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Olá, sejam bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura. Alberto Correia, em Viseu, este historiador beirão é que nos continua a desfiar as suas memórias e a falar das coisas que realmente interessam e que ficam da nossa vida e de modo muito especial na região Centro, que ele domina tão bem estas memórias e estas histórias. Hoje falamos das rotas da castanha e do castanheiro. No fundo, fazemos uma nova celebração da terra com o Alberto, como sempre, estamos em boas mãos. Olá, Alberto, bem-vindo.

Muitas vezes regresso nos meus textos ao chão da minha terra, aldeia da Beira, no Beiralte e no concelho de Sernancelhe, aldeia pequena de muitos caminhos que todos conheci. Construí dela em letra de forma um ledo retrato a que eu dei o nome de Roda das Estações, retrato da aldeia de meus tempos de criança, quando os anos tinham ainda as quatro estações entre as quais viajávamos, festivo carrossel, sem alguma vez cansar. Vai longe o tempo em que os homens, nossos pais, faziam a pé longas caminhadas. No meio rural, era a pé que se percorriam os caminhos vicinais, alguns levando até as longas extremas. Era demorado o curso que em tais caminhos seguiam os carros de bois que andavam carregados de estrumes, de lenhas, do pão e do vinho, do viver quotidiano. E o mesmo acontecia com a lentidão do passo dos burricos, que mal argumentavam os carregos de fanegas de pão para o moinho, as sacas de castanhas que em seu tempo enchiam os palhais dos lavradores, os pesados molhos de erva para o gado ou as ancarelas acorruladas de abóboras nos termos do estio. Vai longe o tempo das longas jornadas a pé para as romarias, a Santa Eufêmia, ao São Francisco, ao Senhor dos Caminhos, à Senhora da Lapa, de universal fama, ao Senhor dos Aflitos, à Senhora dos Remédios, cumprindo votos. Vai longe o tempo das caminhadas para a feira quinzenal de uma vila com história, para as feiras de ano que aconteciam como festa, a do Santos em Mangualde ou Sernancelhe, a de São Pedro em Peduno ou a de São Bartolomeu em Trancoso, entre as demais. No meio urbano, também se andava a pé nas idas para o trabalho, nas idas ao café, à igreja ou ao mercado, até que o automóvel, a sua era, submergiu estes caminhos. Reinventam-se agora que ainda se fazem caminhadas à antiga, como votos. Restaura-se as andanças por caminhos vicinais que bordejam povoados ou riscam-se de trilhos as margens da cidade onde o campo permanece abandonado. Descobre-se como é bela, afinal, a natureza, como é ligeiro o correr das águas num ribeiro, como era poético o monástico sítio de moinho, como bem traçado era o caminho seguido pelos romanos e os godos, como cheira bem a rosmaninho e a saudade, como velhos são os castanheiros que nos acompanham tutelares, jeito da voz à beira das veredas, como é fresca a sombra que lhes desce da ramagem, como foram solidários os homens que os plantaram há mil anos. Caminhos velhos onde quase ninguém passa.

Muito bem. Que boa lembrança destes caminhos, deste andar. Hoje em dia parece que é moda outra vez, Alberto, voltar aos caminhos pedestres e às rotas dos caminhantes e dos viajantes. Voltou-se a fazer muito turismo a pé, por sendas e trilhos. É muito curioso recuperar isto, este recuperar que o Alberto conseguiu fazer nesta sua crônica. Muito bem, agradeço-lhe muito. Enquanto a nós, marcamos encontro para a semana. Alberto, mais uma vez, bem-haja e muito obrigado.

Até para a semana.