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Olá, sejam bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador e comigo tenho Alberto Correia, este historiador beirão que sabe muito sobre esta região e vai-nos voltar a falar da Lapa, do fabuloso santuário da Lapa. Vamos começar, Alberto, com uma pequena história de um milagre que se diz que aconteceu ali na serra, a fabulosa história do Lagarto da Lapa. Uma história que mistura lenda e mistura verdade.
Exatamente, é mais conhecida como lenda, mas ela tem um fundo de verdade, como vamos ver. Então voltamos hoje à Senhora da Lapa, voltamos à aldeia, voltamos ao santuário para contar essa fabulosa história de um lagarto, que é uma história de lenda e uma história de verdade. Nesta história já não entra como personagem aquela pastorinha Joana, que encontrou a imagem da Nossa Senhora numa gruta. Portanto, é uma outra história onde ela não entra e conta-se assim: um dia, uma mulher de certa aldeia da serra, que não sabemos qual, ia levar um saco de novelos de linho que tinha fiado a uma tecedeira que morava longe noutra aldeia, talvez para fazer o enxoval de uma filha. Em determinado momento, sentiu rugidos de um corpo que se arrastava atrás de si. Olhou e viu, contou ela, um grande lagarto que se aproximava. Mas nunca ninguém vira por ali um lagarto assim. Teve tanto medo que gritou, mas não andava ninguém por ali e sentiu-se sozinha. E foi então que pediu ajuda à Senhora da Lapa, que lhe terá inspirado uma artimanha. Tirou do saco um novelo de linho e atirou-o ao lagarto, que o abocanhou, mas ficou com a ponta do fio na mão. O lagarto continuava a arrastar-se e ela foi atirando todos os novelos, que ele engolia. E quando não tinha mais novelos, puxou com força os fios, o lagarto não conseguiu respirar mais e morreu. Entretanto, apareceram os dois homens que andavam longe e ouviram os gritos da mulher. Viram, já nessa altura, o corpanzil do lagarto estendido no chão. E a mulher contou-lhes o que tinha acontecido. Estava salva graças a um milagre da Nossa Senhora da Lapa. E para dar conhecimento aos romeiros de tal milagre, ela pediu aos homens que levassem o lagarto e o pendurassem nas traves do santuário, onde toda a gente o pudesse ver. E assim fizeram e lá ficou. Eu próprio o vi 300 anos depois, quando era criança.
Eu também me lembro desse lagarto ainda.
Era um espanto para os miúdos da serra que nunca tinham visto nada assim. Os pais dos meninos da serra, quando eles faziam alguma asneira, ameaçavam-os dizendo que vinha lá o lagarto da Lapa. Mas os verdadeiros lagartos que os meninos conheciam eram pequenos e até fugiam da gente. Vamos então à história de verdade. Um soldado de uma aldeia próximo da Lapa tinha ido para a Índia como soldado, com muitos outros, e em certa ocasião viu-se atacado na margem de um rio por um crocodilo gigante e sem mais auxílio de gente, chamou-se à Senhora da Lapa, que o salvou. E o soldado achou que era milagre. Matou o crocodilo e resolveu trazer a pele para levar ao santuário da Senhora da Lapa como prova do milagre. Quando regressava da Índia, o barco em que vinha naufragou e mais uma vez ele precisou de um milagre e pediu o auxílio do céu. Neste caso, solicitou o auxílio de uma outra imagem milagrosa que estava no altar da Sé de Viseu, a chamada Senhora do Altar-Mor, que ainda hoje lá mora. E salvou-se. E então, ao regressar à sua terra, passou por Viseu e fez dependurar na capela-mor da catedral um pequeno barco de madeira que ele próprio fez ou mandou fazer, barco esse que seria um testemunho do milagre. E seguiu pra Lapa, onde prepararam a pele do crocodilo de modo a que ele parecesse um bicho completo e suspenderam-no nas traves da igreja, onde esteve quase até ao fim do século XX. Nessa altura, o corpanzil do dito lagarto, que seria antes um crocodilo, estava muito deteriorado. Foi retirado do corpo da igreja onde estivera suspenso e foi substituído por um grande crocodilo de plástico e foi colocado já não na igreja, mas ao abrigo de uma fenda do rochedo da antiga gruta. Dali, o lagarto pode ver os romeiros, mas já não faz mal a ninguém.
É verdade, já é seguro. Muito bem, Alberto, ficamos então com essa história bonita, que tem parte de verdade e que tem parte de lenda. Eu lembro-me ainda todo o tempo, que se lembra também, de ver aquele lagarto empalhado lá em cima do santuário. É pena agora estar uma cópia falsa de plástico, mas pronto, sinais dos tempos. É assim mesmo. Alberto Correia, bem-haja e então até à história de amanhã.