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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a saída de Jerónimo de Sousa e o futuro do PCP.
Não vou embora. Eu disse até amanhã, ontem, no Comitê Central, mas com a convicção e consciência tranquila, porque saio como entro.
Em conferência de imprensa, Jerónimo de Sousa assume que deixa de ser secretário-geral do PCP por questões de saúde, uma decisão pessoal e muito ponderada. No próximo fim de semana, à margem da Conferência Nacional do PCP, o Comitê Central vai confirmar a escolha do sucessor, Paulo Raimundo.
Foi o tal ato natural e normal que eu referi, foi isso que aconteceu. Não estou a inventar. E já agora, também uma confidência, porque me dá um sentimento de satisfação profunda. Ontem o Comitê Central resolveu concordar comigo em termos de substituição da treva, aplaudindo-me por quatro minutos de pé. Este desfecho, este desenvolvimento que estamos a assistir, quero vos dizer que sabe mesmo muito bem sentir o abraço solidário, afetivo dos meus camaradas da direção do partido.
Um comunicado de quatro parágrafos enviado às redações num sábado à noite, quando o Sporting jogava em Alvalade com o Vitória Sport Club, continha uma das notícias do ano. Jerónimo de Sousa deixa o lugar de secretário-geral do PCP e será substituído por Paulo Raimundo, um comunista conhecido no partido, mas um quase desconhecido fora dele. Como foi feita esta escolha? Que rumo vai seguir agora o PCP? São perguntas para Mariana Lima Cunha, jornalista da seção de política do Observador, que acompanha o Partido Comunista. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Mariana.
Olá, Ricardo.
Mariana, como é feita a escolha de um secretário-geral no PCP? No fundo, qual é o processo?
O processo de escolha no PCP é radicalmente diferente do que acontece em todos os outros partidos, não há nada de parecido, porque aqui os militantes não votam nem no nome em particular, nem sequer na sua equipa. O que acontece é que a proposta parte do topo, que são os órgãos mais restritos do PCP, neste caso são a Comissão Política e o Secretariado, e são ambos órgãos onde estão tanto Jerónimo de Sousa como Paulo Raimundo. E depois é votada pelo Comitê Central, que tem cerca de 100 dirigentes. Ou seja, o que o PCP vai dizendo é que também houve as bases em debates internos durante o processo, mas, na verdade, a escolha é feita por um número muito reduzido de dirigentes e não há nada que se assemelhe sequer a uma candidatura à liderança, como nós vemos nos outros partidos.
E essa decisão vai ser confirmada já no próximo fim de semana.
Sim, a votação formal cabe ao Comitê Central, mas vai reunir-se numa reunião ainda durante a Conferência Nacional do próximo fim de semana, que é a segunda maior reunião do partido depois dos congressos, e que aliás, só aconteceu no total sete vezes na história centenária.
Em 100 anos.
Exatamente, do PCP. Quatro foram neste século e nenhuma delas serviu para confirmar um líder novo. Portanto, estamos aqui a assistir a uma novidade absoluta.
Naturalmente, houve alguma surpresa no Comitê Central, mas a tal grande convergência manifestou-se de uma forma inequívoca.
Jerónimo de Sousa fala em ampla discussão, convergência, mas fica a ideia, e até por aquilo que já explicaste, Mariana, que esta decisão é tomada à porta fechada, com tudo o que isso implica.
Sim, e o que é curioso é que a essa ideia que vemos pelo processo em si, junta-se outra revelação surpreendente, que de certa forma confirma que o processo é mesmo um bocadinho opaco. É que tivemos o próprio Jerónimo de Sousa este domingo a confirmar que parte do Comitê Central até ficou espantado com o nome de Paulo Raimundo.
Exatamente.
Ora, o que quer dizer que dificilmente as bases saberiam deste nome ou o teriam debatido amplamente se nem sequer o Comitê Central estava a par da escolha. E, portanto, isto é uma inconfidência raríssima no PCP, é uma espécie de forma de espreitarmos pelo buraco da fechadura do Comitê Central, ao contrário do que acontece noutros partidos, em que há muito mais fugas de informação. Isso prova que o nome não era propriamente debatido no PCP.
Isto é tão reservado que até no último congresso, e assistimos a isso, a reunião do Comitê Central, que decorre à margem do Congresso, é num local que não é revelado. Nós nem sabemos onde é.
É uma missão secreta dentro do Congresso. Para tudo e nós só voltamos no fim para perceber o que é que aconteceu.
E não é revelado o local onde decorre essa reunião.
Como diz o nosso povo, hoje estamos bem, amanhã podemos estar mal. Creio que foi este o momento que eu refleti muito. Era o momento para tomar a iniciativa.
Mariana Lima Cunha, era este o momento, diz Jerónimo, mas ninguém estava à espera dele, ou estava?
Sim, foi uma surpresa relativa, porque é um facto que a situação estava a ser preparada ainda durante o fim de semana. Falava com fontes no PCP que me lembravam que não é exatamente um partido muito dado a grandes imprevistos, nem apanhado na curva.
Não há grandes improvisos no PCP.
Sim, não há margem para isso, porque é hiperorganizado e planeia essas coisas com muito tempo. A questão é precisamente essa, é que o PCP estava a contar com mais tempo e nesse sentido, a rapidez com que o processo aconteceu Até antigos dirigentes surpreendeu, com quem nós falámos e que estavam um bocadinho espantados com o timing. E aí, de facto, o fator chave e o fator surpresa é Jerónimo, porque foi ele quem tomou conta do processo e do timing do processo. Ele, aliás, este fim de semana fazia questão de frisar várias vezes que tinha sido ele a impor a decisão e achei curioso, ele disse que queria decidir sobre a sua própria saúde, no fundo, enquanto ainda tem cabeça. E avançou com a proposta ao comitê central de sair. O que nos diziam dentro do PCP é que acabou por ser o próprio Jerónimo a precipitar os acontecimentos, que num processo normal só acabariam em 2024, que é quando é a data normal do congresso do partido, e historicamente é quando é sempre substituído o secretário-geral. Jerónimo decidiu furar aqui a tradição do partido e acabou por provocar alguma surpresa, pelo menos no timing.
E que legado deixa Jerónimo de Sousa depois de 18 anos à frente do PCP?
Na conferência de imprensa que deu na Soares Pereira Gomes, na sede do PCP, Jerónimo fez mesmo questão de responder que a geringonça não é todo o que marca o seu percurso. Não quer ficar só visto como o secretário-geral da geringonça, até porque esteve lá 18 anos e fez muitas outras coisas. Mas é inevitável. É certo que Jerónimo é um secretário-geral que entra depois da fase de decisão e cisão profunda no PCP, da saída dos renovadores do PCP, que já lida com um partido mais fechado nesse sentido, mas mais coeso, que ainda leva o PCP a uma série de bons resultados. Aliás, quando começa depois a fase geringonça ou em linguagem de PCP, a nova fase da vida nacional, o PCP tem uma representação forte no Parlamento, mas sobretudo fica colado à geringonça por ser uma decisão histórica de se associar a um arquiinimigo que era o PS. Como dizia uma fonte do PCP na semana passada, claro que é sempre preciso ter em conta que o PCP é um partido em que uma decisão dessas nunca seria tomada por uma pessoa. Ou seja, não foi Jerónimo que decidiu naquela noite de que tanto se fala, dizer que o PS só não forma governo se não quer.
Eu li numa sala aqui ao lado, em que nós consideramos que o PS só não fazia governo se não quisesse. Naturalmente, acompanhando esta expressão, com a necessidade de dar resposta aos problemas dos trabalhadores do povo e do país.
Mas Jerónimo foi, como o próprio PCP se orgulha dizer, pelo menos o rosto que fez esse anúncio, que lidou estes anos todos com o PS de António Costa, e aliás, construiu uma relação até pessoal com António Costa, que é conhecida durante anos, que foram de uma solução que é, de facto, completamente inédita na democracia portuguesa e aí abriu um capítulo que já não se fecha.
Segui um conselho de um camarada mais velho, que ele dizia que procura só ser o que tu és. Isso serviu-me de referência fundamental, sempre com o apoio, o estímulo, os afetos do meu coletivo partidário.
Mariana, tu acompanhas o PCP, quer nas iniciativas partidárias, quer no Parlamento. E aqui do ponto de vista estritamente pessoal, Jerónimo de Sousa é alguém que vemos a conversar com qualquer pessoa, de qualquer quadrante político ou esta é uma visão um pouco romanceada deste líder comunista?
Eu diria que tem pelo menos um fundo de verdade, senão mais do que um fundo. Dificilmente veremos Jerónimo de Sousa a conversar com André Ventura, por exemplo, nos corredores do Parlamento. Mas se falarmos de pessoas com outros partidos e outros deputados, percebemos que há ali uma dimensão de respeito, até de afabilidade pessoal com Jerónimo, que vem do seu longo historial na política. Aliás, ele é o último deputado constituinte, vai ser o último a sair do Parlamento, e do seu próprio feitio. E isso é uma dimensão que, contra os costumes do PCP, ele preza muito e faz questão de alimentar. Lembro-me que ele já quando foi operado no início do ano, fez umas declarações especialmente emotivas em que destacava que valorizava muito ouvir os desejos de melhoras dos seus adversários políticos, que é uma coisa rara no PCP. Este domingo falava de ter ficado tocado quando uns jornalistas o convidaram para almoçar no fim de uma campanha, dizendo que era um gesto afetuoso. E ele reconhecia a política de afetos, não é bem a primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos no PCP, mas que ficou um bocadinho, de facto, associada a Jerónimo. Agora, obviamente, depois é preciso separar as duas dimensões. Uma coisa é Jerónimo como pessoa e até no seu estilo de diálogo político, outra é o partido em que se representa e que se revê, e esse está cada vez mais isolado, tanto no Parlamento como no espectro político português.
Já voltamos à conversa com a jornalista Mariana Lima Cunha. Vamos olhar para o sucessor de Jerónimo de Sousa e para o futuro do PCP.
E o resto é História, com João Miguel Tavares e Rui Ramos, às quartas-feiras depois do Jornal do Meio Dia e sempre em podcast.
Estamos de regresso à conversa com a Mariana Lima Cunha, jornalista da seção de política do Observador, que acompanha o PCP.
Paulo Raimundo pode ser desconhecido do grande público, tendo em conta que constitui uma novidade, mas eu queria referir um exemplo. Quando fui indicado pelo meu partido para secretário-geral, havia setores que se interrogavam se eu comia, se eu dançava, qual era o meu nome. Lembro-me de uma cena em que um homem dirigiu-se furioso em relação a mim e ao camarada que me acompanhava, e disse: "pois, deem cabo do resto, deem lá o poder a esse Germano e depois vão ver."
Mariana, afinal, quem é este homem? Quem é Paulo Raimundo?
Olha, isso é uma pergunta que muita gente, incluindo jornalistas de política
Incluindo aqueles que acompanham o PCP.
Exatamente. Quando viu o comunicado e percebeu que será o sucessor de Jerónimo. Isto porque para a generalidade do país é um perfeito desconhecido, claramente. Nunca teve funções sequer de destaque no PCP em termos mediáticos, não obviamente internamente, mas em termos mediáticos. Um camarada seu dizia-nos: "Eu acho que ele nunca foi à televisão", resumindo um bocado a questão assim. Agora, obviamente, olhando para o partido, a história é muito diferente. É um homem muito ligado ao aparelho e às bases do PCP, à organização do partido em particular. Na vida profissional, é basicamente um homem quase totalmente dedicado ao partido. Ele é funcionário há quase 20 anos, já era funcionário da JCP.
Ou seja, Mariana, podemos dizer que ele é um operacional do PCP?
Sim. É um homem que, e o partido valoriza muito isso, conhece perfeitamente as bases do PCP, conhece os setores principais do PCP e até em termos de implantação no território, andou em várias organizações regionais, aquilo que nós chamaríamos de distritais noutros partidos. E portanto, conhece muito bem várias realidades no país. E, por outro lado, é uma pessoa referida pelos colegas de partido como uma pessoa que ouve muito e que dialoga muito, e portanto também vai conhecendo várias sensibilidades dentro do partido, e espera-se isso dele também.
Quantas vezes alguns de vocês dizem: "Então é o João, é o Manel, é o Joaquim". Isto significa que existem condições para reforçar o trabalho de direção do partido.
E Paulo Raimundo deixa para trás nomes como João Oliveira, João Ferreira, Bernardino Soares.
É verdade, se as pessoas tivessem apostado dinheiro quando faziam as suas apostas sobre sucessão do PCP, estaríamos todos a perder dinheiro.
Exatamente.
Eu acho que é mais uma prova de que o PCP não mente quando diz que é imprevisível, porque não se guia pelos mesmos critérios que os outros partidos. Os critérios são mais ou menos eficazes, já será outra questão. Mas sendo o carisma e o mediatismo critérios que parecem mais ou menos óbvios, pelo menos para os outros partidos, aqui não entram claramente nas contas. O que é engraçado é que até se comenta o contrário. É como se o mediatismo fosse uma coisa quase negativa, quase de ambição pessoal, de aparecer. Não é uma coisa assim tão bem vista no contexto do PCP, mas a abnegação à partida, a entrega, que são qualidades muito elogiadas a Paulo Raimundo, é que é uma qualidade relevante. E portanto, dentro do PCP, ao contrário do que nós achamos, pensamos que um dirigente estará na frente da corrida porque aparece muito na televisão, porque fala bem, porque é ouvido. Até porque como João Oliveira e João Ferreira substituíram Jerónimo na campanha e achámos que isso era um sinal, mais uma vez o PCP trocou-nos as voltas. Mas de facto não são esses os critérios, para o bem ou para o mal.
E é curioso que digas isso, porque há aqui um outro fator: é que Paulo Raimundo não é deputado, mas isso também para o PCP não é um grande problema.
É mais um caso em que estamos aqui a lidar com critérios diferentes daqueles a que se calhar estamos habituados. O trabalho que um partido como o PCP privilegia é em grande parte invisível para nós, porque é de bases, é o chamado trabalho junto das massas, é o que o partido diria, que na prática é um trabalho feito em associações, em sindicatos, a falar com trabalhadores, a falar com pessoas que se calhar, e é o que dizem muito no partido, não têm tempo, não estão propriamente nem a ver o canal Parlamento, nem chegam a casa já nem o telejornal veem, porque têm um trabalho com não sei quantas horas de trabalho por dia e ganham pouco, e é a essas pessoas que o PCP também se quer ligar. E portanto, o Parlamento, ainda para mais numa legislatura de maioria absoluta, em que o PCP tem uma influência muito reduzida a nível legislativo, em que vê a contestação a passar às ruas, tem uma série de razões para acreditar, pelo menos na sua cabeça, que o Parlamento passou para segundo plano, onde para o PCP até quase sempre esteve. E portanto, não é um palco assim tão privilegiado quanto isso. Isto obviamente traz complicações evidentes, porque não são só os dirigentes do PCP que votam, é o país que vota, que tem de conhecer os protagonistas e portanto, para um líder que não tem notoriedade já para começo de conversa, é complicado não ter esse palco.
E Mariana, perante tudo isso que estás a dizer, já falaste aí nas ruas e na contestação, a luta vai continuar por aí. Há alguma coisa que muda no PCP com esta mudança de liderança?
A luta vai continuar, aliás, as poucas intervenções públicas que temos de Paulo Raimundo são muito especificamente sobre a força dos trabalhadores, precisamente. A diferença aqui vai ser de nome e de cara, mas não é revolução nenhuma na linha política do PCP, longe disso. Essa está bem definida, passa pelas ruas, pela contestação.
Não estou a dizer isto porque estou a falar com jornalistas. Estou a dizer isto porque é a realidade de um quadro que naturalmente vai ser testado e temperado em movimento, mas que dá garantias de que este partido continuará como o Partido Comunista Português.
Por estar junto dos trabalhadores, como falávamos, e de quem está a sofrer com a inflação, com a perda do poder de compra, sendo que desta vez tem de lidar com uma novidade: é que além da esquerda, até o Chega está a entrar nesse campeonato, até aliás a tentar criar uma federação sindical e a tentar disputar o mesmo espaço político. E portanto, a linha é a mesma, os desafios são enormes.
As posições do PCP em relação à guerra, um novo secretário-geral desconhecido do país, numa escolha que não obedece a critérios democráticos que vigoram noutros partidos. Mariana, tudo isto somado poderá determinar um futuro ainda mais sombrio para o PCP?
Acho que vai ser, sem dúvida, um ciclo muito difícil para o partido. O PCP diria sempre, e dirá sempre, até porque tem 100 anos e tem sempre esse historial para dizer que é um exagero falar de lutas pela sobrevivência. Mas há quem, nos partidos vizinhos da esquerda, falem de gestão do definhamento, que é outra maneira de o dizer. O que é certo é que é uma fase tão difícil que o próprio PCP decide convocar uma conferência nacional, que é raríssima na história do partido, e admite, se fores olhar, por exemplo, para a resolução política que vai ser aprovada na conferência, há muitos pontos sobre a organização interna. Admite que é preciso reajustar muitas coisas, formas de trabalhar do próprio PCP, recrutamento de quadros, um reforço, claro, que o partido sente que lhe está a faltar essa vitalidade. Isto é muito curioso, porque é raro nós vermos o PCP a falar em coisas que correm mal sem as atribuir quase exclusivamente a fatores externos. É um clássico. Há uma campanha contra o PCP, seja por causa da guerra, da pandemia, há uma conjuntura horrível que afetou o PCP, há sempre uma série de questões, o voto útil. Desta vez, o que é diferente é que parece que o próprio PCP está mesmo a reconhecer que a crise é profunda. Está a fazer aqui um toque a rebate das suas tropas e havia um dirigente que me dizia a tentar dar um abanão grande aos militantes, até. E portanto, a solução para isto está muito longe de ser óbvia.
Obrigado, Mariana.
Obrigada, Ricardo.
Mariana Lima Cunha, jornalista da secção de política do Observador e acompanha o PCP. Esta foi a história do dia. Pode seguir-nos tanto no site do Observador como nas aplicações que habitualmente usa para ouvir podcast e assim não perde um episódio. Pode também sugerir a um amigo ou familiar a história do dia, que tem um tema diferente todos os dias, de segunda a sexta. Obrigado por nos ouvir. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.