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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Podemos ficar descansados depois do encontro entre Joe Biden e Xi Jinping?

"I want to be clear, and be clear with all leaders, but particularly with Xi Jinping, that I mean what I say and I say what I mean. So there's no misunderstanding."

Joe Biden e Xi Jinping estiveram mais de três horas reunidos em Bali, na Indonésia. No final do encontro, o regime de Pequim emitiu um comunicado e apenas Joe Biden falou aos jornalistas para dizer que a conversa correu bem. Cada um apresentou os seus argumentos, mas sem cedências. O presidente dos Estados Unidos diz que não quer uma nova Guerra Fria.

"And I'm not suggesting this is kumbaya, everybody is gonna go away with everything in agreement, but I do not believe there's a need for concern of a, as one of you raised the legitimate question, a new Cold War."

Não foi a primeira conversa, mas foi a primeira vez, frente a frente, desde que Biden é presidente dos Estados Unidos. Os líderes das duas maiores potências estiveram sentados à mesma mesa, à margem da reunião do G20, que decorre na Indonésia e na qual não estará Vladimir Putin. Numa altura em que as relações entre os Estados Unidos e a China estão muito frias, no limiar da congelação, este é um encontro que nos dá esperança ou motivos de preocupação? Vou conversar com a jornalista de internacional do Observador, Cátia Bruno, que tem acompanhado a tensão entre Washington e Pequim. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Ricardo.

Cátia, há pouco, na apresentação deste episódio, eu dizia que as relações entre os Estados Unidos e a China estão muito frias, ali quase no ponto de congelação. É um exagero jornalístico ou não?

Não creio que sejam exageros. Estão muito mais geladas do que estiveram ao longo dos últimos anos. E não é de agora, já com a presidência de Trump que estavam.

E qual é o motivo para tanta frieza?

No fundo, os Estados Unidos e a China são cada vez mais abertamente rivais no palco mundial, tanto em termos económicos como em termos de poderio militar. E vimos isso no último congresso do Partido Comunista Chinês, em que Xi Jinping deixou muito claro que a China é uma potência militar e que não vai aceitar interferências naquilo que considera ser a sua área de influência.

Imagino que em Bali esteja mais quente, é um local bom para passar férias. Os líderes chinês e norte-americano estiveram juntos naquele ambiente verdadeiramente luxuriante. Joe Biden falou no final, Xi Jinping, não. Ainda assim, há um papel, Cátia. Afinal, o que diz Pequim sobre esta reunião?

Pequim diz que foi um encontro marcado por um diálogo franco, construtivo, mas nota que Xi Jinping fez valer a Joe Biden que o assunto Taiwan é muito relevante e que uma possível interferência dos Estados Unidos na política chinesa para Taiwan é uma linha vermelha que não devia ser atravessada.

E se Taiwan, a Ilha Formosa, como lhe chamaram os portugueses, continua a ser um tema hipersensível, há também a Coreia do Norte e a guerra na Ucrânia e o nuclear.

Tudo temas que foram abordados nesta reunião e que Pequim deixou claro no seu comunicado que está particularmente preocupado com Taiwan, como já vimos, mas também com a guerra na Ucrânia. Xi Jinping disse a Biden que quer muito que haja negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, frisou que um conflito entre grandes potências não interessa a ninguém e disse ainda que esperava que os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia pudessem ter um diálogo profundo com a Rússia, mostrando aqui a sua posição de mais alinhamento com Moscovo, quando comparado com outros países.

Cátia, já vamos ouvir Joe Biden. Xi Jinping nunca fala nestas ocasiões?

Por vezes fala para um grupo de jornalistas restrito.

Selecionado.

Previamente escolhido, exatamente. Mas em cimeiras internacionais tem por hábito não falar, sobretudo aos jornalistas ocidentais. E desta vez, apesar da importância do encontro, não quebrou essa regra e, portanto, não ouvimos qualquer conferência de imprensa da sua parte.

E os antecessores faziam o mesmo?

Nem todos. Alguns, na década de 80, de 90, início dos anos 2000, chegaram a falar a jornalistas estrangeiros. O Jin Tao, por exemplo, deu várias conferências de imprensa.

Aquele senhor que foi retirado do Congresso?

É verdade, o famoso Jin Tao. Xi Jinping não, tem este estilo desde que chegou ao poder em 2012, que é mais resguardado, digamos assim.

Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Bruno. Vamos conhecer que balanço faz Biden desta reunião e que conclusões poderemos tirar deste encontro entre os dois homens mais poderosos da Terra.

Sou a Sónia Simões, jornalista do Observador. O último trabalho que fiz foi com o João Francisco Gomes. É uma investigação que vem desde 2019 e que tem mostrado várias ocultações de abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa. Dedicámos muito tempo a este trabalho e isso só foi possível graças aos assinantes do Observador. Assinar o Observador contribui para um jornalismo de qualidade.

Estamos de regresso à conversa com a jornalista de internacional do Observador, Cátia Bruno. Cátia, conheces esta canção?

Conheço, sim. "Kumbaya, My Lord", Peter, Paul and Mary, aqui na Rádio Observador.

É isso mesmo. E este regresso às canções, aos espirituais negros cantados à fogueira, tem uma razão de ser. É que no arranque deste episódio, ouvimos Joe Biden dizer que esta reunião não foi um kumbaya, ou seja, não estiveram os dois de mãos dadas a cantar em harmonia. É isto que Joe Biden quer dizer, Cátia.

Sim, Joe Biden foi claro na conferência de imprensa que deu, dizendo que houve troca de pontos de vista diferentes, que frisou várias vezes que este foi um encontro de conversa franca e portanto, os dois líderes deixaram claro que não concordam em muitos assuntos, portanto, nada de kumbaya. Mas Biden tentou aligeirar o tom e dizer que apesar dessa franqueza e da discordância em muitos pontos, há um diálogo e que, portanto, não podemos falar na tal Guerra Fria, segundo Biden, porque os canais de comunicação continuam abertos.

Mas na primeira parte da nossa conversa falámos da posição chinesa em relação a Taiwan. Qual é a posição norte-americana?

É curioso que o comunicado que a Casa Branca emitiu sobre este encontro era bastante mais duro do que as declarações que Joe Biden fez depois na conferência de imprensa. O comunicado frisava como os Estados Unidos não iam tolerar mudanças na posição actual, na situação actual, no estatuto que Taiwan tem neste momento. Dizia também que a China andava a levar a cabo atitudes agressivas contra a ilha e, portanto, deixava aqui uma série de avisos. Biden, na conferência de imprensa, não se focou em nenhuma destas questões, frisou apenas outra parte que já vinha no comunicado e que é de que os Estados Unidos continuam a seguir a sua política de uma só China, ou seja, formalmente não reconhecendo a independência de Taiwan e considerando que é uma parte da República Popular Chinesa. E foi essa parte que Biden quis destacar na sua conferência de imprensa. E diz ele, Xi Jinping compreendeu perfeitamente o que ele queria dizer.

Mas como assim uma só China, Cátia?

A política norte-americana nesta questão tem sido ambígua. Oficialmente, ao reconhecer uma só China, os Estados Unidos estão a dizer que Taiwan é parte da China e que, portanto, não devem ter ambições nenhumas de independência. Mas, por outro lado, os Estados Unidos têm um acordo assinado directamente com o governo de Taiwan, que prevê a defesa da ilha e Biden já o disse, já disse quatro vezes desde que é presidente, que os Estados Unidos irão intervir se a China invadir Taiwan. Portanto, há aqui esta posição um pouco ambígua dos Estados Unidos em relação a Taiwan e que parece que não se vai alterar, tendo em conta que o comunicado da Casa Branca diz uma coisa, mas Biden tenta destacar outra. Continuamos aqui com uma posição incerta em relação a Taiwan.

E no meio disto tudo, ainda há a Coreia do Norte.

I made it clear to President Xi Jinping that I thought they had an obligation to attempt.

Biden quis aproveitar muito este encontro para pressionar a China em relação à Coreia do Norte, na expectativa de que a China consiga moderar um bocadinho a posição do regime de Kim Jong-un, tendo em conta não só a proximidade geográfica, mas o facto de a Coreia do Norte depender economicamente, em grande parte, dos negócios que tem com a China e, portanto, Biden sublinhou junto de Xi Jinping que espera que a China tenha essa influência moderadora. A China, por outro lado, não comentou esta questão no comunicado.

We are going to defend our allies as well as American soil and American capacity.

E depois, entre estes dois gigantes, temos uma questão muito importante, que é a questão comercial. E estes dois gigantes aqui estão em rota de colisão, ou não?

Estão. E não há para já sinais de que isso vá mudar. Os Estados Unidos impuseram uma série de tarifas durante a presidência de Donald Trump, que não foram levantadas ainda com Joe Biden. Não é claro se vão ser ou não. Ao mesmo tempo, a presidência de Joe Biden acabou de aprovar uma lei que limita a exportação de semicondutores norte-americanos para a China e que, portanto, também tenta estimular a produção desses semicondutores, que são essenciais para a produção de-

Para tudo nas nossas vidas actualmente, não é?

Sim. E portanto, ao incentivar essa produção nos Estados Unidos, reduz-se a importação dos semicondutores chineses. A China não gostou dessa proposta, porque considera que está a limitá-la economicamente. E, portanto, esta tensão comercial e económica não está a dar sinais de desaparecer. Esse tema em concreto não parece ter sido abordado, pelo menos nesta reunião. Nem Washington, nem Pequim confirmaram. Mas é curioso que Biden frisou muito a Xi Jinping que a China e os Estados Unidos estão em competição. O que isso não significa é que isso se torne automaticamente num conflito militar, mas essa competição existe e é assumida.

Competição, sim. Confronto, até ver, não. China e Estados Unidos são as duas grandes superpotências. Que leitura, Cátia, podemos fazer deste encontro que durou mais de três horas e que não apresenta grandes resultados, pelo menos visíveis? Ou isso é em si mesmo já um resultado, o facto destes dois homens terem estado sentados à mesma mesa a conversar, imaginamos nós, durante mais de três horas.

And so I don't get any sense that there's more or less confrontation. We were very blunt with one another.

É um resultado no sentido de que em diplomacia, manter a comunicação é essencial para que haja paz. E, portanto, se não houvesse encontros, era muito mais preocupante. Agora, parece-me que seria precipitado achar que porque Biden e Xi se sentam à mesma mesa, que não há qualquer tensão entre China e Estados Unidos ou que de repente há um apaziguamento maior. Aliás, o facto de Taiwan ter sido um dos temas tão discutidos na reunião mostra que a tensão está lá em várias áreas.

E perante tudo isso, Cátia, devemos ficar preocupados ou mais descansados?

Talvez um pouco mais descansados, que enquanto houver diálogo podemos não respirar de alívio, mas pelo menos não entrar em paragem cardiorrespiratória. Mas a preocupação deve estar sempre lá, porque nenhuma delas mostrou vontade de fazer qualquer cedência ou de alterar a sua estratégia que está definida para os próximos anos. Portanto, para já, tudo como dantes.

Obrigado, Cátia.

Obrigada eu, Ricardo.

Cátia Bruno é jornalista de internacional do Observador e há muito que acompanha a tensão entre a China e os Estados Unidos. Esta foi a História do Dia. Pode seguir-nos tanto no site Observador como nas aplicações que habitualmente usa para ouvir podcast e assim não perde o episódio. E pode também sugerir a um amigo ou familiar a História do Dia. Temos um tema diferente todos os dias de segunda a sexta. Obrigado por nos ouvir. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.