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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que esta onda de calor preocupa tanto?

Tudo faremos para, em primeiro lugar, prevenir e depois podermos estar à altura da responsabilidade de acudir àqueles que vierem a ter algum problema.

Quando ouvimos o primeiro-ministro falar assim, normalmente, o assunto é sério e grave. Luís Montenegro falava ontem, no dia em que as autoridades de saúde se desdobraram em declarações e conferências de imprensa para preparar o país para as consequências da onda de calor que aí está. É a sexta que o país enfrenta este ano, vai entrar por todo o território com temperaturas a subir e nem as noites devem ser frescas. Mas o que leva as autoridades a lançarem avisos, recomendações, o governo a apresentar planos antecipados, a anunciar o reforço da capacidade de hospitais e centros de saúde? O que é, afinal, esta onda de calor e por que estamos tão preocupados desta vez? Não estamos no verão? Não é suposto estar calor? E já agora, se o assunto é mesmo assim tão sério, o que podemos e devemos fazer uns pelos outros? Eu vou fazer hoje estas perguntas a Vasco Ricoca Peixoto, médico e professor auxiliar da Escola Nacional de Saúde Pública. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 2 de julho. Olá, senhor doutor, bem-vindo.

Olá, Pedro, como está? Tudo bem?

Bem, obrigado. Vamos falar então desta onda de calor que tem estado nas notícias, que deu muitos anúncios do governo, das entidades oficiais que tratam da nossa saúde pública. E a primeira pergunta que eu gostava de lhe fazer, porque é uma conversa que eu tenho com várias pessoas, é: afinal, o que é isso da onda de calor? Porque pra muita gente, isto é basicamente o verão. Ou seja, está muito calor no verão e depois quando passar o verão, entra o outono e as temperaturas baixam. Mas não é exatamente isso, pois não?

Não, é uma boa pergunta. E na verdade, é uma pergunta que se nós formos cientificamente ao detalhe, tem muito que se lhe diga e nós ainda temos muita análise pra fazer para afinar aquilo que nós definimos como onda de calor. Claro que nós temos uma definição mais lata, que é definida com base nos aumentos de temperatura num determinado período, acima de X dias, e portanto, há critérios do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que definem assim as ondas de calor, mas aquilo que nos interessa na lógica da saúde pública é o impacto na saúde das pessoas. E isso, por um lado, é fácil de perceber que as diferenças de temperatura em diferentes concelhos, municípios, reais, no terreno, nas casas das pessoas, têm um impacto, mas, por outro lado, nós sabemos que o excesso de mortalidade, ou seja, os aumentos fora do normal do número de mortes naquela altura do ano, os aumentos de internamentos hospitalares, também temos um estudo bom em Portugal, em 2024, sobre isso, de um período longo, de 2010 a 2018, que mostra que, de fato, há um aumento também das hospitalizações em várias faixas etárias, face quando estamos fora das ondas de calor e, obviamente, anulando os impactos das outras variáveis que existem ao longo do ano, etc. E que vemos também diferenças ao nível dos municípios. E se nós formos até um bocadinho mais ao detalhe, e também houve uma análise que foi apresentada uma vez no Congresso dos Médicos de Saúde Pública, que mostrava que havia zonas de Lisboa que tinham mais excesso ou que acumulavam mais excesso de mortalidade, e enquanto na mesma onda de calor, em outras zonas, outras freguesias e outras zonas da região de Lisboa, em que não havia praticamente excesso de mortalidade com temperaturas semelhantes. Temperaturas medidas pelo IPMA.

Tinha a ver com a população vulnerável que estava mais concentrada numas zonas do que noutras? Conseguiu-se perceber por que isso acontecia?

Tinha a ver com a população vulnerável. Isto não foi estudado quantitativamente, mas as expectativas são: população vulnerável, habitação e climatização das habitações, população vulnerável e isolada, porque há outros locais onde as pessoas não estão tão isoladas. E depois, por exemplo, nas grandes cidades, isto era o centro de Lisboa, uma das zonas piores, temos o fenômeno das ilhas de calor, temos o fenômeno da acumulação de calor pela edificação, pelo alcatrão, baixa arborização, baixos corredores de circulação de ar e muitas vezes, como nós sabemos, edifícios com isolamentos térmicos muito deficitários e sem climatização. Então imagine-se um último andar de um prédio antigo em Lisboa ou os últimos andares que levem com sol o dia todo. É muito difícil essa gestão. E depois, o que acontece? As pessoas com mais idade, com doenças crônicas, com diabetes, com insuficiência cardíaca, com insuficiência renal, as crianças mais pequenas, o que acontece? Por via, muitas vezes, de desidratação, e obviamente, de aquecimento corporal, mas também de desidratação, descompensam as outras doenças que são muito sensíveis à desidratação e ao calor, nomeadamente a diabetes, a insuficiência renal, a insuficiência cardíaca, até a doença coronária, e, portanto Temos esses impactos. Depois, há muitos outros impactos, também não quero ficar só nas mortes e nas hospitalizações, apesar de serem problemas grandes nestes momentos. Mas temos impactos no bem-estar e na produtividade de uma grande fatia da população, que não é internada nem morre. Isso nós temos mais dificuldade em estudar, mas há alguns estudos internacionais que mostram que há impactos na produtividade e no bem-estar. É interessante, os internamentos aumentam por várias causas, portanto várias doenças crônicas, mas também coisas como acidentes nesse estudo de 2024. Há várias coisas que aumentam nestes dias e que não se sabe explicar.

Sim, isso é muito curioso, porque de facto estes dias de calor intenso têm efeitos que as pessoas não imaginam, mas que, como o senhor doutor agora explicou, já vão sendo medidos, coisas muito indiretas, mas que também acontecem na sequência disto. Portanto, se eu percebi bem, quando falamos de onda de calor, o que nós estamos a falar não tem a ver tanto com a temperatura que se atinge, mas com o número de dias consecutivos em que as temperaturas estão acima de determinados valores. Isso é por quê? Porque o nosso corpo não tem capacidade de recuperar depois de tantos dias seguidos e por isso é que acontecem mais estas coisas.

Sim, é um conceito de reserva fisiológica, como se nós, se for um período curto, numa circunstância extrema, nós ainda vamos aguentando, depois especialmente as pessoas mais vulneráveis, e se durante a noite também não conseguem descansar, porque de facto nós não dormimos bem acima de 20 e poucos graus. Aliás, acima de 21 graus, julgo que já é uma temperatura que não é muito confortável pra maior parte das pessoas dormirem. E portanto, começa a haver uma fragilidade acumulada e isso tem impacto na saúde. Mas dizer que nós temos definições de onda de calor climáticas, digamos assim, da parte da meteorologia, mas de facto depois, como temos, por exemplo, as previsões do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, que de acordo com a região, e idealmente também poderia fazer, embora seja tecnicamente um pouco mais difícil, fazer até em zonas mais pequenas. Nós teoricamente podíamos ir ao nível da freguesia. Embora as freguesias com muito pouca gente, que é muito difícil medir esses efeitos. Mas há freguesias com bastante população em que eu poderia dizer: este tipo de onda de calor e com base em ondas de calor anteriores no passado em Portugal, e já temos um histórico suficiente para ter algumas estimativas, dizer: nesta zona vai haver este tipo de excesso de mortalidade, mas nesta não é previsível que haja nenhum excesso de mortalidade, enfim, por vários motivos. Portanto, os impactos são diferentes e então as medidas e a força com que se comunica depois no terreno, as autoridades de saúde, as autoridades de proteção civil, eventualmente as câmaras, portanto, todo o aparato local que pode entrar em contato com as populações vulneráveis, com os lares, com as pessoas isoladas, terem medidas adequadas ao impacto que aquilo vai ter. E um dos problemas é este, porque há zonas que pode haver até mobilizações excessivas. Esta onda de calor eu não acho que vá ser excessiva, porque acho que vai ser uma onda de calor pesada e prolongada e acho que vamos ver certamente efeitos grandes na mortalidade. Mas efetivamente pode haver alturas, contextos e zonas, e portanto nós temos que ter medidas de saúde pública dirigidas, de precisão, embora não goste muito desta expressão, mas de chegar às pessoas que efetivamente esta onda de calor pode fazer a diferença. E portanto, obviamente os familiares das pessoas vulneráveis e mais isoladas são fundamentais. As instituições residenciais de pessoas idosas, os lares, precisam garantir que as pessoas têm as zonas climatizadas e que estão hidratadas, têm um plano de hidratação, porque não pode passar uma onda de calor e depois ninguém sabe muito bem quanta água que já foi bebida, se calhar nenhuma o dia todo, e depois a pessoa desidrata e vai ser internada num hospital, por exemplo. E portanto, essas medidas têm que ser dirigidas com os parceiros no terreno a esse efeito. E de facto, há locais onde as pessoas que são conhecidamente vulneráveis pelos serviços de saúde, pelos serviços até sociais da Câmara, pelas polícias, algumas polícias de proximidade, podem portanto até mobilizar essas pessoas para centros climatizados, mas isso não é necessário acontecer em todos os municípios. E há municípios em que isso não será útil ou poderá ter uma adesão mínima e as pessoas efetivamente têm habitações que não aquecem nesse nível e têm um nível da alerta até meteorológico que não justifica isso.

Por isso é que as medidas também foram anunciadas com esta preocupação de envolver os municípios, porque depois cada realidade acaba por ser uma realidade. Então deixe-me só fazer-lhe aqui uma pergunta, porque falou do cuidado que temos de ter uns com os outros, isso também fará parte da nossa experiência como sociedade, temos de olhar uns pelos outros. Como é que uma pessoa consegue distinguir aquilo que é um desconforto natural do calor, com sinais de que uma pessoa precisa efetivamente de ajuda?

É engraçado, que eu acho, de facto, nós pomos às vezes muito ênfase nesta quase sensibilidade clínica, mas eu acho que muitas vezes é difícil. Claro que em situações mais avançadas e mais graves começa a ser óbvio.

Claro. Se uma pessoa estiver desmaiada, nós percebemos.

Claro. Mas mesmo alterações, uma certa lentificação, prostração, mal-estar. Se chegar às náuseas, então também é óbvio. Mas o problema é que isso normalmente já é muito tarde. O nosso objetivo é precisamente que as pessoas vulneráveis assumam, tenham consciência de que é um risco, como qualquer um de nós, e evitar ou planear o dia de uma forma diferente, ou antecipar, caso saiba que a sua casa é uma casa muito quente, que não consegue arrefecê-la, antecipar uma solução, um contacto ou um espaço climatizado municipal, que são anunciados em vários municípios que têm mais dificuldades. Os familiares das pessoas idosas nessas circunstâncias também serem proativos nesse sentido, porque quando começamos a ter os sinais, especialmente nas pessoas vulneráveis, provavelmente a descompensação de uma doença de base ou de uma doença crônica, é maior o risco.

Já vai correr atrás do prejuízo.

Mais vale tarde que nunca, mas efetivamente, julgo que a lógica é assumir que é um risco para as pessoas idosas, especialmente. Temos também que fazer essa separação, embora as crianças muito pequenas também possam ter riscos e a questão da hidratação também é muito importante. E evitarmos que haja, de forma concentrada agora neste tempo, um grande nível de hospitalizações e de excesso de mortes, sabendo que algumas também podem ser muito difíceis de evitar. Acho que também é preciso termos essa consciência e, de certa forma, algum excesso de mortalidade é previsível, mas há muitas coisas que podemos fazer nesta lógica e que julgo que estão a ser feitas, mas que são muito dos diferentes contextos dos municípios e da sensibilização das pessoas nos vários contextos, obviamente, os lares, as escolas, as famílias, as instituições que trabalham com pessoas vulneráveis, IPSS, etc, que podem ter este mapa das pessoas que estão em maior risco.

Isto era até que fácil.

E depois temos só uma questão que, custa-me também não falar nada eventualmente sobre isso, que é: temos um conjunto de coisas que podemos fazer para nos preparar para as próximas. E de facto, este momento tem que se falar, até depois quando acabar o problema podemos não nos lembrar mais. Efetivamente, há necessidades de climatização importantes no nosso país, eficiência térmica das habitações, mas isso é um investimento de facto bastante maior, pelo menos no imediato, mas é algo que temos que pensar. As próprias coisas como o tipo de tinta utilizada nas habitações, tintas mais claras, depois há coisas mais avançadas, tipo telhados verdes e outros tipos de soluções. A arborização das zonas urbanas mais quentes, das tais ilhas de calor, que aumentam muito a temperatura em zonas muito alcatroadas e sem árvores e sem sombras. Vai ser bom para o futuro termos algumas destas coisas pensadas e acauteladas como sociedade e depois individualmente também, cada um organizar-se um pouco, preparando-se para mais ondas de calor no verão e mais intensas e mais dias desse contexto. E depois, há outras coisas que têm que ser caso a caso. Eu custa-me tudo o que são critérios muito globais, mas, por exemplo, obviamente há trabalhos e contextos em que, com base no bom senso e no risco expectável, poderão ser alterados os horários de trabalho, poderão ser alterados os contextos do trabalho. Mas obviamente é muito difícil ter critérios muito rígidos para estas coisas e julgo que é importante que haja algum bom senso na gestão dessas situações.

Vamos esperar que seja assim. Senhor Touro, muito obrigado.

Obrigado, Pedro.

Eu conversei com o médico especialista em saúde pública, Vasco Ricoca Peixoto, sobre os efeitos desta nova onda de calor que está a preocupar as autoridades de saúde, e não só. Entre hoje e o fim de semana, o estado de prontidão especial de combate a incêndios deve ser ativado para nível alto, o nível três, numa escala de quatro. Dezenas de concelhos do país enfrentam perigo de incêndio máximo por estes dias, em que está só a começar o período de subida das temperaturas. Até 8 de julho, o risco de incêndio será máximo e muito elevado em praticamente todo o território continental. Sim, é verão. Sim, é suposto estar calor, mas tal como dizíamos no início deste episódio, o assunto é sério e grave. Tenha cuidado e cuide dos seus. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.