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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Leiria, as horas críticas depois da tempestade.

Temos geradores a funcionar a combustível. Neste momento, temos combustível para dois dias, mas já estamos a ter fortalecimento, através da Proteção Civil, de combustível diariamente. Em relação à água, estamos a ter o fortalecimento através da rede, mas em caso de falha da rede, também a Proteção Civil já nos garantiu. Falta-nos é, neste momento, as comunicações. Estamos apenas com comunicações internas.

Estas palavras são da diretora clínica da ULS da região de Leiria. Ali, hospitais e centros de saúde funcionavam ontem à tarde com geradores. Houve mais de 230 feridos nas urgências e quatro pessoas morreram com a violenta passagem da Christine pelo conselho. Os homens do terreno descrevem uma cidade isolada, um cenário de horror. Leiria desligada do mundo, sem luz, sem água, sem comunicações, ruas bloqueadas e bairros às escuras. O governo decretou o estado de calamidade até dia 1 de fevereiro, porque os estragos da tempestade foram maiores do que o esperado e Luís Montenegro fez questão de lá ir vê-los ao vivo, mesmo quando as equipas ainda estão a tentar levantar do chão uma cidade destruída.

Nós estamos a mobilizar um conjunto muito significativo de geradores para esta região.

Montenegro não foi o único político a mostrar-se num cenário de catástrofe. O candidato presidencial André Ventura levou o circo de campanha a Leiria, sacudiu acusações de aproveitamento político e até queria mais gente como ele por ali.

Não é aceitável que os principais responsáveis do país estejam em silêncio quando as pessoas estão a sofrer.

Vai o bom senso de Marcelo Rebelo de Sousa, que explicou que este não era o momento.

A pior coisa que pode haver é os responsáveis políticos, tirando os autarcas locais, aparecerem cedo demais, enquanto dura a reação, pelo menos a primeira reação aos acontecimentos.

Mas esta não é uma história sobre políticos, é sobre quem viveu e quem vive as consequências devastadoras da fúria da Christine. É sobre quem dava tudo para não aparecer na fotografia da tragédia, é sobre quem ficou sem saber durante horas se alguém do outro lado da cidade estava bem. Eu vou falar com o Pedro Jorge Castro, ele é diretor-adjunto do Observador, mas eu vou falar com ele como o repórter que lá esteve quando ainda havia telhados no chão, árvores caídas e famílias a tentar salvar o que restava. Eu sou o Pedro Benvides e esta é a história do dia de sexta-feira, 30 de janeiro. Olá, Pedro, bem-vindo.

Olá, Pedro, como é que estás?

Bem, obrigado. Isto é sempre estranho, estar a dar-te as boas-vindas à tua casa, mas efetivamente não estás aqui conosco, estás-

A nossa casa.

A nossa casa, exatamente. Estás em Leiria, precisamente.

Sim, em Leiria, e com uma excelente notícia.

Então conta.

Ao fim desta noite passada, voltou a luz em pequeníssimas zonas à volta do quartel de bombeiros, isto graças a um gerador que foi aqui colocado, o que significa que reabriu o primeiro restaurante em Leiria. E por que isso é um grande acontecimento? Porque as pessoas aqui estiveram mais de 36 horas sem nada, sem internet, claro, sem qualquer rede de comunicações, sem energia, sem água, uma grande parte da cidade sem água e dos concelhos aqui à volta. E, portanto, de repente, não é preciso ir a um raio de 80 km, se calhar, às Caldas da Rainha, para Sul, ou a Coimbra, para Norte, para conseguir coisas tão básicas como um prato de comida quente.

Impressionante.

Muita gente não conseguia fazer. Conseguir avisar familiares ou amigos, ou seja quem for, que viva fora desta zona, desta ilha, que esteve aqui quase isolada do mundo em termos de comunicações. Avisar que estão bem, que está tudo bem, ou que até podem não estar assim tão bem, porque aconteceu alguma coisa com as telhas da casa. Quase todos os edifícios no centro de Leiria têm problemas nos telhados, o que é bastante impressionante. Mas pelo menos estão bem.

O que estás a dizer é que voltou a luz e só isso deu uma certa sensação de normalidade que durante os últimos dois dias não houve.

Atenção à questão das expectativas. Voltou a luz numa pequeníssima zona, mas isso permite até ver o contraste. Entretanto, já vi pessoas contentes a comentar com outras: "Já voltou ali, já voltou na Nova Leiria, já voltou naquela zona, já há sinais naquela zona". Portanto, vai começar esta euforia, digamos assim, esta alegria por as pessoas reconquistarem algo que é tão básico e que já damos por adquirido normalmente, e que nem pensaríamos que fosse possível estarmos tantas horas sem isto. Mesmo depois do apagão recente, isto ter voltado a acontecer é surpreendente. Até por esta questão de falta de um horizonte, ou seja, as pessoas perguntam, não há ninguém que não aborde o presidente da Câmara a perguntar quando é que volta a eletricidade. É a primeira pergunta que toda a gente lhe faz. Quando se pergunta isto ao primeiro-ministro e aos governantes, ninguém se quer comprometer com prazo. O argumento é para não estar a frustrar expectativas.

E as pessoas como reagem a isso? Estão desesperadas ou estão resignadas? Como é que foi a adaptação a esta nova realidade? Porque eu lembro-me quando foi o apagão, as pessoas, de repente, parecia que tinham regredido séculos.

Sim, e aqui aconteceu o mesmo, imagina. Ao fim da tarde desta quinta-feira, já ali no princípio da noite, passei num dos miradouros mais bonitos da cidade e era desolador. Conseguias apontar a dedo os focos de luz que havia, que eram pouquíssimos, em edifícios que têm, de facto, gerador. Muito poucos mesmo, numa cidade com centenas de prédios e, portanto, era a cidade a escurecer às 18h, com as pessoas a irem dormir mais cedo, porque não têm nada para fazer, não têm maneira de comunicar com ninguém.

E como é que resolvem problemas como a água, por exemplo, porque também faltou em muitas zonas da cidade.

É verdade. Vi de duas maneiras. Uma fazendo filas nos supermercados. Alguns supermercados abriram e as pessoas iam comprar garrafões d'água. E outra cena que também não é muito habitual, já vê-se hoje em dia nas principais cidades portuguesas, seguramente, que é ir à fonte. Há uma fonte aqui em Leiria, que é a Fonte das Três Carrancas, que tem três saídas d'água, digamos assim, e estava cheia no fim da tarde desta sexta-feira.

Imagina filas de pessoas.

Pessoas com garrafões para ir buscar água, que nem sequer é potável. Atenção, aquela água não pode ser bebida, espero que as pessoas saibam disso, mas seguramente, pelo menos permitirá ser usada para sua higiene pessoal, que já tem alguma importância. Outra nota sobre isso tem a ver com a forma como as pessoas lidam com isto. Primeiro, até há uma certa compreensão de que isto é um fenômeno atmosférico, enfim, uma tempestade, se calhar, não havia nada a fazer, mas à medida que passa o tempo, cada hora a mais, sem nenhum destes bens básicos, é um fator criador de tensões. O presidente da Câmara de Leiria dizia-nos, na tarde desta quinta-feira, que sexta-feira faria 48 horas sem estes bens básicos. Dois dias sem banho, dois dias sem energia, e que a partir de uma certa altura, a tolerância das pessoas para com isto seria cada vez mais diminuída.

Vai diminuir, claro. Pedro, eu quero ouvir falar mais sobre as horas que passaste com o presidente da Câmara, que teve de lidar com esta situação logo no imediato, como é que ele fez isto sem comunicações ativas, e quero também ouvir o teu relato, que estiveste na zona mais afetada, onde morreram duas pessoas. Vamos conversar sobre isso já daqui a pouco. Pedro, estamos de volta. Falava contigo sobre a história do presidente da Câmara e as coisas que ele te tinha dito. O presidente da Câmara de Leiria, de repente, tem uma cidade que está parcialmente destruída, sem comunicações, isolada. Como é que foram essas primeiras horas para tentar perceber o que se estava a passar, o que ele podia fazer?

Sim, olha, o presidente da Câmara foi acordado por um vereador seu a dizer que a cidade estava de pantanas. E ele acha que este vereador é um bocado exagerado, e não ligou assim muito, mas quando saiu de casa, bastou-lhe dobrar a esquina e começar a ver todos os outdoors no chão, placas no chão, árvores, cortar todos os caminhos e a sua própria dificuldade em avançar e percebeu.

O que ele falou de um cenário de guerra, é exagerada essa descrição ou achas que é parecido, de facto?

Na verdade, claro, não está a haver uma guerra, e esperamos que não haja.

Sim, claro.

Mas há várias consequências parecidas com aquilo que nós nos habituamos a ver em cenários de guerra, nomeadamente, por um lado, a destruição, enquanto não forem recolhidas todas as árvores, enquanto as pessoas tiverem que andar a contornar obstáculos para chegar aos seus destinos, enquanto as pessoas estarem a fazer contas se vão gastar combustível para esta deslocação ou não, porque já estão a ficar sem nada no depósito e não querem ficar cinco horas na fila de uma bomba de gasolina que fique aqui mais próxima. E além, obviamente, do breu, da escuridão. A escuridão à noite, a partir das 18h, na quarta-feira, primeira noite depois de ter tempestade, era uma imagem impressionante, de facto, ver essa escuridão em toda a cidade. A cidade apenas estava iluminada com os faróis dos carros, dos poucos carros que circulavam, alguns curiosos também, enfim, e de cinco ou seis edifícios públicos, dois bancos, imagina, um hospital, alguns edifícios aqui e ali, mas uma gigante mancha negra em toda a cidade.

E como é que um responsável político faz nas primeiras horas em que a cidade está mergulhada nessa escuridão e nesse isolamento do resto?

A primeira dificuldade dele foi precisamente comunicar com a sua equipa e com os vereadores, com os presidentes de junta. Tem 20 presidentes de junta, Leiria tem 27 freguesias, e o que ele fez foi dividir os vereadores, pediu a cada vereador para ir pessoalmente buscar cinco presidentes de junta, para combinarem encontrar-se a uma determinada hora, aqui precisamente no quartel dos bombeiros, de onde estou a falar contigo. E por quê aqui? Porque é o único sítio que tem internet. Este era o único sítio conhecido, público, tirando um ou outro hotel nos arredores, um hotel na Marinha Grande, enfim, que eu sei que tem um gerador e que tem internet, mas este é o único sítio conhecido num raio de 80 quilômetros com Wi-Fi, imagina o que é isto. E nem sequer está aberto, obviamente, à população em geral. As pessoas não vêm para aqui.

E foi a partir daí que ele começou a organizar, digamos, a age imediata.

Exatamente. Sendo que esta dificuldade de comunicação manteve-se ao longo destas primeiras quase 48 horas a lidar com esta tempestade, porque qualquer decisão básica, como por exemplo, comprar lonas para as pessoas taparem os telhados das casas, que ficaram esburacados Criou uma iniciativa de oferecer lonas às pessoas para poderem proteger as suas casas. Isto, em condições normais, era um telefonema para a pessoa que é responsável pelas lonas e as lonas apareceriam. Aqui não, eu tenho que pegar no carro, tenho que ir diretamente à fábrica ou à empresa onde estão as lonas. Tenho que deslocar esses quilómetros, falar com o responsável, combinar com o responsável exatamente onde é que vai ser entregue, ter a certeza que vai estar lá alguém. Tudo é feito com deslocações pessoais. Outro detalhe interessante, ele esteve duas horas sem rede na tarde desta quinta-feira, pouco depois de receber o primeiro-ministro Luís Montenegro, pouco antes de receber José Luís Carneiro e na altura em que estava André Ventura na cidade, sei que alguém próximo de André Ventura até perguntou se eu poderia ir recebê-lo e não foi possível, porque teve a essa hora um voo com a Proteção Civil para sobrevoar a região e avaliar os estragos. Nessas duas horas em que eu estive sem rede, eu tinha 1200 mensagens, dezenas de chamadas não atendidas. E são pessoas importantes, obviamente, do governo, com quem ele precisa de falar, pessoas que precisam de falar com ele para resolver uma série de questões prementes e, na verdade, ou se desencontram, ou quando ele tem rede, as pessoas não podem por questões de agenda e tudo isto se complica muitíssimo sem os padrões normais de comunicação com os quais nos habituamos a viver nesta era tão rápida.

É impressionante esse relato. Pedro, tu estiveste em Carvide. Carvide foi uma das zonas mais atingidas pela tempestade Christine e foi lá que morreram duas pessoas. O que tu viste por lá?

Sim, Carvide fica ao pé da Base Aérea de Monte Real. Na Base Aérea de Monte Real foram registadas rajadas de 176 km/h, que é um dos valores mais altos da noite da tempestade. E, por um lado, obviamente, fui tentar contar as histórias das pessoas que morreram. Num caso, um pai e um filho que foram tentar conter o portão em plena tempestade para o portão não cair e o portão desabou para cima deles. O filho morreu, era um pintor da construção civil, o pai ficou ferido em 50 e foi 3 km pessoalmente até ao quartel dos bombeiros. Lá está, falta de comunicações, as pessoas têm que se deslocar a pé. Muita gente foi a pé pedir ajuda aos quartéis dos bombeiros, no caso, ao quartel dos bombeiros de Vieira Leiria, para tentarem resgatar o filho, que obviamente já tinha morrido. Depois, ali a 3 km, em Moinhos de Carvide, uma moçambicana de 28 anos que vivia numa casa móvel, que estava fora desta casa móvel, é uma casa pré-fabricada com rodas, uma casa portátil, estava fora desta casa, o vento tombou a casa para cima dela. Os bombeiros chegaram e ainda tentaram fazer massagem cardiorrespiratória, mas não conseguiram evitar este óbito. E depois tive relatos das pessoas que estiveram no centro do furacão. Se calhar não é uma muito boa expressão, porque faz confusão com outras coisas, mas estiveram ali mesmo no centro da tempestade e onde isto foi sentido com mais intensidade, a relatar como é que passaram aquelas horas. Por exemplo, um senhor, um morador vizinho deste pintor falecido, contou que saiu de casa a meio da tempestade, porque começou a sentir as telhas a voarem, digamos assim. Saiu de casa para tentar ver o que é que se estava a passar e veio uma telha de 4 m em direção a ele, com a força do vento, que o atingiu na cabeça e voltou imediatamente para casa. Depois ele diz que isto até foi obviamente uma inconsciência e não devia ter feito isto. Mas tem uma descrição curiosa, que é a forma como ele viu as árvores, a força do vento com as árvores, parecia que alguém estava a brincar com as árvores como se fosse plasticina, a agarrá-las como se fosse plasticina e a dobrá-las de um lado para o outro.

É uma imagem muito forte.

Muito poderosa.

Muito visual e quem nos está a ouvir deve estar a imaginar exatamente o que é que foi isso. Poderá ler-te também, porque vai se escrever sobre essas experiências. Pedro, muito obrigado.

Obrigado eu, Pedro.

O Pedro Jorge Castro está ainda em reportagem em Leiria, cidade onde, se tudo correr bem, a água deverá regressar a algumas freguesias durante o dia de hoje. Ainda assim, nas zonas mais afastadas vai demorar até que o fornecimento de água regresse à normalidade. Durante o dia de hoje, o ministro da Economia vai ter a agenda cheia de reuniões com os autarcas das zonas mais afetadas. Vai estar em Leiria e em Coimbra e vai acompanhado de vários secretários de Estado para ouvir de viva-voz o que é preciso fazer e em que áreas e onde é que os apoios são mais urgentes. E nos Estados Unidos foi convocada uma espécie de greve geral para esta sexta-feira, um shutdown nacional em protesto contra as ações do ICE, o violento serviço de imigração e alfândega, que este mês de janeiro matou duas pessoas em Minneapolis. Um shutdown que coincide com o último dia do prazo para republicanos e democratas se entenderem para evitar um novo shutdown por falta de financiamento para o setor público americano. E precisamente por causa do ICE, a coisa não estava fácil. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.