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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem tentou matar Donald Trump?

That was very unexpected.

Este é o presidente Donald Trump depois de ter sido escoltado para fora do salão de baile do Hotel Hilton, em Washington. Estamos no sábado à noite. Esta é uma das mais antecipadas noites da política e do jornalismo norte-americano. E mais antecipada ainda, porque pela primeira vez Donald Trump participou num evento onde tradicionalmente os presidentes ocupam a mesa de honra, mas onde nunca tinha acontecido nada assim. Eu vou falar hoje com a repórter do Observador, Madalena Moreira, para percebermos melhor esta história do atentado durante o jantar dos correspondentes da Casa Branca. Quem era o atirador? Por que tentou disparar contra a cúpula do governo americano e o que fez Donald Trump politicamente com mais uma tentativa de homicídio? Eu sou o Pedro Gonçalves e esta é a história do dia de segunda-feira, 27 de abril. Olá, Madalena.

Olá.

Vamos começar por situar quem nos está a ouvir neste evento em particular. Nós estamos a falar do jantar dos correspondentes da Casa Branca. Do que nós estamos a falar? Que evento é este?

Estamos a falar de um jantar de gala anual organizado pela Associação dos Correspondentes da Casa Branca, que é basicamente a associação que representa todos os jornalistas que estão creditados de forma permanente ou como correspondentes da Casa Branca ou como correspondentes da equipe do Donald Trump, que segue Donald Trump. E este é um jantar que acontece todos os anos, mas esta é a primeira vez que Donald Trump compareceu ao jantar.

Ladies and gentlemen, the 45th and 47th President of the United States, Donald J. Trump and First Lady Melania Trump.

Perceber por que ele não ia a este jantar, porque é um jantar gigante, enorme e que obviamente não inclui apenas jornalistas.

Não. Estamos a falar de uma coisa que é utilizada para celebrar a liberdade de imprensa e que põe em contacto figuras políticas, jornalistas, para estimular esta relação.

Nos últimos anos até foi quase tomado de assalto pelas celebridades todas, desde reality shows a atores.

Sim, é para perceber exatamente a importância do jornalismo e a extensão que eles têm. Claro que aqui há a questão de Donald Trump não ter uma boa relação com os correspondentes da Casa Branca e ao longo do último mandato, e por isso é que ele não ia ao jantar, ele teve decisões de tentar retirar alguns dos meios de comunicação creditados da equipe da Casa Branca e, portanto, havia sempre aqui uma fricção. A porta-voz da Casa Branca, na antevisão do discurso que Donald Trump iria fazer e que era muito aguardado, dizia: "Preparem-se para esta noite, vão ser disparados tiros". Ou seja, aqui uma figura metafórica de Donald Trump ia utilizar este discurso para atacar os media.

Foi uma piada, naturalmente, ou uma tentativa de piada.

Claro que sim, foi uma tentativa de piada, claro.

Mas acabou por se concretizar e já lá vamos. Mas é engraçado falares aí de piadas, porque este jantar também tradicionalmente é sempre apresentado por um humorista, que é o mestre de cerimônias. Um humorista, um dos mais conceituados sempre dos Estados Unidos, há sempre alguém que é convidado e que faz piadas bastante duras com o presidente que lá normalmente está a assistir. Donald Trump nunca passou por isso e, aliás, este jantar, desta vez, também não ia ter nenhum cômico a fazer de mestre de cerimônias. E então, o que acontece de repente?

O que acontece, eles ainda iam na entrada, portanto, o jantar não tinha começado há tanto tempo, quando há um homem que passa a correr em frente à segurança. Ele nunca chega a entrar na sala, no salão de baile do Hotel Hilton, onde está a decorrer o evento, e ele é atirado ao chão, troca alguns tiros e é atirado ao chão ainda antes de chegar à sala.

E aquilo que se ouve é tiros vindos de fora, tiros meio abafados.

Ou seja, algumas pessoas nem conseguiram identificar tiros. Donald Trump diz mais tarde que achou que era tabuleiros a cair. Ou seja, o que se ouve nos vídeos é barulhos. Nós, sabendo que são tiros, conseguimos ouvir aquilo como tiros, mas os jornalistas e os convidados que estavam lá na altura dizem: "Ouvimos barulhos abafados que vinham de fora da sala". O verdadeiro alarme dá-se quando as portas da sala se abrem e há um jornalista que escreve como um pequeno pelotão de agentes do serviço secreto a entrar e a correr diretamente para o estrado onde está a mesa onde está Donald Trump e os convidados mais importantes.

E essa mesma operação de evacuação demorou um bocadinho, não é? Porque vemos nos vários vídeos que estão na internet, nós conseguimos perceber que mesmo o presidente, a primeira-dama, o vice-presidente, aliás, estava lá quase o governo dos Estados Unidos em peso, são apanhados de surpresa. Quer dizer, demoram a perceber exatamente o que está a acontecer.

Sim, vê-se muito bem nos vídeos dos diferentes ângulos. E depois estamos a falar de uma sala cheia de jornalistas, em que o primeiro instinto de muitos nem foi pôr-se debaixo das mesas, foi pegar no telemóvel e começar a gravar. Então temos isto em imensos ângulos e conseguimos ver muito bem essa hesitação, ou seja, as pessoas que estão mais próximas da portaPercebem que são tiros e escondem-se imediatamente debaixo da mesa, mas do outro lado da sala onde está Donald Trump, J.D. Vance, que está do lado oposto da mesa, é literalmente arrancado pelo serviço secreto e em 15 segundos entre o primeiro barulho e ele sair do palco, passam apenas 15 segundos. Donald Trump ali, um momento de hesitação. Ele está a ver um truque de ilusionismo com um mentalista, que era o convidado da animação. E ele está a ver o truque de ilusionismo. E depois há ali um momento de confusão em que os agentes do serviço secreto se aproximam de Donald Trump, mas não o agarram como fazem com J.D. Vance e tem ali um compasso de três segundos de hesitação e só depois é que parecem dizer, só conseguimos ver a postura corporal deles: "Ok, vamos embora". Há um que se coloca à frente de Donald Trump e depois saem do estrado. Donald Trump tropeça, chegam mais agentes do serviço secreto e aí é o catalisador para mais confusão, que é: "Ok, se estão a tirar o presidente dos Estados Unidos da sala, então o problema é sério". E depois, a partir daí, espalha-se o caos em que entram os agentes secretos e começam a mandar toda a gente para debaixo das mesas e começam a retirar um a um os restantes membros da administração, que como dizes, era a administração quase toda que lá estava.

Já vamos olhar para quem é este atirador, mas já agora, só para concluir esta fase, ninguém ficou ferido.

Ficou ferido um agente do serviço secreto, mas ferido de forma ligeira, foi visto no hospital apenas por prevenção e foi um dos sete agentes que trocou tiros com o atirador. O atirador terá sido atingido ou não, não é claro. Também foi levado para o hospital, mas não foi dada conta que ele estivesse ferido.

To see a man charge a security checkpoint armed with multiple weapons, and he was taken down by some very brave members of Secret Service, and they acted very quickly.

Já vamos perceber quais eram as motivações ou quem era este homem que tentou atacar, pelo menos, a administração norte-americana. Até já. E estamos de regresso à conversa com a Madalena Moreira. Madalena, há aqui, para já, uma pergunta óbvia: como é que é possível, estando tanta gente naquela sala, e estou a falar de gente importante do governo dos Estados Unidos, o presidente, toda a sua equipa, pelo menos as figuras mais conhecidas estavam lá dentro, como é que é possível que um atirador se chegue tão perto do presidente dos Estados Unidos? A segurança falhou ou, na verdade, estava tudo controlado porque ele não chegou verdadeiramente a entrar na sala?

Na verdade, podemos argumentar as duas coisas. Ou seja, do ponto de vista para Donald Trump, a vida do presidente, ao contrário de outras ocasiões, nunca esteve em risco, porque ele nem sequer chegou a entrar na sala. Mas o que acontece aqui é: ele estava hospedado no Hotel Hilton e entre a entrada do edifício e a entrada do salão de festas, que é no piso menos um, ou seja, é no piso abaixo da entrada principal, a segurança só estava montada à porta do salão de festas. Portanto, ele como hóspede do Hotel Hilton, para entrar no edifício do hotel, só teve que mostrar o cartão do quarto para dizer: "Eu estou aqui hospedado", e depois podia circular livremente dentro do hotel. Não teve que mostrar qualquer tipo de convite para descer ao menos um e se aproximar do ponto de segurança. O único ponto em que a segurança estava montada e a segurança realmente funcionou é nos pórticos com detectores de metais que estavam montados antes do último lance de escadas da entrada para o salão de festas. Portanto, aqui o argumento, dependendo da visão de cada um, pode-se dizer que a segurança estava bem montada porque era a última defesa, mas também se pode dizer que não havia múltiplas barreiras de defesa que dissuadissem este tipo de ideias.

E quem é que era este homem? O que ele fez, como é que ele veio para cá? Que tipo de armas é que ele tinha? O que nós já sabemos?

Nós, por agora, sabemos que ele estava fortemente armado. Ele tinha uma espingarda, que foi o que terá utilizado para disparar contra os agentes de segurança, mas também tinha uma outra pistola e várias facas consigo. E o nome dele era Cole Thomas Allen, ele tinha 31 anos e vivia do outro lado do país, na Califórnia.

Tinha tempo, que ele ainda está vivo.

Sim, claro. Ele tem 31 anos e tinha uma licenciatura em engenharia mecânica e dava aulas, tendo sido classificado como o professor do mês. Ele foi descrito como um lobo solitário, mas estamos aqui a falar de uma pessoa aparentemente sociável e que tinha-

Com uma vida normal

...com uma vida perfeitamente normal, que é o que muitas vezes se diz destes casos.

Encontramos muitas vezes essa história.

Exatamente.

E ele vinha de Washington?

Ele vinha da Califórnia, ele vivia na Califórnia. A sua casa na Califórnia já foi, entretanto, revistada pela polícia, mas ainda não há dados sobre o que essas primeiras revistas nos disseram. Sabe-se também, do ponto de vista político, apesar de não terem sido dadas motivações concretas, que ele tinha feito um financiamento pontual em 2024 para a campanha de Kamala Harris, que concorreu contra Donald Trump. Portanto, sabemos aqui estas coisas pontuais sobre o atirador.

Nós estamos a gravar isto num domingo à tarde e, portanto, ainda há muitos dados que vão ser apurados ao longo das próximas horas, mas para já, é isto que sabemos. Dúvida: nós sabemos qual é que era a motivação, por que ele quis fazer isto?

Não, até agora não foi confirmada nenhuma motivação. Ele terá confirmado às autoridades que tinha como objetivo disparar dentro do salão onde decorria o evento, mas que não tinha, por exemplo, Donald Trump como alvo concreto, que queria só disparar na direção do máximo de pessoas da administração possível. Ou seja, é uma sala onde está a cúpula política e em grande parte econômica dos Estados Unidos da América, mas ele não tinha um alvo concreto. Isto terá sido o que ele disse às autoridades.

Sendo que, obviamente, Donald Trump, que já não é a primeira vez que é alvo de um atentado, fez aquilo que também costuma fazer nestas circunstâncias, que é, apesar de ter feito declarações à imprensa logo a seguir, num tom vários furos abaixo daquilo que ele costuma fazer em termos de agressividade, ele não deixou de fazer uma coisa que também faz muitas vezes, que é o aproveitamento político desta situação ao seu favor.

Sim, ele faz a declaração muito standard, que é: estamos todos bem, obrigado às autoridades, mas depois há dois temas que ele aproveita logo para trazer ao de cima. O primeiro, e ele diz isso tanto nas redes sociais como nessa conferência de imprensa, é que precisamos de construir o salão de baile.

I didn't want to say this, but this is why we have to have all of the attributes of what we're planning at the White House.

Que é um salão de baile na Casa Branca, que tem sido tema de muita polêmica pelo preço que vai exigir para uma construção num edifício público, que é a Casa Branca. E ele tem tido muita oposição a isto e ele chegou à sala de conferência de imprensa e disse: "Veem? Eu tenho razão, é por isso que precisamos do meu salão de baile, que vai ter vidros à prova de bala, que vai ter segurança, e nós podemos estar todos em segurança lá dentro a fazer os nossos eventos sem termos a preocupação deste tipo de casos".

Isso é o primeiro aproveitamento.

Isso é o primeiro aproveitamento, que é um apontamento menor, muito à Donald Trump.

Sim, mas é um problema que ele tem para resolver e aproveitou.

Claro. E depois, a outra coisa que ele diz é: "Veem? Ser presidente é um emprego perigoso. E eu estou aqui". Ou seja, é uma coisa muito semelhante ao que ele faz em Butler, quando ainda não era presidente, que é, e neste caso, literalmente, ele está ali a dar o corpo às balas.

Butler, para quem não se lembra, foi na época da campanha eleitoral, onde houve um atirador que efetivamente conseguiu atingir o presidente, embora muito de raspão, matou outra pessoa, mas o presidente foi atingido de raspão. E depois há um momento icônico logo a seguir.

Sim, é o momento em que ele é fotografado de punho erguido a apelar aos seus apoiantes: "Lutem, lutem, lutem". E esse ficou um bocado o grito de guerra da campanha. Só que ele agora já não é nenhum candidato, ele agora é o presidente dos Estados Unidos da América. E no paralelo, ele faz a mesma narrativa que é: eu sou um presidente resistente, que está aqui para fazer o que for preciso e ultrapassar estes obstáculos que todos os presidentes têm, mas eu mais do que ninguém, e portanto, isso só faz de mim um presidente ainda mais resiliente.

E com os níveis de popularidade em baixa, talvez não seja mal pensado ter avançado por uma narrativa que o favoreça.

Sim, quando está nos níveis que está atualmente, todos os pontos contam para Donald Trump e ele sabe perfeitamente disso.

É isso mesmo, Madalena, obrigado.

Obrigada eu.

Nos jantares de correspondentes da Casa Branca há sempre um humorista convidado, mas não desta vez. The president will be having a press briefing at the White House in 30 minutes. That is not a joke. Quem estamos a ouvir é a presidente da Associação de Correspondentes no momento em que anunciava que Trump iria dar uma conferência de imprensa, mais uma conferência de imprensa, na sequência do atentado. E isso parecia piada, mas não era. Era apenas para comunicar que o jantar dos correspondentes da Casa Branca, a pedido do próprio presidente, vai ter uma segunda edição no prazo máximo de 30 dias, com Trump a prometer que agora vai ser ainda maior e melhor. Esta foi a história do dia, a sonoplastia da Margarida Adão, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.