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Olá, seja muito bem-vindo. Esta é a história das histórias. Eu, João Paulo Secador, estou aqui com Jorge Adolfo Marques, que é historiador, professor, que nos vai falar hoje, depois de falarmos de Castros, de Viriato, toda esta semana temos estado a conhecer e a passear no tempo. Vamos falar de outro Castro, este da Cárcoba, ali em Carvalhais, bem perto, tal como o outro de ontem, que era perto de Baiões, este ali na zona de Carvalhais. Vamos então falar de outra estação arqueológica que vale muito a pena conhecer. Olá, vamos a isso, Jorge.

Vamos a isso. Nós que temos andado mais por monumentos, sítios, histórias e personalidades do século XIX e do século XX, nestes últimos dias temos feito umas incursões novamente por memórias mais antigas, nomeadamente castrejas. Falamos no Viriato, ontem estivemos a falar do Castro da Senhora da Guia, em Baiões, um sítio onde apareceram lá as tais cerâmicas e restos de cabanas e bronzes. Curioso, porque os arqueólogos têm-se dividido na interpretação desse espólio que apareceu. Seria um depósito fundidor? Isto é, faziam ali esses objetos, esses machados de talão, essas foicinhas, essas bracelets, todos esses objetos que nós nomeamos, ou seria algo de caráter mais votivo, isto é, um sítio de culto ou pura e simplesmente era sucata? Tem-se dividido. Eu não vou opinar, mas o que nos interessa, essencialmente, é dizer que há um lugar onde está guardado e é possível visitar. É por essa razão que nós fizemos menção e valorizamos o Castro da Senhora da Guia, como também o vizinho, a poucos quilómetros, o Castro da Cárcoba. O Castro da Cárcoba fica em Carvalhais, também no Conselho de São Pedro do Sul. É um sítio também elevado, isto é, os castros estão sempre localizados em sítios altos, destacados na paisagem, mas não no ponto mais alto. Isto é, num sítio que fosse mais facilmente defensável, com muralhas a protegê-lo, mas que não se visse a quilómetros. Podia estar mais camuflado na paisagem. É o que acontece aqui com o de Carvalhais. Importa dizer que ele foi escavado nos anos 50 por Correia Tavares, que fez uma grande escavação arqueológica neste lugar, e depois também foi escavado uma segunda vez nos finais dos anos 70, pelo mesmo monsenhor Celso Tavares da Silva, que eu referi ontem, a propósito da Senhora da Guia, e também pelo doutor Alberto Correia. Foram eles os responsáveis dessa segunda campanha de escavações que houve nos finais dos anos 70. E depois, mais recentemente, também foi escavado pela arqueóloga Yvonne Pedro, já depois do ano 2000, e que também colocou a descoberto alguns vestígios de casas que existem naquele local. O espaço era organizado em plataformas, o que é curioso aqui neste sítio, e tem uma muralha com fosso para defender, precisamente, nos sítios mais vulneráveis. A espessura da muralha varia entre os dois e os quatro metros, portanto, é uma grande muralha, e é curioso que ela está relativamente inclinada, o exterior está digamos que oblíquo, em posição mais oblíqua, para maior capacidade até de defesa. O fosso era inundado por água das ribeiras que passam ali, que atravessam aquele local. Este Castro tem um aspecto muito interessante, que é: através da escavação, foi identificado que é um lugar onde há arruamentos e pátios lajeados, portanto, revela que é um povoado com evidências de protourbanismo. Isto é, embora não seja uma cidade, não seja uma urbe, como os romanos criaram no seu império. Olha, por exemplo, em Viseu, quando fundaram a cidade de Viseu, traçaram uma rede de estradas, de vias na cidade.

Cá está o Cardo Maximus.

O Cardo e o Decumanus. Portanto, e depois com ruas paralelas e perpendiculares.

Isto já aprendi contigo. Exato.

E, portanto...

Aqui não é bem uma cidade ainda.

Aqui não é, mas nós já encontramos sinais desse-

Umas tentativas, exato, desse urbanismo.

Desse urbanismo. Nomeadamente, para além desses caminhos-

Arruamentos e pátios.

Há também canalizações escavadas no solo, cobertas com laje, precisamente para o escoamento d'águas. Quer dizer O que há aqui? Há um planeamento urbano. As casas não foram construídas ao calhas onde houvesse espaço. Não, há aqui um planeamento urbano que está revelado não só nestes arruamentos, mas também com estes pormenores das canalizações. Para além disso, foram muitas casas identificadas, mais de 30 casas que foram identificadas, umas de planta circular, tipicamente castrejas, aquelas casas redondas que nós encontramos nos castros do norte de Portugal, sobretudo na região do Entre Douro e Minho. Portanto, acima do Vouga, porque esse mundo castrejo com estas características encontra-se basicamente ou fundamentalmente do rio Vouga para norte. Portanto, é aí que é a civilização castreja com este tipo de aglomerados proto-urbanos. E para além das casas circulares, temos casas de planta retangular, com ângulos retos, o que revela influências já do mundo romano. Mas essas influências não se quedaram pela estrutura arquitectónica das casas, mas também pelos objetos aqui encontrados. Nós encontramos, por exemplo, as famosas téculas, as telhas romanas que eram o telhado, que era constituído pelos ímbrices, que é aquelas telhas curvas que nós temos ainda hoje.

Sim, de meia cana chamada.

E a parte plana que é a técula, que encaixavam, elas juntavam-se téculas e depois essas curvas ficavam no fundo colocadas por cima.

As planas tinham um rebordozinho.

Esse rebordo.

E em cada rebordo encaixava aquelas de meia cana.

As de meia cana, se não estivessem lá, a água entrava. Chovendo, entrava por aí. Portanto, essa conjugação dessas telhas de meia cana com as telhas planas, com os rebordos laterais é um sinal, primeiro, de que o telhado não é de planta circular cônica, portanto, não eram telhas que estavam nessas casas de planta redonda, porque essas têm um poste ao meio e o telhado é cônico. Portanto, aí não podiam encaixar as téculas. Geralmente em vestígios de colmos, giestas, etc. Enquanto que nas outras casas de planta retangular, aí já encaixava. Esses telhados são de origem romana, neste caso. Nós temos aqui estas telhas que são romanas. Mas não são só as telhas, vão se encontrar também moedas, cerâmicas romanas, como as sigilatas. Encontrou-se uma ânfora, o fragmento de uma ânfora, e nós já tínhamos feito referência a uma ânfora também encontrada em São Gens. Ali em Celorico. Onde, por acaso, também se encontraram os tais tijolos. Até as pessoas dizem que é o tijolo burro, aparece aí um tijolo burro. O tijolo burro muitas vezes são as tais telhas, as tais téculas.

Sim, romanas.

Que são romanas, de origem romana. E que vão ter uma perduração muito longa, vão até entrar na Idade Média, mas temos também vidros romanos, moedas romanas, ou seja, temos muitos objetos ali encontrados. Temos objetos que nos falam de uma nova civilização que vai dominar essas populações castrejas, mas que elas, no fundo, se romanizaram. Esta arquitetura, este planeamento urbano, estas moedas, esta vivência ao estilo romano. E já não vou dizer também os deuses que foram abraçados por estas populações, embora os romanos tenham respeitado esses deuses antigos.

Como foi o Endovélice. Exato.

Nós vamos encontrar tudo isso aqui no Castro da Cárcova, escavado ao longo de um longo período.

Mais de 50 anos.

E que hoje é um sítio que também pode ser visitado. O local pode ser visitado de carro, o acesso é muito simples. É pena é que ainda não haja um museu com este espólio vastíssimo que foi encontrado ali. Mas em todo caso, é muito fácil, chegando à aldeia de Carvalhais, há placas a indicar a localização deste povoado com estas casas todas que estão à vista, as ruínas das casas, da muralha e deste espaço.

Mais uma visita obrigatória, conduzidos aqui pela mão do nosso querido Jorge Adolfo Marques, que nos faz visitar também por esta zona centro. Ficamos então com mais um castro ali na zona de São Pedro do Sul, mais concretamente em Carvalhais, o Castro da Cárcova. E nós, Jorge, marcamos encontro amanhã. Bem-hajas, até amanhã.

Um abraço.