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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o regresso da gripe A.
Estou preocupado e estou atento. Estou preocupado por quê? Porque muitas vezes não há coincidência da atividade viral em simultâneo. Nós vimos o início da atividade do vírus sincicial respiratório e agora estamos a ver, sem qualquer sombra de dúvida, um aumento exponencial da atividade viral e nada nos diz que não vamos ter a seguir um aumento da atividade do SARS-CoV-2.
É comum nesta altura do ano e mesmo assim preocupa os especialistas. O número de casos de gripe aumentou nos últimos dias e a maior parte dos casos são do tipo A. Esta estirpe é mais agressiva e mais persistente do que as outras, o que acaba por entupir os serviços de urgência numa altura em que eles já estão fragilizados. O que é a gripe A e por que voltou agora? Quais os sintomas mais e menos comuns? Neste episódio, vou falar com o Tiago Caeiro, jornalista do Observador, especialista em saúde. Eu sou a Teresa Bacacis e esta é a história do dia de quinta-feira, 28 de dezembro. Bem-vindo, Tiago.
Olá, Teresa.
Esta é uma altura habitual de gripe. O que é diferente este ano?
Sim, é verdade. Nós estamos em dezembro, existe uma maior circulação de vírus respiratórios, temos enfrentado dias mais frios e passamos mais tempo em espaços fechados. São tudo fatores que explicam o maior número de contágios nesta época do ano. No entanto, nesta época gripal, a gripe está com uma intensidade muito superior à do ano passado, com muito mais contágios. Segundo o boletim do Instituto Ricardo Jorge, que é relativo ainda à semana entre 11 e 17 de dezembro, foram registados 960 casos de gripe, sendo que mais de 90% são de gripe A. Este valor, para se ter uma ideia, é quase o dobro do registrado na mesma semana do ano passado.
E qual é a diferença da gripe A em relação às outras gripes mais comuns?
A larga maioria dos casos de gripe que estão a ser identificados são de infecção por estirpes do tipo A, que em geral causam doença mais grave e mais prolongada. Esta é a principal diferença. Há uma estirpe em concreto, a estirpe H3N2, que causa gripe A e que se diferencia por provocar quadros mais graves, bastante graves desta doença. Este ano, os especialistas referem também a existência de quadros mais prolongados da doença, que podem durar até oito semanas, como garantiu ao Observador o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Gustavo Tato Borges.
Pode ser uma evolução natural, uma mudança no padrão genético destes vírus que vamos tendo agora conosco, destes vírus da gripe, e que possam estar, de facto, um pouco mais agressivos e darem estas situações de maior casos de doença. Podemos olhar também para o fato de, durante a pandemia, os vírus mais simpáticos possam ter sido eliminados e termos selecionado de forma mais direcionada apenas as estirpes que se aguentaram melhor neste período de pouco contato entre os vírus conosco.
O Observador também falou com Filipe Froes, pneumologista do Hospital Pulmonar e do Valente, que explicou quais são os principais sintomas de gripe A.
O que os doentes se queixam, no meu caso, é o que se queixam todos os anos. É uma queixa súbita de febre, calafrios, mialgias, muitas vezes acompanhadas com queixas das vias aéreas superiores, com dor de garganta, cefaleias, congestão nasal. De qualquer maneira, é fundamental as pessoas estarem atentas ao aparecimento de sinais de alerta. Quais são os sinais de alerta? Febre persistente mais de três, quatro dias, reaparecimento de febre após alguns dias de ausência de febre, evolução progressiva para quadros de falência respiratória, emissão na expectoração de sangue, alterações do estado de consciência e alterações gastrointestinais, como náuseas e vômitos, que impeçam a tomada normal de medicação.
A gripe A é mais contagiosa do que as outras gripes?
Não, não é. A diferença está mesmo na intensidade dos sintomas e no tempo em que estes persistem, que são mais elevados em casos de gripe A. Aliás, o tempo de transmissão do vírus é até maior nos casos de gripe do tipo B, que é o outro grande tipo comum de gripe, em relação à gripe A, como explicou ao Observador o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, António Morais.
É porque, na teorícia, como vários acontecimentos que acontecem no inverno, ao proporcionar que as pessoas estejam mais juntas, efetivamente acabam por condicionar um pouco a transmissão, acabam por facilitar a transmissão. E de facto, isso pode ter alguma influência.
E por que este aumento de casos de gripe A pode ser preocupante?
O aumento é preocupante, sobretudo em dois patamares: pelo impacto que está a ter nos grupos de risco, onde a taxa de vacinação está abaixo da do ano passado e que podem enfrentar uma descompensação das doenças crônicas que já têm, nomeadamente nos idosos. E o outro patamar em que o aumento dos casos pode ser preocupante é o da capacidade do SNS para responder a todos os casos. É um problema que, aliás, já se tinha colocado aquando da pandemia de Covid-19. Neste momento, a afluência aos hospitais é elevada e muitas unidades não estão a conseguir dar resposta nesta altura, num período em que ainda se sentem os efeitos das escusas dos médicos às horas extra nas urgências.
Já voltamos à conversa com o Tiago Caeiro. Na segunda parte, vamos falar sobre os cuidados que podemos ter e também sobre outro vírus que tomou conta das nossas vidas até há pouco tempo. Onde é que anda o SARS-CoV-2? Mas antes, um pedido: se gosta da história do dia, siga-nos na sua aplicação preferida para ouvir podcasts. Assim, receberá os novos episódios logo que forem publicados. Estamos de regresso à conversa com Tiago Caeiro, jornalista do Observador, especialista em saúde. Os novos casos de gripe têm enchido as urgências dos hospitais. O que os especialistas aconselham nestes casos?
Sim, temos assistido a um aumento da afluência às urgências desde o último fim de semana, por parte de utentes com quadros gripais. Há hospitais com tempos de espera muito elevados para doentes considerados urgentes, isto é, doentes triados com pulseira amarela, que deveriam esperar no máximo uma hora para serem vistos e que estão a esperar muito mais do que isso. Há registo de 18 horas de espera no Hospital Amadora-Sintra, de 13 horas no Hospital Beatriz Ângelo, e os responsáveis pelas urgências garantem que cerca de metade das pessoas com gripe que se deslocam aos serviços de urgência não precisariam de lá ir. Em caso de gripe, as pessoas devem fazer medicação antipirética para baixar a febre, hidratar-se e repousar, principalmente isto, como explicou ao Observador o pneumologista António Morais. Se não pertencerem a grupos de risco, ou seja, se não forem idosos ou tiverem doenças crónicas, esta deve ser a abordagem inicial. Só numa situação em que a gripe não ceda ao fim de cinco dias, deve ser procurado um médico.
É uma história que se repete todos os anos. As pessoas continuam a ir às urgências quando não precisam.
Sim, sabemos que a afluência crônica às urgências de doentes pouco graves é um problema do SNS, ainda sem solução à vista. Cerca de 40% dos utentes que se deslocam aos serviços de urgência acabam por receber pulseiras azuis ou verdes, ou seja, são doentes pouco graves. E nesta altura a situação complica-se porque 2500 médicos, muitos da especialidade de medicina interna, que é a base das urgências, continuam a recusar fazer trabalho extraordinário, o que dificulta a resposta.
E quais são os grupos que correm maior risco?
Os grupos de risco são os idosos, as pessoas com doenças crônicas, as crianças com menos de dois anos e as grávidas. No caso dos idosos e dos doentes crônicos, a atenção deve ser redobrada, uma vez que a infecção pode resultar numa doença mais grave, com descompensação das doenças de base, que as pessoas já têm, doenças como insuficiência cardíaca, doença pulmonar ou obstrutiva crônicas, que são muito prevalentes na sociedade. E nestes grupos, um quadro de gripe pode obrigar a hospitalização e colocar em risco a vida dos doentes.
Já atingimos o pico da gripe?
Quanto a isso, há opiniões contraditórias. Sabe-se que o número de casos está a aumentar de forma exponencial. Agora, aferir se o pico já foi atingido é difícil. António Morais, o presidente da Sociedade de Pneumologia, considera que não atingimos ainda o pico, mas, por exemplo, há outros especialistas que dizem que sim, como a diretora do Serviço de Urgência do São João.
E como é que podemos travar a gripe? Que cuidados é que podemos ter?
Em relação à prevenção da gripe, as pessoas devem ter o cuidado de usar as regras de etiqueta respiratória que foram difundidas durante a pandemia de Covid, ou seja, lavar as mãos, proteger-se ao tossir e caso tenham sintomas de infecção, usar máscara.
São as mesmas medidas que ouvimos todos os anos. A máscara que referiste não é uma medida normalizada entre nós, mas há outros países onde ela é mais comum.
Sim, a máscara foi sendo retirada aos poucos da vida social e, de facto, não temos os cuidados que outros países têm, como por exemplo os países asiáticos, onde a utilização é comum há muitos anos.
E mesmo com comportamentos diferentes, os números são diferentes dos dos outros anos. Há mais alguma coisa que mudou no comportamento das pessoas?
É difícil dizer, embora muitos especialistas apontem o maior relaxamento no comportamento das pessoas depois do fim da pandemia de Covid. A verdade é que no que diz respeito à gripe, a taxa de vacinação baixou relativamente ao ano passado nos grupos de risco e isso está a causar alguma preocupação entre os médicos. Para se ter uma ideia, está em 60% nos maiores de 60 anos e em 75% nos maiores de 80 anos. Ainda há espaço para poder ser aumentada esta taxa de vacinação.
E onde é que anda a Covid-19? Nós não estamos a ver um aumento de casos de SARS-CoV-2.
Segundo os últimos dados disponíveis, a intensidade da Covid mantém-se num nível baixo, para já. No entanto, os especialistas não descartam a hipótese do SARS-CoV-2 voltar em força depois deste período em que as estirpes de gripe A estão a dominar os contágios em Portugal.
Obrigada, Tiago.
Obrigado.
Tiago Caeiro é jornalista do Observador, especialista em saúde. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacich. Até amanhã.