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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Será ainda possível encontrar algum vestígio de Maddie?

"Wenn wir was finden sollten und wir die Ergebnisse auch für veröffentlichtbar halten, dann werden wir darüber auch sicherlich informieren. Geben Sie uns aber ein bisschen Zeit."

Hans Christian Wolter é procurador em Braunschweig, no estado alemão da Baixa Saxónia. Aqui, em declarações registadas pela RTL, o representante das autoridades alemãs pede alguma paciência e promete que, se for encontrado algo de relevante no Algarve e se essa informação dispensar o segredo, será tornada pública. A pedido da Alemanha, as autoridades portuguesas estão a realizar buscas na barragem do Arade, a 50 km da Praia da Luz, onde a 3 de maio de 2007, Madeleine McCann foi vista pela última vez. O corpo da criança nunca foi encontrado. Vou conversar com Carlos Diogo Santos, editor de sociedade do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Carlos.

Olá, Ricardo.

A 3 de maio de 2007, desaparecia no Algarve uma criança que estava ali a dias de completar quatro anos. Carlos, lembra-nos esta história.

Havia uma família de britânicos que estava num resort no Ocean Club, junto à Praia da Luz. Era uma quinta-feira à noite e os pais deixaram os filhos no quarto, foram jantar com os amigos e, na versão que sempre apresentaram, disseram que alternadamente iam ver se tanto Maddie como os irmãos, estavam bem naquela noite. Numa das vezes, perto das 22h00, a mãe chegou lá e a cama onde estava Maddie McCann estava vazia. Esta é a versão dos pais. Nessa altura, o caso foi participado como um desaparecimento. Maddie McCann poderia ter acordado sobressaltada, não ter encontrado os pais e ter decidido sair. Foi chamada primeiro a GNR. Os jornais britânicos também foram logo informados e este caso começou a ganhar alguma dimensão. A GNR chega ao local por volta das 23h00. Mais tarde, uma hora depois, é quando se percebe que se calhar poderá haver aqui algum crime ou, pelo menos, há a hipótese disso acontecer e é chamada a Polícia Judiciária, que chega ao local já por volta da meia-noite. E aqui começa toda a investigação já à questão de um possível crime e não só de um desaparecimento.

Mas depois todas essas investigações deram em nada. Aliás, no meio disto tudo, os pais chegaram a ser suspeitos de comportamento negligente, não foi?

Eu diria que muitas investigações que deram em muita coisa e nada se comprovou. A investigação que começámos ainda há pouco a falar incidiu inicialmente sobre um suspeito, Robert Murat. Era um cidadão inglês que vive no Algarve, ou vivia à data, e houve várias diligências. Toda a casa dele foi passada a pente fino, o próprio quintal. Nos primeiros meses, Robert Murat foi aparecendo quase que um suspeito para a Polícia Judiciária deste crime ou deste possível crime. Até que, em setembro de 2007, houve uma nova linha de investigação, já depois de haver muitas desconfianças que de facto Robert Murat poderia não ter nada a ver com isso. Os pais de Maddie, Kate e Gerry McCann, foram chamados à Polícia Judiciária, às instalações do Algarve, e depois de um interrogatório, que os próprios disseram que foi muito duro, saíram com termo de identidade e residência, ou seja, constituídos arguidos. Nessa altura, as suspeitas não eram só de exposição ao abandono. Havia uma linha de investigação da Polícia Judiciária que apontava para a possibilidade de um homicídio por negligência, o que aliás era defendido com o facto de se terem encontrado alguns fluidos corporais, ADN da criança, dentro do carro que foi alugado pelos próprios McCann, um carro com matrícula portuguesa, se não estou em erro, era uma Renault Scenic, que tinha esses vestígios ao fim de 20 dias do desaparecimento.

E passados muitos anos, Carlos Diogo Santos, aparece uma outra personagem nesta história, um homem alemão chamado Christian Brückner. Como é que ele aparece aqui e quem é esta pessoa?

Christian Brückner aparece ao fim de muitos anos, como dizes, e esses anos deram lugar a um arquivamento do inquérito em que Kate e Gerry McCann foram constituídos arguidos. Houve depois, mais tarde, e isto também muito por força das investigações que foram sendo abertas pelo Reino Unido com a Scotland Yard a encontrar novas pistas, algumas delas em que as autoridades portuguesas iam dando mais e menos crédito e iam acompanhando mais ou menos essas investigações. Mas o facto é que ao fim de alguns anos, foi reaberto o inquérito e passou a haver uma equipa no Porto que ficou responsável por passar a pente fino todo este dossiê.

No Porto?

Sim, no Porto. De facto, a distância geográfica já na altura causou alguma estranheza, mas isso pode prender-se com inúmeras razões, inclusivamente questão de meios e era quase que um voltar atrás. Se calhar até mesmo o distanciamento de quem tinha feito inicialmente a investigação pode ter tido aqui alguma relevância, porque era reabrir um processo, passar a pente fino tudo aquilo que foi feito e tentar perceber se havia alguma coisa que poderia ter escapado à investigação do Algarve.

Alguém independente da Polícia Judiciária e do Algarve, no fundo, porque está longe geograficamente, até porque este caso foi Ainda tem uma grande carga emotiva também para as polícias e para quem investigou este caso. Mas estávamos aqui, Carlos, a falar de Christian Brückner.

Sim, e estava aqui a falar de todo este trajeto do inquérito em Portugal exatamente para percebermos que ao longo destes anos, além do inquérito ou dos inquéritos em Portugal e também daqueles que foram sendo abertos no Reino Unido, há, de facto, aqui uma linha que é encontrada pela polícia alemã, já mais tarde, já em 2020, e que aponta para um homem alemão com 47 anos, que está neste momento preso a cumprir pena na Alemanha por crimes também muito violentos. Ele foi suspeito em vários inquéritos de crimes de natureza sexual, violação, violação inclusivamente de menores, e é um homem que viveu durante vários períodos em Portugal e que naquele ano de 2007 estava em Portugal e não muito longe, aliás, próximo da Praia da Luz.

Mas, Carlos, viver no Algarve nesse período não chega para transformar Brückner num suspeito.

Não chega. São muitos os contornos que são tidos em conta pelas autoridades alemãs. Ponto número um: ele é um predador sexual que tinha histórico, inclusivamente, de abuso e de violações muito violentas no sul de Portugal e também na Alemanha, e estava a poucos metros da Praia da Luz naquele dia, acreditam os alemães. Obviamente, que a investigação alemã, até porque o têm preso e possivelmente ao longo dos outros inquéritos foram descobrindo mais alguns detalhes, permitiu perceber que de facto aquele homem não só poderá ter estado envolvido em crimes que são conhecidos, como também ter ligações. Mas é preciso aqui perceber que a investigação na Alemanha também corre em segredo de justiça. O ponto é: as autoridades alemãs têm dito que está muito fundamentada e por aquilo que nós temos visto nas últimas horas e que já era perceptível, as autoridades portuguesas dão muito crédito, ou pelo menos crédito a esta linha de investigação. Aliás, Christian Brückner é neste momento o principal suspeito do inquérito que está aberto em Portugal pelo desaparecimento de Maddie McCann.

Já voltamos à conversa com Carlos Diogo Santos, o editor de sociedade do Observador. O que procuram, afinal, as autoridades alemãs no Algarve? Voltamos à conversa com Carlos Diogo Santos, editor de sociedade do Observador.

"Police will have begun a new search on Tuesday at a reservoir close to where the British toddler Madeleine McCann disappeared during a holiday in Portugal 16 years ago. It is being coordinated at the request of police in Germany, where the prime suspect, Christian Brückner, is currently behind bars for a separate rape offense. Police investigating the disappearance of Madeleine McCann say they are searching a reservoir in Portugal after receiving certain tips."

Carlos, tem sido notícia, não só por cá, mas também pelo mundo afora, sobretudo no mundo anglo-saxónico. O que está a passar na barragem do Arade, no Algarve?

Há muitas coisas que poderão estar na mira da Polícia Judiciária, que como nós sabemos, acaba por ter aqui o acompanhamento tanto das autoridades alemãs, que começaram com esta linha de investigação, como também das autoridades britânicas, que também estão presentes nesta barragem. Esta pergunta que fazes é talvez a pergunta que o país e o mundo anglo-saxónico, e não só, quer ver respondida. Mas podemos resumir por tudo aquilo que é já público, que o que se procura é o que aconteceu a Maddie McCann em território nacional. E é importante dizer que todo o aparato que foi montado com um carro de comando, várias tendas de triagem de vestígios, permite antecipar, pelo menos, que se pode estar à procura de vestígios que funcionem como peças que faltam no puzzle montado ou que está a ser montado pelas autoridades alemãs e que, como eu disse, é também relevante porque Portugal tem um inquérito aberto com Christian Brückner como o principal suspeito. Como nós tínhamos falado ainda há pouco, este homem terá estado próximo da Praia da Luz nos momentos próximos do desaparecimento de Maddie e era um frequentador desta barragem. As autoridades alemãs conseguiram perceber que este era um local onde ele passava algum tempo, não só na sua autocaravana. E há de haver aqui alguma questão no inquérito que aponte claramente, porque de facto o aparato que foi montado não é comum. Nunca aconteceu, não me recordo de ter acontecido durante qualquer apoio a uma investigação britânica, por exemplo, no caso de Maddie. E este aparato mostra que a Polícia Judiciária, que é quem está de facto a fazer o trabalho no terreno, tem alguns representantes das outras polícias, mas é a Polícia Judiciária que está no terreno, está convicta de que há um fundamento no pedido feito pelos alemães.

E a polícia britânica também está cá, não é? Mas está cá em que qualidade?

A polícia britânica sempre esteve, ao longo destes anos, muito empenhada em perceber o que aconteceu ou pelo menos em ter sempre investigações abertas para que nenhuma linha ficasse por investigar. E a verdade é que muitos até têm criticado por uns meios desproporcionais face àquilo que acontece com outros desaparecimentos de crianças no Reino Unido. Ainda que esta investigação não seja uma linha que tenha sido traçada inicialmente pela Scotland Yard, e tudo o que esteja a ser feito em território Português caiba naturalmente à Polícia Judiciária. É verdade que é interesse destas três polícias, porque também é verdade que se trata de cidadãos daquele país e a própria Scotland Yard desde o início que veio para Portugal acompanhar os trabalhos da PJ.

Mas 16 anos depois, Carlos, há alguma possibilidade ainda de encontrar algum vestígio relevante para esta história?

Diria que há, mas é remota. E é preciso ter uma noção muito clara do que aconteceu. Teoricamente, ao fim de 16 anos, que foi o tempo que passou desde o desaparecimento de Maddie McCann, a verdade é que é possível, em teoria, que haja ossadas, fragmentos de ossos, pedaços de roupa. É possível. Mas isso é apenas contando com este lapso de tempo, ou seja, sem ter em conta outras variáveis, que não se consegue ter neste momento em conta, como por exemplo, a existência de animais no terreno. Portanto, em teoria sim, mas é muito difícil.

E por isso tudo que já explicaste, no fim, e vamos imaginar que é encontrado um vestígio que nos permite fechar esta história, isso poderia levar as autoridades alemãs a acusar Brückner da morte de Maddie, ou esse seria um processo de Portugal? Afinal de contas, quem é que tem a jurisdição neste caso?

Esse é um cenário que, naturalmente, mais pra frente, acredito que faça correr alguma tinta, mas é certo que, neste momento, Brückner é o principal suspeito pelo desaparecimento de Maddie McCann. E, portanto, uma acusação poderá ser deduzida em território nacional contra ele se houver elementos. Deixa-me só acrescentar aqui uma coisa. Ele, neste momento, cumpre pena, uma pena de sete anos pela violação de uma idosa no sul de Portugal e está a cumprir essa pena em território alemão, portanto, numa prisão alemã. Obviamente que as questões jurídicas são sempre complexas e o que podemos dizer aqui é que há um inquérito que foi aberto em Portugal e que, portanto, no âmbito desse inquérito, pode haver uma acusação, até se provar a territorialidade, que o crime foi praticado aqui. Não obstante esta investigação que está a ser feita na Alemanha e que até pode ser importante para o inquérito que corre em Portugal, que, aliás, se baseia muito nessa investigação. O que não pode acontecer, e isso é um princípio universal, é duas justiças perseguirem a mesma pessoa pelo mesmo crime.

Ou seja, Carlos, se houver crime, se for provado, se o homem for condenado, esse julgamento poderá quase de certeza ocorrer em Portugal. No entanto, não podemos pôr completamente de lado a hipótese de ser julgado na Alemanha.

Acho que não devemos pôr nada de parte nesta fase. É uma fase inicial e as questões jurídicas são sempre muito complexas.

E depois, além da questão judicial, há também aqui um lado emotivo e humano desta história, que obviamente nos toca a todos e todos nos lembramos, estamos a falar de uma criança que estava a dias de fazer quatro anos. O descobrir um vestígio aqui também poderia permitir aos pais fazer o luto pela morte desta filha. Eles sempre acreditaram que a filha está viva, não é?

Sim, este caso é complexo porque nós temos que sempre falar em versões. E essa tem sido a versão dos pais, a de que continuam à procura, de que continuam a acreditar que a filha está viva. E, portanto, diria que, em teoria, sim. Sendo essa a tese certa que os pais defendem e caso se venha a provar que de fato aconteceu alguma coisa que eles nunca tiveram qualquer tipo de conhecimento, isso será um momento também importante para esse luto de que falavas. Até porque se tivermos por certa a tese dos alemães, Maddie não está viva. Maddie morreu e morreu ainda antes, e isto até é importante, morreu ainda antes de Brückner ter regressado à Alemanha.

Obrigado, Carlos.

Obrigado, Ricardo.

Carlos Diogo Santos é jornalista, é editor de sociedade do Observador. Esta foi a história do dia, que contou com a colaboração da jornalista Nadine Soares. Ouvimos sons das televisões britânicas ITV, Sky News e BBC. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.