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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Para os Estados Unidos, Portugal é essencial no combate à Wagner. Por quê?
A pior coisa que poderíamos fazer era retirar do terreno as forças que existem e que deixariam exposta a República Centro-Africana.
Em fevereiro, no balanço da visita à República Centro-Africana, António Costa assumia o papel português no conjunto dos aliados contra a presença dos mercenários da Wagner no país.
Os Estados Unidos apresentaram, aliás, um projeto no sentido de reforçar o apoio à República Centro-Africana, tendo em vista que não se corra o risco de ficar sob influências que não seriam bem-vindas. Isso ajudará seguramente a evitar que a Wagner possa crescer ou provavelmente até possa retirar-se.
Um mês antes, numa reunião discreta em Lisboa, confirmada pelo Observador, foi isto mesmo que oficiais dos Estados Unidos pediram a Portugal: que os militares portugueses não desmobilizassem da República Centro-Africana e ajudassem a controlar o grupo Wagner. Por que Portugal era, e é, relevante para os Estados Unidos nessa missão? E o que mudou com a morte do líder dos mercenários, Yevgeny Prigozhin? Vou conversar com José Carlos Duarte, jornalista de internacional do Observador. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia. Bem-vindo, José Carlos Duarte.
Olá, Sara.
Que reunião foi esta que aconteceu em janeiro, em Portugal, por causa especificamente do grupo Wagner na República Centro-Africana?
Foi uma reunião à porta fechada, uma reunião entre dirigentes portugueses e norte-americanos, não sabemos quem são, mas a reunião serviu essencialmente para discutir a presença portuguesa através das suas missões na República Centro-Africana.
Uma presença militar.
Exato.
O Observador, tu conseguiste confirmar que essa reunião de fato aconteceu. Ela tinha sido noticiada pelo Politico, que avançou detalhes sobre essa conversa que aconteceu entre oficiais norte-americanos e dirigentes e autoridades nacionais portuguesas. O que se sabe sobre o que foi efetivamente discutido nesse encontro?
Sabe-se que os dirigentes norte-americanos vieram a Lisboa tentar convencer as autoridades portuguesas para permanecerem na República Centro-Africana. Em primeiro lugar, faz sentido aqui distinguir que existem duas missões, uma de treino da União Europeia e outra das Nações Unidas. No que diz respeito à das Nações Unidas, os dirigentes portugueses estavam preocupados com a saída dos militares franceses, que abandonaram a República Centro-Africana no final de 2022. E as autoridades norte-americanas vieram aqui, de certa forma, tranquilizar os portugueses de que não haveria problemas, não haveria tensões e que poderiam continuar e não ficariam numa posição vulnerável.
Porque Portugal entendia que, com a saída dos franceses, os militares que lá estavam, nomeadamente os portugueses, estavam mais expostos à violência e à instabilidade do país.
Exato. E os norte-americanos vieram cá trazer a mensagem de que isso não iria acontecer. Também há a questão da missão de treino da União Europeia e aí as coisas já são um pouco diferentes. De acordo com o Politico, havia a intenção de, no governo português, tirar as tropas e abandonar essa missão em abril de 2023.
Cerca de três meses depois desse encontro em janeiro.
Exato. E os norte-americanos vieram a Lisboa tentar convencer os portugueses a não abandonarem a missão de treino, que, aliás, é liderada por um português.
Ei, ei, ei! Alto o fogo, encosta à direita. À direita, ei! Ei, vamos passar, vamos passar. Mirami, rajadas curtas.
Primeiro, contactei o Pentágono e o Pentágono encaminhou-me para o Departamento de Estado norte-americano e eles realmente não confirmam a existência da reunião, dizem que não comentam as reuniões diplomáticas que existem entre Estados.
Dizem, aliás, que são rotineiras, não é? Que são um hábito.
Exato. Contudo, dizem na resposta escrita que mantêm comunicações estreitas com dirigentes portugueses através da embaixada norte-americana em Lisboa. Portanto, não confirmam, mas também não desmentem.
Porque especificam até que essas conversas são para promover a estabilidade e a prosperidade da República Centro-Africana e de outros países em África.
Sim, os Estados Unidos também confirmam, na mesma resposta, que estão, neste momento, a trabalhar com as autoridades portuguesas exatamente para alcançar esses objetivos e para promover a estabilidade na República Centro-Africana.
O esforço que está a ser feito por todos, por Portugal, pela Ruanda, por outros Estados, é precisamente tornar desnecessária a presença da Wagner no território da República Centro-Africana.
Certo é que um mês depois dessa reunião muito discreta, estas reuniões, como é óbvio, não são tornadas públicas e como os próprios Estados Unidos nos disseram, são rotineiras, mas foi uma reunião sobre a qual poucos querem falar, não quiseram dar-nos resposta. Certo é que depois, um mês depois, António Costa vai visitar as tropas portuguesas na República Centro-Africana, fala da saída dos militares franceses, porque isso, de facto, percebe-se que era uma preocupação para Portugal, e confirma o empenho de Portugal e a continuidade das missões todas, não é? Nomeadamente aquela que, segundo o Politico, estava aqui na cabeça dos portugueses de abandonar a partir de abril.
Sim, António Costa, quando vai a Bangui, a capital da República Centro-Africana, confirma Efetivamente, Portugal vai manter-se quer na missão das Nações Unidas, quer na missão da União Europeia. E ele confessa, em declarações à Agência Lusa, que a visita serviu precisamente para avaliar se havia condições políticas para Portugal permanecer na República Centro-Africana e, segundo o primeiro-ministro, após ter conversado com os altos dirigentes da República Centro-Africana, havia vontade das elites do país em que Portugal permanecesse na República Centro-Africana, daí que a decisão tenha sido permanecer no país.
Exatamente o que é que Portugal faz na República Centro-Africana nessas duas missões?
Não são duas, são três missões. Existe a missão das Nações Unidas, onde estão cerca de 210 militares. Essa missão, Portugal é reconhecido, e no artigo do político estava exatamente explicado o motivo pelo qual os Estados Unidos também queriam que Portugal ficasse na República Centro-Africana, tem a ver com a força de reação rápida, isto é, uma força que consegue rapidamente reagir a qualquer imprevisto e que consegue proteger não só as elites, como também a população de algum eventual golpe de Estado, por exemplo. Depois, existem duas missões da União Europeia, uma de treino, que treina militares, que treina forças, inclusivamente da República Centro-Africana, para os capacitar e dotar de formas de reagir a um possível golpe de Estado ou qualquer insurreição. Depois existe uma missão de aconselhamento a nível estratégico, que é mais em termos teóricos, não é uma missão tão prática, digamos assim, em que o objetivo é que haja uma transformação das forças-
Locais.
Exato. Mais através da partilha de know-how.
Uma espécie de consultoria para os ajudar a avançar e construir o próprio país.
Exato.
E era por todas essas áreas que para os Estados Unidos era essencial, até porque, como dizia Anthony Blinken na resposta que te enviou, a ideia dos Estados Unidos é promover a estabilidade, para a qual às vezes é preciso forças de reação rápida, mas depois também ajudar os países a crescer, para o qual é preciso formação e capacitação. Era exatamente disso que falavam os Estados Unidos.
Exato, sim.
Nós já vamos voltar à conversa com José Carlos Duarte, jornalista de internacional do Observador. Vamos tentar perceber que diferença é que isto faz no combate à Wagner e por que Portugal é assim tão importante. Estamos de regresso à conversa com o jornalista José Carlos Duarte. José, estávamos a falar do que faz exatamente Portugal na República Centro-Africana. Por que esse trabalho de, por um lado, reagir rapidamente, especialmente a algum golpe de Estado ou a algum ataque, é tão importante para controlar a Wagner?
É extremamente importante, de facto, porque o grupo Wagner tem uma espécie de pacto assinado com os regimes africanos. Isto é, os regimes africanos têm a segurança do grupo Wagner, que reagem a uma possível onda de violência, que os protegem de um eventual golpe de Estado. Portanto, ficam quase blindados por aqueles mercenários que têm uma grande experiência em combates.
E que são particularmente violentos.
Exato. E em troca, os governos africanos permitem que o grupo Wagner explore recursos naturais, e isso permite-lhes acumular riqueza, que é indesejável também para a guerra na Ucrânia.
Então a ideia é que forças rápidas de reação, como a portuguesa, que lá está, e como outras, que possam fazer isso mesmo que a Wagner faz para esses países, protegê-los, ajudar a estabilizar situações de instabilidade nas ruas. Se essas forças existirem, os países já não têm que recorrer à Wagner e por isso é que países como Portugal são tão importantes. É isso?
Sim, é isso. E é assegurar a proteção a essas elites, aos governos, que os Estados Unidos querem que aconteça nesses países, de forma que os governos possam prescindir do grupo Wagner.
Mas como é que a Wagner conseguiu ganhar essa relevância em tantos países? Porque não estamos só a falar da República Centro-Africana. De que fragilidades é que a Wagner se aproveitou para ir ganhando esse espaço?
Em primeiro lugar, tem a ver com a instabilidade dos países africanos.
Golpe de Estado.
Golpe de Estado, a presença de grupos extremistas como a Al-Qaeda, o Estado Islâmico, tudo isto torna as condições para a existência de um golpe de Estado e para insegurança e para possíveis ataques mais provável. E daí que o grupo Wagner se tenha aproveitado e tenha se dirigido a esses países precisamente aproveitando-se desta instabilidade toda na região.
Surge como uma espécie de salvador. Estamos aqui, conseguimos protegê-los, vamos ajudar, é isso?
Exato.
Mas há uma contrapartida.
Exato, que é, lá está, como já referi, a exploração de recursos naturais por parte dos mercenários. Além disso, também há a questão de o Grupo Wagner não estar ligado, pelo menos diretamente, a nenhum país.
Formalmente, porque sabemos que o Grupo Wagner sempre esteve ligado à Rússia.
Sim, aliás, a própria guerra na Ucrânia veio comprovar. E como não está ligado a nenhum país, é mais fácil para o Grupo Wagner entrar nesses países, controlar essas elites, cometer crimes que depois nem sequer serão julgados, porque estão nesta situação de indefinição, não estão em representação de um país, mas também não são um grupo civil. Ou seja, estão numa posição bastante vantajosa para conseguirem providenciar segurança às elites e têm um domínio de atuação muito maior do que propriamente umas forças armadas ou de intervenção estrangeira.
Our partners in Africa tell us that they do not want their resources exploited. They don't want the human rights of their people abused. They don't want their governance undermined. And ultimately, as a result, they really don't want Wagner.
Ouvimos agora mesmo Antony Blinken, secretário de Estado norte-americano, dizer que os países africanos não querem ficar sem recursos, sem direitos humanos, que não querem, no fundo, a Wagner. Isto significa que acontece aquilo que descrevias, os países pedem ajuda à Wagner, porque têm essa ajuda imediata e percebem tarde demais que a contrapartida é muito pesada até para a população?
Sim, a contrapartida costuma ser pesada. Primeiro, porque o Grupo Wagner pode controlar essas elites e pode ter influência na maneira como o país é governado. E as elites ficam em uma posição bastante desconfortável, que é terem de ceder perante um grupo de mercenários armados. São eles que estão com as armas na mão e, portanto, vão ter que ceder em exploração de recursos, em certos domínios da governação, e isso não é positivo para elas. Além disso, também há a questão da população, porque embora o Grupo Wagner proteja as elites, porque conseguem ganhar alguma coisa com isso, a população continua a sofrer e fica muito vulnerável, porque o Grupo Wagner pode cometer inclusive crimes contra a população civil e que passam completamente impunes, porque os governos não têm capacidades de se impor perante mercenários armados.
Esta reunião que aconteceu em janeiro e depois a visita de António Costa à República Centro-Africana, acontece num cenário muito diferente daquele que temos agora, depois da morte de Yevgeny Prigozhin, o líder do Grupo Wagner. Tudo isto pode mudar com o desaparecimento do líder dos mercenários?
Talvez sim, talvez não. A questão ainda não está fechada. O que é facto é que, neste momento, o Grupo Wagner tem uma crise de liderança. Não se sabe quem é que vai suceder, não se sabe se vai ser integrada nas Forças Armadas russas. Portanto, estamos aqui num cenário de instabilidade e pouco claro. O que é facto é que o Ocidente e outras potências, nomeadamente a China, poderão aproveitar esta espécie de vácuo para preencher o espaço do Grupo Wagner. Mas ainda não é claro que isso aconteça e nem é certo sequer que as elites dos países africanos na qual a Wagner está presente queiram isso.
E os Estados Unidos já sinalizaram de alguma forma que possam ter agora preocupações mais reduzidas em relação à Wagner ou nem por isso?
Não. Na mesma resposta em que comentavam a reunião, os Estados Unidos esclareceram que continuam preocupados com a situação de segurança na República Centro-Africana e dizem mesmo que continuam a ser explorados os recursos do país e as suas forças continuam a perpetuar ataques na população civil. Apontam também para um cenário de alguma incerteza, mas o que é facto é que continuam apreensivas com a situação de segurança e daí que até tenham realçado que mantêm o apoio e querem continuar a ter o apoio de Portugal, de outros países europeus e de outros países africanos que integram as missões das Nações Unidas.
Esse apoio para mostrar aos governos dos países que é possível ter estabilidade no país sem recorrer a mercenários, aquilo de que falávamos há pouco, um apoio no qual os Estados Unidos consideram que Portugal é fundamental. E neste sentido, é previsível que Portugal mantenha, pelo menos para já, as suas missões?
Por agora, sim, não há nenhum sinal em contrário que assim o anteveja. Neste momento, a missão da MINUSCA é prevista durar até dezembro de 2023, assim como as missões de treino da União Europeia. No entanto, recentemente, a Ministra da Defesa assinou uma portaria em que se lê que haverá uma redução do número de efetivos na missão de treino da União Europeia de 19 para 10. Portanto, já há aqui uma diminuição. Se isso terá efeitos no futuro, ainda é muito cedo para dizer.
Até porque foi decidida ainda antes da morte de Yevgeny Prigozhin e seguramente muito antes de se perceber exatamente qual é o futuro para a República Centro-Africana. Obrigada, José Carlos Duarte.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista de internacional d'O Observador. Neste episódio, ouvimos sons recolhidos pela Agência Lusa e pela Reuters. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.