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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que está a acontecer na Guiné-Bissau? Um golpe de Estado ou um golpe de teatro?
O comando militar para restauração de segurança nacional e ordem pública decide depor imediatamente o Presidente da República, encerrar, até novas ordens, todas as instituições da República da Guiné-Bissau. Suspender, até novas ordens, as atividades de todos os órgãos de comunicação social. Suspender imediatamente o processo eleitoral em curso. Encerrar a fronteira terrestre, marítima e espaço aéreo nacional. Estabelecer recolher obrigatório das 21h até às 6h, até hora contrária.
É mais um capítulo num já longo historial de golpes, agitação política e social. Dias depois das eleições presidenciais e legislativas, e horas antes de os primeiros resultados serem divulgados, os militares anunciaram a tomada do poder na Guiné-Bissau. O processo eleitoral foi suspenso e as fronteiras foram encerradas. Há versões diferentes e contraditórias sobre o que realmente aconteceu. O presidente cessante e recandidato nas últimas eleições, Umaro Sissoco Embaló, avançou que foi detido pelos militares. A oposição garante, por sua vez, que tudo não passa de um golpe encenado, destinado a impedir a divulgação dos resultados que dariam a vitória a Fernando Dias, opositor de Embaló. Certo é que o país se vê, mais uma vez, mergulhado na instabilidade. O que explica isso e o que está a acontecer neste momento na Guiné-Bissau? São questões para a conversa com Elmer Araújo. É jornalista e analista político guineense. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quinta-feira, 27 de novembro. Bem-vindo, Elmer Araújo.
Bom dia, João.
Elmer, a Guiné-Bissau teve eleições gerais no domingo, presidenciais e legislativas, decorreram com aparente normalidade. A divulgação dos primeiros resultados provisórios estava prevista para esta quinta-feira. Alguma coisa já fazia prever isto que está a acontecer agora no país?
Sim, estava mais do que previsto, uma vez que estamos a lidar com um presidente cessante capaz de tudo, sobretudo de jogos obscuros. Ele perdeu de uma forma retumbante. Ele ainda tentou, utilizando toda a máquina do poder que detinha, fazer algumas alterações. Tanto é que essas alterações foram verificadas em alguns círculos eleitorais. Estou a falar da região de Gabú e região de Bafatá, em que foram introduzidos dados da abstenção, dando-lhes votos. Mesmo assim, o candidato Fernando Dias da Costa, que é o próximo presidente da Guiné-Bissau, ganhou de forma clara. Ele, evitando ainda no início uma humilhação nas urnas, tentou alterar os dados. Quando viu que, mesmo fazendo essas alterações, era impossível ganhar as eleições, os dados que nós já tínhamos recolhido e todas as diretorias de campanha já tinham, uma vez que a eleição na Guiné é muito simples. Depois, logo da contagem, faz-se atas do apuramento e atas sínteses. Ele, mesmo com esses arranjos, estava com 48,11% e o Fernando Dias estava com 53,64%. Vendo mesmo que não tinha escapatória, ele fez esta encenação, este golpe de teatro, porque é mesmo um golpe de teatro.
E portanto, Elmer, para percebemos, esses resultados de que fala vêm de onde?
Não, todas as diretorias de campanha têm um sistema informático montado, uma plataforma em que enquanto se vão fechando as urnas, ou quando se fechar as urnas, enquanto se vão terminando as contagens dos votos, os números são reportados para as diretorias de campanha, porque todas as mesas da assembleia de votos têm uma representação, é dito delegado, uma representação das candidaturas. E conforme foram enviando os dados, o sistema informático foi recolhendo e foram fazendo o somatório.
Tudo isto começou esta quarta-feira, quando se ouviram tiros em Bissau. Depois, foi o próprio chefe de Estado a comunicar, a dizer que teria sido detido, mas, na versão da oposição, tudo isto teria então sido encenado. Que indícios ou que provas existem disso?
Seria o único golpe de Estado no mundo em que a pessoa que sofreu o golpe, é uma coisa bizarra, a pessoa que sofreu o golpe é que telefona e esteve a falar com os jornalistas De uma revista em África muito descredibilizada. Muitos até dizem que é uma revista mercenária, estou a falar da Jeune Afrique. Ele liga pra Jeune Afrique, diz que foi dado o golpe. Estava no Palácio da República, mas há testemunhos e pessoas até que filmaram. Hoje, com a nova tecnologia, temos os jornalistas cidadãos e eles filmaram todo o golpe de teatro que foram ver os militares a saírem do interior do palácio, a acantonarem-se logo na entrada e houve tiros na CNE, porque houve um grupo de militares que ocupou a CNE, e depois ato contínuo. Houve alguns tiros no palácio, mas ninguém foi ferido, pelo menos nesses dois espaços onde houve aqueles tiros todos. Não havia uma oposição, sendo o palácio altamente vigiado e com uma força militar tremenda, sendo a CNE, Comissão Nacional de Eleições, também com um dispositivo militar enorme, não houve nada. Quer dizer, foi mesmo um golpe de teatro. E depois os golpes normalmente têm um comportamento natural. Quando se fazem os golpes, há a ocupação, por exemplo, da televisão nacional, da rádio nacional. Isso não aconteceu. A ocupação de alguns pontos estratégicos do país. Isso não aconteceu.
Estes militares que agora dizem ter tomado conta do país, suspenderam o processo eleitoral e fecharam as fronteiras, mas quem é que está à frente deste chamado Alto Comando de Segurança Nacional?
Outra situação que torna caricato este golpe. O denominado Alto Comando Militar para a Restauração da Ordem, está um brigadeiro-general de nome Dimas Ndjantjo. Mas ele é suportado por dois homens que tiveram a acompanhar o ex-presidente, neste caso, o presidente cessante, durante a campanha toda.
Que apoiaram o presidente na campanha, não é?
Precisamente. Estou a falar de um que é até o Horta Nantanca, que ele, ao arrepio da nossa Constituição, que não admite isso, era chamado chefe de Estado-Maior particular do presidente. É um brigadeiro-general também que teve uma ascensão astronómica dentro das estruturas militares, não respeitando o regulamento militar em termos de progressão na carreira, com os patentes. E depois há um outro militar que também esteve sempre com o presidente. Aliás, apareciam sempre ao lado do presidente na campanha, que é o Tomás Diás, que é também um brigadeiro-general. Ou seja, as pessoas de maior confiança dele é que supostamente deram o golpe de Estado.
Se, de facto, foi tudo planeado, não pode ser também um plano arriscado por parte do presidente cessante. Alguns analistas falam também do facto e da questão sempre relevante das etnias na Guiné-Bissau, sendo que, por exemplo, nas Forças Armadas, a etnia dominante é a Balanta. Não é a etnia do Umaro Sissoco Embaló.
Não, não é. É engraçado que a estrutura de propaganda do presidente cessante começou primeiro, nos últimos dias, na rede social, a incriminar a etnia Balanta, neste caso, que são a predominância nas Forças Armadas, de serem eles os grandes problemas da Guiné-Bissau, entrava o desenvolvimento e sempre envolvidos no golpe de Estado. Esses elementos que eu chamei, todos eles são da etnia Balanta. Mas como é também o chefe do Estado-Maior, que é o Biagué Nantanca. Aliás, é o cérebro neste processo todo. Há um documento que saiu ontem da Confidencial Afrique, que é um jornal de excelência em termos de investigação jornalística, que já falava que quem domina realmente o poder na Guiné é o chefe do Estado-Maior. E o Umaro estava lá, ou supostamente o ex-presidente, o presidente cessante, estava lá mais como fantoche. Como um presidente fantoche. Embora as duas cabeças se combinam em várias questões, por exemplo, em questões de narcotráfico, em questões de tráfico de armas, em questões de desaparecimentos de várias pessoas durante este regime. Houve vários mortos. Hoje mesmo descobriu-se um cadáver que estava com fardamento militar atado e ultimamente têm até utilizado uma técnica macabra, que é o ácido sulfúrico na cara das pessoas ou na face desses cadáveres. Houve pessoas afetos mesmo ao guarda presidencial, um elemento que é o Tano Barica, dois meses atrás foi descoberto no rio Candandi. Portanto, os dois se juntam pra fazer essas atrocidades todas Essa questão étnica é meramente propagandista, não há nenhuma relação étnica, mas eles estão a utilizar vários elementos para enganar a comunidade internacional.
Há também registo de várias detenções no decurso destes acontecimentos, nomeadamente de figuras da oposição. O próprio candidato da oposição, Fernando Dias, chegou a ser detido, mas também Domingos Simões Pereira, o líder do PAIGC. Pelas informações que tem do que está a acontecer neste momento em Bissau, qual é a situação dos dois?
O partido do ex-presidente, do presidente cessante, tem uma sede de campanha. Imagina-se normalmente que quem iria dar um golpe de Estado a esse ex-presidente, iria ocupar ou desestabilizar a diretoria de campanha dele. Mas aconteceu o contrário. Eles foram precisamente à sede da diretoria de campanha do Fernando Dias da Costa, chegando lá aos disparos e lançamentos de gás lacrimogéneo. O Fernando Dias e o engenheiro Domingos Simões Pereira ainda conseguiram sair pelas traseiras. Houve uma perseguição cinematográfica. Os seguranças conseguiram metê-los num táxi. Eles tentando fugir no táxi, viram uma barreira da Guarda Nacional, que é o grupo que está a fazer toda essa inventona, tiveram que fugir para o aquartelamento dos comandos, do Paracomandos. Estavam lá os dois nos Paracomandos, houve uma ameaça do chefe do Estado-Maior. Aí vê-se que há uma célula entre o chefe do Estado-Maior e o presidente cessante que está a coordenar isso tudo, em que ameaçaram entregar o Domingos Simões Pereira, senão iriam atacar os Paracomandos. E daí entregaram o Domingos Simões Pereira. O doutor Fernando Dias conseguiu escapar, entretanto, e neste momento estão detidos o doutor Octávio Lopes, que é um advogado muito conhecido e muito ligado também à campanha do doutor Fernando Dias, que vem do partido PAIGC, ou seja, da plataforma da coligação PAIGC Terra Ranca, que seriam os vencedores naturais de um processo eleitoral normal, mas foram sumariamente suspensos pelo Supremo Tribunal manipulado pelo presidente cessante, e o Domingos Simões Pereira, que era o natural vencedor destas últimas eleições, que também foi vedada a candidatura dele. E aí eles optaram por esta candidatura do Fernando Dias da Costa, que também já havia andado, estamos a algumas horas, e seria hoje de manhã que iria-se ler os resultados.
Obrigado, Elmer Araújo.
Muito obrigado, João.
Elmer Araújo é jornalista e analista político guineense. A terminar, três coisas a ter em conta esta quinta-feira. A Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública organiza hoje um protesto contra o Orçamento do Estado para 2026. Decorre em frente à Assembleia da República. Leão XIV inicia hoje a primeira viagem internacional do pontificado. O Papa visita a Turquia para participar na celebração dos 1700 anos do Concílio de Niceia e segue depois para o Líbano. E é inaugurada hoje em Lisboa a exposição "Arca Eterna: Fernando Pessoa e a Posteridade". Conta com documentos, biografias, notícias, edições e traduções que provam como o autor continuou a influenciar o mundo muito depois da sua morte em 1935. Está aberta até 6 de dezembro na Casa Fernando Pessoa. Esta foi a história do dia. No início deste episódio, ouvimos um som da RTP. A sonoplastia é de João Tição. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.