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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Passos Coelho vai voltar?

Eu não quero fazer declarações. Sabem disso. Não estou no espaço público. Isto era uma aula.

Esta declaração de Pedro Passos Coelho teve menos de um minuto. Nesta quinta-feira, ao final da tarde, participou numa aula sobre o Serviço Nacional de Saúde, no âmbito do Congresso de Educação Médica em Lisboa. Uma sessão que decorreu à porta fechada. À saída, insistiu que está fora do espaço público, mas deixou uma porta aberta.

Não há nenhuma razão pra eu dizer que nunca mais na vida faço coisa nenhuma, porque seria uma tolice dizer coisas dessas, seria um absurdo. Mas não estou a pensar em coisa nenhuma, estou muito fora de tudo e assim pretendo continuar, está bem? E agora, não levem a mal, já chega. Estes eventos são eventos académicos.

O antigo primeiro-ministro nunca esteve completamente ausente, mas há muito tempo que não estava tão presente. Com os dados que temos, tentamos responder à pergunta: estará Passos Coelho a regressar? E se sim, vai conseguir reunir apoios? Vou conversar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política que há muito acompanha o PSD. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel, para o arranque desta conversa, proponho-te regressar ao teu álbum de fotografias das férias, numa altura do ano em que te apresentaste pelo menos um bocadinho mais bronzeado no calçadão de Quarteira e presenciaste esta cena. Candidata-se à Presidência da República.

Eu não venho responder a questões dessas. Estou fora.

Vai trincá-la com sangue.

Não, tem toda a razão. Aproveito o facto de estar a fazer essa pergunta para dizer que a minha vinda cá tem, de certa maneira, um caráter excepcional, no sentido em que não é para repetir.

Passos Coelho reapareceu em Quarteira, aqui a desviar para canto quando interpelado por uma senhora anônima. Passos Coelho, Miguel, reaparece em Quarteira por quê? Por quê depois de uma, podemos dizer assim, longa ausência?

Por partes. Reapareceu porque nunca foi bem-vindo no consulado do Rui Rio e apareceu por ser também muito próximo de Luís Montenegro. Ainda que, é importante dizer, Pedro Passos Coelho não tenha gostado particularmente de uma aproximação ensaiada por Luís Montenegro na fase final a Rui Rio. Luís Montenegro, é importante recordar, que apoiou e apareceu na campanha do Rui Rio nas legislativas. E depois, ou melhor, antes mesmo, no congresso que entronizou pela terceira vez Rui Rio, Luís Montenegro apareceu com um discurso muito pacificador e muito de união em torno do líder. Pedro Passos Coelho, é o que consta, não gostou muito dessa aparente aproximação e houve ali algum distanciamento entre os dois. Tanto que Pedro Passos Coelho, e apesar de muita especulação, não aparece no congresso que entronizou Luís Montenegro. Aparece, sim, no pontal, como dizias, e bem, e já para deixar uma palavra de incentivo ao novo líder do PSD.

Passos Coelho retirou-se da vida pública quando? Eu faço esta pergunta, Miguel Santos Carrapatoso, porque temos um bocadinho a ideia de que saiu quando António Costa assumiu a chefia do governo, mas não foi assim.

Não. É importante recordar que Pedro Passos Coelho venceu as eleições de 2015, formou governo, o governo caiu no Parlamento, mas Pedro Passos Coelho manteve-se à frente do PSD e só sai depois de umas autárquicas, as de 2017, absolutamente catastróficas para o PSD, sobretudo por causa do resultado em Lisboa, em que o PSD foi a terceira força mais votada, ficou atrás do CDS. Na altura, Assunção Cristas, onde ela já vai, teve um resultado brilhante em Lisboa.

O resultado de esta noite foi um resultado muito pesado pro PSD e eu não gosto de fugir às minhas responsabilidades. Responderei agora a algumas perguntas, se assim o entender.

Dr. Passos Coelho, põe então a hipótese de não se recandidatar à liderança do PSD?

É uma hipótese, com certeza, porque eu disse que faria uma reflexão aprofundada sobre as condições para me submeter a um novo mandato dentro do PSD.

E isso acabou por precipitar já o fim do passismo, que foi muito marcado por aquela ideia de "vem aí o diabo". O diabo não apareceu, António Costa tinha, na altura, grandes doses de popularidade e o fim do passismo foi muito agoniante e Pedro Passos Coelho acabou por sair pela porta pequena, deixando sempre muitos saudosistas dentro do PSD.

E o nome do ex-primeiro-ministro acaba por nunca sair da luta política.

Entretanto, esta semana foi votado o orçamento do Estado para 2023 e felizmente, uma coisa de que não se falou, já estávamos todos fartos, ainda bem, não se falou foi de uma coisa, foi da austeridade.

Escusa de falar da direita e da austeridade. Ouvimos o deputado Miranda Sarmento pedir-nos, por favor

Para não falarmos da austeridade.

Austeridade.

Da austeridade.

Acho que é austeridade. Austeridade.

Austeridade.

Esta compilação foi feita no programa da SIC, Isto é Gozar com Quem Trabalha, que tem Ricardo Araújo Pereira como protagonista. É um best of daquilo que foi dito no debate do Orçamento do Estado, que a esta hora vai sendo discutido na especialidade. Sete anos depois, Miguel, e se me permites aqui a graça, a culpa ainda é do Passos?

É, hashtag, a culpa ainda é do Passos. Em rigor, não foi só neste debate orçamental que assistimos à constante referência a Pedro Passos Coelho. Ela nunca deixou de existir no debate político. Desde a formação da geringonça que PS e PSD trocam acusações sobre quem trouxe a troika e quem despachou a troika. Enfim, a grande novidade aqui, aliás, há duas grandes novidades. A primeira é que há um divórcio à esquerda, o que aumenta as críticas a António Costa. Bloco e PCP, sobretudo, têm acusado António Costa de estar a aplicar a mesma receita que a direita aplicou no período da intervenção da troika. E à direita há um novo líder, de quem já falamos, Luís Montenegro, que é, no fundo, um herdeiro desse passismo. Portanto, António Costa, quer para responder à esquerda, quer para tentar criar algum embaraço à direita, vai lembrando Pedro Passos Coelho como se fosse um antídoto para impedir, por um lado, que a direita volte ao poder e para lembrar à esquerda que a alternativa à direita, segundo António Costa, era muito pior.

Eu entendo que, sendo ou não novo, o país pode esperar, deve esperar muito ainda do seu contributo no futuro. Não tenho dúvidas.

E também este mês, quando estava debaixo de fogo, depois das declarações sobre as vítimas de abusos por elementos da Igreja, Marcelo Rebelo de Sousa veio lançar esta homenagem, podemos chamar-lhe assim, a Pedro Passos Coelho.

Para lembrar quanto Portugal lhe deve no passado e quanto Portugal está seguro de vir a dever muito mais no futuro.

Isto, Miguel, irritou muita gente no PSD.

Irritou, não necessariamente por Marcelo ter lembrado Pedro Passos Coelho, mas porque mais uma vez Marcelo apareceu completamente em dessintonia em relação ao PSD. Por quê? Segundo dirigentes sociais-democratas, quando o país deveria estar a discutir o orçamento, sobretudo, no caso, na visão do PSD, os seus deméritos, Marcelo tira Pedro Passos Coelho da cartola e lança uma confusão geral no debate político em que o país midiático e o país político deixou de falar sobre o Orçamento do Estado e passou a falar de uma eventual candidatura presidencial de Pedro Passos Coelho. Irritou também, porque não é segredo para ninguém, Pedro Passos Coelho e Marcelo Rebelo de Sousa nunca se entenderam melhor. Já não se entendem há décadas e, portanto, aquilo que Marcelo fez foi interpretado por muitos como uma tentativa descarada de criar uma manobra política e uma cortina de fumo para, de alguma forma, retirar a pressão sobre si próprio.

Já vamos tentar perceber se não há fogo neste fumo. Já vamos voltar à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Vamos olhar para o futuro. Qual poderá vir a ser o papel de Pedro Passos Coelho?

Isto vai ser uma espécie de feed semanal em doses homeopáticas de música clássica de que as pessoas não sabiam que precisavam.

Martim Sousa Tavares na Rádio Observador.

Ou uma viagem por baixo d'água num submarino super rápido também funcionava, não é?

Mas há ali momento em que parece que o carro vai cair por uma ribanceira.

Sim, essa é a parte que-

Sim, mas depois é salvo por um zeppelin, não é?

As melhores notas da música clássica, explicadas pelo jovem maestro.

Pode chamar-lhe canção.

E cantiga.

Cantiga, não.

Cantiga, não.

Se for de amigo, talvez. Se for de carne e mal dizer, diria que não.

Encontro com a beleza. Todas as segundas, na tarde em direto, depois das notícias das 17h30.

Rádio Observador.

Basicamente, precisamos só de curiosidade e um par de ouvidos.

Aconteça o que acontecer.

Estamos de regresso à conversa com o editor adjunto de política do Observador. Miguel Santos Carrapatoso, há pouco explicavas que o nome de Passos Coelho nunca saiu do discurso político. É o nome que a esquerda mais teme e por quem a direita suspira?

Respondo sim a ambas as questões. Por um lado, a esquerda teme Pedro Passos Coelho porque é neste momento a figura que mais facilmente agrega o espaço não socialista, se quisermos. E, portanto, tem um peso e um simbolismo muito próprios que de alguma forma fazem com que a esquerda, nomeadamente o PS, encare sempre Pedro Passos Coelho como um adversário de respeito. Claro, e por conseguinte, à direita também, Pedro Passos Coelho também é o nome por quem as várias figuras das várias sensibilidades à direita suspiram mais uma vez, porque não há neste momento, nem mesmo Luís Montenegro, ninguém em condições tão favoráveis de agregar esse espaço não socialista.

Deixe-me só fazer aqui uma escala técnica para ver outro ponto desta história. O PSD pode aproveitar este momento em que a iniciativa liberal encostou à box para trocar de piloto e quem sabe de pneus, se entendermos que os pneumáticos assumem aqui o lugar da linha ideológica da iniciativa liberal, pode o PSD aproveitar este momento para ganhar força, Miguel?

O PSD, pelo que nós sabemos, está a pensar a curto e médio prazo. Por um lado, esta erosão da iniciativa liberal, pelo menos a erosão teórica, esta confusão, esta barafunda na iniciativa liberal, acaba por favorecer naturalmente o PSD. Por quê? Porque é muito fácil, é aritmética política. É muito mais provável que quem votou na Iniciativa Liberal volte para o PSD do que vá engrossar as fileiras de qualquer outro partido. Não é de supor que quem vota na Iniciativa Liberal vá votar no Chega, por exemplo, ou vá votar no PS. Portanto, a curto e médio prazo, o PSD, e é nesse comprimento de onda que o PSD está a pensar neste momento, de facto tem a ganhar com a erosão teórica da Iniciativa Liberal. Pode colocar-se outro problema no futuro. Se o PSD falhar a maioria absoluta e não há nenhum indicador que aponte sequer como possibilidade teórica que o PSD venha a ter a maioria absoluta daqui a quatro anos. Falta muito tempo, mas jogamos com os dados que existem hoje em dia, o PSD vai precisar de formar uma maioria no Parlamento e nesse caso, se até lá a Iniciativa Liberal ficar muito fragilizada, o PSD ficará muito mais dependente do Chega. E portanto, se no curto e médio prazo o PSD tem a ganhar com esta erosão teórica da Iniciativa Liberal, no futuro, uma excessiva dependência do Chega pode ser um problema para Luís Montenegro.

Então deixa-me pegar nesse ponto para ir à pergunta seguinte: se Luís Montenegro, um velho aliado de Pedro Passos Coelho, apresentar o ex-primeiro-ministro num regresso à política ativa, isso seria um trunfo gigante para a sua liderança e para o próprio PSD?

Naturalmente. Pedro Passos Coelho, pelo que dizia há pouco, é neste momento a figura que mais facilmente agrega o espaço não socialista e portanto, se Luís Montenegro conseguir no futuro apresentar Pedro Passos Coelho, por exemplo, como candidato abençoado pelo PSD às próximas eleições presidenciais, seria um enorme trunfo para o partido. Ou melhor, seria um enorme trunfo porque à esquerda não se perspectiva que exista um candidato com condições tão favoráveis como Pedro Passos Coelho, por exemplo.

Mas neste momento, Miguel, só resta uma eventual candidatura a Belém a Pedro Passos Coelho?

É muito prematuro dizê-lo. O que se comenta no PSD é que Pedro Passos Coelho é um homem jovem e portanto poderá voltar à vida política nas funções que assim entender. Agora, olhando para as perspetivas que existem, de facto, não seria muito natural que Pedro Passos Coelho voltasse, por exemplo, à liderança do PSD. É pouco provável que isso aconteça. E portanto, uma eventual candidatura a Belém, ao cargo de Presidente da República, faria mais sentido no percurso até agora percorrido por Pedro Passos Coelho. Mas, mais uma vez, é importante dizê-lo, isto é tudo muito prematuro. Não sabemos se Luís Montenegro, por exemplo, não se estatela pelo caminho. Não sabemos em que ponto é que estará o PSD. Estamos todos a partir do princípio que o PSD terá agora um crescimento sustentado, mas o PSD era até há bem poucos meses, um partido que se dizia que estava em crise e em risco de se tornar um partido médio. Portanto, se no futuro o PSD estiver a atravessar uma crise de tal forma estruturante e os militantes pretendam ou desejem um regresso de Pedro Passos Coelho, aí as coisas poderão mudar de figura para o antigo primeiro-ministro.

Mas também, Miguel, a esta distância, ainda há outros nomes na calha e à direita.

Sim, senhor. Mas antes de mais, é preciso fazer esta ressalva. Segundo aquilo que nós pudemos apurar, se Pedro Passos Coelho quiser, e só ele pode fechar essa questão, se Pedro Passos Coelho quiser ser candidato nas próximas eleições presidenciais, contará naturalmente com o apoio do PSD. Isso é uma garantia que é dada pela atual liderança social-democrata. Se Pedro Passos Coelho não quiser abraçar essa aventura, então abrem-se outras perspetivas. Luís Marques Mendes será o plano B e será um plano B bem aceite pelo PSD. Ele foi muito bem recebido no congresso que entronizou Luís Montenegro, tal a que Pedro Passos Coelho faltou, teve lugar de honra na primeira fila. Luís Montenegro e Luís Marques Mendes são muito próximos, conhecem-se há muitos anos e portanto, o apoio a Luís Marques Mendes não causaria urticária à atual liderança do PSD. Em contrapartida, há também a hipótese de Paulo Portas avançar com uma candidatura, se bem que, e aqui Paulo Portas tem esse handicap, não tem um partido forte a apoiá-lo. Há gente no PSD que gostaria de apoiar uma candidatura de Paulo Portas, mas se o espaço for dividido entre Luís Marques Mendes e Paulo Portas, a margem de manobra é mais reduzida para o antigo líder do CDS. E depois há Gouveia e Melo, que em muitas entrevistas e também aqui no "Observador", nunca desfez por completo o tabu sobre uma eventual candidatura presidencial.

Estou concentrado na minha missão e gostaria que me deixassem concentrar-me na minha missão e não me fizessem a mesma pergunta 300 vezes.

Então vou só fazer mais uma: também não fecha a porta a nada.

Essa pergunta de não fechar a porta a nada, é uma pergunta maliciosa, porque qualquer coisa que eu diga é interpretada num sentido ou noutro. Portanto, eu não vou dizer nada.

Com todas estas contas feitas, Miguel, Pedro Passos Coelho pode ou não voltar à política ativa?

Sem me tornar repetitivo.

Nem vidente.

Nem vidente. Pedro Passos Coelho pode fazer aquilo que quiser e bem entender. De facto, o antigo primeiro-ministro tem capital político, tem saudosos no PSD e fora dele e portanto, se um dia entender tentar suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, vamos assumir que é o cenário mais provável, não tenho dúvidas que contará com o apoio do PSD, naturalmente, do CDS ou do que restar dele, da Iniciativa Liberal, por que não, e mesmo do Chega, que terá muitas dificuldades em divorciar-se de Pedro Passos Coelho. O Chega que, recorde-se, nasce de uma cisão no PSD, nasce contra Rui Rio e nasce com alguém, no caso André Ventura, que sempre foi um inequívoco apoiante de Pedro Passos Coelho. Portanto, tudo isto somado, parece-me difícil que se as condições forem as melhores, Pedro Passos Coelho resista ao canto da sereia.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de política do Observador e há muito que acompanha o PSD de perto. Neste episódio, ouvimos sons registados pela RTP, nomeadamente Passos Coelho nas autárquicas de 2017 e na festa do Pontal deste ano. Ouvimos também um excerto do programa "Isto é Gozar com Quem Trabalha", da SIC, e foi também a SIC quem registou o som de Marcelo Rebelo de Sousa. Esta foi a História do Dia. Pode seguir-nos no site do Observador e nas aplicações que habitualmente usa para ouvir podcasts e assim não perde um episódio. Obrigado por nos ouvir. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.