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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que disse e o que quis dizer Zelensky ao Parlamento.
"Senhores deputados, povo de Portugal."
Volodymyr Zelensky cumprimenta o Parlamento português no arranque de um discurso que teria menos de 15 minutos. Presidente da República, primeiro-ministro e vários convidados participaram na sessão solene para ouvir o presidente ucraniano, mas o PCP não. Os seis deputados abandonaram a sala e no final, nos Passos Perdidos, Paula Santos, líder da bancada comunista, reafirmava argumentos contra o convite a Zelensky e criticava comparações.
A Revolução de Abril foi feita para pôr fim ao fascismo e à guerra. É um insulto esta declaração que faz referência ao 25 de abril, porque o 25 de abril em Portugal foi para libertar e contribuiu para a libertação dos antifascistas. Na Ucrânia estão a ser presos como o poder da Ucrânia está a agredir o seu próprio povo há mais de cem anos.
O discurso de Zelensky era muito aguardado e o Parlamento escutou-o em silêncio. Alguns deputados, incluindo o Primeiro-Ministro, usaram peças de roupa azuis e amarelas. O que disse e o que quis dizer Zelensky aos portugueses? Hoje vou conversar com o editor adjunto de sociedade, Pedro Reino. Bem-vindo, Pedro.
Olá, Ricardo.
Pedro Reino, quando comparado com outros discursos noutros parlamentos, Zelensky começa sempre da mesma forma, com relatos do horror que se está a viver na Ucrânia.
Sim, sempre da mesma forma. E pensemos que esta já é a 50ª vez. Zelensky já falou a cerca de 50 parlamentos um pouco por todo o mundo. E de facto, há sempre esta nota coincidente, que é uma descrição muito crua, muito detalhada dos horrores que vai observando no país.
"Num pequeno porão, onde apenas pelo sufoco morreram perto de dez pessoas."
Zelensky neste caso falou dos corpos que os russos deixaram nas ruas de Borodyanka, uma cidade um bocadinho a norte de Kiev. Conta como os familiares e os vizinhos foram proibidos de enterrar aquelas pessoas. É uma descrição de um verdadeiro cenário de terror na vida real.
Para se entender melhor ou para se fazer entender melhor até usa comparações com cidades portuguesas e realidades portuguesas.
Sim, e há uma intenção por detrás dessas referências. Zelensky fala do Porto quando diz que as forças russas já deportaram 500 mil ucranianos, é o dobro da população do Porto. Depois usa o exemplo de Lisboa cuando descreve a destruição provocada em Mariupol, uma cidade no litoral, isto diz-nos alguma coisa.
"Mariupol, todos vocês sabem sobre Mariupol. Antes era uma cidade equivalente em tamanho a Lisboa."
E onde agora não há um único edifício de pé por causa precisamente dos bombardeamentos russos. Como eu dizia, isto não é por acaso. Há aqui uma intenção de criar empatia. É quase como se nos pusesse a pensar que aquilo podia acontecer connosco.
Vamos olhar para as entrelinhas deste discurso. Houve um claro pedido de ajuda militar a Portugal. O que o governo português pode fazer ou já fez nesta matéria, por exemplo, da ajuda militar?
Há dois parâmetros, duas realidades. Uma é aquilo que Portugal já fez, o que o Governo português já fez e o que é que já fez? Já enviou armamento pra Ucrânia. Foi logo nos primeiros dias da invasão, enviámos granadas, enviamos espingardas G3, munições. Se quisermos pôr uma fatura nisso andava ali em armamentos no valor de oito a €10 milhões. E depois há um mês, e pensemos que já vamos com dois meses de invasão russa, há um mês o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, dizia que Portugal ia enviar mais armas e enviar mais munições. Mas tu fazias uma segunda pergunta, que era o que Portugal ainda pode fazer pela Ucrânia.
Até porque Zelensky fez uma lista.
Tanques Leopard, veículos blindados de transporte de pessoal.
Zelensky pediu tanques Leopard, veículos blindados de transporte pessoal, mísseis antinavio, ele fez a sua lista. Portugal tem estes equipamentos, tem tanques, têm veículos blindados para transporte, mas basicamente não pode puxar a manta para tapar a cabeça porque rapidamente os pés vão ficar destapados. Aquilo que Portugal pode fazer, que é um terceiro parâmetro, pode apoiar a União Europeia e dar o aval a que outros países com maiores capacidades bélicas enviem mais ajuda pra Ucrânia.
Primeiro, do ponto de vista militar, quero anunciar que um novo envio de material militar está a caminho da Ucrânia.
E o primeiroministro espanhol Sánchez esteve esta quinta-feira precisamente em Kiev a oferecer mais ajuda militar. Já lá vamos falar de Sánchez, porque temos ainda de olhar para as sanções e nomeadamente para as sanções no setor da energia, gás e petróleo também houve um pedido neste setor.
É, a palavra sanções aparece pelas minhas contas quatro vezes no discurso, nos 15 minutos de discurso, e ela tem um peso. As sanções são um garrote econômico, uma espécie de via paralela àquele que é o combate que a Ucrânia está a travar no terreno para repelir a ofensiva russa. As sanções energéticas de que Zelensky fala são um bloqueio á compra de petróleo russo. Mas aqui a posição de Portugal pode ser sobretudo simbólica, porque nós não temos uma grande dependência face a este tipo de produtos da Rússia representa uma ínfima parte das nossas importações. E o governo, na verdade, até reviu a posição que tinha sobre este assunto. António Costa começou por dizer que queria acabar com as importações de petróleo Mas que isso teria uma consequência na nossa economia. Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros já veio acertar um pouco o tom e dizer que Portugal queria claramente incluir a importação de petróleos nas sanções a aplicar a Moscovo. E mesmo em relação ao gás existe já uma certa unanimidade no sentido de fechar a torneira da importação deste tipo de produtos.
You have clearly expressed, President Zelenskyy, your European vocation, making use of your right to choose your own destiny. You have our support in this-
E já aqui falámos dele, Pedro Sánchez, o presidente do governo espanhol, que esteve quinta-feira em Kiev a apoiar com armas, mas também com palavras, uma aspiração ucraniana para entrar na União Europeia.
Мы можемо отримати статус кандидата.
E precisamente ao Parlamento português, Pedro Rinho, Zelenskyy pediu esse apoio. Vai tê-lo de forma explícita ou não?
Se acabasses a pergunta no vai tê-lo, eu dar-te-ia uma resposta. A questão é que o Governo português assumiu aqui uma posição muito titubeante. A primeira reação de António Costa foi questionar se a própria União Europeia estaria disposta a abrir os braços de forma tão carinhosa e desinteressada à Ucrânia. E por quê? Porque isso, nas palavras de António Costa, seria deixar entrar um colosso em termos territoriais, a Ucrânia é um país enorme, seria deixar entrar um país com 40 milhões de habitantes, com uma produção agrícola muito significativa, e isto poderia criar desequilíbrios.
Colocar todas as fichas num processo que é incerto, necessariamente moroso, sujeito a múltiplas vicissitudes, é um risco que acho muito grande.
Foi encarada esta reação de António Costa como algum calculismo e com um tom que até gerou alguns anticorpos internamente. Também é verdade que Augusto Santos Silva, naquele discurso que fez logo a seguir a Zelenskyy, disse que Portugal estava a ouvir o presidente ucraniano com toda a atenção e de espírito aberto. Falta perceber quanto de retórica e quanto de intenção prática reside nestas palavras.
Mas Pedro Rinho, Volodymyr Zelensky falou-nos aqui de uma Europa de Lisboa a Kiev, quase que faz lembrar uma outra Europa. Qual é?
Aquela Europa que já não vai até Vladivostok, não é?
Exatamente!
É um contraponto claro com uma ideia, com um projeto grandioso de Vladimir Putin, um projeto com 20 anos. O que isso significa? Significa que esse tal projeto de uma Eurásia de circulação livre, de comércio livre entre a Europa e aquela parte mais asiática, que era desejada pelo presidente russo, na verdade, vai acabar uns quilômetros mais a oeste, bom, bastantes quilômetros mais a oeste, e acabará na capital ucraniana. Significa que não vai até Moscovo.
Zelenskyy sabia para quem estava a falar neste discurso ao parlamento e houve um pedido interessante. Um pedido pra que Portugal usasse da sua influência junto aos países de língua oficial portuguesa nesta questão da guerra e alguns deles não têm posições muito claras.
Sim, há três países que não são referidos abertamente, mas que na verdade estão muito presentes: Brasil, Angola, Moçambique. Lembremos que Angola e Moçambique se abstiveram na votação nas Nações Unidas quando a Ucrânia pediu que fosse condenado o ataque russo, estes dois países abstiveram-se. Depois há duas ideias: a ligação de Portugal a esses países africanos, uma possível influência para que fossem mais favoráveis à causa ucraniana, e depois a influência econômica que a Rússia tem até na defesa militar destes países. Isto traz-nos à memória uma recente visita de uma personagem que conhecemos bem, Marcelo Rebelo de Sousa, quando esteve em Moçambique e ele de fato foi questionado sobre, já no decurso da guerra, a posição que Moçambique tinha assumido, e Marcelo Rebelo de Sousa diz qualquer coisa como:" Nós respeitamos as posições de cada um". Acho que não é esticado concluirmos que não há grandes sinais de que Portugal queira ou não queira incomodar os países que são membros da Comunidade dos PALOP.
Já que falas de incômodo, há momento no discurso de Zelenskyy, e já percebemos no início deste episódio, que incomodou, eu diria irritou, e muito, o PCP numa referência ao 25 de Abril.
Sim, foi mais uma oportunidade que o PCP teve pra se explicar sobre a posição que tem assumido em relação à situação na Ucrânia. Aquilo que Zelenskyy fez, ou tentou fazer, foi traçar paralelo entre a experiência portuguesa com a ditadura do Estado Novo e aquilo que será uma ditadura russa que se impôs sobre a Ucrânia com essa invasão. O PCP também não poupou nas palavras, disse que era um insulto fazer comparações entre o 25 de abril e aquilo que está a passar na Ucrânia porque diz o líder da bancada parlamentar do PCP que o 25 de Abril para Portugal significou uma libertação, significou a libertação dos antifascistas. Ora, isto é o ponto central da posição comunista. A Ucrânia está controlada por poder de pendor fascista e que persegue os comunistas. Este é o discurso do Kremlin.
Há conjunto de aspectos que deviam ter sido esclarecidos na intervenção do presidente da Ucrânia e não foram. Por exemplo, onde estão os jovens comunistas ucranianos que foram presos? Porquanto tencionam continuar a perseguir comunistas, antifascistas e democratas ucranianos?
O discurso teve menos de 15 minutos e no final uma palavra em português, eu diria sequer Aquela que é a mais portuguesa de todas as palavras, saudade.
Sim, num discurso que teve muito equilíbrio entre uma certa poesia e um certo pragmatismo, Zelensky não conseguiu fugir ao clichê e cumpriu aquilo que já se esperava, porque nos dias anteriores ele tinha feito algumas perguntas sobre características de Portugal e uma das indicações que lhe deram foi que nós temos esta palavra tão nossa, saudade, e depois de nos pedir que lhes tendêssemos as mãos e que colaborássemos para que a Ucrânia se tornasse um de nós, Zelensky despediu-se com essa palavra tão portuguesa, saudade.
U кождой людины був свій час для щастя ти саудаде. Дякую, Португалия. Слава Україні!
Obrigado, Pedro Rinho.
Obrigado, Ricardo.
Pedro Rinho é editor adjunto de sociedade do Observador e coordenou o texto "O Discurso de Zelensky nas Entrelinhas". O Observador está de volta à Ucrânia com Carlos Diogo Santos e João Porfírio. São os nossos enviados especiais e estão em reportagem nalgumas das zonas destruídas pelo exército russo. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Regressamos na terça-feira.