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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como o Irão está a usar os atletas para calar protestos. Familiares de Mohammad Mehdi Karami choram a morte do jovem de 22 anos junto à sua campa no Irão. Karami era campeão nacional de karaté e foi enforcado no passado fim de semana por alegados crimes contra a segurança nacional. É um de vários desportistas condenados depois de participarem em protestos contra o regime iraniano em defesa dos direitos das mulheres, que se intensificaram no país desde a morte de Mahsa Amini, em setembro, às mãos das autoridades iranianas. A jovem tinha sido detida pela Polícia da Moral por ter usado o véu islâmico de forma errada. Estima-se que haja mais de 500 manifestantes mortos e mais de 19 mil detidos desde setembro. O Irão quer fazer dos atletas um exemplo para calar os protestos, mas há jogadores da Seleção Nacional de Futebol a usar os prêmios monetários que receberam no Mundial para pagar fianças e libertar cidadãos detidos. Como o estão a fazer e que riscos correm? Vou falar com o editor de desporto do Observador, Bruno Roseiro. Eu sou a Catarina Santos e esta é a história do dia. Bem-vindo, Bruno.

Olá, Catarina.

Mohammad Mehdi Karami tinha 22 anos, praticava karaté desde os 11, era campeão nacional da modalidade, representava frequentemente o Irão nas mais relevantes competições internacionais e foi enforcado no passado fim de semana. Por quê?

Tanto ele como Saeed Hosseini, que era também um treinador karateca, portanto, ligado à modalidade, foram acusados de terem matado um membro das milícias paramilitares islâmicas. Foi um julgamento que durou uma semana, que a Anistia Internacional desde o início sempre catalogou como um não julgamento, ou seja, no fundo era uma acusação que já estava feita e o julgamento foi uma espécie de teatro montado. A própria família foi apelando das mais variadas maneiras a todas as entidades, tendo em conta que ele foi torturado na prisão. Aliás, quando ele é detido, é deixado à porta de um tribunal, porque essas mesmas forças paramilitares consideravam que ele já estava morto depois de ter sido atingido várias vezes e por várias pessoas. Depois perceberam que ele estava vivo, levaram-no pra prisão e a família acusava não só a questão das torturas, mas também o não acesso a um advogado. Portanto, tudo isto misturado mostra que o julgamento foi quase um teatro para poder haver esse enforcamento, mas que tem ainda um outro pormenor: é que acontece quase numa espécie de equilíbrio, depois de um jogador de futebol ter sido condenado também a ser executado e ter passado para uma pena de 16 anos de prisão. Foi como se o regime iraniano quisesse estabelecer aquilo que considera um equilíbrio e um jogador de futebol deixou de ter a pena de execução para ficar 16 anos preso, para poucas horas depois haver este campeão karateca, que era um daqueles campeões que queria muito mais. Ou seja, qualquer atleta que tatuo o símbolo olímpico é porque sabe muito bem aquilo que quer e sabe muito bem onde é que quer levar o seu país. E neste caso, a partir deste fim de semana, já não poderá ter essa possibilidade.

Estes casos de que falavas não são isolados, há várias outras figuras ligadas ao mundo do desporto que têm sido presas e condenadas à morte ou penas de prisão, como tinhas referido. Há um intensificar de casos.

Sim, porque há a clara percepção por parte do regime iraniano que o desporto é o motor e o catalisador para uma revolução. Os próprios jogadores, e isso notou-se no Campeonato do Mundo, estão sujeitos a uma pressão enorme. Os antigos jogadores e atletas de outras modalidades têm mostrado o seu apoio a todas essas manifestações de uma maneira diferente. O Ali Daei, por exemplo, que é o segundo melhor marcador de sempre nas seleções, foi o jogador que Cristiano Ronaldo ultrapassou quando se tornou o melhor marcador de sempre de seleções. O Ali Daei, ao contrário do que chegou a ser veiculado, nunca chegou a ser preso. Ainda assim, a sua família, quando viajou, foi depois sujeita a uma série de inquéritos, claramente no sentido de pressionar Ali Daei para não ter mais posições de apoio a todas as manifestações que existiam nas ruas do Irão, sobretudo em Teerão, que é o coração das manifestações. Temos também o Alkarimi, que eu percebi no Campeonato do Mundo que é uma espécie de herói dos adeptos iranianos, por quê? Porque vive no Dubai e está completamente à vontade pra falar de tudo o que está de mal no regime, e isso acaba por promovê-lo a herói. Ou seja, ele é herói muito mais por aquilo que diz hoje fora de campo do que aquilo que fazia dentro de campo, apesar de ter a alcunha do Maradona da Ásia. Ou seja, era alguém que era de fato um bom jogador, mas é aquilo que diz fora de campo que faz dele a grande referência. E depois temos vários outros exemplos de atletas. Por exemplo, temos uma xadrezista que ficou muito conhecida, a Sara Khadem, por ter feito um jogo no Cazaquistão sem ter a cabeça tapada. No início, disse que tinha sido uma distração, depois percebeu-se que não era. O único caminho que poderia ter era encontrar um outro país, neste caso, vive em Espanha. Portanto, nós temos vários exemplos de atletas e depois temos outros que, claro está, que estão presos Que já foram condenados, que no caso deste karateca também já foi executado. Mas a grande preocupação do regime iraniano continua a ser os atletas no ativo e a equipe de futebol. Aí é que está o cerne da questão, porque eles percebem que é daí que poderá vir a voz para esta manifestação poder chegar à tal revolução pretendida.

E fará, de facto, toda a diferença estar no país ou regressar ao país, ou como falavas de casos de atletas que vivem em outros países e, portanto, não enfrentarão.

É muito mais fácil. E depois há aqui uma outra questão, e daí o Campeonato do Mundo ter sido, claramente o Irão pra mim é a história do Campeonato do Mundo, por mais que possamos falar de uma série de histórias antes e durante o Campeonato do Mundo, porque aquilo que se passou naqueles dois andares do hotel Al Rayyan, onde estava hospedado o Irão, sobretudo antes do primeiro jogo, o jogo da Inglaterra, é qualquer coisa de louco. Ou seja, ainda hoje os jogadores iranianos, quando falam do Campeonato do Mundo, nunca falam da prestação, do fato de mais uma vez terem ficado a um gol de uma passagem inédita à próxima fase. Aquilo que falam é especificamente daqueles dias. E por quê? Os jogadores iranianos, por um lado, têm plena consciência de que podem ser o símbolo da revolução. Por outro, estão a ser pressionados, por exemplo, por familiares, que dizem: "Amigo X, familiar Y foi condenado, foi morto, está preso, etc." E como é óbvio, não é fácil para eles lidarem com essa situação. Mas em contrapartida, eles também sabem que qualquer posição pública que eles tomem, é a família deles que está em perigo.

Esse primeiro jogo com a Inglaterra, aliás, foi muito simbólico pelo que aconteceu logo, mesmo antes do jogo começar, com os jogadores a não cantarem o hino, a manterem-se silenciosos. Essas imagens não foram passadas na televisão estatal iraniana e foi interpretado como uma forma de protesto, mas houve uma grande pressão sobre os jogadores durante o campeonato. Havia quem os acusasse nas redes por se terem reunido com o presidente antes da partida para o mundial, tudo isso de estarem coniventes com o regime. O que é que tu testemunhaste no local sobre esta pressão que foi feita sobre os atletas?

Aquilo que se passou, salvo erro, setembro ou outubro, ou seja, na última concentração antes do Campeonato do Mundo, foi uma reunião até às 05:00 de todos os jogadores iranianos para discutir uma só posição, que é: nós somos contra tudo aquilo que se está a passar no Irão. Como é que nós nos manifestamos? E para chegar a um entendimento de que os jogadores nas redes sociais só poderiam falar quando estivessem nos clubes e não enquanto estivessem a representar a seleção, estamos a falar de uma reunião de horas e horas que foi madrugada a fio. Todos eles sabem e têm noção daquilo que querem e daquilo que é preciso fazer. A questão é os caminhos para lá chegar.

"Freedom for Iran".

Até o fato do Irão jogar contra a Inglaterra e contra os Estados Unidos vai adensar ainda mais essa carga política que havia em torno da equipe. Houve uma reunião, mais uma vez, de horas a fio para tomar essa decisão de não cantar o hino. Não deixa de ser curioso que no estádio ouviram-se duas coisas. Por um lado, aplausos, quando as pessoas perceberam que estava a existir uma tomada de posição por parte dos jogadores, mas ao mesmo tempo os assobios que já vinham preparados contra o regime. É muito complicado falar de futebol e numa parte desportiva, quando claramente a política esteve sempre à frente de toda esta campanha do Irão. Nos outros jogos, eles cantaram o hino, mas ainda assim não deixou-- claro está que houve uma pressão enorme do regime depois de ter acontecido isso no jogo com a Inglaterra, de não cantarem o hino, mas houve sempre outras formas de manifestar o apoio para com as manifestações e com aquilo que estava a passar no país. O próprio regime do Qatar e o próprio regime iraniano também fez questão de perceber o que é que se passou no primeiro jogo e a partir daí abafar ou tentar abafar tudo aquilo que aconteceu depois nos jogos seguintes.

Tu foste vendo essa intensidade do controle acontecer?

Sim. Há uma coisa que me recordo bem. No primeiro jogo, alguns adeptos iranianos pura e simplesmente não quiseram falar. Vi um outro que estava a falar pra uma cadeia inglesa, salvo erro era a BBC, que a certa altura interrompeu a entrevista a dizer: "Mas nós estamos aqui por causa de um jogo de futebol ou estamos aqui por uma questão política?" Portanto, as próprias pessoas muitas vezes tinham esse tipo de reação. Agora, eu conseguia falar muito à vontade sobre a parte desportiva, ou seja, os jogos em si, o Campeonato do Mundo, sobre o Carlos Queiroz, sobre o Taremi, por ser também um jogador mais próximo a Portugal, e sobre aquilo que se passava no Irão e a importância que o desempenho da equipe de futebol poderia ter em relação a uma perspectiva internacional daquilo que se passava no Irão. No primeiro jogo com a Inglaterra, conseguia-se falar à vontade. No segundo jogo, já foi muito mais comedido e com uma história que eu não me vou voltar a esquecer, que é: à volta do estádio, havia zonas específicas para fumar. Ou seja, eles não deixavam entrar as pessoas com isqueiros, porque havia mesmo zonas que tinham isqueiros lá pendurados. E foi nessa zona que eu encontrei um iraniano que estava também com a sua mulher, e fomos falando e foi talvez aquele que me explicou melhor aquilo que se passava em Teerão, ou seja, desde pormenores pequeninos da vida mundana, como por exemplo, já passar despercebido as constantes buzinas do trânsito de Teerão Porque a cabeça das pessoas do Irão claramente já não está no trânsito e nas buzinas, já está nas manifestações e no número de detidos e de mortes, etc. Foi explicando tudo isso, como é que fez a viagem, como é que via tudo e a certa altura, quando eu lhe perguntei o nome, disse: "Não, isso nem pensar. Nem pensar eu não lhe vou dar o nome". E eu perguntei: "Mas não haverá problema, não será assim tão fácil de identificar?" Ele: "Não. Nós temos esta conversa aqui, mas eu sei que nesta altura, o próprio regime já pôs aqui algumas pessoas também a vigiar quem é que fala, quem é que não fala, o que é que diz e o que é que não diz". E isso notou-se não só fora do estádio, ou seja, os próprios iranianos tinham essa percepção de que o regime já tinha infiltrados à volta do estádio, como dentro do estádio, as manifestações de apoio a Mahsa Amini, mulheres que levavam a camisola com o nome dela nas costas, os cartazes "Woman, Life, Freedom", que ficou como o grande slogan das adeptas, sobretudo das adeptas iranianas. Tudo isso passou a ser revisto de uma maneira que não teve nada a ver com aquilo que se passou no primeiro jogo, ou seja, qualquer cartaz era proibido, qualquer camisola era proibida. Houve adeptos convidados, entre aspas, a sair do estádio exatamente por terem essas camisolas. E chegou ao ponto de no terceiro jogo, que era o jogo com os Estados Unidos, que também é um jogo politicamente com uma carga enorme, acontecer duas coisas que mostram bem aquilo que se estava a passar. Primeira, vi mulheres que, como sabiam que os cartazes não entravam, as camisolas não passavam e elas podiam ser expulsas, começaram a escrever na mão os slogans e o nome de Mahsa Amini, porque sabiam que a única maneira que tinham era entrar no estádio com o escrito na mão, ir atrás da baliza e perceber que os fotógrafos internacionais estavam exatamente a olhar para elas e iam à procura dessa imagem. E uma segunda, que é os jogadores norte-americanos acabarem o jogo e agarrarem-se aos jogadores iranianos. Ou seja, aí a parte política e a parte de tensão que sempre houve entre Estados Unidos e Irão caiu, porque eles sabiam contra quem é que eles estavam a jogar e sabiam que eram jogadores que estavam sob uma pressão enorme, que tinham tido um desgaste enorme desde que tinham chegado ao Qatar e que muito provavelmente vão continuar a ter esse desgaste. Essas duas imagens mostram bem aquilo que é hoje a equipa do Irão e também o espelho daquilo que se está a passar no Irão.

E são esses mesmos jogadores que recentemente tomaram uma posição que torna bastante claro até onde estão dispostos a ir para estarem do lado destes protestos, que é usarem os prémios de jogo para libertar iranianos que estão detidos. Explica-nos o que se sabe já sobre isto.

A primeira coisa foi tudo abafado no Irão, ou seja, no Irão é uma não notícia, como se nada se tivesse passado. As notícias começaram a surgir primeiro na imprensa do Qatar e foi a partir daí que foram chegando também ao Irão. Dentro das dificuldades que existem, muitas vezes há dias onde os jornalistas do Irão não têm acesso à internet e é difícil comunicar com eles. Mas foram começando a sair notícias de que os prémios que os jogadores do Irão tinham recebido da presença do Campeonato do Mundo, estavam a ser utilizados para pagar fianças a alguns detidos que não tinham dinheiro para pagar essas mesmas fianças. Inclusive detidos, que neste caso não eram acusados de ter matado alguém. E é bom recordar que não há uma única prova de que o campeão nacional de karaté iraniano, que sábado foi executado, tenha matado alguém. Não há uma única prova. E aquilo que os jogadores iranianos fizeram, diz-se discretamente, foi tudo aquilo que são pessoas que foram detidas apenas porque são pessoas conhecidas, porque são pessoas que têm muitos seguidores nas redes sociais, porque são pessoas que muito provavelmente quando tivessem a oportunidade iriam sair do país, mas que têm um certo peso e que o regime iraniano percebia: aqui pode haver um motor para aumentar ainda mais a cadência de manifestações, para levar isto para uma revolução. Esses prémios foram exatamente para essas pessoas. Há um exemplo prático de Payam Nirazmand, que jogou no Portimonense. Aliás, o passe dele ainda pertence ao Portimonense, ele depois voltou para o Irão, para o Sepahan. E só ele conseguiu libertar 20 pessoas, duas mulheres e 18 homens, que estavam exatamente presos por delitos de opinião, que é um dos motivos que têm levado tanta gente presa, delitos de opinião. E, portanto, há pelo menos 20 pessoas que já foram libertadas e houve muitas mais por parte dos jogadores, que mais uma vez fazem tudo no anonimato, porque têm lá família, porque têm lá amigos, porque têm lá conhecidos e alguns deles, porque já sabem que perderam amigos ou familiares no meio das manifestações.

Pelo que leste, enquanto estiveste a acompanhar o Campeonato do Mundo no Qatar e pelo que viste de tudo o que nos contaste, do comportamento até dos adeptos, parece que esta nova escalada de repressão do regime iraniano será eficaz a abafar a luta pelos direitos das mulheres e pelas liberdades no Irão.

Continuo a achar que isto é um caminho que não tem marcha atrás. Acho que existe também um apoio internacional crescente perante a situação, ou seja, porque já estamos a falar de quase 20 mil detidos, já estamos a falar de mais de 500 mortes, já começam a ser números que finalmente começam a chamar a atenção verdadeiramente em termos internacionais, a quem pode, de facto, fazer alguma coisa. O motor para esta revolução são claramente os desportistas. Têm muita vontade de dar o sinal para, ainda não sabem como é que vão dar esse sinal. E é por isso que muitas vezes eles são criticados como são, porque eles querem fazer coisas que sabem que se fizerem, podem colocar em risco famílias, amigos, pessoas próximas. E também não dá propriamente para chegar e tirar do país essas pessoas. Portanto, no fundo acabam por estar de mãos atadas e pouco ou nada podem fazer nesta altura.

Obrigada, Bruno.

Obrigado.

Bruno Roseiro é editor de desporto do Observador. Esta foi a história do dia. Este episódio contou com a colaboração da jornalista Marta Amaral. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.