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Esta é a história do dia da Rádio Observador: por dentro dos ficheiros do caso Carlos Castro.

"Tonight, in room 3416, that's where two men were staying, and tonight one of them is dead. A 65-year-old man whose sources say is a well-known journalist in Portugal."

Em janeiro de 2011, uma notícia vinda dos Estados Unidos chocava Portugal. Um crime violento, uma vítima conhecida e um homicida de 21 anos, ambos portugueses. Passaram mais de 15 anos, mas em abril de 2026, o caso voltou.

A MTV teve acesso e vai revelar nos próximos-

Foi brutalmente assassinado em Nova York por Renato Seabra.

Esteve três meses internado numa prisão psiquiátrica. Apareceu-

E voltou por causa de um novo podcast Plus do Observador, que revela detalhes até agora desconhecidos sobre a noite em que Carlos Castro foi assassinado em Nova York. Eu hoje vou falar com a jornalista Tânia Pereirinha, autora de "Os ficheiros do caso Carlos Castro", para perceber como é que se reabre uma história destas, o que foi descoberto e o que mais surpreendeu nesta investigação. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 30 de abril. Olá, Tânia.

Olá, Pedro.

Olha, eu vou contar-te aqui uma história que se passou na minha casa, que foi a minha filha mais velha vir ter comigo contar-me que está viciada no podcast do Carlos Castro. Queria saber se eu, por acaso, teria acesso aos ficheiros que deram origem ao podcast, que é para ela lê-los avidamente. Coisa que me deixou um bocadinho intranquilo, porque eu não sei porque é que uma pessoa quer.

Que idade é que ela tem?

Ela tem 21.

Pronto.

Não sei se isso é assim tão descansativo, querer ler aqueles ficheiros que são coisas violentas e tenebrosas. Não sei se me deixou propriamente tranquilo, mas este é o efeito do podcast que tu basicamente criaste. Obrigado por isso. Queria agradecer por me deixares intranquilo. Tens tido muitas reações a este podcast?

Sim, tenho tido muitas reações, ou diretamente, ou alguém que conhece alguém que está a ouvir, a minha mulher está a ouvir e está a adorar. As pessoas estão a falar disto. Aliás, antes de começarmos a fazer este podcast, e foi um processo longo, eu percebi que havia muito interesse sobre este caso, ainda hoje, 15 anos depois. Houve uma altura, numa fase muito inicial, em que eu estava a ler a biografia do Carlos Castro e às tantas resolvi tapar a capa do livro, porque cada pessoa que passava pela minha secretária aqui no Observador e via, vinha me perguntar: "É o próximo? É o próximo?" E eu às tantas tapei a capa e escrevi: "Diário de uma mulher de meia-idade", que é uma coisa que não interessa a ninguém. Portanto, sim.

Como é que eu vou desviar as atenções? Já sei, vou chamar-lhe "Diário de uma mulher de meia-idade".

Exato. E aí pararam.

Ninguém quer saber.

Sim, ninguém quer saber. Portanto, sim, isto é um tema que continua a interessar muitas pessoas e nós temos visto. Os episódios estão a ser muito ouvidos, estamos com números muito bons mesmo. Os textos que publicamos no jornal a acompanhar também estão a ser muito lidos. Portanto, sim, temos tido muito boas reações.

E não é só isso, quer dizer, há aqui outra dimensão que eu acho curiosa, que é, de repente, no meu telefone, eu tenho muitos pushes de vários órgãos de comunicação social, claro, por obrigação profissional também, e de repente, a quantidade de notícias que estão a sair agora à conta, só pode ser do podcast, porque de repente este interesse não tem sequer uma data específica. Isto aconteceu em janeiro, não é uma data redonda, sequer o número de anos que passaram. Portanto, obviamente, que tu lançaste novamente aqui e o Observador lançou aqui novamente a discussão ou o interesse, o fascínio sobre um caso que tem contornos muito violentos e é um tipo de crime que nós não estamos habituados. Como é que foi o processo inicial? Portanto, tu estiveste a ler esse livro, mas naturalmente esse livro sozinho não te daria todo o material para o podcast.

Claro que não, isto foi apenas a autobiografia que o Carlos Castro escreveu sobre os seus anos de vida. Li muitos outros livros, falei com algumas pessoas, não tantas como queria ter falado, próximos dele e do Renato Seabra e de todas as pessoas que tiveram envolvimento direto na história. E depois, claro, tivemos acesso ao processo judicial aberto em Nova York e é isso que nos dá todo o sumo que nós agora temos no podcast e que não tínhamos antes, que nos permite contar a história do início ao fim, desde o momento em que Carlos e Renato se conhecem e se encontram pela primeira vez num hotel no Porto, 85 dias antes de tudo isto acontecer, porque eles tiveram muito pouco tempo juntos.

Menos de três meses completos. Ao longo desse tempo, Carlos e Renato fizeram três viagens ao estrangeiro. As duas primeiras foram mais curtas. Primeiro a Londres, depois a Madrid.

Portanto, é o processo em si que traz estas informações novas e que, creio eu, faz também com que haja este interesse todo e outros jornais estejam também a pegar e a falar sobre isto.

Porque esse processo agora passou a ficar público ou porque vocês fizeram pedidos especiais? Como é que foi isso?

Não, a verdade é que qualquer pessoa, em Portugal, tens que ser jornalista para pedir acesso a processos. Nos Estados Unidos, não. Ou melhor, em Nova YorkDepois as leis mudam de estado para estado. Mas sim, eu creio que é uma coisa transversal. As pessoas têm direito à informação, portanto podem submeter pedidos e pedir acesso a essa informação e foi isso que nós fizemos. Ou seja, qualquer pessoa, qualquer jornalista de outro órgão de comunicação podia ter feito o mesmo. Nós lembrámo-nos de o fazer.

Já para este podcast, já no âmbito de contar, porque isto permite, de facto, contar uma história numa plataforma diferente, numa lógica diferente, com uma narrativa diferente também, mais sedutora, que acompanha mais o ouvinte e a sua viagem, às vezes.

Sim, e isso é o que nós fazemos nos Podcast Plus sempre. Este já é o 14º, se não estou em erro. Isto são trabalhos jornalísticos, são investigações. Em vez de escrever um texto, escrevemos um guião, onde tentamos manter o ouvinte interessado ao longo da história que se desenrola tipicamente em seis episódios, mas há uma coisa que eu faço sempre questão de dizer a toda a gente: tudo aquilo que está ali escrito, foi assim que aconteceu.

Não há romance ali, não há fantasias.

Não há romance de todo. Eu costumo dizer, todas as vírgulas aconteceram. Aliás, quando nós estamos a acompanhar outros podcasts que estamos a fazer e alguém intui um estado de espírito de alguém ou tenta florear de alguma forma, nós tendemos sempre a perguntar: "Mas a pessoa disse-te que tinha pensado isso?" "Não." Então? Não vamos escrever isso.

Ou seja, há rigor jornalístico nisto.

Claro que há.

Nós já vamos voltar a conversar, Tânia, até porque uma das características deste podcast e dos Podcast Plus, habitualmente quando se baseiam em histórias verídicas, têm a ver com as pequenas surpresas que às vezes estas histórias vão tendo e isso é obviamente explorado em cada episódio para agarrar o ouvinte. Já agora, vou querer saber como é que foi quando tu recebeste o processo. Vamos voltar a conversar daqui a pouco. Até lá, os nossos ouvintes podem saber um pouco mais sobre o episódio desta semana. E já estamos de regresso à conversa com a Tânia Pereirinha, que é responsável pelo podcast que o Observador tem agora nesta série dos Podcast Plus, que tem a ver com os ficheiros do caso Carlos Castro. Fizeram o pedido, como é que foi quando vocês receberam efetivamente esse dossiê nas mãos? Estamos a falar de quantas páginas, que tipo de documentos, o que é que tu tinhas em mãos?

Este processo foi muito longo. Quanto tempo demoraram até ter? Fiz o pedido em janeiro de 2025 e inicialmente disseram-me que até dia 20 e qualquer coisa de fevereiro ia ter a decisão sobre se podia ter acesso ao processo ou não. O processo chegou em outubro.

Outubro desse ano?

Sim.

Pronto. E a partir daí recebes o quê?

A partir daí recebo um link para aceder aos ficheiros que nos seriam disponibilizados. O que é que estava nesse link? Tinha sete pastas e nessas pastas tinha fotografias, tinha vídeos, tinha áudios da comunicação da polícia. Portanto, fotografias da cena do crime, fotografias da câmera do Carlos Castro, que foi recuperada no quarto de hotel e que tinha o registo de todos os passos, aliás, dessa viagem e das viagens ainda da viagem anterior que eles tinham feito em dezembro de 2010 a Madrid. Tínhamos vídeos das câmaras de segurança do hotel, tínhamos vídeos de notícias de canais americanos à data, tínhamos os áudios dos telefonemas feitos para a polícia, dos telefonemas feitos entre polícias, as comunicações de rádio entre polícias também. Tínhamos fotografias das notas manuscritas dos detetives que estiveram no local. Tínhamos os desenhos feitos da cena do crime, o desenho feito à mão pelo polícia que lá esteve e que assinalou as pistas que encontrou em cada recanto do quarto e que depois foi transformado num desenho feito a computador. Tínhamos toda a transcrição do processo em tribunal, tínhamos todas as cartas enviadas pelos advogados e pela procuradora, todas as comunicações.

Eu ouço-te descrever isso e penso, estando atrás. Podia ser, mas não é o caso. Não, mas eu ouvia-te e pensava: se eu estivesse à procura deste caso, deste processo em particular, quando eu de repente me deparo com tudo isso que estás a descrever, eu acho que viveria aqui um misto de emoções, como se costuma dizer. Por um lado, uma alegria enorme do ponto de vista profissional apenas, obviamente.

É um caso muito difícil, sim.

Tenho acesso a toda esta informação, o que às vezes é raro, por exemplo, quando trabalhas com investigações portuguesas.

Claro que sim.

Penso que nem metade das coisas tu terias acesso aqui.

A fatura da última refeição que eles fizeram no restaurante.

Dá para reconstituir tudo e com um projeto desta natureza, isso deve ser ouro. Por outro lado, deve ser uma ansiedade enorme quando de repente olhas e pensas: "Isto é uma casa cheia de material, como é que eu vou mergulhar nisto e sair à tona?"

Lê-se no processo: "O doente apresentou comportamento inadequado, perguntando aos profissionais se podia tocar-lhes. Mais tarde, saiu do quarto despido, apesar das tentativas de orientação." Bom, não estamos em 2011, estamos em 2025, portanto, temos ferramentas que nos ajudam muito. Tu sabes, há uns anos nós demorávamos horas a desgravar entrevistas. Agora conseguimos em segundos.

Felizmente.

Portanto, temos inteligência artificial e nós usámos uma plataforma que nos permitiu colocar lá toda a informação eSistematizá-la ou perceber o que está em cada sítio. O que está em cada caixa. Nesta caixa há isto, nesta caixa há aquilo.

Portanto, uma organização pelo menos deu para fazer.

Deu para organizar, deu para ajudar, por exemplo, nas notas manuscritas. Eu não conseguia ler algumas daquelas letras, portanto a inteligência artificial também ajudou nisso. Ajudou a decifrar aquelas caligrafias. E depois, por exemplo, a transcrição do julgamento. Aquilo nem sequer vinha organizado, estava muito desorganizado, não estava por ordem cronológica. Portanto, o que eu tive que fazer? Tive que imprimir tudo, matar uma série de árvores, comprar quatro dossiês grandes e estar a organizar aquilo e ler de uma ponta à outra.

Um mergulho no escuro durante uns meses largos, imagino. O que te surpreendeu mais neste caso? Porque nós lembramo-nos do caso, naturalmente, foi uma coisa horrível que aconteceu há não tanto tempo assim. Agora tendo acesso a toda essa informação, o que mais te surpreendeu?

Eu acho que aquilo que me surpreendeu mais, porque quando isto acontece, há ali um fenómeno de que ainda se fala hoje. Carlos Castro, cronista social muito mais velho do que o Renato Seabra, foi, para muita gente, visto como culpado da sua própria morte. Houve uma culpabilização da vítima na altura, porque o Renato Seabra tinha apenas 21 anos, era um miúdo. E de alguma forma, houve quem achasse, e muita gente achou, que o Renato teria sido corrompido e de alguma forma violentado pelo Carlos Castro, e que teria feito o que fez em consequência disso. Aquilo que me surpreendeu mais foi ler que o próprio Renato tomou uma decisão em relação à relação que ia manter com Carlos Castro na altura. E ao que tudo indica, Renato Seabra não era homossexual. Sabia quem era o Carlos Castro e foi por isso que respondeu ao pedido de amizade que ele lhe mandou pelo Facebook. E foi por isso que nas primeiras mensagens que mandou, pediu logo ajuda, porque ele queria ser modelo, queria ser manequim e não estava a conseguir e queria orientação para essa carreira, para saber o que havia de fazer. E aquilo que o Renato contou aos investigadores da polícia de Nova Iorque depois do crime, foi que ele tinha tomado uma decisão nesse momento e que eles tinham feito um acordo, que eu não sei se o Carlos Castro estava consciente disso, porque ele dizia a toda a gente que estava apaixonado e que desta vez era amor, era uma relação séria, mas o Renato Seabra naquele momento-

Estava a usá-lo.

Estava. Eu acho que estavam ambos a usar-se mutuamente.

Ou seja, o que tu dizes é que há uma perspetiva nova que não torna Renato Seabra naquela figura inocente, que eventualmente as pessoas, apesar do horror deste crime, achavam que era uma espécie de consequência de uma exploração de um homem mais velho para um homem mais novo.

Continua sempre a ser um miúdo de 21 anos. E nós sabemos que aos 21 anos, o teu cérebro nem sequer está totalmente formado. E hoje em dia também se fala muito no grooming e na forma como pessoas mais velhas e com mais poder podem levar ou trabalhar miúdos ou miúdas mais novas para alguma coisa. Mas pelo menos, o que me surpreendeu foi perceber isso, que ele tinha tomado uma decisão consciente. Ele na altura à polícia diz: "Eu sou um homem feito, tenho 21 anos e tomei uma decisão, eu quero isto e ele consegue e ele vai poder dar-me isso, portanto, fui em frente."

Tânia, obrigado.

Obrigada.

Eu conversei com a jornalista Tânia Pereirinha, autora do mais recente podcast Plus do Observador. Estão lá os novos pormenores desta história que nunca se apagou da memória coletiva, o antes e o depois daquela noite em que um conhecido cronista social é encontrado morto e mutilado num hotel de luxo em Nova Iorque. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro e hoje, excecionalmente, estamos a ouvir a música dos ficheiros do caso Carlos Castro, da autoria de Júlio Resende. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.