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Olá, seja então muito bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura, estou aqui em Lisboa e quem está em Viseu ansioso por falar de São Gens, em Celorico da Beira, vamos saber deste assentamento antigo, é o Jorge Adolfo Meneses Marques. É ele que é historiador, professor e mestre em arqueologia, que tem muito o que nos contar esta semana. Vamos recuar no tempo. Então hoje vamos a São Gens, este assentamento. O que é que nos pode dizer sobre isto? Olá, Jorge, bem-vindo.

Olá, João Paulo. É um gosto estar aqui a conversar contigo e para um vasto conjunto de pessoas que nos estão a escutar. Hoje vamos recuar um bocadinho no tempo. Temos andado um bocadinho mais pelo património e pela história mais recente, mais contemporânea. E vamos aqui a um território muito bonito, muito interessante, muito serrano, que é o Conselho de Celorico da Beira e muito próximo aqui da nossa Serra da Estrela. E há um lugar muito interessante para os arqueólogos, para os historiadores, que é o sítio de São Gens, mesmo à saída, juntinho à vila de Celorico da Beira. Aliás, nós na semana passada, creio eu, falámos sobre o Castelo de Celorico e o Castelo de Linhares, do período medieval. São Gens fica na periferia, a três, quatro quilómetros da vila de Celorico da Beira. O acesso é muito fácil, há uma estrada e há sinalização para podermos lá chegar. É um lugar muito interessante, por quê? Porque foram lá descobertos vestígios arqueológicos já há mais de 100 anos. Aliás, foi Santo Rocha que logo ali no início do século XX, em 1906, dá a conhecer uma necrópole de sepulturas escavadas na rocha que ali existe, aquelas sepulturas que já mais do que uma vez aqui falámos.

Sim.

Era uma necrópole, é uma necrópole muito numerosa, mas em 1906 ele então dá a conhecer essa necrópole e depois ao longo de todo o século XX, outros autores, um deles Adriano Vasco Rodrigues, que também já aqui falámos a propósito de Celorico da Beira, que também escreveu sobre esse lugar de São Gens. E mais recentemente, esse sítio, que fica ali nas margens da Ribeira de Tamanhos, que é um pequeno afluente do Rio Mondego, é uma zona de encosta suave, e nesse lugar foi identificado, para além da necrópole, que já se conhecia há muito tempo, mas também um assentamento romano. Isto é, os arqueólogos fizeram escavações naquele local, naquele sítio, por quê? Porque apareciam lá à superfície do solo, sobretudo quando se faziam trabalhos agrícolas, apareciam restos cerâmicos, tijolos, telhas. Muitas vezes as pessoas dizem que é o tijolo burro, não é? Aqueles tijolos que eram usados nas lareiras.

Exatamente.

Muito usado não só na construção, mas particularmente nas chaminés e em fornos. Esses tijolos assim toscos e partidos que apareciam ali, afloravam ali no solo, foram um chamariz aos arqueólogos que, sobretudo a partir de 2008, fizeram escavações ali naquele local. E eu gostava aqui de fazer referência. Nem sempre faço referência aos arqueólogos que vão escavando e que vão fornecendo essa informação que é publicada em monografias ou em revistas ou em atas de congressos. Nem sempre faço referência, porque as pessoas também, que nos ouvem, facilmente podem, ouvindo o nome do sítio que nós falamos ou do museu, ou da personalidade, facilmente vão a um motor de busca e googlem.

E conseguem descobrir.

E conseguem aprofundar, encontrar todas essas referências que seriam talvez às vezes-

Mas basta dar umas pistas e informar.

Exatamente. Mas em todo caso.

É como aqueles livros que têm no fim a bibliografia. Quem quiser saber mais, pode sempre ir pesquisar.

Em todo caso, como nós vamos falar aqui de um sítio extremamente importante e que se liga com um outro, que é o da Senhora do Barrocal, que nós aqui há umas semanas atrás também fizemos referência e que alguns dos arqueólogos que andam em ambos os sítios são os mesmos. Eu gostava aqui de dizer que, a começar pela doutora Catarina Tente, mas também o João Carlos Lobão, o António Carlos Marcos, Dário Neves, são pessoas que não só escavaram, concretamente este sítio de São Gens, como também publicaram inúmeros textos e alguns deles com ilustrações até muito interessantes de reconstituição dos sítios. E portanto, eu queria fazer aqui referência para as pessoas também poderem depois pesquisar. Ora então, esse sítio de São Gens, foi lá encontrado o quê? Um pequeno assentamento romano, uma estrutura habitacional, os alicerces, os muros dos alicerces estão lá. Porque ao longo dos séculos, o edifício depois ruiu, as pedras até foram utilizadas para outras coisas.

Exatamente, muito comum.

Exato. Portanto, o que resta é aquilo que está debaixo de terra, está soterrado. Terá ali existido um modesto aglomerado romano. Em todo caso, foi descoberta uma cornija, eventualmente de um templo, não se sabe muito bem, que permite aos arqueólogos supor que poderá ter sido um sítio com alguma importância ou com alguma função administrativa ou religiosa. Também se admite que possa ter sido um vicus. Um vicus é um aglomerado populacional mais pequeno do que uma cidade. Portanto, aquilo que poderá corresponder a uma aldeia, um pequeno aglomerado que não é um aglomerado urbano. As escavações permitiram encontrar essas estruturas habitacionais, que são ocupadas entre o século I e o século V. No século quarto, quinto, o lugar é abandonado.

Estamos a falar no fim dos romanos e na chegada dos bárbaros, não é?

Claro. É um período de muita instabilidade, é um período que corresponde precisamente a essas incursões, invasões, chegada desses povos que nós designamos de bárbaros, que vêm da Europa Central, do norte da Europa, que nós já aqui fizemos referência. É uma área arqueológica de cerca de 800 a 1000 m² que ocupa este tal assentamento romano. Não tem características próximas de uma vila romana, de uma vila no sentido de grande quinta, que nós conhecemos sobretudo lá para baixo, para o Alentejo. Em todo caso, é um edifício que tinha um pátio interior e que nós sabemos que tinha alguma dimensão. Era uma população que se dedicava à exploração agrícola, criação de gado. Foram identificados 15 compartimentos nesta estrutura. Apareceram muitas cerâmicas que eram para guardar alimentos. Apareceu fragmentos de uma ânfora. Estamos num território interior, mas essa ânfora sabemos que foi produzida na zona do Tejo ou do Sado, do estuário do Tejo ou do Sado, e essas ânforas eram usadas ali naquela zona em particular para o transporte de garum, aquela pasta de peixe.

Naquelas estárias em Tróia. Exatamente.

Muito bem, ali ao longo da costa, em Tróia, é um sítio muito importante, mas em Setúbal, em frente, ao lado, e ao longo da costa, no Algarve, também.

Até em Lisboa.

Até em Lisboa.

As estárias. Exato.

Têm sido encontradas. Olha, por exemplo, na Casa dos Bicos, onde é a Fundação Saramago, estão lá vestígios de estárias. Portanto, toda a zona costeira, e importa dizer, por exemplo, em Lisboa, que a linha de costa recuou, aquela frente de costa recuou e as estárias ficaram mais distantes. Aliás, agora no livro do Asterix, que saiu sobre os lusitanos, o que aparece lá a ser produzido? O garum. E lá estão as tais estárias. Portanto, é curioso que até nessa história que todos conhecem ser referido isso. Portanto, muitas cerâmicas encontradas ali naquele sítio, também cerâmicas comuns para a alimentação, para a confeção e consumo. Algumas moedas, sim. Portanto, é um sítio interessante do ponto de vista da ocupação romana. Depois, um pouco mais para nordeste desse sítio, passado uns séculos, isto é, ali no século IX, portanto, aquele lugar primeiro tinha sido ocupado até ao século quinto, no século IX, surge ali uma povoação, uma aldeia. Aldeia essa que vai ser habitada até à segunda metade do século X, durante aquele período da reconquista. Fixaram-se ali populações em cabanas, mas construíram um pequeno muro em torno do sítio onde eles estavam fixados, essa aldeia medieval, com meia dúzia de casas e de famílias, que se dedicava também à agricultura. Portanto, é um sítio importante para a agropecuária, criação de gado, mas também eram caçadores e recolectores. Então foram aí encontrados, por exemplo, muitos vestígios de ossos de animais que eram consumidos, que eram criados, como as ovelhas, as cabras, e eram caçados, como a lebre, o veado, o javali. Portanto, ossos que permitem concluir o que comiam. Para além disso, produziam roupa a partir da lã, provavelmente do linho. Também foram encontradas muitas cerâmicas e, para além disso, foram encontrados também fragmentos de objetos em vidro e em ferro. Lâminas de facas, botão, pregos, cravos. Aquela aldeia desse período ardeu ali no final ou em meados do século X. Os arqueólogos até propõem que tenha sido no final do verão, porque apareceram lá cinzas e carvões de framboesa e amora carbonizados, portanto, só podia ser nessa altura do ano. O que é muito interessante, estes estudos a partir dos vestígios botânicos e também dos ossos. E para além disto, há a tal necrópole que começámos a falar, de sepulturas cavadas na rocha, são 54, algumas delas antropomórficas, outras não antropomórficas, com várias configurações, e que comprova a relação entre o povoado e aquela necrópole em que as pessoas eram inumadas dentro daqueles túmulos em pedra. Portanto, é um sítio a ser visitado, um sítio muito interessante e que continua ainda a ser estudado e provavelmente ainda nos vai trazer novidades nos próximos anos.

Muito bem, esperemos que sim. Ficamos então com este conselho, com esta sugestão de visita a São Gens, Celorico da Beira. Jorge, por hoje é tudo. Amanhã voltamos a Celorico, mas não por questões tão arqueológicas, nos mais recentes, aliás, a falar de um parente meu, fico muito contente com isso. Nós vamos encontrar amanhã. Até amanhã, Jorge.

Até amanhã. Um abraço.

Obrigado.