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Olá, boa tarde, seja bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura. Alberto Correia, em Viseu, como sempre, este investigador e historiador que nós tanto gostamos de ouvir e de ler. Hoje traz-nos um tema sobre um ditado popular: "cesteiro que faz um cesto, faz um cento". Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
"Cesteiro que faz um cesto, faz um cento, se lhe derem madeira e tempo". É um ditado popular. Os ditados populares valem o que valem. E o cesteiro que logo de manhã se senta no seu banco armado com o ferro de lavrar no preparo das curras, as delgadas tiras de madeira de castanho, de mimosa, de sanguinho ou os vinhos do ribeiro, e que depois tece, pousando-as no colo, as vergas já macias da madeira, faz de cada obra que constrói, obra primeira. Isso nos conta, hoje ainda, o olhar atento de uma mulher que na tenda da feira escolhe aquele que melhor lhe convier. Evoco hoje os velhos cesteiros de Vil de Moinhos, na margem de Viseu, cujos saberes foram herdados por cesteiros que hoje ainda laboram nas margens de Viseu e, de entre os velhos modelos, hoje ainda constroem um tipo de cesta que por tradição se designa a mieira, um curioso modelo que se reconhece porque o seu rasto se levanta como quilha de um barco e porque a asa se prende no elegante entrecruzar das vergas do seu corpo e que, sabemos, vem de muito longe o modelo, que já o encontramos num quadro de Grão Vasco de título "A fuga para o Egito", por ele construído com seu companheiro Francisco Henriques, entre as datas de 1501 e 1506, para o altar-mor da Catedral de Viseu, e que hoje se revela como obra-prima e tesouro nacional no Museu Nacional Grão Vasco. Leva-a na mão, a tal cestinha, leva-a na mão Nossa Senhora, e é para ela que José colhe uns frutos maduros na viagem que fazem, de exilados, de Belém para o Egito. E essa cesta, eu sempre disse, foi feita em Vil de Moinhos. Nas tendas de feira, nas antigas, os cesteiros que ali vinham traziam toda a espécie de cestaria. Cestos grandes que se usavam no trabalho e que os homens transportavam aos ombros e as mulheres à cabeça e que aos pares carregavam sobre a albarda dos burricos. Cheiravam bem quando vinham cheios de cerejas, maçãs, uvas ou outros frutos, ou quando traziam para casa a roupa lavada na ribeira. Cestas de curra aprimorada, onde se levava o almoço aos cavadores, a ceia ao pastor quando dormia com as ovelhas no curral. Cestas maneirinhas, onde se guardavam as linhas de bordar ou quando delas se fazia a safata da costura. Vidas inteiras expostas com verdade na textura de um cesto carregando os ombros de um homem ou albarda de um muar, ou quando afadigada, os carregava à cabeça uma mulher ao voltar a casa sobre a tarde, ou quando airosa e leve, os carregava na mão ao vir da horta, ou quando se sentava no balcão a costurar. Retrato sempre de uma vida, de muitas vidas, os cestos.
Ficamos então com esta referência aos cestos, com base neste provérbio: "cesteiro que faz um cesto, faz um cento", neste ditado popular, esta voz do povo. E muito lhe agradeço por ter trazido mais esta lembrança tão etnográfica e popular. Alberto, nós por hoje estamos conversados. Marcamos encontro amanhã. Bem-haja.
Até amanhã.