Quando em 1987, em Capri, Simona Barbieri e o marido, Tiziano Sgarbi, fundaram a própria marca de roupas, as malhas eram tricotadas em casa. Aprendeu sozinha, ainda criança, a fazer peças para as próprias bonecas, sem imaginar que estava prestes a construir a fundação de uma das principais marcas italianas de moda premium acessível. Quase 40 anos depois, o nome Twinset está em quase 150 lojas em todo o mundo, e as receitas anuais ultrapassam os 200 milhões de euros.
Apesar de ter o próprio nome associado à marca até há cerca de 10 anos, quando decidiu vender a empresa e deixar a sua posição como diretora criativa, o rosto de Simona Barbieri não é tão reconhecível. As fotografias da criadora de moda na internet datam de 2015, quando ainda liderava a então chamada Twin Set – Simona Barbieri, e apresentava coleções regulares. Mais de dez anos depois, mantém um estilo discreto e um ar quase tímido, como se não tivesse quatro décadas de história no universo da moda italiana. Falámos com a criadora de moda e empresária no verão no Porto — veio a convite da organização do Portugal Fashion, para conhecer as coleções de moda dos designers portugueses.
“Comecei ainda criança, sempre amei este trabalho”, conta ao Observador. “Amava desenhar, mas principalmente cortar e costurar. Comecei fazendo roupas para as minhas bonecas. Fazia desfiles com as minhas amigas para ver quem tinha a boneca mais bonita ou mais bem vestida. Cada uma costurava à mão as próprias roupinhas para vestir as bonecas. Depois, continuei a fazer roupas para mim mesma e, por fim, comecei a fazer para os outros.”
A história oficial da marca começa no final da década de 1980, mas o caminho até aqui foi mais longo. Simona Barbieri percebeu na escola que o hobby podia ser, afinal, o seu trabalho. “Depois, a escola inseriu-me em empresas para fazer estágio e ganhar experiência. A partir daí, ganhei força e coragem. Primeiro, ganhei experiência em algumas empresas e, depois, trabalhei num escritório de design para desenhar. Trabalhei desenhando para outras marcas por três anos. Foi ali que percebi que tinha uma predisposição para a malharia e o tricô”.
Foram cinco anos em diferentes confeções e mais três como designer. A criadora então passou a confecionar as próprias peças. “Comecei a trabalhar diretamente com a malharia, a confecionar peças fisicamente, à mão e em máquinas. E começámos a vendê-las. Tivemos experiências boas e ruins e, aos poucos, fomos crescendo”.
▲ Simona Barbieri fundou a Twinset em 1987. Hoje está por trás de outras quatro marcas italianas
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Na altura, o nome não era Twin Set: a marca chamava-se Frivola. “As lojas gostavam muito das peças, mas achavam que a marca não era adequada para o tipo de produto. Os clientes deram-nos este feedback e, por isso, começámos a pensar num novo nome”, recorda. “Twin Set nasceu por vários motivos: porque fazíamos coordenados em malharia e porque éramos em dois — eu e o meu marido. Éramos um casal e, desse conjunto de coisas, nasceu a Twin Set, que posteriormente se tornou ‘Twin Set – Simona Barbieri’.”
A mudança no nome também ditou uma certa mudança no estilo. Barbieri confessa que na juventude era “rebelde”. “Precisava de expressar tudo o que gostava e, por isso, era muito mais rebelde, livre, aberta e curiosa. Mudei com o passar dos anos, o mundo dos negócios moldou-me”, assume, sobre o estilo mais clássico e intemporal das peças da marca italiana.
A marca foi adquirida pelo fundo norte-americano Carlyle em 2012, por um valor estimado entre os 250 e os 300 milhões de euros. Em 2015, quando a marca fez 237 milhões de euros anuais, a empresa aumentou a sua participação inicial de 72% para 90%. Foi nesta altura que a Twinset mudou mais uma vez, perdendo o nome da sua fundadora e juntando o Twin com o Set; e a estratégia passou a incluir a abertura de lojas internacionais. Em 2017 a Carlyle assumiu 100% da marca, comprando os 10% restantes de Barbieri.
O acordo incluía uma cláusula de não concorrência, o que obrigou Simona Barbieri a manter-se fora do mundo da moda por cinco anos. Mas a designer foi incapaz de ficar totalmente afastada deste universo. “Não o podia abandonar, até porque é isso que eu sei fazer e o que quero fazer. Tive a oportunidade de ensinar os jovens no curso de pós-graduação Creative Knitwear Design Master (CKD) na Accademia Costume & Moda. Foi difícil porque eu não me sentia muito preparada para ensinar, mas isso ajudou-me muitíssimo a continuar a pesquisar e estudar junto com os jovens”, conta a criadora italiana, que na impossibilidade de criar novas coleções, passou a fazer peças para as amigas: os tradicionais coordenados estilo pijama.
“Mesmo quando trabalhava, de vez em quando eu vestia as minhas amigas e montava looks para elas. Eu não conseguia parar — parar para mim era o fim. No período em que estive parada sem poder trabalhar, criei um escritório com o meu arquivo de todas as peças de pesquisa do período da Twin Set. Eu tinha as minhas máquinas de costura, mesa de corte, rolos de tecido, máquinas de tricô e fazia coisas que não podia deixar de fazer. Durante cinco anos, criei peças, fiz muitos presentes de Natal e looks para os meus amigos. As minhas amigas ficaram muito felizes nessa época”, ri-se.
Terminado o período de não concorrência, Barbieri regressou à moda, através da empresa familiar fundada pelo marido, a Abraham Industries. No portfólio do grupo estão hoje quatro marcas italianas de moda high end, todas ligadas às malhas: a Liviana Conti, uma marca de malhas fundada por Liviana Troffei no início dos anos 1980; a Semicouture, marca criada pela designer Erika Cavallini em 2009; a marca homónima da criadora de moda, destinada a peças de luxo e alfaiataria; e a Circus Hotel, um estilo mais contemporâneo, fundada por Gaya Zattini. “Na empresa familiar atual onde trabalho, todos são jovens; eu diria que sou a mais velha lá. Por isso, trabalhar com os jovens é fundamental para mim. Cada marca tem uma equipa de projetos que se coordena, proporcionando sempre essa troca e confronto com os mais novos”, assume Barbieri, sobre a nova fase.
Já a Twinset passou para as mãos do Grupo Borletti e da Quadrivio & Pambianco, por meio do veículo de private equity Made in Italy Fund II, em maio de 2025, por um valor de cerca de 200 milhões de euros. Os planos para a marca incluem a expansão para mercados-chave como a Espanha, França e Europa de Leste e o investimento nos canais online. Para concretizar estes objetivos, em dezembro foi anunciado o novo CEO: Gabriele Maggio, que já esteve na direção da Elisabetta Franchi, depois de experiências como CEO da Stella McCartney, diretor-geral da Moschino, e outras funções de responsabilidade na Gucci, Bottega Veneta, Giorgio Armani e Prada.
Em julho, Simona Barbieri viu as coleções dos criadores portugueses que apresentam no Portugal Fashion — das novidades do Bloom às peças mais estruturadas e clássicas de Miguel Vieira. No radar ficaram nomes mais ligados às malhas — o jovem Veehana ou a defensora do trabalho manual Susana Bettencourt. “Também passei por essa fase dos jovens, em que criava coisas realmente estranhas e particulares. No entanto, acredito que a aproximação com o mundo do trabalho é muito importante para começar a criar peças direcionadas para quem realmente vai usá-las. Isso é algo que os jovens, assim como eu fiz, aprenderão pouco a pouco, trabalhando”, garante a criadora de moda italiana com mais de quatro décadas de experiência — e que foi capaz de criar uma marca comercialmente forte para chegar ao mundo todo. “O meu conselho é continuar a estudar, continuar a ser curioso e tentar trabalhar e entrar em empresas para ganhar experiência, porque a experiência em empresas é fundamental antes de pensar em fazer as coisas sozinho. Isso dá tempo para entender como se expressar em uma coleção real.”