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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que Trump pode ter razão na Gronelândia?

"Don't worry about Greenland in about two months. Let's talk about Greenland in 20 days."

À primeira vista, a ideia soa absurda. Por que Donald Trump está a pressionar a Dinamarca, um aliado histórico, por causa de uma ilha gelada no Ártico? A verdade é que do ponto de vista estratégico americano, a Gronelândia nunca foi um detalhe. Em 2019, a ideia tinha alarmado os europeus, mas nessa altura, os mais céticos achavam que era uma loucura de um presidente sem freios. Trump queria comprar o território, mas agora o mesmo Trump regressa com um tom mais agressivo.

"We need Greenland from the standpoint of national security, and Denmark is not gonna be able to do it, I can tell you."

Com o relógio a contar, temos de perguntar: esta lógica estratégica é assim tão descabida? Por que Washington admite passar por cima das relações com aliados europeus e da NATO por causa da Gronelândia? Para perceber o que está em jogo, vou conversar com o Carlos Mendes Dias, coronel do exército na reserva, com experiência de liderança em missões internacionais na Bósnia-Herzegovina ou em Moçambique. É, além disso, um acadêmico especializado em geopolítica e relações internacionais. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 06 de janeiro. Carlos Mendes Dias, bem-vindo.

Muito obrigado.

Deixe-me começar por lhe perguntar sobre uma questão básica, que é: olhando ali para o mapa da Gronelândia, que é aquele pedaço de terra enorme, o que nos está a escapar quando olhamos para estas notícias e para esta cobiça dos Estados Unidos?

Eu julgo que não nos está a escapar nada. Isto é, nós estamos é a fingir que nos escapa alguma coisa. De fato, a Gronelândia é grande, é quatro vezes a dimensão de França, mais ou menos, mas importa, se me permite, dizer três ou quatro coisas e focar um bocadinho a história, o momento atual e o que se passa. Todos nós sabemos que a Gronelândia tem o controle, obviamente, que é a Dinamarca, faz parte do território dinamarquês, pertence ao reino da Dinamarca, um país NATO, mas projeta o país para o Ártico. E o Ártico, recordando, por exemplo, a Grande Guerra, já teve papéis importantes. Na Grande Guerra, por exemplo, Arkhangelsk e Murmansk. Na Segunda Guerra, abriu-se a frente ártica com a invasão alemã da Noruega e da Dinamarca em 1940. Nós é que nos esquecemos disso. Mais tarde, se recordarmos como deve ser, e nós não nos podemos esquecer disso, a memória é uma das capacidades mais importantes, seria o domínio da Finlândia e da parte da Noruega pela União Soviética que justificaria o apoio determinado do Canadá e dos Estados Unidos da América à integração da Noruega e da Dinamarca na NATO, que agora alegamos, Gronelândia faz parte da Dinamarca, que pertence à NATO. Essa circunstância criou as condições para a negociação entre a Dinamarca e os Estados Unidos no sentido, desta altura, ficarem responsáveis pela defesa da Gronelândia. E em 1961, foi colocado na Gronelândia aquilo a que nós chamamos de Ballistic Missile Early Warning System, sistema de aviso prévio antimíssil, e que foi construído a nordeste desta base toda que depois tinha os meios para projetar. Ora bem, esta circunstância não pode ser esquecida. E a Federação Russa não se perde de amores por esta ideia. E não pode ser esquecida por nós, europeus, dinamarqueses, como é óbvio, e os norte-americanos não se esquecem.

O que está a dizer é que o argumento levantado por Donald Trump de que é uma questão de segurança nacional dos Estados Unidos não é um argumento descabido.

Não é, de modo nenhum, como nunca foi, como já vê pela história, descabido. E é por isso que a Federação Russa e a China também lá estão. Ainda mais, com vários recursos minerais importantíssimos. Posso lhe dizer: lítio, ouro, urânio, ferro e nas terras raras, por exemplo, o neodímio e o disprósio.

Portanto, dizem que os Estados Unidos também estão naturalmente de olho nisso.

Obviamente. Repare bem, o disprósio são os ímãs para as turbinas eólicas, são indispensáveis para os lasers, são indispensáveis para fazer aquelas hastes de controle para controlar os reatores nucleares. Portanto, é um conjunto de circunstâncias que fazem com que nós não achemos estranho esse interesse, que não é de hoje, já vem há muito e longo tempo, e não é só, naturalmente, de Donald Trump. E os europeus sabem isto.

O que está a dizer é que outros líderes norte-americanos talvez não o tenham verbalizado com esta exacerbação.

Exatamente. E já tentou ser comprada, já houve presidentes que tentaram comprar em outras alturas, etc. E, por conseguinte, tenta-se influenciar o povo que vive na Gronelândia, obviamente, particularmente aquelas fações, eu vou chamar mais autonómicas, mas nós não podemos esquecer, para além disso tudo e do direito, da localização do próprio espaço. Nós nunca devíamos ter esquecido

Acha que é mais um-

Não é agora quando alguém verbaliza isso que nós vamos espulcar. Não é assim.

Acha que é mais um dos exemplos em que a Europa andou voluntariamente esquecida daquilo que se passava ali no seu quintal, como se costuma dizer quando se fala dos Estados Unidos?

Eu não sei. Eu quero acreditar, por convicção, que não andou a ser esquecida. Quer dizer, nós podemos ter essa percepção. Mas os nossos políticos, os responsáveis militares, os conselhos, etc., sabem certamente disto tudo. Só que o que acontece é que primeiro tem que satisfazer opiniões públicas, e ainda bem também, e depois a manta não dá pra tudo. E às tantas temos países mais pequenos que podem estar com dificuldades. Mas eu queria já antecipar que colar a ação que tivemos na Venezuela com uma possível ação na Gronelândia não me parece de todo viável.

É isso que eu ia perguntar a seguir, se há aqui comparativos ou se acha que, apesar da retórica que vamos ouvindo, aquilo que os Estados Unidos eventualmente farão na Gronelândia não terá nada a ver com isso, será uma operação completamente diferente.

Sim, eu acredito que sim. A resposta é particularmente por um motivo, e o motivo é a Dinamarca pertence à NATO. E a NATO é uma organização de cooperação militar. Cooperação quer dizer que existem objetivos comuns, senão não lhe chamávamos cooperação. E, portanto, há objetivos comuns e que evita que elementos no quadro da própria aliança andem à porrada uns com os outros. Temos casos em que até havia razões que pudessem potenciar essa questão, mas o fato de estar na mesma aliança militar é um forte inibidor. Se acontecer um país NATO atacar outro país NATO, que pode alegar artigo quinto, etc., atacar, como diz o tratado de Washington, é o ataque armado, significa o implodir da NATO como nós a conhecemos. E quer os norte-americanos precisam da NATO, quer os europeus precisam da NATO.

Gostava que me explicasse de que ameaças concretas é que estamos a falar.

Vamos ver. Vamos imaginar que a Federação Russa tem consórcios e tem indústrias que permitem, por exemplo, futuras instalações militares, negociando com a Dinamarca, na Gronelândia. Veja o que isso significa, por exemplo, na projeção daquele espaço para o Ártico e no valor funcional que a China e a Federação Russa ganham no Ártico. Repare, se isso acontece, a proximidade que fica dos norte-americanos. E depois todo o conjunto de situações que se arrastam atrás dessas. Se a partir do espaço mundial, serão entre três a quatro, cinco poderes. Esses poderes que se controlam um ao outro não podem deixar que o poder alheio ganhe alguma superioridade, pelo menos naquilo que depende dele. E é isso que os norte-americanos estão a tentar fazer. Estão a tentar fazer na Venezuela e poderão fazê-lo de outras formas, certamente na Gronelândia.

Acha que uma eventual operação dos Estados Unidos na Gronelândia vai permitir à Europa ter cola suficiente para responder em bloco, ou acha que a situação está demasiado fragilizada do lado europeu e não é como a situação da Ucrânia, que não apresenta um risco de segurança imediato como a Ucrânia, e, portanto, os países europeus talvez não estejam todos do lado da Dinamarca se essa situação se colocar?

Vamos ver. Se colocar uma situação, do meu ponto de vista, absolutamente irracional. Vou especular, porque é aquilo em que eu acredito, que não se passa, que não se vai passar. Imagino uma ação militar norte-americana pra Gronelândia. Até do ponto de vista da geografia física, havia muita dificuldade europeia fazer alguma coisa, a não ser condenações e coisas do gênero. Agora, na prática, era uma impossibilidade para os países europeus. A geografia manda, tal e qual como a Federação Russa e a China têm muitas dificuldades em fazer mais qualquer coisa, quer na própria Gronelândia, quer na Venezuela, porque aí são limitações de natureza física e de projeção de poder. Vão fazer o quê? Mesmo que o tivessem, qual é a única potência do mundo que está espalhada ao longo do oceano? Não são os norte-americanos, que nós até criticamos por investir muito na defesa. É verdade. Portanto, respondendo à sua pergunta, eu não vejo como aplicável essa perspectiva, mas a resposta seria que os europeus não podiam fazer nada. Ponto final, parágrafo. A única coisa que se poderia fazer era não permitir, por exemplo, que no futuro militares e instalações militares norte-americanas não tivessem o espaço europeu e que lhes permite controlar um pouco do oceano asiático. Mas isso também é uma impossibilidade europeia, porque precisam dos norte-americanos. Mas quer dizer, e estas coisas não podem ser ignoradas, se vamos para a Gronelândia, são vamos para a Gronelândia, porque se fossem, nós não fazíamos nada, não poderíamos fazer nada. Ponto final, parágrafo.

Aquela história que o Trump diz de que a Dinamarca não tem condições para defender a Gronelândia, acha que ele tem razão?

Não, eu não acho, tenho a absoluta certeza que não tem. Mas o que o Trump está a fazer é trabalhar com a comunicação social, na lógica informacional que eu entendo. Isso é verdade. É tanto verdade isso, como é tanto verdade dizer que pertence à NATO, e isso significa a implosão da NATO E, por conseguinte, essa ideia apenas abana o nosso juízo de valor, o nosso cérebro, mas do meu ponto de vista é que tem poucos pés pra andar, isto é, a ação militar. Agora imagine, por exemplo, dentro de quatro, cinco ou seis anos faz eleições na Gronelândia e que determinado partido ou fação muito autonômica vence na Gronelândia e que se coloca um referendo no sentido de perguntar se quer a separação da Dinamarca ou não. E o referendo até diz que sim. É nesta ideia que eu estou a pensar e não na ideia de fazer entrar helicópteros pra cima da Gronelândia.

Aquilo que fica claro, e agora peço-lhe uma resposta rápida, é que esta questão mostra, de facto, que a relação entre os Estados Unidos e a Europa entrou numa fase de redefinição profunda.

Sim, uma coisa eu não sei se será assim tão profunda. O que é profundo é a retração norte-americana do espaço euro-asiático. Por que não pode? Porque está com muitas dificuldades financeiras e tem que se retrair. E esse vácuo entre o que estava e o que está quer que seja preenchido pelos europeus. Isso não significa fragilizar a ideia anterior. Simplesmente, o gigante não pode, não tem condições econômico-financeiras para sustentar esse custo. Não quer perder é a consequência positiva, para ele, dessa retração. E, portanto, vai passando com a calma possível aos europeus, que com dificuldade lá vão tentando fazer alguma coisa. Quando eu digo esta passagem, estou a falar a quatro, cinco, oito anos, não é pra já.

Coronel Mendes Dias, muito obrigado.

Muito obrigado.

O coronel Carlos Mendes Dias é um acadêmico especialista em assuntos militares e segurança. Aliás, ele chefiou missões internacionais na Bósnia-Herzegovina e em Moçambique. A Gronelândia preocupa, mas o principal foco de instabilidade e insegurança na Europa continua a ser a Ucrânia. Hoje há uma reunião dos aliados em Paris para fechar os contributos de cada um. Também hoje, os 11 candidatos à Presidência da República encontram-se todos nos estúdios da RTP para o último debate, numa altura em que a campanha aquece e as sondagens também. E à noite temos a primeira meia-final da Taça da Liga, Sporting e Vitória de Guimarães encontram-se em Alvalade. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.