hoje, ou alguém que pôs as mãos por nós, mas um dia poderá acontecer e não podemos correr esse risco. É mais uma razão para o aeroporto de Lisboa ou da Portela, Humberto Delgado, como queiram chamar, sair daqui o logo possível. Há quem defenda a continuidade do aeroporto de Lisboa. Eu sou contra, justamente por essa razão, e por razões ambientais também, por causa do ruído e por causa da poluição que os aviões lançam sobre a cidade. Esse será mais um fator a ter em conta. O que aconteceu hoje e que nós vimos foi, imediatamente após a colisão, vimos prédios arder, o que não é suposto acontecer. E não sabemos se estes prédios teriam pessoas lá dentro, provavelmente teriam. Isto remete-nos imediatamente para as Torres Gêmeas de Nova York, que só com o combustível derramado pelos aviões, a estrutura das torres praticamente fundiu. E vieram para ali abaixo. Essa é mais uma razão de grande preocupação em relação à localização dos aeroportos e das zonas residenciais.

Já voltamos à conversa com José Correia Guedes, antigo comandante da TAP. Este é mais um acidente com a Boeing. Este facto permite tirar alguma conclusão? Estamos de regresso à conversa com José Correia Guedes, antigo comandante da TAP. Senhor comandante, o avião continua a ser o meio de transporte mais seguro de todos?

Sem sombra de dúvida, e estão aí as estatísticas para nos comprovar isso mesmo. Apesar de haver muito mais aviões no ar do que há 50 anos, há muitíssimos menos acidentes, há uma linha descendente em termos de acidentes de aviação. Um exemplo que eu dou com muita frequência: 2023, que ainda não fez dois anos, não morreu uma única pessoa em todo o mundo por causa de um acidente com aviação comercial a jato. Sublinho a jato porque houve alguns acidentes com aviões mais pequenos, turbo-hélice. Mas com aviões comerciais a jato, não houve uma única vítima mortal. E estamos a falar de milhões e milhões de voos, centenas de milhões de passageiros durante um ano, que são números realmente impressionantes. Em termos de segurança, não podemos comparar com nada, morre-se muito mais num elevador ou numa cadeira de rodas, ou no que quer que seja. Infelizmente, este ano e um pouco no ano passado, essa tendência, não vou dizer que se inverteu, mas quebrou-se. Tivemos este acidente hoje, que é absolutamente trágico. Tivemos o acidente de Washington no princípio do ano, o avião que colidiu com o helicóptero, enfim, há mais alguns episódios. Ultimamente, as coisas, de fato, não têm corrido bem. Mas de uma forma geral, sem sombra de dúvida, apesar do acidente hoje, a aviação continua a ser, de longe, o meio de transporte mais seguro do mundo. Não tenho qualquer dúvida em relação a isso.

Quando acontece um acidente, a aviação tem esta característica de há sempre qualquer coisa que vai mudar, que se vai aprender. E normalmente olha-se para duas coisas: para os pilotos e para os aparelhos. Em relação aos pilotos, este também tem sido um debate, há uma elevada procura de pilotos em todo o mundo, há milhares e milhares de ligações todos os dias, como dizia. O fator humano pode ser determinante nestes casos?

Estatisticamente, está demonstrado que a esmagadora maioria dos acidentes, estamos a falar de cerca de 80%, são causados por erro humano, seja no avião, seja nos pilotos, mas seja também no controle de tráfego aéreo, na manutenção, o que quer que seja. O fator humano está envolvido na esmagadora maioria dos acidentes. Nós somos humanos, cometemos erros, falhamos. A hipótese de erro humano também não está descartada neste acidente, nem pouco, mais ou menos. Pode ter acontecido ali um erro humano grave. Enquanto houver humanos envolvidos, e eu espero que continue a haver A possibilidade do erro vai existir sempre, porque nós falhamos, nós cometemos erros, não somos infalíveis, isso vai continuar a acontecer. Há quem defenda uma corrente extrema diferente, ou seja, vamos acabar com os pilotos, vamos lá meter a inteligência artificial, porque a inteligência artificial não comete erros. Ainda não estamos preparados para isso. Talvez daqui a 30, 40, 50 anos isso venha a acontecer, mas neste momento penso que é utópico pensar nesse tipo de coisas.

E olhando para o aparelho, um Boeing 787, que avião é este?

É um excelentíssimo avião, que está em operação há 15 anos. Já realizou 4,2 milhões de voos. Eu insisto, 4,2 milhões de voos. Nunca tinha tido uma fatalidade, uma vítima mortal. Teve hoje. Teve alguns acidentes. Aliás, no ano passado houve um acidente com um avião destes em Tóquio. Dois aviões que se chocaram na pista, um avião militar e um avião civil da Japan Airlines. Infelizmente, os ocupantes do avião militar morreram, mas no avião civil, no Boeing 787, não morreu ninguém. Portanto, este avião até hoje tinha um currículo absolutamente impecável em termos de segurança. Agora vamos saber. A partir de hoje, infelizmente, já não podemos dizer isso, mas vamos tentar saber pelo menos o que é que aconteceu, o que é que levou a esta tragédia.

Há uma coincidência, que é o facto de ser mais um acidente com um Boeing. Temos tido muitos, um grande debate também à volta da companhia aérea, da empresa, aliás. Podemos tirar daqui alguma conclusão? É mais um caso, podíamos estar a falar perfeitamente de um Airbus ou de um Embraer.

Sem sombra de dúvida, sim. Não, não podemos tirar conclusão nenhuma pelo facto de se tratar de um Boeing. Aliás, este avião, o Boeing 787 Dreamliner, é neste momento o avião mais avançado do mundo em termos de engenharia. É um avião feito em materiais compósitos, materiais mais leves, mais resistentes. É um avião muito avançado do ponto de vista também de avionics. Aviônicos são aqueles instrumentos, os computadores de bordo. Portanto, é um avião muito avançado, extremamente fiável, muito bem construído, um dos melhores aviões que a Boeing alguma vez produziu. Criou-se essa imagem aqui há uns anos com os acidentes ocorridos com o irmão mais pequeno, com o Boeing 737, que eu por acaso conheço muito bem, porque voei esse tipo de avião durante 10 anos. Houve realmente dois acidentes graves e depois concluiu-se que tinha havido ali negligência por parte do fabricante. Isso criou uma imagem muito negativa à Boeing, da qual tem tido dificuldade em se libertar e a sua pergunta vem nesse sentido. Portanto, as pessoas hoje veem um acidente com a Boeing, hoje, desde manhã, desde que o acidente aconteceu, já várias pessoas me ligaram: "Ah, pois, é um Boeing". Não, não é um Boeing. O acidente que aconteceu com o avião, o avião não tem culpa nenhuma disto. Vamos ver, mas eu acho que o avião não tem culpa nenhuma disto.

Obrigada, José Correia Guedes.

Foi um prazer, Despacha. Não é um prazer falar sobre um acidente, mas é um prazer falar com a Rádio Observador.

Obrigada.

Obrigado.

José Correia Guedes é antigo comandante da TAP. É uma voz especializada a quem a Rádio Observador recorre com frequência para falar de aviação. É também um dos protagonistas de "Piratinha do Ar", um podcast Plus do Observador. Antes de terminar, algumas notas para esta sexta-feira, dia de Santo António, e para o fim de semana. O Mundial de Clubes arranca no sábado. A primeira equipa portuguesa a entrar em campo é o Futebol Clube do Porto, que defronta o Palmeiras do Brasil. No domingo, arranca uma reunião do G7 importante no Canadá. É o reencontro de Trump com alguns dos parceiros a quem decidiu cobrar tarifas comerciais elevadas. E é esperada também a presença de Volodymyr Zelensky. E neste dia 13 de junho, sexta-feira, há uma efeméride importante a assinalar. Fernando Pessoa nasceu em 1888, num dia de Santo António. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Bom fim de semana.