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Olá, sejam todos muito bem-vindos. Já sabe, esta é a história das histórias. Bom ano. Eu sou o João Paulo Sacadura e em Viseu, Alberto Correia, especialista em História, Museologia, Arqueologia, Etnografia. Hoje traz-nos uma venda muito particular da tia Maria Gaga, que fica ali na Ponte do Abade. Vamos saber mais sobre esta venda. O que ela tem de tão especial, Alberto? Bem-vindo.

"Caíram voçumeces na venda da tia Maria Gaga, da Ponte do Abade", disse Macário. "Mas isso foi petisqueira a que um só grande apetite podia dar honras de almoço. A especialidade da casa é o arroz de lebre." Aquilino Ribeiro, in "O Homem que Matou o Diabo". Já ninguém se lembra da tia Maria Gaga, já ninguém identifica na Ponte do Abade, no concelho de Sernancelhe, Extrema Beira, o sítio da taberna pobrinha que ficava à beira da estrada de um povileu de arme de evo, com meia dúzia de casas de um e outro lado de uma ponte antiga, por sobre a qual corriam as águas do rio Távora. Mas Aquilino Ribeiro celebrou num dos seus livros o pequeno burgo que nascera no cruzamento de quatro caminhos e o génio da taberneira famosa, que ali tinha a porta aberta, onde servia gentios de passagem para feiras e mercados, romarias, andanças de seireiro ou alvitano. Vem isto a propósito da ocasional paragem de duas francesinhas que faziam por largo viagem para Sevilha, onde uma delas, de nome Máxima, iria ser a maga desnuda de um filme que ali se iria rodar. Uma avaria no automóvel fá-las deter-se por horas do meio-dia na única taberna onde a vendedeira se surpreende com a entrada de figuras tão estranhas. Sobre o balcão de madeira marcada do uso pelos anos, pousava um prato com o resto de bolos, recessos de semana e azeitonas, e uma terrina desazada cheia de trutas em molho de escabeche, que a vendedeira não se atreveu a oferecer, justificando a proveniência do vizinho corgo e o amanho caseiro que não lhes agradaria. Nanucha, que acompanhava a atriz e trazia por encargo inscrever num caderninho as impressivas notas de um diário de viagem, reclamando-se de um apetite de oito dias, arriscou a prova dos salmonídeos, como Aquilino conta. "Divino", deve ter dito. E logo as duas se sentaram no banco de pinho e saborearam como manjar servido a heróis de Homero as trutas do rio Távora, o pão de centeio negro de fraca peneira e o vinho palhete comprado talvez na abonada adega da Quinta de Santo António de Rapes. Da tia Maria Gaga, de quem ninguém se lembra já naquela aldeia, resta honrosa esta memória. A venda, ninguém sabe já onde ela era, mas vale a pena passar por ali e perguntar se a meio-dia, por um qualquer sítio onde almoçar. E lhe dirão de manjares antigos que se servem naquelas vizinhanças.

Muito bem, Alberto. Estávamos a ver se nos ia revelar onde ficava a venda da tia Maria Gaga, mas pelos vistos parece que ninguém sabe. Vamos ter que investigar mais no concelho de Sernancelhe, ali na Ponte do Abade.

Uma bela história de Aquilino.

Extraordinária. Grande a nossa ficção, que faz tão bem também ao ego nacional e de modo especial também à região Centro. Muito bom ano, é os votos que eu tenho para si, Alberto. Um belíssimo ano, que possa sempre continuar a dar-nos esta sua inspiração, esta parte da sua história, da sua memória, que tanta falta nos faz. Desejo-lhe então um bom resto de semana. Marcamos encontro para a semana que vem. Bem-haja!

Até para a semana e também bom ano para todos que ouvirem.