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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Que Iniciativa Liberal sai da Convenção de Lisboa?
Liberais, é para esse enorme desafio que quero convidar todos, todos sem exceção, todos que tenham disponibilidade para participar nesta viagem que nos vai levar a ser o partido que rompe o bipartidarismo, chega aos 15% pelo menos e transforma Portugal. Conto convosco, contem comigo, viva a Iniciativa Liberal, viva Portugal!
Cerca de seis horas depois do previsto, Rui Rocha encerrava a Convenção Liberal com o discurso de vitória. Ao final da tarde deste domingo, o novo presidente apelava à união depois de semanas de luta intensa.
Muito obrigado, boa noite!
Foi uma convenção dura, marcada pela despedida de João Cotrim de Figueiredo da liderança do partido e por trocas de acusações e apupos entre os apoiantes dos dois principais candidatos à liderança. Rui Rocha, o escolhido pelo anterior líder, vence com maioria absoluta 51,7 contra 44% de Carla Castro. José Cardoso, o terceiro na corrida, ficou-se pelos 4,3%. Como vai agora Rui Rocha liderar o partido e como vai conviver com Carla Castro no grupo parlamentar? A Iniciativa Liberal sai reforçada ou prejudicada desta luta interna? Esta é uma edição especial da História do Dia, gravada no Centro de Congressos de Lisboa, onde decorreu a Convenção dos Liberais e que foi acompanhada ao pormenor pelos jornalistas Diogo Teixeira Pereira e Inês André Figueiredo. Nesta edição, a conversa é entre eles. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia.
Bom, Inês, agora que já estamos quase sozinhos, já estão aqui a desmontar tudo. Esta convenção chegou ao fim. Nunca pensei que fosse chegar ao fim depois de tantos atrasos. Isto já faz lembrar um bocadinho os tempos do CDS e do Chega.
Diria quase que é pior do que os congressos do CDS e do que os congressos do Chega, porque de facto tivemos aqui atrasos na ordem das cinco horas. Houve, por exemplo, as últimas votações eram para começar ao meio-dia, começaram às 17h. Realmente está a fazer-nos lembrar muito o CDS, esta Iniciativa Liberal.
E depois de muito esperarmos, ficámos a saber que Rui Rocha é o novo líder da Iniciativa Liberal. Quem é este homem?
Rui Rocha é deputado e é por isso que a maior parte das pessoas do país, se acharmos que Rui Rocha realmente é conhecido a esse ponto, o conhecem. É deputado há menos de um ano, desde as últimas eleições legislativas. Tem 5 anos, é natural de Braga e dizer que, na verdade, é deputado, mas que nem estava nas contas da Iniciativa Liberal conseguir elegê-lo, porque é de Braga e a Iniciativa Liberal, na altura, só contava eleger em Lisboa e no Porto. Tinha um objetivo de cinco deputados. O Rui Rocha ajudou a superar esse objetivo, que estava na segunda linha. Ainda antes de chegar à Assembleia da República, Rui Rocha começou aos poucos a aparecer em vários sítios da Iniciativa Liberal, como porta-voz da Iniciativa Liberal, mas atrás das câmaras já fazia há algum tempo um trabalho na área da comunicação. Fazia parte da equipa de comunicação do partido, que é liderada pelo seu, hoje, vice-presidente eleito aqui, Ricardo Pais Oliveira, e fez, por exemplo, parte tanto da última campanha onde foi eleito, mas também já fez parte da campanha de Tiago Maia Gonçalves. Não é um nome propriamente desconhecido dentro do partido. O que fez foi tendo um crescimento atrás dessas tais câmaras. Já agora, tal como muitos dos liberais que vamos conhecendo e que vão ganhando destaque neste partido, também Rui Rocha veio das redes sociais, muito conhecido no Twitter pelas suas opiniões ligadas ao liberalismo, pela defesa desta ideologia, em blogs como o insurgente, com colunas de opinião. Por isso é mais um daqueles liberais que faz jus à tradição e que salta do Twitter para o partido.
E no discurso de encerramento, traçou objetivos para fora?
Traçou. Não ouvimos Rui Rocha a falar muito, um discurso curto, pelo menos relativamente àquilo que estamos habituados nestas circunstâncias, mas ouvimos Rui Rocha a fazer várias críticas. Vamos começar pela parte do PS. Rui Rocha disse durante muitas oportunidades que teve na campanha que queria travar o bipartidarismo.
Sim, nós vamos lá, nós vamos ter 15% e vamos acabar com o bipartidarismo em Portugal.
A questão do PSD e do PS estarem incluídos em muitas decisões para o país. Usou a palavra cozinhar várias decisões, como a questão do aeroporto, a questão dos debates quinzenais. Disse que estariam a preparar-se também para se unir na questão da revisão constitucional. Mais do que isto, também dizer que Rui Rocha focou-se muito no ataque a um PSD, que nas palavras do novo líder da Iniciativa Liberal, tal como já vinha a acontecer Não faz oposição suficiente ao PS e Rui Rocha quer reiterar essa ideia de que a Iniciativa Liberal pode ser a cabeça, a liderança da oposição ao PS.
Mas esses, Inês, são objetivos mais subjetivos. Rui Rocha, no discurso, identificou objetivos concretos?
Sim. Rui Rocha, tal como tinha feito na moção que levou a votos e que venceu, estabeleceu a meta dos 15% para as próximas eleições legislativas. Ele, na moção, focava-se nas eleições que estão pensadas, que estão programadas para o próximo ciclo, 2026, apesar de prever a possibilidade dessas eleições serem antecipadas. Também uma crítica feita ao governo neste discurso, o fato de estar esgotado e politicamente morto, como dizia. Mais do que estes 15%, Rui Rocha também tem na sua moção a questão de eleger um grupo parlamentar tanto na Madeira como nos Açores. A Iniciativa Liberal já tem nos Açores um deputado, Rui Rocha quer pelo menos duplicar este objetivo. E algo que foi muito falado também ao longo destes dias de convenção, principalmente nas entrevistas, até porque a convenção fica muito marcada pelas questões internas, mas o objetivo de eleger o primeiro eurodeputado da Iniciativa Liberal.
Esses foram objetivos para fora, mas também houve questões internas.
Por duas cabeças de lista do Conselho Nacional apoiarem a lista M, não quer dizer que os outros membros das listas apoiem a nossa lista M. Aqui não há carneiradas, aqui há liberais.
Esta foi uma convenção em que se ouviram muitos apupos e foram usadas palavras como carneirada, ignorantes, paus mandados. Como é que Rui Rocha vai conseguir ser a cola deste partido altamente dividido?
Perguntávamos-lhe ontem isso, não só a ele, mas também a Cotrim Figueiredo, à Carla Castro ou ao próprio José Cardoso. A meu ver, é o maior desafio que Rui Rocha tem nas mãos. Vamos recuar um bocadinho e perceber que Rui Rocha é o primeiro presidente da Iniciativa Liberal que no dia seguinte às eleições não tem um partido unido. Todos os outros presidentes, Carlos Guimarães Pinto foi candidato único, João Cotrim Figueiredo foi por duas vezes candidato único, esta é a primeira vez em que o partido está realmente dividido. Havia não só dois, mas três candidatos à Comissão Executiva e esse tal grande desafio será encontrar um equilíbrio entre aquilo em que Rui Rocha acredita, na questão da continuidade, na questão da equipa que fez o tal sucesso, como ele diz, mas também o tentar encontrar uma forma de incluir na sua equipa pessoas ou ideias, correntes, que vêm de fora e que precisam desse espaço dentro da Iniciativa Liberal, até porque, lembrar, foram eleitas cinco listas para o Conselho Nacional. Rui Rocha terá também aqui este problema. A lista que apoiava, encabeçada por Mariana Leitão, conseguiu 24 mandatos. Ainda assim, há muitas pessoas que estão no grupo considerado crítico, que não está ao lado Rui Rocha, e que pode aqui complicar a vida ou pelo menos fragilizar um bocadinho a vida da Comissão Executiva.
E Carla Castro? Foi a candidata derrotada nesta convenção, mas a verdade é que sai com um capital importante. Teve 44% dos votos, Rui Rocha teve 51,7%, mas agora não fica isolada na bancada parlamentar?
À primeira vista fica, porque Carla Castro não tinha apoio de nenhum deputado. Só Carlos Guimarães Pinto não tinha declarado apoio a nenhum dos candidatos e Rodrigo Saraiva, enquanto líder parlamentar, também não o fez e acabou por nunca o fazer. Notar que esteve aqui na convenção e também não declarou apoio a Rui Rocha, mas é inegável que o fundador da Iniciativa Liberal estaria ao lado da pessoa que era apoiada por Cotrim Figueiredo, era o seu braço direito, está na equipa que sempre fez parte da Iniciativa Liberal.
Nós sempre dissemos, aliás, fiz um cartaz muito claro na entrada da convenção, que no dia seguinte estaríamos todos juntos a trabalhar. Nós somos poucos liberais para o mundo que temos que fazer no país. Portugal é pouco liberal e os portugueses precisam de mais liberalismo.
Carla Castro está sozinha nesse grupo parlamentar, mas na verdade, sabia que corria esse risco. Rui Rocha foi o primeiro a apresentar a candidatura e à partida, Carla Castro estava perfeitamente consciente de quem era a comissão executiva que ele ia apresentar. E por outro lado, disse sempre que o dia a seguir era um dia de união. Por isso, se era de união, caso Carla Castro vencesse, espera-se que faça exatamente o mesmo no caso de Rui Rocha. Temos, por exemplo, uma questão interessante para perceber em cima da mesa, que é a da liderança parlamentar, se ainda no caso de Rui Rocha ter vencido, se Rodrigo Saraiva vai mesmo colocar o lugar à disposição ou não, ou se não haverá necessidade por poder ser reconduzido no cargo pelo novo presidente da Iniciativa Liberal. Vamos perceber aqui, porque também acredito que Rui Rocha queira ouvir os deputados e perceber qual é que será o melhor a fazer num grupo de deputados que tem uma pessoa que foi a sua adversária. Ainda assim, dizer e voltar a reiterar, todos os liberais que aqui passaram pediram um partido unido no dia a seguir. Se o vão conseguir fazer ou não, é outra questão.
Ele já o próprio disse que vai colocar o lugar à disposição porque faz parte das regras deste jogo, mas estou convencido que ele está disponível pra continuar e eu espero bem que assim seja, que tem sido um excelente líder parlamentar.
Que papel tem esta Iniciativa Liberal reservado para João Cotrim de Figueiredo, que goza de bons índices de popularidade?
João Cotrim Figueiredo, tendo em conta uma sondagem revelada quando já estávamos aqui na convenção da Iniciativa Liberal, é o líder partidário mais popular do nosso espaço político.
Tenho um convencimento grande que daqui por seis meses esse lugar mais popular pertencerá a Rui Rocha, que vale o que vale, diga-se de passagem, e nunca foi um concurso de popularidade, propriamente.
É um peso pesado que deixa de estar à frente da Iniciativa Liberal e o partido tem plena consciência disso. Sabe que vai ter de trabalhar muito para chegar aos índices de popularidade que João Cotrim Figueiredo tinha. Ainda assim, contam com João Cotrim Figueiredo. O presidente cessante da Iniciativa Liberal disse que se mantinha como deputado, não deu a entender que irá sair nos próximos tempos e, por exemplo, ainda ontem na Rádio Observador, confirmou que se o partido precisar dele, por exemplo, para uma candidatura ao Parlamento Europeu, que poderá pensar nisso e que estará disponível para pensar nisso.
Se isso refletir algum respeito pelas ideias que temos estado a defender, acho excelente sinal. Se isso for só uma manifestação de popularidade mais ou menos superficial, interessa-me pouco.
Não ficou tão contente quando lhe sugerimos, por exemplo, a questão da candidatura à Presidência da República, mas João Cotrim Figueiredo vai ser uma espécie de senador dentro da Iniciativa Liberal. É o nome mais conhecido do partido e vai continuar a ser o nome mais conhecido do partido durante muito tempo. Rui Rocha tem de trabalhar muito para passar o antecessor nesses níveis de popularidade. Agora, também dizer que foi João Cotrim Figueiredo que quis isto, foi João Cotrim Figueiredo que se colocou nesta posição e, na verdade, a Iniciativa Liberal teve de encontrar aqui uma saída para o facto de ter ficado órfã da liderança deste partido.
Voltando ao partido, Rui Rocha lançou desafios ao PSD, mas a grande pedra no sapato poderá ser o Chega. Rui Rocha rejeita qualquer hipótese de um acordo com o PSD se o PSD fizer um acordo com o Chega. Ou seja, assim poderá ser muito difícil chegar ao poder. Isto poderá sair-lhe caro? Ou seja, o partido pode exigir uma mudança se cheirar a poder ou se o governo cair?
Curiosa essa questão do Chega, que marcou também a convenção, não tanto como era esperado, mas tendo em conta que os assuntos internos tiveram todo o destaque desta reunião magna. Mas Rui Rocha não se refere ao Chega nem uma vez durante o seu primeiro discurso. Falou muito do PSD, como já falámos, falou do PS, falou de ser o líder da oposição e nem uma referência ao Chega. Ou seja, refere-se diretamente até a Luís Montenegro, lança dois desafios ao líder do PSD e o Chega fica aqui completamente colocado de parte desta equação de Rui Rocha. O novo presidente da Iniciativa Liberal já disse, e foi claro, que consigo à frente do partido não haverá acordos com o PSD, que mesmo que paralelamente o PSD tenha um acordo com o Chega e que não haja um acordo a três. Vamos tentar perceber, como perguntavas e bem, se no dia em que Rui Rocha tiver frente a frente com o líder do PSD e a possibilidade de entrar num governo, fazer parte de uma coligação, de dar apoio parlamentar e de tirar o PS do poder, se conseguirá ou não dizer que não. À partida, e deixou bem claro e frisou que em nenhuma circunstância aceitará nunca estar ao lado do Chega, mas vamos perceber realmente se pesa mais o Chega e aquilo que o Chega também tem para colocar nesse acordo, ou se pesa mais tirar o PS e esse tal bipartidarismo do poder.
Obrigado, Inês.
Obrigada, Diogo.
Inês André Figueiredo e Diogo Teixeira Pereira são dois dos jornalistas do Observador e da Rádio Observador que estiveram durante o fim de semana na convenção da Iniciativa Liberal. Esta foi a história do dia. Hoje, num formato um pouco diferente. A sonoplastia é do Bernardo Almeida e do João Ribeiro, que é também o autor da música do nosso genérico. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.