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Olá e sejam bem-vindos à História das Histórias, como sempre com Alberto Correia, em Viseu. Eu chamo-me João Paulo Secador e estou aqui só para o apresentar, para ouvir histórias deste antropólogo, deste investigador, deste historiador, que traz sempre histórias tão bonitas. Hoje vamos fazer mais uma homenagem, desta vez a Hans Christian Andersen. Vamos falar da Armandina ou a Menina dos Fósforos. Uma história, como diz o Alberto, com um fim algo feliz. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.

A Armandina era uma menina da minha terra, dois anos mais velha do que eu, já não sei bem. O pai dela era serrador. Quando havia trabalho, lá ia ele com o filho mais velho e os instrumentos do ofício: a valente serra de peito, como se designava, o machado e um longo fio que, mergulhado numa lata de anilina vermelha, servia para marcar sobre os troncos dos pinheiros descascados à machada a direção do corte do pretendido tabuado, caibres de armar o esqueleto de um telhado, tábuas fortes do sobrado ou mais ligeiras para divisória em habitação. Comportando o arsenal do seu trabalho, construía uma burra no pinhal, jeito de cavalete onde se apoiava o tronco do pinheiro a serrar, sustentado meia dúzia de passos à frente pelos costumados suportes de madeira. O serrador no alto, equilibrado, o rapaz em baixo, às vezes ajoelhado, e a serra subindo e descendo, cortando a madeira. Mas em vão se guardava do ato a música ou a poesia, apenas versava o suor. Nem sempre havia trabalho e, às vezes, talvez faltasse o pão. Aos domingos, o serrador tocava concertina pelas ruas da aldeia, a pedido dos rapazes, ou ficava pelo adro animando os bailaricos quando vinha o tempo bom. Havia ainda a mãe e os irmãos. Eram todos pobrezinhos, mas nunca os vi pedir pão como mendigos. A Armandina teve a pouca sorte de nascer aleijadinha. As perninhas magras nunca lhe permitiram levantar-se e ela então arrastava-se pelo chão. Às vezes, juntava-se a nós nas brincadeiras, no adro ou no terreiro da escola. Ficava só a ver. Um dia, o pai arranjou-lhe duas tabuinhas, prendeu nelas uma correia e ela então metia ali as mãos e já não fazia sangue quando se arrastava. Nunca foi à escola, nunca aprendeu a ler nem a escrever. Os meninos da aldeia, os que eram da idade dela, depois de irem a exame, uns ficaram a aprender a lavradores, outros a pastores. As meninas, algumas foram para criadas de servir. Mais tarde, alguns emigraram para o Brasil, outros fugiram a salto para França. Um ou outro lá foi estudar para doutor. A Armandina, levaram-na um dia para um asilo em Viseu. Quando a vi, muito mais tarde, morava numa casa do alto da cidade. Era ainda pobre, era ainda aleijadinha, mas tinha valido um pouco a medicina e ela agora até podia caminhar devagarinho, do seu jeito. No verão, sentava-se muita vez num banco de pedra, rente aos muros altos do museu. Conversava, fazia renda ou meia. Casou e até nasceu uma menina. A Armandina passou a vida fazendo lume das cendalhas. Gastou todos os fósforos que teve em sua mão, como a Menina dos Fósforos do conto de Andersen, e nunca as suas mãos ficaram quentes. Morreu um dia ao amanhecer. Eu tenho a certeza que dois anjos vieram buscá-la para o céu e lá lhe levaram, por memória, as duas tabuinhas dentro da bolsa onde as guardou.

Muito bonita também esta memória, Alberto. O conhecer alguém que é completamente tirado de um conto do Hans Christian Andersen. Podia ser, perfeitamente. Que passam as pessoas que se cruzam na sua vida, é extraordinário. E nós lucramos muito em saber e partilhar estas memórias connosco e sabermos estas histórias. Muito obrigado por mais esta, Alberto. Marcamos então o encontro amanhã. Bem-haja.

Até amanhã.