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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O governo da AD ganhou margem para continuar?

Podem contar com um governo e uma Aliança Democrática a cumprir os seus compromissos todas as semanas. O governo não esteve em campanha eleitoral. O governo esteve a cumprir os seus compromissos.

A AD perdeu as eleições europeias para o PS. Uma derrota por alguns milhares de votos, mas é uma derrota. E para o PS, é uma vitória. Mas, na prática, no equilíbrio de forças, as europeias podem não ter mudado nada, e isso abrirá caminho a uma navegação por mares revoltos, mas a viagem poderá continuar. Ou será que vamos assistir a um outro cenário, a uma tempestade, a uma maior instabilidade? É sobre isso que vou conversar com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 11 de junho. Bem-vindo, Miguel.

Viva, Ricardo.

Miguel, foram mais umas eleições em que foi preciso esperar praticamente até o fim para se perceber como iam ficar arrumadas as pedras. E importa perceber, nessa altura, o que é que vamos ter para o futuro. Por regra, aqui na história do dia, deixamos a pergunta do título para o fim, mas neste episódio vamos subverter um pouco essa lógica. E deixa-me aqui recorrer a metáforas náuticas com alguma dose de poesia, também estamos a assinalar os 500 anos de Camões, portanto, se calhar impõe-se. Com este resultado das eleições de domingo, o governo passou o cabo bojador ou o cabo da Boa Esperança?

Eu creio que não é possível dizer com justiça que Luís Montenegro está agora numa posição melhor do que estava antes dessas eleições europeias. Agora temos que ter cuidado com as análises que fazemos em cima destes resultados e numa fase tão prematura. É verdade que a AD perdeu, é verdade que o Partido Socialista ganhou, mas os dois partidos, ou as duas forças, se quisermos, ficaram separadas por escassos 30 mil votos. Portanto, há um impacto técnico evidente a nível eleitoral, que depois se traduz nestas duas eleições que tivemos separadas por muito pouco tempo, as legislativas e agora as europeias, em que de fato as duas forças estão muito taco a taco. Portanto, é verdade que perder umas eleições é sempre negativo, e isso é um ponto a favor do Partido Socialista e de Pedro Nuno Santos, mas é de fato muito prematuro dizer se o governo fica ou não em maus lençóis e se o Partido Socialista está ou não de novo no caminho das vitórias. Acho que é preciso ter muita cautela neste tipo de análises.

Estamos a ouvir algum ruído à volta, não é ruído náutico, são mesmo carros. Estamos a apanhar o Miguel Santos Carrapatoso em trânsito enquanto gravamos esta conversa. E eu vou continuar aqui nas metáforas náuticas, Miguel, porque perante essa tua resposta, podemos dizer que o Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança, quando se passa o cabo, passa a ser da Boa Esperança, vai ser a proposta do orçamento do Estado para 2025?

Sim, e acho que aí mantêm-se os dados que estavam em cima da mesa. Isto é, sempre foi assumido que o orçamento do Estado era, de fato, a prova de fogo de Luís Montenegro. As eleições europeias poderiam desempenhar, e acho que vão desempenhar, um papel importante até essa altura. Ou seja, que tipo de incentivo terão o Chega e o Partido Socialista para chumbarem ou permitirem a viabilização do orçamento do Estado? O que estas eleições europeias nos dizem? Dizem que o Partido Socialista conseguiu uma vitória, tangencial, mas uma vitória, e que o Chega, e acredito que falaremos disso mais adiante, teve uma derrota importante no percurso do partido. Portanto, se quisermos, Luís Montenegro terá no orçamento do Estado que juntar às sondagens que existirem na altura, ao momento da opinião pública, juntar a tudo isso este resultado, e este resultado dá-nos sinais que apontam no sentido do reforço do Partido Socialista, um ligeiríssimo reforço do Partido Socialista em relação à AD, e de uma derrota do Chega. Portanto, que tipo de incentivos terão estes partidos mais adiante para aprovarem ou não o orçamento do Estado? Se olhássemos exclusivamente para este resultado eleitoral, poderíamos dizer, por exemplo, que o Chega precisa de uma demonstração de força mais à frente e, portanto, poderá estar tentado a precipitar essas eleições. E poderíamos dizer também que o Partido Socialista, com esta vitória, ganha um ânimo reforçado para encarar umas eventuais eleições antecipadas. Mas falta muito tempo e é importante fazermos sempre essa ressalva. Muita coisa pode mudar e, portanto, estas eleições europeias são um marco importante, mas não são um marco decisivo para a estabilidade do governo Luís Montenegro.

E olhando para os atores desta epopeia naval, o Bloco de Esquerda e CDU acabaram agarrados a uma boia. Não vão ter papel relevante daqui pra frente ou vão?

Eu casaria esta ideia com aquilo que dizia há instantes. Ou seja, é verdade que o Partido Socialista venceu, é verdade que a AD perdeu, é verdade que o Bloco de Esquerda e a CDU conseguiram, contra algumas expectativas, manter representação parlamentar, embora perdendo a expressão eleitoral. Mas se olharmos para o quadro mais global, o que percebemos é que há claramente uma maioria de direita nestas eleições europeias, tal como houve nas eleições legislativas. Portanto, com um Bloco de Esquerda e uma CDU tão enfraquecidas, como ficou mais uma vez comprovado nestas eleições europeias, não nos podemos esquecer que desde a inauguração da regra geringonça, ganha quem conseguir formar uma maioria no Parlamento. Ora, o Partido Socialista não tem uma maioria à esquerda, não teve nas legislativas e estas europeias vieram reforçar essa ideia. Há uma maioria de eleitores que está a votar à direita, dando ou não a vitória à AD. Portanto, se juntarmos essas peças à esquerda, sobretudo, percebemos que mesmo esses cálculos de um eventual regresso ao poder do Partido Socialista, mesmo depois destas europeias, devem ser lidos com muita cautela. O Partido Socialista ganhou as eleições, mas o Bloco, a CDU, o Livre, o PAN, se quisermos incluir aqui o PAN, tiveram resultados muito aquém das expectativas que os próprios tinham. Portanto, respondendo à tua primeira pergunta com esta tua segunda observação, não foi uma noite de excelentes notícias para a esquerda e, por maioria de razão, não foi uma noite de excelentes notícias para o Partido Socialista, pelo menos apenas de boas notícias para o Partido Socialista.

Já voltamos à conversa com o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto do Observador. O que vão fazer os outros atores deste drama? Governar Portugal em turbulência? Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador.

Não virá do PS nunca a instabilidade política em Portugal.

Miguel, Pedro Nuno Santos cantou vitória na noite de domingo, venceu as eleições, apresentou o PS como a primeira força política, mas também disse o que acabamos de ouvir, que não vão ser os socialistas a provocar instabilidade política. Ou seja, o PS não vai forçar a queda do governo. Isso pode ser lido como o orçamento vai passar?

Tenho algumas dúvidas que Pedro Nuno Santos tenha aberto por completo o jogo nesta noite eleitoral. É verdade que disse que não vai provocar uma crise política, não será o Partido Socialista a funcionar como fator de instabilidade, mas mal seria que o dissesse. Ou seja, faz parte do guião e da narrativa do Partido Socialista afirmar-se como um partido responsável, que não vai lançar o país de novo em eleições legislativas. Daí até concluir que o Partido Socialista, de repente, está muito disposto a dar a mão a Luís Montenegro, acho que é uma distância considerável. Acho que Pedro Nuno Santos vai aproveitar este resultado nas europeias, claramente para tentar galvanizar o partido e para mostrar que o partido é capaz de ganhar eleições, e continuará a dramatizar muito em relação ao voto do Partido Socialista no Orçamento de Estado. Recorde-se que Pedro Nuno Santos já disse no passado, na campanha para as legislativas, que era praticamente impossível que o Partido Socialista aprovasse um orçamento de Estado do governo da AD e, portanto, nada nos diz que essa predisposição do Partido Socialista tenha mudado. E se juntarmos a isto esta pequena vitória, que é uma vitória, mas foi uma vitória tangencial, se juntarmos a essa declaração de Pedro Nuno Santos, que se mantém atual até hoje, e esta vitória nas eleições europeias, não me parece que o Partido Socialista saia ou tenha saído desta noite eleitoral muito predisposto a dar a mão ao governo Luís Montenegro, diria ou acrescentaria até, pelo contrário.

E ouvimos André Ventura, na noite de domingo, também reconhecer que o Chega falhou o objetivo. O Chega foi penalizado por estar a viabilizar ou deixar passar propostas do PS no Parlamento e agora André Ventura vai mudar de rumo?

Sem querer parecer repetitivo, mas é importante deixar esta nota. Estas eleições europeias são umas eleições diferentes, com características diferentes, onde há uma grande abstenção e essa abstenção voltou a ser bastante expressiva.

Embora tenha diminuído um pouco.

Embora tenha diminuído, os eleitores tradicionalmente abstencionistas que saíram de casa nas últimas eleições legislativas para depositarem o voto, muitos deles no Chega, desta vez faltaram à chamada e, portanto, é preciso ter alguma cautela ao olhar para este resultado do Chega como sendo um resultado definitivo. É verdade que teve uma derrota, é verdade que foi a primeira vez que o Chega teve um resultado que contraria a trajetória ascendente do partido. Portanto, é a primeira vez que desce, se quisermos, e isso, naturalmente, merecerá a reflexão de André Ventura. Mas é possível que o líder do Chega encare estas eleições como um incentivo para endosser ainda mais a posição em relação ao governo de Luís Montenegro. Isto porque na cabeça de muitos dirigentes do Chega está a profunda convicção de que quanto mais tempo Luís Montenegro governar, quanto mais tempo tiver a AD para sustentar e afirmar o seu projeto político, mais difícil será o Chega ter melhores resultados no futuro. Se estas eleições europeias são um aviso para o Chega de que não basta ir a votos, é preciso apresentar, por exemplo, candidatos competentes, que mostrem estar preparados, se é verdade que isso pode ser um aviso de que a marca Ventura ainda é muito superior à marca do Chega, também pode ser um incentivo para que André Ventura perceba que tem de abanar definitivamente o sistema e derrubar o governo Luís Montenegro o quanto antes. Mais uma vez, estamos numa fase ainda muito precoce. É importante ter alguma cautela quando fazemos estes exercícios de análise. André Ventura, pelo menos olhando para o padrão de comportamento do líder do Chega, já nos habitou que é capaz das coisas mais surpreendentes em política. É muito provável que o líder do Chega aproveite este mau resultado nas europeias para endurecer ainda mais a sua posição e, eventualmente, contribuir para a queda do governo Luís Montenegro.

Com os dados que temos nesta altura, e perante isso que acabaste de explicar em relação a André Ventura e ao Chega, podemos dizer que o barco do governo vai abanar e vai abanar muito, mas para já vai continuar a navegar?

Eu acho que temos de esperar definitivamente pelo orçamento do Estado. Só aí se perceberá qual é a força do governo e qual é a força das oposições. Estas eleições europeias, evidentemente, vieram baralhar tudo. Vieram baralhar porque deram a vitória ao Partido Socialista e vieram baralhar porque deram o Chega em queda. Não sabemos qual será a predisposição do Pedro Nunes Santos e de André Ventura quando o momento decisivo chegar. O que temos visto, e vimos nesta campanha para as europeias, é um governo muito proativo. Já percebemos que Luís Montenegro está empenhadíssimo em segurar ao máximo o seu eleitorado e alargar fronteiras do eleitorado que votou na AD nas últimas eleições legislativas. Temos visto um governo a tomar muitas decisões para vários segmentos eleitorais, se assim quisermos dizer, de alguma forma para blindar o partido. Depois dessas europeias, podemos esperar também que o governo mantenha esta intensidade legislativa e que pegue em temas que são caros, quer ao eleitorado típico da AD, quer a outro tipo de eleitorado, por exemplo, aquele que vota tradicionalmente no Partido Socialista. Até outubro, estas três placas tectônicas, a placa da AD, do Chega e a do Partido Socialista, vão estar em permanente confronto, e só nessa altura, quando tivermos, por exemplo, sondagens que mostrem uma clara vantagem para um dos blocos, ou então que, no limite, por absurdo que possa parecer, surjam casos e casinhos que afetem a estabilidade do governo, só aí é que poderemos antecipar com algum rigor o que farão o Partido Socialista e o Chega. Mas sempre, pelo menos a meu ver, com esta ideia base: o Partido Socialista e o Chega já perceberam que quanto mais tempo Luís Montenegro estiver no poder, mais difícil será derrubá-lo. O incentivo que existe para derrubar o governo o quanto antes é uma evidência. Ninguém gosta de perder eleições, portanto Pedro Nunes Santos e André Ventura só darão esse passo se tiverem a certeza que será um passo seguro. E para terem a certeza que será um passo seguro, temos de esperar pelo menos até setembro ou outubro.

Obrigado, Miguel.

Obrigado.

Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de política do Observador. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram retirados da emissão especial da Rádio Observador, que acompanhou as eleições europeias no domingo. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.