Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que é o eixo da revolta e porque é que Donald Trump pode estar a abrir caminho para o domínio da China.

An armoured train carrying the North Korean leader Kim Jong-un has crossed into the Chinese border, making its way to the capital, Beijing. Kim Jong-un is expected to join around 20 other world leaders at Wednesday's military parade in Beijing, marking Japan's surrender 80 years ago, ending the Second World War.

Foi o último a confirmar a presença e era a peça que faltava para compor o chamado "eixo da revolta". O líder norte-coreano viajou no habitual comboio blindado para a China para assistir à gigantesca parada militar que assinalou os 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial. Foi um momento histórico, a primeira vez que Kim Jong-un esteve lado a lado com vários líderes internacionais no mesmo sítio, em especial os presidentes da China, Xi Jinping, da Rússia, Vladimir Putin, e do Irão, Masoud Pezeshkian. Juntos formam o que se convencionou chamar agora de "eixo da revolta", um grupo de países que se opõe à influência geopolítica dos Estados Unidos e quer instaurar uma nova ordem mundial. A instabilidade diplomática de Trump, que hostiliza aliados de décadas, pode estar a deixar o caminho livre para um maior domínio da China? Que poder e influência pode ter este eixo da revolta? São questões para a conversa com Jorge Tavares da Silva, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade da Beira Interior e analista em assuntos chineses. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 03 de setembro. Bem-vindo, professor Jorge Tavares da Silva.

Obrigado, é um gosto.

As atenções têm estado centradas nos últimos dias na China, não só pela presença no país de Vladimir Putin, e sabemos bem como depois do início da guerra na Ucrânia, as viagens ao estrangeiro do presidente russo têm sido raras, mas também pela presença de outros líderes, como os presidentes da Índia, da Coreia do Norte e do Irão. Tudo começou no domingo com a reunião da Organização de Cooperação de Xangai. Para também contextualizarmos um pouco este tema, que organização é esta e quando é que surgiu?

De facto, esta organização não é tão conhecida como outras do ponto de vista internacional. Tem ganho alguma repercussão e tem sido mais falada e é natural que agora as pessoas também se questionem que organização é esta. É uma organização que foi criada em 2001, muito por iniciativa da China. Na altura, agregando países para além da Rússia, sobretudo o Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão, que são aqueles países que nós designamos de Ásia Central. São países que são vizinhos da China e que a China tenta apaziguar a sua instabilidade interna para que não contagie o seu ambiente interno, sobretudo nas suas regiões do norte e aqui estou a pensar na sua parte sobretudo islâmica. Temos ali uma província chinesa conhecida por Xinjiang, que tem comunidades que são islâmicas, que criam às vezes alguma instabilidade interna e portanto, ao cooperar com estes países através desta organização, a China tenta criar um clima harmonioso e não ter instabilidade interna. A ideia inicial foi esta, claro que cooperando também com a Rússia. Hoje podemos dizer que já não é só isto, já se alargou a outros domínios, já tem outros atores, tem uma dimensão muito maior, mas o objetivo inicial foi este.

Ultimamente tem-se falado muito na expressão do eixo da revolta, em inglês "The Axis of Upheaval", que segundo percebo surgiu primeiro num artigo acadêmico publicado no ano passado. Ela é usada para descrever esta proximidade, colaboração, talvez mais isso, entre estes quatro países, a China, Rússia, Irão e Coreia do Norte. A China quer claramente ser a ponta de lança deste eixo.

Claramente. É um pouco também o eixo dos descontentes, porque é um conjunto de países que não aceitam muito bem as regras como o mundo estabeleceu e que querem ter um conjunto de vontades, um conjunto de desejos, que depois acabam por sentir os obstáculos da ordem que está instituída. Vamos colocar aqui a questão, por exemplo, nuclear da Coreia do Norte, que quer continuar a desenvolver o seu programa, mas não quer ver limitadas as suas ações. Temos as aspirações territoriais da China, nem falo tanto da questão de Taiwan, que essa ainda poderá ter algum enquadramento jurídico mais justificado, mas, por exemplo, o mar do sul da China é muito discutível e a China quer esse expansionismo territorial e não quer que lhe travem esse processo. Temos a Rússia também com aspirações territoriais. O próprio Irão, com o seu processo também todo de expansão de influência regional. Estes países querem viver no sistema internacional com a sua vontade, muito exaltados no seu nacionalismo, com as suas lideranças fortes e não querem amarras. E ao não querer amarras, estão todos agregados. Pensar também que são países altamente sancionados, o Irão, a Coreia do Norte, a própria China foi muito sancionada depois da crise de Tiananmen. São países que o Ocidente sempre carregou a sua política de sanções. Dizem frequentemente que são contra a política de sanções que lhes é aplicada, nomeadamente pelas próprias Nações Unidas. E portanto, este eixo dos descontentes agregam esforços entre si, aliam-se em grande medida, ou pelo menos estabelecem parcerias entre si para tentar contrariar essa ordem liberal que vem muito por imposição ou por orientação daquilo que nós chamamos o Ocidente, e é este tipo de posição que eles estão aqui a defender. A Rússia, sendo um destes países, é evidente que sendo um destes países ditos descontentes, é natural que sintam o apoio dos demais parceiros e portanto, é este tipo de parceria e de apoio que estes países estão a dar à Rússia.

E para Putin, esta viagem, para além de conseguir apoios importantes, tem também esse efeito simbólico, de passar mais uma vez a mensagem de que a Rússia não está isolada e de que existe uma parte significativa do mundo não ocidental que apoia Moscovo.

Claramente. E, portanto, é uma oportunidade de mostrar. Claro que há outras dimensões também de cooperação, até de apoio do ponto de vista tecnológico, do apoio no sentido de acesso a crédito, que é uma coisa muito importante agora na Rússia, que estamos a assistir uma dificuldade maior na economia que não tinha no ano passado e que agora já começa a sentir essas dificuldades por causa do esforço de guerra na Ucrânia. Portanto, também há essa cooperação toda, particularmente com a China, mas também é visível que quer dar ao mundo, mostrar que toda esta política de tentativa de isolamento não está a surtir efeito. Claro que para alimentar, também vamos ser muito claros nisto, para alimentar a sua população interna, o seu nacionalismo. Aliás, estas potências são muito nacionalistas, quer a China, quer a própria Índia, quer a Rússia, são nações exaltadas no seu orgulho e, portanto, também mostrando ao seu povo, Putin quer mostrar ao seu povo que as políticas de isolamento que lhe têm sido aplicadas não estão a surtir efeito e portanto mostrar força, mesmo que às vezes tenha fraquezas encobertas, mas vai tentar fazer isso. E os outros parceiros que estão a tentar que a Rússia não caia. Portanto, é essencialmente isto, estão a lhe dar apoio para que a Rússia não caia e portanto, o que poderia enfraquecer todo este eixo do sul.

Já regressamos à conversa com Jorge Tavares da Silva, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade da Beira Interior e analista em assuntos chineses. Na segunda parte vamos falar de como a China está a aproveitar a instabilidade criada por Trump para tentar criar uma nova ordem mundial. Estamos de regresso à conversa com Jorge Tavares da Silva. Assistimos esta quarta-feira ao culminar destes dias, uma grande parada militar na Praça da Tiananmen para celebrar os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, após o Japão ter assinado a rendição. É o primeiro evento público em que pela primeira vez estavam presentes no mesmo local os líderes da China, da Rússia, da Coreia do Norte e do Irão. Vamos aqui primeiro um pouco ao lado simbólico. Há também aqui uma forma de estes países reclamarem o papel que tiveram no final da guerra e na formação de uma nova ordem internacional pós-guerra, contrariando um pouco aquela narrativa do protagonismo que é normalmente atribuído apenas ao Ocidente e ao que aconteceu na Europa, não é?

Sim, claramente, e há até por parte destes países, nomeadamente da China e da própria Rússia, uma tentativa de reescrever a história, exaltando os seus feitos e tentando diminuir um pouco o papel, ou até esconder um pouco o papel que outros tiveram neste processo. Também se calhar faz parte um pouco das narrativas de cada uma das nações do mundo, de exaltar os seus e se calhar não evidenciando os outros, mas claro que há aqui atores que também tiveram papel importante na luta concreta contra o Japão, os próprios Estados Unidos, como sabemos, que foi fundamental nesse processo, e até os próprios nacionalistas chineses, que a outra parte da China também teve no combate ao Japão e que certamente a China comunista não quer salientar os heróis da guerra contra o Japão, que foram protagonizados pelos nacionalistas, que depois como sabemos, fugiram para Taiwan no final da guerra civil. Todo esse lado da história, inclusivamente o papel dos Estados Unidos, é descurado neste processo e é exaltado o papel do Partido Comunista Chinês e com os outros parceiros regionais. Temos que ter noção disto, porque no fundo a história muitas vezes é aquilo que se conta e que os historiadores e que as narrativas políticas tentam fazer, evidenciando determinados feitos, às vezes mais lendários do que reais, mas muitas vezes é isso que acontece. Agora, é um caso singular, termos a China, a Rússia, a Coreia do Norte e o Irão, os líderes destes países, todos juntos, demonstrando a tal força, a tal tentativa de mostrar força em relação ao Ocidente. Eu acho que aqui a mensagem também é muito clara. Eu acho que tentam, sobretudo, responder aos Estados Unidos mostrando esta, eu não lhe queria chamar aliança, porque é muito forte para países com este tipo de relações no sul global, mas é uma parceria muito forte entre estes países e, portanto, se tentam fazer alguma coisa em relação à China, em relação à Rússia, não vão conseguir, porque nós estamos com toda esta força agregados e com o objetivo político determinado de também oferecer alternativas ao mundo.

Esta parada gigantesca foi também uma clara demonstração de força militar, com mísseis, caças, armamento exibido pela primeira vez ao público, segundo os chineses, num evento muito coreografado. Para além do simbolismo de que falámos, é de facto também uma forma de a China marcar posição, mostrar ao mundo todo o seu poderio militar?

Claramente também, estamos a falar do maior exército do mundo do ponto de vista de efetivos. Estamos a falar de uma modernização militar e muito naval nos últimos anos, sabendo nós que os Estados Unidos, por exemplo, eram uma potência naval até há muito pouco tempo. Hoje a China está a assumir esse papel, porque as suas preocupações mais prementes são aquelas que estão relacionadas com a sua costa ou mar do Sul da China, como eu falei há pouco, a questão de Taiwan. Tem ido muito por esse caminho, mas também outras demonstrações de modernização que têm sido feitas e também o quererá mostrar como uma forma de dissuadir os outros parceiros internacionais de se atreverem, eventualmente, a travar este processo que a China tem de afirmação de poder, porque é isto. E ao fazê-lo, está a tentar que seja respeitada. Lembrar que no passado, e agora vamos mais uma vez ao passado, a China foi, e é muito na narrativa chinesa, humilhada pelas potências ocidentais, é muitas vezes repetido na retórica interna e chegou o nosso momento, o sonho da China está aí, a nossa afirmação está aí e ao mostrar isto quer ser acima de tudo respeitada.

Vivemos tempos incertos a nível diplomático. Esta agitação toda que Trump veio trazer, provocando até incerteza nos países que foram durante décadas aliados tradicionais dos Estados Unidos, está também a ser vista pelo presidente chinês Xi Jinping como uma grande oportunidade neste plano para tentar redefinir essa ordem mundial.

Aliás, já tinha acontecido um pouco no primeiro mandato de Trump, numa posição muito unilateral, virando-se contra as suas próprias alianças. Trump tem uma política que acaba por facilitar o processo de afirmação chinesa. Aqui nem preciso ir buscar muitos países, basta ver aqui o papel da própria Índia. Claro que não vamos ter a Índia na parada militar, mas tivemos a Índia na Organização Cooperação de Xangai e é uma Índia que ficou aborrecida, a liderança e toda a comunicação social indiana demonstrou também isso, uma certa traição que os próprios Estados Unidos tiveram relativamente à aplicação de tarifas a 50% à Índia, quando não o faz no imediato em relação à China. E sendo a Índia mais próxima dos Estados Unidos que até a China, sentiram que foi se calhar por falta de força, que a Índia tem um tratamento e a China está a ter outro e portanto sentiram bastante as dores deste processo e levaram que o próprio Modi tenha reforçado a sua cooperação com a Rússia e com a China e apareça também em grande destaque nesta cimeira recente da Organização de Cooperação de Xangai. No fundo, facilitando o papel da própria China de agregar estes países ditos do Sul. Podíamos pensar aqui também no papel da própria União Europeia, não está a acontecer até ao momento, mas também poderia ser um espaço geográfico que poderia cair um pouco mais no desejo de agregar mais um grupo de descontentes do ponto de vista internacional. Mas é isso, vai aproveitando bastante esta política severa de tarifas para tentar acolher aqueles que estão descontentes com a posição americana.

Obrigado, Jorge Tavares da Silva.

Obrigado, foi um gosto participar no programa.

Jorge Tavares da Silva é professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade da Beira Interior e analista em assuntos chineses. A terminar, três coisas a ter em conta esta quarta-feira. Termina hoje o período da segunda fase de candidaturas ao ensino superior. Ainda há vagas disponíveis em cursos como Medicina e até Engenharia Aeroespacial. Tudo porque mais de 4000 colocados na primeira fase optaram por não se matricular. O Governo inicia hoje reuniões com os vários grupos parlamentares, com o objetivo de discutir vários temas relevantes para o país, entre eles a apresentação das principais opções do Executivo para o Orçamento do Estado e ainda a Lei dos Estrangeiros e Lei da Nacionalidade. Portugal joga hoje com a Estónia no último jogo do grupo A do Europeu de Basquetebol. Uma partida decisiva que poderá valer ou não o apuramento para a fase seguinte da competição. Esta foi a história do dia. No início deste episódio usámos um som da BBC News. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.