Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia, da Rádio Observador. "Et maintenant", e agora Marine Le Pen poderá vencer? Na manhã seguinte às eleições, Emmanuel Macron já estava na rua, no norte de França, em Denain, onde Marine Le Pen conseguiu mais de 40% dos votos. O presidente francês venceu a primeira volta das presidenciais e em segundo lugar ficou a líder da extrema-direita francesa. Marine Le Pen, que se deixou gravar pelos jornalistas numa reunião matutina na sede do partido, a União Nacional, em Paris. Aos conselheiros, Le Pen prometeu entrar com serenidade na segunda volta. Vamos a contas. Emmanuel Macron conseguiu 27,8% dos votos. Marine Le Pen, 23,2. Os dois candidatos à Presidência francesa vão a uma segunda volta, a 24 de abril. Como vão ser distribuídos os cerca de 50% dos votos dos outros candidatos? E Marine Le Pen poderá vencer Macron? Vou conversar com a jornalista Cátia Bruno, enviada especial do Observador a França. Bem-vinda, Cátia Bruno.

Olá, Ricardo.

Cátia, passaste a noite das eleições no domingo num bar em Montmartre. Não é um mau sítio para se passar uma noite de domingo com eleitores de esquerda desiludidos com os resultados e no final cantou-se La Bohème, imortalizada por Charles Aznavour. Recordações daqueles tempos que os que têm menos de 20 anos não conhecem. Mas há outro verso de uma outra canção que não me sai da cabeça, esta é de Gilbert Bécaud. Esta é uma pergunta que estará na cabeça de muitos milhões de eleitores franceses, Cátia: e agora, o que é que vou fazer?

É verdade. Muitos eleitores franceses não sabem em quem irão votar nesta segunda volta, se Marine Le Pen, se Emmanuel Macron. E também há muitos que até consideram votar em branco ou mesmo não ir votar. Mas agora há essa decisão que é preciso ser tomada daqui a duas semanas.

E nesta altura, Cátia Bruno, quem é que tem vantagem?

Por enquanto, segundo as sondagens, Emmanuel Macron segue à frente. Foi divulgada uma sondagem ainda esta segunda-feira que lhe dava 54% das intenções de voto contra 45 para Marine Le Pen. Mas há muitas outras sondagens que mostram Marine Le Pen muito mais próxima do atual presidente e neste momento está tudo em aberto. Portanto, apesar de Macron ter vantagem, não é de todo certo que vença a eleição.

Cátia, estou aqui a ouvir-te e estou a lembrar-me de personagens que eu sei que tu e eu gostamos e admiramos bastante, Asterix e Obelix, pra dizer aqui com pronúncia afrancesada, e vou citá-los neste ponto. Se alguém nesta altura apostar e dizer que vai vencer Macron ou vai vencer Le Pen, podemos citar Asterix e Obelix dizendo:"Partout atis son fous, ces Romains."

Sim, eu creio que se alguém fizer previsões com muita certeza, está louco, de certeza, porque faltam duas semanas, a campanha está em aberto, muito pode acontecer e a diferença que separa Macron do Le Pen nas sondagens é muito curta, é até mais curta do que a que se registava há quatro anos, em 2017. Por isso, é mesmo impossível prever o que vai acontecer.

No mundo real, Marine Le Pen fez o trabalho de casa, pelo menos o que vão contando os jornais franceses. Andou em campanha por cidades e pequenas aldeias gaulesas e Macron continua a ser visto um pouco como candidato das elites francesas. Como é que vão ser estas duas semanas de campanha e quem é que é preciso convencer para garantir a vitória a 24 de abril?

Emmanuel Macron, de facto é visto por muitos como candidato das elites. Ao longo desta semana em França foram várias as pessoas que me diziam: "Macron é o candidato dos ricos." Era exatamente esta a expressão utilizada, sem quaisquer paninhos quentes. Estes eleitores, Macron precisa de os convencer e precisa de demonstrar que tem uma mensagem para a classe média, que tem uma mensagem para os mais desfavorecidos e precisa de os fazer acreditar que a sua postura em termos económicos é suficientemente aceitável para ultrapassar a dificuldade que têm em apoiá-lo ou, o que será o mais provável, tentar convencê-los de que apesar das suas propostas económicas, ele é melhor para as suas vidas do que Marine Le Pen. Marine Le Pen, por outro lado, tentará convencer as pessoas de que não é uma candidata tão radical como os media a pintam.

Nesta campanha decidi ser livre das ligações partidárias para estar ao serviço de todos e dirigir-me diretamente a vocês.

Tentará mostrar que está mais distante da extrema-direita do que já esteve e que hoje em dia é uma candidata muito mais moderada e por isso vai continuar a insistir na mensagem económica, sobretudo. O grande lema da sua campanha tem sido lidar com o custo de vida, com a subida do custo de vida, mas não é certo que consiga convencer alguns que, apesar de odiarem Macron, têm muita dificuldade em votar em Marine Le Pen.

Sabemos quem nunca votaremos.

E para estas contas também é importante falar num terceiro elemento, Jean-Luc Mélenchon, da extrema-esquerda, conseguiu uns importantes 22% dos votos e pode ser decisivo. Os eleitores de Mélenchon podem ser decisivos, ficou em terceiro lugar. Mas ao contrário de outros candidatos, Mélenchon só disse para não votarem na senhora Le Pen.

Portanto, você não deve dar um voto à Sra. Le Pen.

E não disse:"Votem em Macron",como outros candidatos fizeram.

Repito, porque às vezes acontece que mesmo quando digo as coisas, é como se eu não as tivesse dito. Então recomeço neste ponto do filme. Não devemos dar nem um único voto à Sra. Le Pen! Não debemos dar nem um único voto à Sra. Le Pen! Não devemos dar nem um único voto à Sra. Le Pen!.

Os votantes à esquerda, Cátia Bruno, também podem votar à direita? O que poderá acontecer a 24 de abril?

Eu diria que os eleitores de Mélenchon serão os mais preciosos tanto para Macron como para Marine Le Pen, porque aquilo que as sondagens nos mostram é que entre os eleitores que votaram na extrema-esquerda de Mélenchon, na França Insubmissa, encontramos eleitores que consideram apoiar Marine Le Pen e outras que consideram apoiar Emmanuel Macron e encontramos ainda outros que dizem que não conseguem votar em nenhum dos dois e que não sabem o que irão fazer. Portanto, há aqui conjunto de eleitores que será muito precioso para estas duas campanhas, porque estamos a falar de 22% nesta primeira volta, é uma quantidade muito considerável de eleitores, e que dentro destes 22%, há pouco de tudo. Há pessoas que apesar de terem votado no candidato de esquerda, consideram que a mensagem de Marine Le Pen, em termos económicos, lhes diz algo e portanto, podem não ter pudor em votar agora na extrema-direita. E temos outros eleitores que embora se considerem de esquerda, acham que Emmanuel Macron não é um candidato da esquerda e, portanto, têm dificuldade em votar nele. É claro que alguns, entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen, não têm dúvidas e votarão Macron mesmo contrariados, mas há muitos também que ainda não sabem o que fazer e, portanto, este grupo de eleitores será sem dúvida o mais cobiçado pelas duas campanhas.

E há dois caminhos claros para a França e também para a União Europeia, porque a França é muito importante no contexto europeu, que estão claramente representados em cada um desses candidatos ou essa necessidade de chegar a todos os eleitores pode esbater diferenças?

Eu creio que não baterá as diferenças de fundo. Marine Le Pen, apesar de estar a tentar aparecer como uma candidata mais moderada, não abandona as suas bandeiras.

O que estará em jogo nesse 24 de abril não é somente um voto de circunstância, mas uma escolha de sociedade e até mesmo de civilização. Do seu voto depende, de fato, em todo o território francês, a legítima preponderância da cultura e da língua francesas.

Aquilo que tem feito é tentar falar menos de política europeia, por exemplo, e focar-se muito mais na política interna francesa. E Emmanuel Macron também não deixará de lado a sua postura de um candidato europeísta e um candidato com posições muito claras no plano internacional. A grande questão é que o plano internacional pode não ser muito relevante na campanha. A maior parte dos eleitores está mais preocupada com o seu dia a dia, com a sua vida e até mesmo a influência de fatores internacionais como a guerra na Ucrânia, é muitas vezes mais percecionada pelos eleitores pelos efeitos que tem na sua vida prática, nomeadamente através do aumento dos preços dos combustíveis, por exemplo.

Seja porque eles se sentem insuficientemente representados, ouvidos, associados. Quero convencê-los nos próximos dias que nosso projeto responde bem mais solidamente que aquele da extrema-direita aos seus medos e aos desafios do tempo. Contem comigo.

Portanto, eu diria que as diferenças não serão muito batidas, mas o foco da campanha talvez seja mais concentrado em temas específicos onde a questão europeia e de política externa não tem tanto lugar

Em 2017, o debate na televisão foi determinante para a segunda volta com estes mesmos protagonistas. As posições de Macron e Le Pen sobre a União Europeia foram determinantes nesse debate. Agora, Cátia Bruno, vai haver debate entre os dois?

Sim, vamos ter debate dia 20 de abril. Será o único debate desta campanha, porque Emmanuel Macron não quis participar em debates na primeira volta e portanto eles acabaram por não se realizar. Dia 20 de abril teremos agora os dois candidatos principais frente a frente e esse debate pode ser muito relevante, porque recordemos que em 2017, por exemplo, o debate não correu nada bem a Marine Le Pen. Ela foi vista pela maior parte dos eleitores como tendo uma postura muito agressiva e isso não caiu bem. Quase certeza que desta vez Marine Le Pen adotará outra estratégia e quem sabe que influência que isso poderá ter nos votos, até porque a eleição é quatro dias depois desse debate.

E a guerra na Ucrânia também é tema. Vimos fotografias de Macron no Eliseu num fim de semana, de roupa desportiva, cara pesada, barba por fazer, um líder em guerra à semelhança de Zelensky. A guerra na Ucrânia é também tema nestas eleições, Cátia?

Eu diria que Emmanuel Macron vai fazer de tudo para que seja e Marine Le Pen tentará que isso não aconteça. Isto porque Macron beneficia com este tema por duas razões: por um lado, porque é presidente e pode usar estas ferramentas, como as fotografias do Eliseu, em que como presidente acaba por ocupar o espaço público numa função de peso, respeitada, preocupado, e isso joga sempre a seu favor.

E a França é uma potência nuclear.

Exatamente. E, portanto, esse fator joga sempre um pouco a favor de Emmanuel Macron. Por outro lado, certamente ele quererá trazer o tema pra campanha, porque dá-lhe muito jeito encostar Marine Le Pen a Vladimir Putin. Não podemos esquecer que Marine Le Pen ainda em 2017 se encontrou com Vladimir Putin, por exemplo. O seu partido, a União Nacional, tem um empréstimo que foi concedido por um banco russo, que está agora sancionado, que continua a pagar, e Emmanuel Macron tentará fazer esta colagem da Le Pen à Rússia, enquanto que certamente a candidata da União nacional tentará distanciar-se e tentará que esse tema não seja assim tão relevante e quando surgir tentará ligá-lo mais uma vez à vida concreta dos franceses através de questões como a economia.

Mas hoje, Marine Le Pen, Cátia, tem mais hipóteses de vencer e entrar no Palácio do Eliseu em Paris do que tinha em 2017 ou não?

As sondagens mostram-nos que sim. A diferença que separa Macron de Le Pen nas sondagens já nesta primeira volta era menor do que tinha sido em 2017. E depois não podemos esquecer que em campanha muito pode acontecer. Ainda faltam duas semanas e, portanto, parece-me que seria completamente irresponsável dizer que Macron tem o assunto arrumado e que será, sem dúvida reeleito. Até porque há muito tempo que em França um presidente não é reeleito, convém não nos esquecermos.

É, mas Cátia, eu acho que podemos afirmar com elevado grau de certeza que a enviada especial d'O Observador, pelo menos nestas próximas duas semanas, vai ter mais uns dias de abuso de pain au chocolat e croissant, ou não?

Sim, eu diria que absolument é a resposta a essa pergunta. Quanto ao resultado das eleições, será mais on verra.

Obrigado, Cátia.

Obrigada eu, Ricardo.

A Cátia Bruno é jornalista d'O Observador e especialista internacional. Nas últimas semanas já esteve na Ucrânia, Hungria, Eslováquia, Polónia, Estónia e agora em França para acompanhar as eleições presidenciais francesas, que ganham ainda mais importância num contexto de guerra na Europa. A segunda volta é a 24 de Abril. Esta foi a história do dia. No início da conversa com a Cátia Bruno ouvimos sons da televisão francesa, da BFMTV e também da France 24, sobre sondagens que dão a vitória a Emmanuel Macron. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã!