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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Com Volodymyr Zelensky pronto para eleições na Ucrânia, quem poderão ser os adversários?

"Yeah, I think it's time. I think it's an important time to hold an election. They're using war not to hold an election, but I would think the Ukrainian people should have that choice, and maybe Zelensky would win. I don't know who would win, but they haven't had an election in a long time. They talk about a democracy, but it gets to a point where it's not a democracy anymore."

Donald Trump deixou o aviso: a Ucrânia deve realizar eleições. O presidente norte-americano considera que Kiev tem estado a usar a guerra pra não convocar qualquer ato eleitoral e diz que se pode chegar a um ponto em que já não há democracia. Na resposta, Volodymyr Zelensky voltou atrás e disse estar disposto a realizar eleições no prazo de 90 dias, caso os parceiros ocidentais ajudem a garantir a segurança. O certo é que atualmente está em vigor a lei marcial devido à invasão russa, o que impede a realização do ato eleitoral. Vou conversar com José Carlos Duarte. É jornalista da seção de internacional do Observador, sobre os possíveis adversários de Zelensky, caso haja eleições na Ucrânia. Eu sou Luís Soares e esta é a história do dia de segunda-feira, 15 de dezembro. Bem-vindo, José Carlos Duarte.

Olá.

José, importa perceber primeiro por que é que neste momento não estão previstas eleições na Ucrânia.

Sim, neste momento não estão previstas eleições, apesar de haver já aqui uma data. O presidente Zelensky fala que poderá haver eleições daqui a 60 a 90 dias, mas isso não é líquido que aconteça. A Ucrânia deveria ter tido eleições, se tudo fosse normal, se não tivesse havido uma guerra, em maio de 2024, que era quando expirava o mandato do atual presidente Volodymyr Zelensky. Por causa da lei marcial em vigor, a Constituição ucraniana proíbe a realização de atos eleitorais. Portanto, não pode haver eleições na Ucrânia. Há várias questões logísticas que o impedem. Por exemplo, quem vai votar, que pessoas é que vão votar.

Com que segurança também.

Com que segurança é que vão votar, a questão das regiões ocupadas, será que essas pessoas ainda vão contar nos boletins eleitorais? Portanto, há aqui uma série de questões que durante uma guerra é muito difícil precisar e é por isso que a Constituição ucraniana proíbe eleições. Mas as coisas têm estado a alterar-se.

E há essa abertura mostrada por Zelensky para convocar eleições perante, no entanto, algumas condições. Tem existido também, por exemplo, pressões de Donald Trump, ouvimos declarações dele nesse sentido. O que é que tem mudado exatamente, José Carlos?

Sim, em primeiro lugar, a Rússia sempre fez pressão pra Zelensky convocar eleições. Vladimir Putin tem feito várias declarações que apontam que nem sequer vai aceitar um acordo de paz assinado por Zelensky, porque não o vê como presidente legítimo, já que o mandato já terminou. Esse é o argumento do presidente russo. O Ocidente nunca impôs a necessidade de eleições na Ucrânia. Sempre percebeu que a situação é bastante complexa. Organizar um ato eleitoral no meio de uma guerra é bastante complicado e nunca pressionou Zelensky a avançar nesse caminho. Agora com Donald Trump, isso mudou. O presidente norte-americano disse que a Ucrânia deveria ter tido eleições, que se fala muito sobre democracia, mas já não há eleições há tanto tempo e isso já levanta dúvidas sobre o processo democrático da Ucrânia e ele tem exigido que se convoquem eleições no país. Foi isso que mudou, foi a pressão dos Estados Unidos.

Com o Zelensky a mostrar essa abertura também perante essa pressão de Donald Trump, não é?

Exato. O Zelensky tem também de o fazer, porque sabe perfeitamente que o que está aqui em risco é o apoio norte-americano e sabe perfeitamente que se não fizer a vontade do Donald Trump, pode ficar sem informações confidenciais muito importantes pra guerra e pode ficar sem aquele sistema da NATO em que os aliados compram armas dos Estados Unidos e que depois são entregues à Ucrânia. Tudo isto é muito importante e Zelensky percebe que talvez tenha de ceder neste ponto e assim talvez também possa ter um acordo de paz mais favorável. E as eleições são uma coisa que pode não mudar nada, Zelensky pode vencer outra vez. E acho que é aqui, em todos os cenários, aquilo que Zelensky prefere ceder: é o fato de convocar eleições.

Vamos então olhar agora para nomes que podem entrar numa eventual corrida, quando ela vier a acontecer, enquanto adversários de Zelensky. José Carlos, o nome mais forte é o de um agora embaixador, mas que já foi também comandante-chefe das Forças Armadas.

Sim, fala-se de Valeri Zaluzhni. Valeri Zaluzhni foi o comandante das Forças Armadas no início da invasão. Foi um comandante que ganhou uma grande popularidade na Ucrânia, uma pessoa que os ucranianos gostam bastante. O seu nome e a sua reputação ficou muito marcada numa fase de sucessos militares da Ucrânia. Depois de um período em que a Ucrânia não conseguiu conter os avanços russos, em que a Rússia avançou em fevereiro e março de 2022, a Ucrânia depois conseguiu suster essa ofensiva russa. E não só fez isso, como também entrou ao ataque E que reconquistou vários territórios que a Rússia tinha ocupado. E foi graças às estratégias de Valery Zaluzhnyi que isso foi alcançado. Portanto, na memória coletiva e nos ucranianos ficou uma muito boa impressão de Valery Zaluzhnyi. Ele também é uma pessoa que não gosta de falar em público, é bastante modesto, tem uma presença midiática fraca, apesar de todos os sucessos que teve, e isso ainda contribui mais pra sua popularidade. Efetivamente, ele é uma pessoa muito querida e muitos ucranianos querem vê-lo como presidente. Ele surge sempre como uma das pessoas mais confiáveis para os ucranianos, tem uma taxa de aprovação altíssima, até superior, em algumas sondagens, à do presidente Zelensky, e nas sondagens pras presidenciais surge sempre em segundo ou em terceiro lugar. Portanto, é um nome muito consensual na Ucrânia e poderá eventualmente ganhar umas eleições caso decida concorrer.

Precisamente, é isso que eu ia perguntar, porque não há propriamente nenhuma indicação de que ele deseje candidatar-se ou que possa vir a candidatar-se numas eventuais eleições, não é?

Não, não há. Convém dizer que ele sai da chefia das Forças Armadas em 2024, depois de alguns desentendimentos com Volodymyr Zelensky. Eles tinham visões diferentes sobre o conflito, houve algumas tensões e Volodymyr Zelensky decidiu retirá-lo das Forças Armadas e enviou pra Londres. Ele é embaixador no Reino Unido. Mas apesar de ter havido esta tensão, ele nunca hostilizou Zelensky, ele nunca criticou sequer Zelensky. Ele prefere apostar aqui numa espécie de unidade nacional, ou seja, não vamos criticar o presidente em funções porque estamos em tempo de guerra.

Não se apresenta propriamente como um adversário de Zelensky.

Não, ele nunca admitiu, aliás, que seria um adversário de Zelensky. Ele dá sempre respostas ambíguas quando é questionado, porque ele sabe perfeitamente que existe essa expectativa que ele se candidate, e as respostas dele são muito vagas, muito ambíguas, do gênero: se eventualmente houver paz, posso candidatar-me, mas as condições nunca são bem claras. Várias fontes próximas dele dizem que ele candidata sim, se Zelensky não avançar. Ou seja, apenas se o atual presidente não quiser recandidatar-se é que Zaluzhnyi entra como alternativa e provavelmente seria o grande vencedor nesse cenário.

Já vamos continuar a conversa com José Carlos Duarte. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com José Carlos Duarte. Podemos esperar também um regresso de figuras da política ucraniana, José Carlos, como por exemplo, a do antigo presidente Petro Poroshenko, também eventualmente da antiga primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Podemos ver algum regresso de alguma destas figuras?

Sim, poderá haver, eventualmente, mas isto não é sempre um grande sentimento de incerteza, que é uma incógnita. Mas sim, principalmente Petro Poroshenko. Petro Poroshenko perde as eleições em 2019 pra Zelensky, que é presidente em 2014, é eleito presidente em 2014 e fica no cargo cinco anos, que é a duração do mandato da presidência da Ucrânia, mas depois perde de forma bastante esmagadora pra Zelensky. Zelensky tem 73% e Poroshenko 24%, julgo que são mais ou menos estes os números. Portanto, é realmente uma derrota expressiva do antigo presidente. Ainda assim, ele já declarou que se quer efetivamente candidatar, que vai fazê-lo, mas estipula que só o fará em tempos de paz. Portanto, não sabemos bem se nestas condições, nessas eleições de-

Como a guerra ainda em curso, não é?

Exato, 60 a 90 dias, não sabe bem se ele vai avançar ou não, comentou, mas que ele eventualmente se quererá candidatar, isso é uma certeza. No entanto, nenhum destes nomes terá grande sucesso eleitoral. Os ucranianos olham para o antigo presidente com muita desconfiança. O final de mandato dele não foi propriamente bem-sucedido e eu diria que os ucranianos não vão escolher alguém do sistema, vão escolher alguém fora do sistema. E, por exemplo, Valery Zaluzhnyi seria alguém que não faz parte da elite política ucraniana e encaixaria perfeitamente nessa lógica. Portanto, eu acho muito difícil que mesmo que se candidatem, possam eventualmente passar a uma segunda ronda, acho muito difícil.

E também o chefe das secretas é um dos possíveis rivais de Zelensky. Por que este nome aparece também aqui?

É um nome bastante surpreendente, Kyrylo Budanov, é também muito popular na Ucrânia. Ele é um chefe das secretas, mas apesar do seu trabalho exigir uma certa confidencialidade, ele aparece muito em público. Ele faz entrevistas, deixa jornalistas irem ao seu gabinete, tem uma abertura ao público bastante-

Pouco secreta.

Pouco secreta, exatamente. Ele não é propriamente uma pessoa muito reservada, e isso contrasta um bocadinho com as suas funções, mas as suas declarações são sempre também muito mordazes. Ele ridiculariza muito a Rússia, faz declarações até muito explosivas, e essa persona que ele foi criando, meia misteriosa, mas muito acessível, tornou-o extremamente popular na Ucrânia. E depois, em certas ofensivas, em certos momentos em que a Ucrânia consegue alguns ganhos face à Rússia, ele também aparece como o rosto por trás da estratégia atual da Ucrânia e há um certo consenso em redor do seu nome. Mas o que é fato é que ele nunca expressou, nem nunca se manifestou No sentido que se vai candidatar à presidência. Ele nunca nem sequer é questionado sobre isso, porque é uma pessoa que neste momento tem um cargo bastante importante.

E muito específico.

E muito específico e, portanto, pouco se imagina, mas o que é facto é que não vê-lo aparecer nas sondagens. Atrás de Zelensky, Zaluzhnyi está Budanov e se decidir eventualmente candidatar-se, pode ter algum capital político, mas ele nunca referiu essa possibilidade. E depois ele é muito chegado a Zelensky. Zelensky e Budanov têm uma relação muito próxima, Budanov é muito próximo do núcleo duro do presidente e eu duvido muito de que se Zelensky estiver a concorrer, ele vá concorrer contra ele, porque eles são realmente próximos. Portanto, diria que há aqui uma grande improbabilidade de isso acontecer, mas nunca se sabe.

Claro. Que outros nomes, José Carlos, podem surgir nesta eventual corrida?

Sim, confirmados, além de Poroshenko, se bem que Poroshenko tenha feito aquela ressalva do tempo de paz, está um nome que é Alexei Arestovych. Este homem até põe na sua descrição da conta do X que é um candidato à presidência da Ucrânia e este homem é uma figura um pouco estranha. Ele foi ex-conselheiro do presidente Zelensky, durante a invasão ele fez muitos livestreams, ele apareceu muito em público, ele era um rosto da presidência, mas depois zangou-se com o presidente e abandonou o cargo. Mas desde aí que tem tentado ter bases para uma eventual candidatura à presidência, mas eu diria que é muito improvável que eventualmente ele chegue a esse cargo. Ele faz declarações polêmicas, ele tem uma escola em que dá aulas de desenvolvimento pessoal. É uma pessoa um bocadinho fora de sistema, também um outsider, mas eu diria que este outsider tem muito poucas probabilidades de chegar. Poderá candidatar-se, mas acho que não terá grande sucesso. Outros nomes, ainda que não se saiba muito bem se vai avançar, é Andriy Biletsky. Este nome está ligado à extrema-direita ucraniana, é um nome menos centrista do que os restantes. E ele foi fundador do Batalhão Azov, um batalhão que ainda está a combater na Ucrânia, que ainda existe e que teve grande preponderância no início da invasão, principalmente durante o cerco a Mariupol. Foram os paramilitares do Batalhão Azov que defenderam a cidade. E este homem já sinalizou que poderá candidatar-se a representar um espaço ideológico diferente, mas também nunca confirmou. Portanto, também há aqui uma certa incógnita sobre se vai ou não avançar.

O certo é que o apoio dos ucranianos a Zelensky ainda é grande na Ucrânia, mas fica já aquém daquele que foi o apoio muito expressivo no início da guerra. Alguma destas figuras, José Carlos, pode ter força por si própria, força suficiente para destronar Zelensky numa eventual eleição?

Sim, é facto que o apoio a Zelensky foi diminuindo ao longo da guerra. Ele era muito popular no início, caiu mais ou menos em 2024. Depois, é curiosa aquela discussão que ele teve com Donald Trump e JD Vance, fez com que ele voltasse a ganhar popularidade na Ucrânia, mas agora, principalmente após os casos de corrupção que foram conhecidos com o seu número dois, Andriy Yermak, a sua popularidade voltou a baixar e muitos já o associam a uma figura corrupta, coisa que ele disse que nunca ia ser quando chegou ao cargo em 2019. Mas os escândalos de corrupção foram realmente uma mancha no seu currículo e ele sabe perfeitamente que isso tem impacto na taxa de popularidade dele. Eu diria que a única figura que neste momento terá alguma possibilidade de o derrotar é Valery Zaluzhnyi. Acho que os restantes não têm a popularidade, não têm o consenso suficiente para derrotar o presidente. Mas convém também aqui referir que nas sondagens que têm sido publicadas, Volodymyr Zelensky continua em primeiro. Ou seja, se ele decidir candidatar-se, acho que será muito provável que ele vença. Se ele decidir não candidatar-se, acho que Valery Zaluzhnyi poderá mesmo ganhar as eleições, porque é uma pessoa extremamente popular na Ucrânia e há aqui uma espécie de dívida de gratidão pelo aquilo que ele conseguiu enquanto foi chefe das Forças Armadas. Estamos a falar de um país em tempo de guerra, portanto, há aqui uma relevância das suas funções bastante grande. As suas funções ganham algum peso enquanto comandante das Forças Armadas. E depois porque manteve sempre uma certa lealdade à presidência, mesmo tendo se zangado com Zelensky, mesmo tendo sido afastado, ele nunca criticou diretamente, ele nunca tentou dividir. Ele foi sempre uma figura que tentou ser consensual e acho que isso, numa eventual ida às urnas, será valorizado, porque Zelensky pode ter defeitos, Zelensky pode ter ficado um bocadinho manchado com os casos de corrupção, mas o que é facto é que continua a ser um presidente relativamente popular e que conduz um país em tempo de guerra, e acho que os ucranianos entendem perfeitamente que é uma tarefa bastante difícil e tendo em conta que Zaluzhnyi nunca se opôs a Zelensky, acho que isso é uma estratégia bastante inteligente para se um dia ele quiser ser presidente.

Vamos ter que aguardar para perceber exatamente quando é que haverá eleições e quem se candidatará. Obrigado, José Carlos Duarte.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional d'O Observador. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas a marcar este início de semana. A caminho das presidenciais, hoje é dia de debate entre Henrique Covey Melo e André Ventura. Um dos frente a frente que gera maior expectativa está marcado para as 9:00 da noite na RTP. Na Madeira, arranca o debate sobre o orçamento da região para o próximo ano. A discussão vai durar três dias. O documento tem aprovação garantida com os votos do PSD e do CDS. Os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 reúnem-se em Bruxelas. O conflito entre Rússia e Ucrânia, o Médio Oriente, mas também a relação com a China, são temas que vão estar em discussão no encontro presidido pela chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos no início do programa é de uma entrevista ao jornal político. A sonoplastia é do Artur Costa. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.