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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que está em causa nas eleições da Madeira.

Temos que ser claros. Se não tiver maioria absoluta, não tenho condições de governabilidade. Se não tenho condições de estabilidade nem de governabilidade, não consigo cumprir o programa. Se não cumprir o programa, não vou negociar com deputados radicais de esquerda aquilo que é um programa fundamental para o futuro da Madeira.

Miguel Albuquerque é o presidente do Governo Regional da Madeira. O líder do PSD procura nova maioria absoluta numa lista conjunta com o CDS às eleições regionais do próximo domingo. Sem maioria, diz Albuquerque nesta entrevista à Rádio Observador, não aceitará a recondução no cargo. A realidade política na Madeira é muito diferente da nacional e, assim sendo, até que ponto os resultados do próximo domingo podem ter leituras nacionais? E por que estão tão empenhados nestas eleições os líderes do PSD e do Chega, Luís Montenegro e André Ventura? Vou conversar com o jornalista Miguel Videira, o enviado especial da Rádio Observador à Madeira. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Miguel.

Olá, Ricardo.

Onde andas?

Estou nesta altura na zona do Lido, onde estão concentrados boa parte dos hotéis da região da Madeira, com uma vista privilegiada para este mar azul que banha a ilha do Funchal.

Não estás nada mal. Estas eleições de domingo, Miguel Videira, decidem, afinal, o quê? O que está em causa?

Os eleitores residentes e recenseados na Madeira vão decidir quem querem ver sentado no Parlamento Regional. Há 47 lugares para decidir. Contas feitas, são necessários 24 para garantir a maioria absoluta. É precisamente o número de deputados que apoia o atual governo regional liderado por Miguel Albuquerque: 21 eleitos pelo PSD, mais três deputados eleitos pelo CDS-PP, sendo esse apoio do CDS-PP que permite ao PSD governar com uma maioria absoluta.

E é do Parlamento Regional que sai o governo regional, é como funciona no plano nacional?

Sim, à semelhança do que acontece no plano nacional, é precisamente isso. É do quadro parlamentar regional que vai sair o próximo governo. O representante da República ouve os líderes dos partidos eleitos e, em função da composição do Parlamento, nomeia o presidente do Governo da Madeira, que, por sua vez, propõe ao representante da República os nomes dos restantes membros do Governo Regional. O programa de governo é depois votado no Parlamento Regional. Portanto, sim, é do quadro parlamentar que sai o executivo regional, à semelhança do que acontece no continente.

Miguel, quando falamos no Governo Regional, geralmente associamos ao PSD, Alberto João Jardim, Miguel Albuquerque. Afinal de contas, há quanto tempo o PSD está no poder na Madeira?

Desde sempre, Ricardo. Ou seja, desde as primeiras eleições em 1976, que o PSD ganhou com maioria absoluta. Jaime Ornelas Camacho foi o primeiro presidente do Governo Regional. Em 1978, dois anos depois, haveria de chegar ao poder Alberto João Jardim, um ícone da Madeira, e por lá se manteve até 2015, com esta particularidade: sempre com maioria absoluta. De resto, só nas últimas eleições, nas eleições de 2019, é que o Partido Social-Democrata perdeu essa maioria. Obteve 21, sendo que precisava de 24 mandatos para ter essa maioria absoluta e, por isso, necessitou do entendimento com o CDS-PP, que elegeu três deputados para garantir essa maioria absoluta. Mas desde 1976 que o PSD está no poder, boa parte do tempo com maioria absoluta.

E que tema ou que temas é que têm dominado a campanha eleitoral?

O tema da habitação, por exemplo, tem sido um tema muito focado nesta campanha eleitoral. Os partidos da oposição têm colocado o acento tônico nesta preocupação do acesso à habitação, particularmente por parte das gerações mais novas. Também aqui na Madeira, claro está, as famílias com hipotecas, com créditos à habitação, estão a sofrer com o aumento das taxas Euribor. E o preço das casas também aumentou aqui de forma exponencial, pelo que as classes médias e classes médias baixas hoje sentem uma grande dificuldade para aceder às casas. Esta é uma preocupação. Eu participei aqui há dias numa ação de campanha do Partido Socialista e havia um dirigente do PS Madeira que acusava Miguel Albuquerque de ter captado muitos cidadãos estrangeiros que compraram casa e acabaram por comprar casa nos últimos anos aqui no arquipélago da Madeira, esquecendo-se desta necessidade para quem reside no arquipélago. Outro tema que também tem dominado esta campanha são os impostos, com as propostas de redução dos impostos para fazer face ao aumento do custo de vida. O PS, por exemplo, defende a redução do IRS e do IVA. E também se tem falado de outros temas que dizem muito respeito ao arquipélago. Por exemplo, os apoios aos produtores de banana e de uvas, que são mal pagos. E há também essa promessa.

Nós temos que continuar a proteger a nossa banana face a uma concorrência avassaladora e muito difícil da chamada banana dólar, da Chiquita, aquelas bananas que são produzidas na América Latina e que nem têm gosto a nada. Mas tem o preço barato e tem os custos de produção baratos.

Miguel Albuquerque, o presidente do governo regional, por exemplo, já disse que quer aumentar o apoio aos produtores de vinho e que produzem o vinho da Madeira. Também esta semana, Sérgio Gonçalves, o cabeça de lista pelo PS, prometia aumentar em € 0,25 o valor a pagar por quilo de bananas. Mas uma campanha muito centrada nas dificuldades sentidas, essencialmente pela classe média, decorrente do aumento do custo de vida.

Não deixa de ser curioso essa referência à banana e ao vinho da Madeira, que são produtos que a Madeira exporta, mas também há um outro muito famoso, alcoólico. Também há Poncha na campanha, Miguel?

Não muito, eu estou aqui desde terça-feira e ainda não participei em nenhuma iniciativa de campanha que tivesse envolvido esta bebida típica e característica aqui da Madeira, a Poncha. Esta quarta-feira, por exemplo, estive numa ação de campanha em Câmara de Lobos de André Ventura, o líder nacional do Chega, que tem sido a presença assídua aqui na Madeira para apoiar o candidato Miguel Castro. Ele participou numa arruada, o ponto de encontro foi ali numa zona de Câmara de Lobos, onde há diversos bares que têm como bebida principal, precisamente, a Poncha, mas não se aventurou André Ventura pela ingestão dessa bebida, preferiu uma mini. Portanto, ainda não participei em nenhuma ação de campanha que envolvesse essa bebida tão saborosa e tão característica da Madeira.

Já voltamos à conversa com Miguel Videira, o enviado especial da Rádio Observador à Madeira. Estas eleições regionais podem ou não ter também uma leitura nacional? Regressamos à conversa com Miguel Videira, o enviado especial da Rádio Observador à Madeira. Miguel, temos de olhar para os grandes objetivos dos partidos e eventuais consequências depois de apurados os resultados no domingo à noite. O PS domina no continente, tem uma maioria absoluta no continente, mas na Madeira a história é outra.

Sim, Ricardo, a história é outra. Como disse e como já aqui fiz referência, o PSD obteve, desde 1976, várias maiorias absolutas. Só não conseguiu essa maioria absoluta em 2019. E o PS, nessas eleições de 2019, até conseguiu um bom resultado, obteve 35% dos votos. A verdade é que as três sondagens divulgadas esta semana empurram o PS bem mais para baixo.

Se fôssemos para a rua agora, as pessoas conheciam?

Eu não tenho dúvida que sim.

Tirando os turistas, obviamente.

Nós temos as pessoas cada vez mais próximas ao Partido Socialista, percebem as mensagens que nós temos passado, porque as nossas mensagens-

Olham para si e dizem: "Esse é ali o Sérgio Gonçalves", sabe identificá-lo.

Sabem não só quem é o Sérgio Gonçalves, como sabem aquilo que o Sérgio Gonçalves e o Partido Socialista defende.

A última sondagem da Aximage deixava o Partido Socialista a quase 40 pontos percentuais da coligação de centro-direita, formada pelo PSD e do CDS. E portanto, eu diria que para o PS, o grande objetivo, aliás, com boa parte dos partidos da oposição, é mesmo evitar a maioria absoluta do PSD, da coligação PSD/CDS, mais do que ambicionar destronar o PSD do governo regional da Madeira.

E o PSD, que está no poder desde a democracia, como já explicaste, concorre agora para nova maioria absoluta. Esse é o grande objetivo, imagino.

É esse o grande objetivo. E de resto, Miguel Albuquerque reafirmou esse mesmo objetivo esta semana à entrevista ao Observador, ao editor de política Rui Pedro Antunes. O objetivo é esse, a maioria absoluta, e Miguel Albuquerque dramatiza mesmo. Diz que se a coligação não obtiver essa maioria absoluta, então ele, Miguel Albuquerque, sai. Portanto, não há outro objetivo. Miguel Albuquerque invoca o princípio da estabilidade, diz que não é possível governar a Madeira e fazer entendimentos com os partidos que aqui concorrem e que por isso a única alternativa, em nome dessa estabilidade, é mesmo alcançar a maioria absoluta. E de acordo com as três sondagens, a que já fiz referência, da Intercampus, da Universidade Católica e também da Aximage, de facto, esses estudos de opinião apontam, todos eles, para a maioria absoluta da coligação liderada por Miguel Albuquerque.

Por isso quando votardes, põe a mão no sítio certo. Vota no Miguel Albuquerque, para ser o meu, nosso presidente. Miguel Albuquerque, para nosso presidente. Miguel Albuquerque, para nosso presidente.

Miguel, há pouco falaste que o CDS vai com o PSD, portanto estão os dois Coligados e a avaliar pelas sondagens, ambos podem conseguir a maioria absoluta ou um resultado muito bom. Do ponto de vista do CDS, que perdeu a representação parlamentar no Parlamento Nacional, essas eleições também podem ser vistas como uma espécie de prova de vida para o CDS?

Sim, uma prova de vida para o CDS, que tem vindo sucessivamente, ao longo das últimas eleições, a perder representatividade. De facto, isso tem acontecido. O CDS obteve nas últimas eleições 5,76% dos votos, elegeu os tais três deputados que permitiu, fruto do entendimento com o PSD, obter a estes dois partidos de centro-direita uma maioria absoluta, mas nas eleições anteriores já tinha obtido 13,71% dos votos com sete deputados regionais. E nas eleições de 2011, 17,63%. Portanto, o CDS tem vindo a perder sucessivamente porcentagem de votos e, consequentemente, deputados regionais. Apresentou uma lista única, o CDS e o PSD têm uma lista única, e por isso a coligação Somos Madeira. Na melhor das hipóteses, diria eu, e partindo do pressuposto que o PSD consegue eleger, partindo desse pressuposto e a média que dão as três sondagens, 24 deputados, o que permite a maioria absoluta, o CDS consegue eleger os mesmos três deputados que havia eleito nas eleições de 2019 e será com certeza importante para o CDS eleger esses três deputados. O último vai na posição número 23.

Miguel, e nesta equação entra também o Chega, não podemos tirar o Chega de tudo isto. E André Ventura, já aqui falaste nele, tem mostrado grande preocupação com a Madeira e tem se mostrado particularmente ativo nesta campanha eleitoral. Por que tanta preocupação do Chega com as eleições na Madeira?

Olha, eu diria à cabeça, Ricardo, porque o Chega pode, pela primeira vez na história do partido, conseguir entrar no Parlamento Regional. E de facto, todas as sondagens a que já aqui fizemos referência apontam precisamente nesse sentido, que o Chega vá conseguir eleger deputados. De resto, apontam no sentido de conseguir mesmo um grupo parlamentar, ou seja, eleger mais do que um deputado e, portanto, há um empenhamento pessoal muito grande. André Ventura já esteve por diversas vezes aqui na Madeira durante esta campanha eleitoral. A última das vezes na quarta-feira. Vai estar aqui também para o encerramento hoje, sexta-feira, desta campanha eleitoral. Portanto, há um empenhamento grande do líder nacional do partido do Chega nesta eleição, porque pode ajudar o Chega a trepar mais um degrau e a conseguir chegar ao Parlamento Regional da Madeira.

Se o PSD Madeira, Miguel Albuquerque, tiver maioria absoluta, é uma derrota. É uma derrota para mim, acima de tudo, que sou o principal responsável por ela.

E há mais partidos a concorrer, obviamente. Já percebemos que não é um terreno muito fácil para a esquerda, mas nestas eleições regionais há também um partido que tem por regra uma palavra a dizer, que dá cartas na Madeira. Que partido é este, Miguel Vidaran?

O Juntos pelo Povo, o partido dos irmãos Hélvio Sousa e Filipe Sousa, dois dissidentes do Partido Socialista, que formaram este partido e que têm obtido muito bons resultados. O movimento começou por ser um movimento de cidadãos, mais tarde transformou-se num partido. Concorreu pela primeira vez em 2015, elegeu cinco deputados, em 2019, três deputados, e as sondagens indicam que vai voltar a eleger deputados nesta eleição. De resto, em duas das sondagens, na sondagem da Intercampus e também na sondagem da Aximage, o Juntos pelo Povo aparece como a terceira força política mais votada, portanto, a cimentar este poder que tem aqui no arquipélago da Madeira.

Um governo regional mais magro. Estamos a falar de um governo com cinco secretarias, quando atualmente tem 10, fruto dos apetites do CDS, que foi preciso encomendar várias cadeiras num carpinteiro para poder sentar vários estômagos vazios.

E a esquerda, Miguel, Bloco e PCP?

Bloco e PCP lutam para eleger deputados. Não está fácil a vida para o PCP e para o Bloco de Esquerda, pelo menos a crer naquilo que é a tendência das sondagens. No caso do PCP, o histórico deputado do Parlamento Regional da Madeira, Edgar Silva, corre mesmo o risco de não ser eleito e nas últimas eleições foi eleito à tangente e nestas eleições, de acordo com as sondagens, corre esse risco de não ser eleito. As sondagens dão entre zero a um deputado para o PCP e, portanto, esta será a grande meta a fazer eleger Edgar Silva. No caso do Bloco de Esquerda, que tem como cabeça de lista Roberto Almada, procura regressar o Bloco de Esquerda Ao Parlamento. Elegeu pela primeira vez um deputado em 2004, manteve na eleição seguinte, perdeu representação em 2011, elegeu dois deputados em 2015 e um em 2019. E o objetivo do Bloco de Esquerda, claramente, é de voltar a este Parlamento Regional, sendo que as sondagens não são claras relativamente à possibilidade do Bloco alcançar este objetivo.

Miguel, aqui chegados, já percebemos que o cenário político na Madeira é diferente do cenário político nacional, mas há alguma leitura nacional que domingo à noite se possa fazer perante aquilo que vão ser os resultados destas eleições na Madeira?

Como referes, Ricardo, as eleições regionais aqui na Madeira são eleições específicas, têm as suas especificidades, os resultados, de resto, de que aqui demos conta desde 1976, não têm paralelo com aquilo que acontece a nível nacional. O PSD não tem maiorias absolutas desde 1976, portanto, há especificidades. No entanto, pelo menos André Ventura, do Chega, queria forçosamente que fosse feita uma leitura nacional dos resultados das eleições do próximo domingo. Desde logo, porque como já aqui referi, o Chega pode pela primeira vez entrar no Parlamento Regional e, portanto, André Ventura terá todo o interesse em fazer essa leitura nacional. E falava também André Ventura e fazia referência a este facto, esta ser a primeira eleição para Mariana Mortágua enquanto coordenadora do Bloco de Esquerda e Paulo Raimundo enquanto secretário-geral do PCP. Ora disse precisamente há instantes que o Bloco de Esquerda e o PCP correm o risco, pelo menos de acordo com as sondagens, de não eleger qualquer deputado. E por isso dizia André Ventura que os dois representantes máximos destes dois partidos à esquerda devem tirar ilações caso não consigam eleger qualquer deputado. Depois há também o caso do PSD. Luís Montenegro vai estar aqui hoje para o encerramento da campanha social-democrata. Vai estar também aqui domingo para acompanhar as eleições. Foi, de resto, marcada uma reunião da Comissão Permanente do PSD aqui para a Madeira para esse dia domingo. E é assim que está a ser interpretado este empenhamento pessoal de Luís Montenegro, quererá também, de alguma forma, retirar alguns louros caso se venha a confirmar essa vitória com maioria absoluta da coligação liderada pelo Partido Social-Democrata. Contas para fazer no domingo.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel Vider é jornalista, é editor da Rádio Observador e está na Madeira a acompanhar as eleições regionais. Este domingo, 24 de setembro, a Rádio Observador terá uma emissão especial para acompanhar o apuramento dos resultados. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Arthur Costa, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.