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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Na semana da cimeira que junta vários líderes mundiais no Egito, o presidente norte-americano esteve em Israel e discursou no Parlamento. A partir de agora, o Médio Oriente vai viver em paz até toda a eternidade?

"And after so many years of unceasing war and endless danger, today the skies are calm, the guns are silent, the sirens are still, and the sun rises on a holy land that is finally at peace, a land and a region that will live, God willing, in peace for all eternity."

O fim de uma era de terror e morte, o início de uma era de fé, esperança e Deus, foi a mensagem deixada por Donald Trump no discurso que fez no Parlamento israelita. Isto num dia histórico, em que foram libertados todos os reféns vivos que estavam na posse do Hamas em Gaza e em que se procedeu aos trabalhos de libertação dos prisioneiros em Israel. No Knesset, o presidente norte-americano disse que o Médio Oriente vai agora viver em paz para toda a eternidade. Vou conversar com Madalena Moreira, é jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de terça-feira, 14 de outubro. Bem-vinda, Madalena.

Obrigada, Luís.

Madalena, podemos dizer que esta segunda-feira foi um dia histórico para o Médio Oriente, com a libertação de reféns, também com o discurso de Donald Trump no Parlamento israelita. Mas vamos começar pelos reféns. Houve momentos de alegria, momentos de emoção no regresso a casa, mas esse regresso foi vivido da mesma forma por israelitas e palestinianos, Madalena?

Da mesma forma, exatamente, não foi, mas houve aqui um sentimento que se repetiu muito, que foi, como disse, esta alegria que tanto se viu em Israel como na Palestina. O dia começou logo de manhã para os familiares dos reféns de uma forma um bocado inesperada, porque começaram a receber chamadas e videochamadas de grupos armados do Hamas e de outros grupos armados palestinianos com vídeos dos familiares, muitas vezes dos filhos, a querer falar com eles, a dizer: "Estamos bem". E aqui os media israelitas interpretaram isto como o Hamas foi proibido de fazer aquelas cerimônias, que era assim que lhes chamavam, na entrega dos reféns, como vimos durante o cessar-fogo de janeiro, que eles arranjaram aqui outra forma de também marcarem o passo para o dia todo que vimos. E portanto, eles receberam estas videochamadas, foi um momento logo ali muito emocionante. E depois tivemos dois grupos, tudo homens jovens, primeiro sete pessoas, depois mais ao fim da manhã 13 pessoas, e ficaram os reféns todos entregues. Os reféns vivos. O que se viu nas ruas de Israel. Trump disse que tinha visto dança e era literal mesmo. Houve multidões enormes que ainda antes do nascer do sol já se tinham deslocado para a praça dos reféns em Tel Aviv e que depois ficaram a ver os helicópteros que passavam com os reféns desde as imediações da Faixa de Gaza até aos hospitais onde eles depois ficaram internados, para recebê-los e os reféns pendurados nas janelas a dizer adeus às multidões. Portanto, há aqui um simbolismo muito forte desta emoção, deste regresso a casa dos últimos reféns que ainda estavam em Gaza há dois anos. E depois na Palestina, também temos uma celebração com os milhares, quase 2 mil palestinianos que estavam presos em prisões israelitas e que regressaram às suas casas, quer na Faixa de Gaza, quer na Cisjordânia. E portanto, aqui há famílias que estavam separadas, não há dois anos, mas em alguns casos há mais de 20 anos, desde a Segunda Intifada, e que aqui se veem reencontrados por causa deste cessar-fogo. Mas há aqui uma alegria mais cautelosa, porque até à última hora eles não sabiam quem eram os palestinianos que iam ser libertados, porque não havia listas de nomes. E então as pessoas vão para os pontos à espera que os autocarros cheguem das prisões, sem saber se os seus familiares que estavam presos estão dentro daqueles autocarros e os vão reencontrar ou não. E depois, houve um pequeno grupo de pouco mais de 100 pessoas que à última hora Israel disse que teriam que ser exilados e que, portanto, não poderiam regressar às suas casas. E depois há aqui o caso de algumas pessoas que dizem mesmo: "Eu não tenho motivos para celebrar, porque ao longo dos últimos dois anos toda a minha família morreu".

Um misto de sentimentos.

Exato, um misto de sentimentos que não pode ser ignorado.

E de resto, bem sabemos que este é um processo sensível. Os reféns vivos, como dizia, foram libertados, mas nem todos os corpos daqueles que morreram já foram entregues. E este é um dos pontos importantes do acordo de cessar-fogo. E por isso te pergunto, Madalena, se existe alguma probabilidade de não se cumprindo este ponto, de haver algum revés neste acordo.

No papel, o Hamas teria até o fim de segunda-feira para libertar todos os reféns, os vivos e os corpos. Mas tanto o Hamas como Israel já tinham dito publicamente que tinham noção que era difícil se cumprir este prazo, porque a partir do momento em que os reféns eram mortos, o Hamas perdia-lhes o rasto. Eles tinham noção que era preciso ajuda internacional, em primeiro lugar, há um grupo internacional que está a colaborar para isto, e que podia demorar mais tempo a entrega dos reféns que tinham morrido em cativeiro. À meia tarde, quando o Hamas anuncia que vai libertar quatro dos corpos de 28, o fórum que representa as famílias dos reféns acusa o Hamas de estar a adiar as trocas e que isto é uma violação do cessar-fogo. Mas a acusação, a essa altura, só foi feita pelo fórum. O que aqui pode simbolizar, como tu estavas a dizer, que pode haver um revés no acordo, mas aqui a interpretação importante não será deste grupo, mas de um Donald Trump ou de um outro grande mediador, ou até mesmo de Benjamin Netanyahu. E o que nós vimos da parte deles é que este ponto é o ponto que toda a gente sabia que sim, no papel estavam as 72 horas, mas na prática isso podia não acontecer e eles estavam cientes disso. Isto não parece que vá haver um revés por causa desta questão da devolução dos corpos dos israelitas, mas isso não quer dizer que o acordo vá correr muito bem daqui para frente.

E Donald Trump esteve esta segunda-feira no Parlamento israelita e fez um longo discurso, já lá vamos. Também o primeiro-ministro de Israel, assim como o presidente do Parlamento, dirigiram palavras ao presidente norte-americano e houve também, Madalena, muitos agradecimentos.

Exatamente. Primeiro ainda falou o presidente do Parlamento, depois falou o primeiro-ministro Netanyahu e depois ainda falou o líder da oposição, e todos concordaram em discurso em hebraico que aqui uma certeza: a guerra acabou. Mas depois Netanyahu faz grande parte do seu discurso em inglês para Donald Trump perceber e fala diretamente para ele e diz: "Trump é o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca" e deixa-lhe longos elogios em comparação com homólogos internacionais, tanto como os seus antecessores, que é aqui uma comparação que se percebe. Dizer que onde os outros foram fracos, ele foi forte e que Israel não teria conseguido alcançar os seus objetivos sem o apoio de Donald Trump. Há aqui uma grande lisonja que Donald Trump gosta e Benjamin Netanyahu está claro.

Sabe disso também.

Exatamente. Mas depois, todo o ambiente de festa no Parlamento israelita foi muito à moda de Trump. Ele foi recebido com grandes aplausos, toda a gente recebida de pé. A sua equipa, quando tinha entrado, já tinha sido recebida de pé. Os líderes israelitas que falaram deixaram elogios não só a Donald Trump, mas também à sua equipa, que já tinha chegado a Israel há alguns dias, e foram distribuídos os bonés típicos de Donald Trump, os vermelhos, que dizem Make America Great Again.

O MAGA.

Exatamente. E que diziam o presidente da paz. E houve aqui quase um ambiente futebolístico de Donald Trump entrava e toda a gente de boné na cabeça gritava: "Trump, Trump, Trump!" Ou seja, claro que há aqui um agradecimento, mas também há aqui uma exaltação da figura de Donald Trump.

Já vamos continuar a conversa com a Madalena Moreira. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com a Madalena Moreira. Madalena, continuamos a falar desse momento, que foi a presença de Donald Trump no Parlamento israelita. Como disseste, foi recebido com muitos aplausos. Isto apesar de ter havido também uma curta tentativa para lhe interromper o discurso, ainda assim, foi um discurso para marcar o fim do conflito.

Esse foi o principal ponto que Donald Trump quis transmitir no seu discurso, que foi: esta segunda-feira a guerra acabou. Mas as palavras dele mostram que também já está a pensar nos passos seguintes e que acabar a guerra aqui é acabar a ofensiva militar israelita na Faixa de Gaza, mas isso não é a paz, porque para a paz é preciso haver paz na região, é preciso que Israel tenha relações normalizadas com outros países árabes que apoiam a causa palestiniana. E aqui ele faz uma menção direta ao Irã, que é o maior inimigo regional, e há aqui uma compreensão que parar as armas e haver um cessar-fogo é importante, sim, ele salienta isso, mas Donald Trump quer mais do que isso. Ele não quer limpar as mãos do Médio Oriente e ir-se embora. Claro que tu disse que foi um discurso muito longo, mas temos que pensar que a mensagem de Donald Trump está nas entrelinhas, porque tudo o resto é um discurso muito típico dele, em que ele se desvia a fazer críticas aos seus antecessores, a Joe Biden e a Barack Obama, em que ele deixa longos elogios à equipa toda e à sua filha e ao genro, e até Netanyahu, ainda que tenha reconhecido que por vezes é difícil lidar com ele, e eles terão tido discussões à porta fechada, e portanto, há aqui todos estes desvios de Donald Trump. Mas depois o protesto que mencionaste durante o discurso dele é interessante, porque também mostra que há aqui uma dissonância dentro do Parlamento israelita, porque se trataram de dois deputados israelo-árabes que levantaram cartazes que diziam: "Reconheçam a Palestina". Eles são uma minoria, o partido são apenas três, dois deles foram expulsos do Parlamento durante o discurso de Trump, que dizem que esta paz para que Donald Trump está a construir não é possível sem a solução de dois Estados e que, portanto, sem Tel Aviv reconhecer o Estado da Palestina. E a este reconhecimento não houve referências nos discursos no Parlamento.

E depois de Israel, Donald Trump chegou ao Egito, onde decorre a Cimeira de Paz com vários líderes internacionais. É também, Madalena, um momento importante em todo este processo.

Sim, lá está. Se vamos a Israel, vamos. Nós não fomos. Se Donald Trump vai a Israel para marcar o ponto final na guerra, depois segue para o Egito para pensar no e agora, no caminho a longo prazo, no que é que se vai fazer. E aqui os países árabes são essenciais para implementar soluções. Primeiro, porque têm os seus próprios interesses, porque são eles os vizinhos de Israel e, portanto, estão interessados em que haja paz na região. Por exemplo, o Egito, que neste caso foi o anfitrião da cimeira, partilha uma fronteira com Gaza e há aqui um interesse de eles não quererem receber imigrantes palestinianos no caso de, por exemplo, expulsarem, se calhar é um plano que esteve em cima da mesa há vários meses, de se retirarem palestinianos. Eles não querem isso e, portanto, vão lutar pelos seus interesses. Eles não querem ter um problema de segurança na sua fronteira com a passagem de armas para o Hamas e, portanto, este interesse ajuda a que se lute por uma solução futura. E depois, todos estes países árabes querem também a intervenção da Autoridade Palestiniana, que é uma coisa que Israel continua muito de pé atrás. Aqui a questão é que Israel, um líder israelita, que neste caso seria Netanyahu, não esteve presente na cimeira por causa de uma tradição israelita de o primeiro-ministro não ir a eventos internacionais durante os feriados judaicos que se celebram durante esta semana. Mas a ausência de Israel também pode ser um fator importante para os países árabes, que têm do seu lado também muitos países europeus, líderes europeus, que também se deslocaram ao Egito para poderem convencer Trump a vir para o seu lado. Portanto, Trump passa amanhã em Israel a ouvir os pontos de Benjamin Netanyahu para esta paz a longo prazo e depois ouve da parte da tarde o que os países árabes e os países europeus, principalmente, querem para a região. E, portanto, funcionará aqui como fiel da balança e continua a ser sempre o ponto-chave para a região.

Madalena, tendo em conta tudo isto de que falámos e tendo em conta também as palavras de Donald Trump, podemos acreditar, como disse o presidente norte-americano, que o Médio Oriente vai viver em paz para toda a eternidade?

A história até agora diz-nos que eles nunca viverão em paz, mas isso é a pergunta-chave que é demasiado cedo para saber. Claro, não passou nem uma semana desde que foi assinado o acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas e até agora tudo o que vimos, as trocas de reféns, as trocas de presos palestinianos, foi a parte fácil, que era a parte que havia números concretos, prazos concretos. Daqui para a frente, sabe-se muito pouco. Nós nem sabemos quem são os nomes que vão estar no comitê de transição que vai governar a Faixa de Gaza durante os próximos tempos. Ainda não sabemos como é que vai ser feita a desmilitarização do Hamas, que era um dos pontos-chave. Há muita coisa que tem que ser discutida, mas há muita coisa que já parece estar a ser discutida pelo que Donald Trump disse no Egito. A segunda fase do processo, que vai olhar para estas coisas, já está em cima da mesa. E, portanto, temos que acreditar que se o empenho de Donald Trump está do lado da paz para toda a eternidade, podem ser dados passos nessa direção, mas é cedíssimo para estarmos a fazer previsões.

Obrigado, Madalena.

Obrigada eu.

Madalena Moreira é jornalista da secção de internacional do Observador. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas que vão marcar esta terça-feira. A Polícia Judiciária assinala os 80 anos com uma conferência sobre cibercrime. Vai ser apresentado um jogo interactivo que será implementado no ensino secundário a nível nacional. Chama-se Rage Quit e é descrito como um jogo real e uma experiência imersiva com desafios na área do cibercrime. O presidente da Argentina, Javier Milei, tem um encontro previsto com Donald Trump na Casa Branca. Acontece pouco depois do anúncio de uma ajuda financeira dos Estados Unidos ao país e a 12 dias das eleições legislativas. O cantor e compositor inglês Calum Scott vai atuar às 21h, no Porto, no Super Bock Arena. É o regresso do artista a Portugal para apresentar este novo álbum, "Evanoir". Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar. O som que escutámos no início do programa foi retirado da Agência Reuters. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.