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Olá, seja bem-vindo. Esta é a história das histórias. Já sabe, eu sou o João Paulo Secadura e aqui acolho Jorge Adolfo Marques em Viseu. Este mestre em arqueologia, especialista em comunicação e grande leitor, vem nos falar também hoje sobre os lagares escavados na rocha. Pão e vinho, que no fundo era a base da alimentação medieval. Hoje mudamos um pouquinho de tema. Vamos a isso, falamos de lagares. Olá, Jorge, bem-vindo.
Olá. Hoje vamos falar de um tipo de documento material que nos remete para a Idade Média. Também no último programa falamos aqui do primeiro foral de Viseu e do período da reconquista. Temos falado um pouco também daquilo que os homens nesse tempo comiam. Até houve um dia em que nós tivemos a conversar um pouco sobre algumas sementes de cereais que foram encontradas num povoado aqui do Conselho do Satã, que nos remetem pra alimentação desses homens medievais. E de fato, durante boa parte da história desse período, a história alimentar é dominada pelo pão e pelo vinho. O pão, os cereais e a produção vitivinícola vai dominar boa parte da Idade Média, da época moderna. Nós temos documentação que nos fala dos tributos que era preciso pagar, muitos deles não é em moeda, não é em dinheiro, mas é em quantidade de cereais ou de vinho.
Em gêneros.
Ou outro tipo de gêneros, e que ficam estabelecidos nos forais, ficam estabelecidos em contratos do mais diverso tipo. Temos também referência a lagares, mas muitas vezes não sabemos como eram muitos deles, qual o seu aspecto. Ora, nós aqui na região, que é uma região produtora de vinho da excelência, nomeadamente o vinho do Dão.
As terras do Dão, exato.
E mais a norte, os vinhos do Douro. Em muitos locais, nós encontramos lagares, aquilo que resta, a parte do afloramento rochoso de lagares muito antigos, escavados na rocha. Nós já aqui falamos noutras ocasiões das sepulturas escavadas na rocha. Aqui não são sepulturas, são lagares, são a parte onde era colocado a uva e depois era-
Era pisada?
Pisada para se colher o mosto. E esses lagares escavados na rocha, identificados na região de Viseu, uma coisa é certa, eram estruturas vinárias que eram constituídas por um tanque em formato retangular, onde era efetuada precisamente a pisa dos cachos. Os romanos chamavam esse sítio calcatorium.
Calcário.
Calcatorium. Portanto, como nós dizemos, pra calcar.
Exatamente.
Calcatorium. E depois havia um segundo tanque mais pequeno e numa cota mais baixa, também podia ser retangular ou circular, para onde escorria o mosto. Esse tanque no plano inferior se chamava lacus. Lago. Era o sítio para onde escorria esse mosto, por um pequeno orifício que separava o tanque superior, onde era calcada a uva, do tanque inferior, onde caía precisamente esse mosto. Quando não há esse tanque inferior, os arqueólogos têm avançado a hipótese de que poderia ser recolhido diretamente ou numa bilha de cerâmica ou em madeira, que eram colocados debaixo, sob a bica, sob aquela bicazinha para onde escorria o mosto. A maior parte desses lagares tem umas cavidades laterais que são importantes, porque são o negativo de encaixes para umas vigas que suportavam a estrutura de prensagem de vara ou uma trave. Portanto, essas cavidadezinhas suportavam. Isso também tem o nome em latim, que é a stipe. A largura reduzida dos pios de pisa, porque há alguns que têm uma configuração mais parecida com os nossos lagares tradicionais, mas há lagares deste tipo, que têm esse sítio onde era o calcatório, onde eles calcavam. É muito estreito. Portanto, não podia ter estas estruturas de prensagem de maiores dimensões. Ora, o que é certo é que os arqueólogos também, ao longo dos anos, ao longo das muitas décadas de estudo deste tipo de vestígio que ocorre geralmente na periferia das aldeias O que é um aspecto importante. Pensavam que poderiam ser da época romana, até anteriores à época romana, mas como os romanos apreciavam o vinho, os primeiros que chegam aqui à península e ao território da Lusitânia são oriundos da Itália, da península Itálica, de toda a região mediterrânica, onde o vinho tem uma grande importância econômica e alimentar. Portanto, começaram a associar muito aos romanos.
Exato.
O que é certo é que, não colocando de parte essa teoria, essa hipótese, como estes lagares se encontram, por regra, na periferia de aldeias que existem hoje e na bordadura dos terrenos de cultivo, é muito provável que eles tenham sido construídos na Idade Média, quando essas aldeias já existiam.
Ok.
Isto é, são estruturas agrícolas que não se podiam desmontar para levar para outro sítio, porque eles são rochas, são naturalmente rochosos. E estavam ali, onde? Perto também das vinhas, dos terrenos de cultivo. E portanto, eram utilizados numa altura do ano e nada mais, e ficavam ali. Quando eles eram utilizados na pisa, eventualmente podia ser colocada uma cobertura para proteger um bocadinho, para não caírem coisas no mosto durante o processo. Mas depois a fermentação era feita em pipas de grandes dimensões, no edifício onde residiam. Portanto, não ficava ali a fermentar, não fosse o diabo tecê-las e alguém ir lá beber o que estava lá durante a noite.
É engraçado, porque ao falares nisto, Jorge, tu referes que na região de Viseu. Eu achava que podia encontrar estas lagaretas, umas 30 ou 40, que já seria imenso. E afinal, há mais de uma centena e meia escavadas na rocha destinadas para o vinho. É incrível!
Só aqui na região de Viseu. Quando digo a região de Viseu, digamos aqui nesta zona onde é o vinho do Dão, na região demarcada do Dão. Aqui mais próximo destes concelhos aqui à roda. Mas encontra-se um pouco por todo o norte do país. É um tipo de estrutura que aparece muito também noutras regiões do país, noutras regiões vinícolas, na região de Ouriense e mais para norte, no Minho. Quer dizer, é um tipo de estrutura muito associada a um dos bens mais importantes da agricultura medieval portuguesa e moderna, que é a produção de vinho.
Pronto, e são, portanto, não necessariamente do período romano. Algumas poderiam ter origem no romano, depois até podem ter sido reaproveitadas. Mas a maioria então na Idade Média plena, não é? Século 12 a 14, por aí.
Sim, está muito associada à estrutura de povoamento medieval.
Muito curioso. Sim, senhor, hoje, de facto, passámos por tudo, desde documentos a lagares. Esta semana fizemos aqui este percorrido tão curioso que tu sempre nos levas através da região de Viseu. Muito obrigado, Jorge. Marcamos encontro pra semana, tenha um bom fim de semana também e muito obrigado por mais estas pérolas de conhecimento que tu nos vais trazendo. Jorge Adolfo Marques, um grande abraço.
Um grande abraço.