Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que sabemos do caso e da morte de João Rendeiro.

Eu não vou regressar a Portugal.

Não vai regressar a Portugal?

João Rendeiro soltou esta frase para os jornalistas a partir do banco dos réus no Tribunal de Verulam, em Durban, na África do Sul, a 14 de dezembro de 2021. Tinha sido detido na manhã de 11 de dezembro. Portugal avançou com pedido de extradição, que ainda corria quando, na manhã desta sexta-feira...

São 9h30. Abrimos agora emissão especial na Rádio Observador, marcada pela morte de João Rendeiro. O ex-banqueiro foi encontrado morto na prisão de Durban, onde estava detido desde 11 de dezembro de 2021, após ter fugido de Portugal. Carla Jorge Carvalho.

Esta informação sobre a morte de João Rendeiro foi avançada pela CNN Portugal, entretanto já confirmada pelo Observador. O antigo banqueiro foi encontrado morto. As circunstâncias desta morte ainda estão-

João Rendeiro morreu numa prisão sul-africana enquanto aguardava o desenrolar do processo de extradição. O que sabemos sobre a morte do ex-banqueiro e sobre este caso? Esta é uma edição extra de A História do Dia. Vou conversar com Pedro Rainho, editor-adjunto de sociedade, que esteve na África do Sul quando Rendeiro foi detido e assistiu às primeiras audiências em tribunal.

Eu escrevi uma carta que saiu no Tal & Qual, penso que talvez conheça.

Sim.

Que terminava de uma maneira um pouco dramática, mas verdadeira, que dizia: "Liberdade ou morte".

Bem-vindo, Pedro.

Olá, Ricardo.

A notícia desta sexta-feira surpreendeu-nos a todos. É um daqueles momentos que quem está numa redação percebe que alguma coisa de grave aconteceu, porque de repente há uma espécie de um silêncio, alguém que dá um grito, um aviso, e depois tudo para. Parece que tudo fica parado durante alguns instantes e, de repente, a fábrica começa a trabalhar.

Tudo recomeça. É verdade, é um instante em que toda a gente se apercebe que alguma coisa está a acontecer. Há esse tal microsegundo em que tudo para e, de repente, toda a gente começa a perseguir a notícia. E foi precisamente isso que aconteceu hoje. Só há aí um detalhe: não estou convencido de que a notícia que aconteceu hoje tenha apanhado toda a gente de surpresa. Acho que havia alguns indícios de que isto poderia acontecer.

Já vamos voltar a esse ponto. Para já e para percebermos melhor esta história, temos é que enquadrar e começávamos talvez pelo momento da fuga de João Rendeiro.

Sim, com esta data, 12 de setembro de 2021. João Rendeiro tinha sido condenado em Portugal a uma série de anos de prisão. Tinha também interposto recursos dessas condenações e, portanto, é neste contexto que João Rendeiro apanha o voo para Londres. Ele diz até que tinha sido identificado ou avistado por uma procuradora do Ministério Público em Portugal. Voo para Londres com a autorização da Justiça portuguesa. Depois, o que aconteceu a seguir é que não era tanto do conhecimento da Justiça. Ele voa para Londres, rapidamente passa para o Catar, do Catar vai para a África do Sul. Estamos aqui a falar num intervalo de seis dias, sensivelmente. Nada disto era do conhecimento da Justiça portuguesa. E depois vamos parar nessa outra data, 11 de dezembro de 2021, e noutra localização completamente diferente, Durban, na África do Sul, onde ele acabaria por ser detido.

Jornal das Nove, com edição do Aníbal Rebelo. Aníbal, começamos com uma notícia de última hora. João Rendeiro foi detido esta madrugada pela Polícia Judiciária. Na África do Sul, onde estava o ex-banqueiro-

E o que é que aconteceu durante estes três meses, Pedro?

Aquilo que percebemos é que João Rendeiro não esteve propriamente parado e à espera que a polícia lhe fosse bater à porta. Não esteve sempre em Durban, onde foi detido. Primeiro, quando chegou à África do Sul, ficou hospedado num hotel de valor, um hotel distinto em Joanesburgo, e aí usou um passaporte verdadeiro para fazer o check-in. Isto é importantíssimo porque acabaria por fazer soar os alarmes em Portugal, junto daqueles que estavam à procura de João Rendeiro. Depois, em novembro, a mulher de João Rendeiro diz em tribunal que o marido estaria naquele país. Dá ali um sinal. A Polícia Judiciária veio dizer que já sabia que ele ali estava, portanto, houve aqui alguma coisa pelo caminho que aconteceu. E logo a seguir, ele garante que só volta a tribunal depois desta presença da mulher em tribunal. João Rendeiro diz que só volta a tribunal se for ilibado ou se receber um indulto do Presidente da República. E nessa altura, também é importante dizê-lo, ele já tinha um visto de residência na África do Sul. Depois de tudo isto, há ali um período muito curto em que ele, de facto, chega a Durban e está ali uns dias antes de ser detido.

Porque antes desse momento, antes dessa detenção, há o momento da entrevista à CNN.

Temos então a oportunidade de falar com João Rendeiro. Muito bom dia, boa tarde ou boa noite. Eu calculo que não vai responder à primeira pergunta e à pergunta que é óbvia, que tenho que lhe fazer, mas ainda assim tenho mesmo que a fazer. João Rendeiro, onde é que está?

Bom, as pessoas bem informadas em Portugal, como a Clara Ferreira Alves e os jornalistas do Expresso, dizem que eu estou ou estaria em Belize. Como é óbvio, não estou em Belize

Uma entrevista, Pedro Rinho, que serviu para criar uma espécie de narrativa da defesa de Rendeiro. É isso.

E que nos ajuda a perceber, de facto, o que é que ia na cabeça de João Rendeiro. É um momento importantíssimo da fuga. Ele, aliás, diz que não estava em fuga, mas essa entrevista tem um efeito psicológico e também um efeito mediático sobre as autoridades portuguesas. João Rendeiro, reconhecemo-lo, era uma pessoa de relevo, era também, dá-se o caso, procurado pela Justiça e de repente aparece nas televisões, em Portugal, a dar entrevistas. E não só a dar entrevistas, ele nessas entrevistas diz que não vai voltar a Portugal.

Não vejo nenhum cenário onde isso possa acontecer. O único cenário possível seria não haver condenações ou, havendo condenações, haver um indulto do presidente, o que é um cenário completamente impossível, na minha opinião.

E, portanto, ele aparece quase a fazer uma provocação à Justiça portuguesa e às autoridades policiais portuguesas. Mas é também, de alguma forma, como eu dizia há pouco, um momento premonitório. João Rendeiro já tinha escrito uma carta em que utiliza a expressão "liberdade ou morte", e nessa entrevista ele chega a recordar que em certas culturas o suicídio, e ele diz de forma expressa, o suicídio é quase um ato de nobreza.

O suicídio é visto com nobreza. Por exemplo, os samurais suicidavam-se em defesa da honra. Não é matéria que me preocupe ou que eu tenha necessidade de refletir ou justificar o que é que se passa.

É por isso, Pedro Rinho, que dizias há pouco que havia estes indícios que Rendeiro poderia optar por um ato desesperado?

Falarmos sobre isto nesta altura é bastante mais fácil, não é? Porque os factos estão consumados, nós vimos qual foi o desfecho deste caso. Mas de facto, se olharmos agora para trás, para as palavras que foram usadas, pela forma como João Rendeiro sempre recusou um determinado cenário, um determinado desfecho, que era voltar a Portugal e cumprir pena em Portugal, sim, acho que é seguro afirmar que os indícios estavam lá.

Pedro Rinho, vamos dar aqui um passo atrás. Tu estiveste em Durban no final de dezembro do ano passado. Falaste com a advogada de Rendeiro e houve uma estratégia da defesa em relação ao processo de extradição. Que estratégia era essa?

Sim, o Observador esteve em Durban logo nos instantes seguintes à detenção. Fomos acompanhando aquele momento determinante em que o João Rendeiro em tribunal sabe que vai ficar em prisão preventiva, que é essa a decisão do tribunal, que é no instante em que ele baixa a cabeça e está ali uns segundos quase que a refletir sobre aquilo que tinha acabado de acontecer, talvez a reposicionar as peças no tabuleiro de xadrez. Mas perguntavas-me sobre a estratégia da defesa. Houve sempre esta crença de que João Rendeiro poderia, de facto, voltar à liberdade. A defesa interpôs uma série de recursos depois de saber que a prisão preventiva era a medida de coação que ia ser aplicada. Foram apresentados recursos. João Rendeiro era defendido na África do Sul por uma advogada especialista em crimes de colarinho branco, portanto, conhecia esta realidade com que João Rendeiro chega à África do Sul. Ela chega a contestar, num documento que nós obtivemos, chega a contestar e a tentar destruir toda a argumentação do Ministério Público. Inclusive, é todo o processo que levou a que João Rendeiro fosse detido na África do Sul e, portanto, acusa o tribunal, e estas expressões constam desse documento, de ceder à pressão mediática, de tomar uma decisão para satisfazer o público português. Diz que os documentos não estavam traduzidos, que faltavam assinaturas. Utiliza uma série de argumentos para tentar reverter aquela decisão. E depois, tudo isto culmina com aquele momento a que assistimos, em que o processo que estava na África do Sul e que estaria na base da decisão para a extradição para Portugal, tem de voltar à base, porque um dos documentos, um dos processos, não estava devidamente selado.

E Pedro, temos também, neste caso, de falar da cadeia onde João Rendeiro esteve detido e onde viria a morrer. Aquela cadeia é descrita no mínimo como um pesadelo. Que prisão é aquela? Tu estiveste lá bem perto.

Nós estivemos à porta da prisão, estivemos a falar com alguns familiares de reclusos, isto em dezembro do ano passado, com alguns familiares de reclusos. Era curioso aquilo que percebíamos, mesmo esses familiares não se sentiam particularmente confortáveis em falar sobre a realidade do dia a dia daquela prisão. Eu creio que é uma realidade cuja compreensão nos escapa à maior parte de nós, talvez, mas é considerada uma das prisões mais perigosas da África do Sul. Há problemas de segurança, há problemas de condições sanitárias, falta de acesso a cuidados de saúde. É muito fácil e ouve-se regularmente falar sobre a propagação de doenças entre a população prisional e se calhar a menos preocupante delas era o facto de João Rendeiro ser detido e estar a cumprir lá uma prisão preventiva em contexto de Covid, em contexto de pandemia. Por este enquadramento, chega-se a pôr a hipótese de João Rendeiro, uma pessoa tida como tendo grandes posses e grandes meios à sua disposição, beneficiar de uma cela privada. Não sei se te recordas deste debate. Ele estaria a pagar para ter proteção lá dentro. A advogada disse sempre que o seu cliente, João Rendeiro, não tinha um estatuto privilegiado, estava numa cela com dezenas de presos preventivos. Nós chegámos a tentar uma visita, mas isso foi sempre impossível. Mas isto para dizer que é um contexto completamente diferente daquele que, por exemplo, João Rendeiro poderia encontrar numa prisão de Évora, aqui em Portugal.

Na manhã desta sexta-feira é encontrado morto na cela. Estamos a ter esta conversa, Pedro, durante a tarde do dia 13 de maio. A esta hora, o que é que sabemos sobre o que terá acontecido naquela cela, naquela prisão da África do Sul?

Aquilo que nós sabemos é que ao início da manhã, João Rendeiro deveria ser transportado da prisão de Westfield para o tribunal. Ele aparentemente teria uma sessão em tribunal para rever as medidas de coação. Quando os serviços prisionais iam apanhá-lo para fazer esse transporte, é aí que são confrontados com o facto de João Rendeiro ter optado por ter tirado a vida. Acabou por não haver esta sessão em tribunal, obviamente. E aquilo que percebemos é que a advogada é informada daquilo que tinha acontecido, precisamente quando chega ao tribunal. O Ministério Público dá-lhe essa informação, não lhe dá grandes detalhes. Ela acaba por ser solicitada para ir fazer o reconhecimento do corpo. Neste momento em que falamos, de facto são mais as questões, são mais as dúvidas do que propriamente as respostas sobre o que aconteceu naquela cela. E precisamente quando já tinha passado a noite, segundo informações que fomos recolhendo, noutra cela mais recatada, com menos população, ele acaba por ser encontrado sem vida. Não sabemos ao detalhe ainda como é que as coisas aconteceram. Isso talvez seja o menos relevante neste momento. O que nós sabemos é que o argumento da advogada para quebrar esta relação com João Rendeiro era o de que já não haveria dinheiro, ou pelo menos João Rendeiro já não teria acesso a fundos que lhe permitissem pagar aquela representação legal. E depois acontece o que aconteceu.

Obrigado, Pedro.

Obrigado, Ricardo.

Pedro Rainho é editor adjunto de sociedade e esteve na África do Sul no final do ano passado. Há vários meses que acompanha este caso de João Rendeiro, o banqueiro encontrado morto na prisão a 13 de maio de 2022. Este foi um episódio extra de "A História do Dia". Neste episódio ouvimos vários sons de João Rendeiro retirados da entrevista que deu à CNN a 22 de novembro de 2021. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição.