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O Miguel Pinheiro já está conosco. Começa agora mais um "O Bom, O Mau e O Vilão". Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Miguel, o teu bom manteve-se firme.
Manteve-se firme. José Luís Carneiro ali esteve, viabilizou o orçamento do Estado com a abstenção do PS. No Parlamento, Carneiro explicou que o país não pode ser lançado numa crise política, porque isso seria o mesmo que lançar combustível sobre um incêndio. E apesar desta viabilização, o líder do PS insistiu, atenção, que pra ele este é um mau orçamento. E está tudo certo. Nós tivemos isto durante anos na nossa democracia, até surgirem as invenções de António Costa com a geringonça. O partido que ficava em primeiro lugar nas eleições, se não tivesse maioria, governava, e o principal partido da oposição criticava os orçamentos, mas deixava-os passar para não andarmos sempre a ir votar. Eu imagino as pressões que José Luís Carneiro terá recebido pra chumbar o orçamento, especialmente vindo dali daquela ala mais à esquerda do Partido Socialista. Essas pessoas quereriam um chumbo, mesmo que isso implicasse a queda do governo e novas eleições. Portanto, eu imagino as horas de paciência de José Luís Carneiro ouvir aquelas pessoas, mas, pelo menos por agora, o líder do PS teve a capacidade de manter aquela que é uma decisão de bom senso.
E há tanta coisa pra eles divergirem, à séria, políticas setoriais, veja-se a habitação, por exemplo.
Claro, e o PS continuará a criticar as opções orçamentais. Aliás, vamos ver agora no debate, na especialidade, ouviremos isso tudo, mas isso é muito diferente de estarmos a ir outra vez pra eleições. Já não há paciência.
Ou duodécimos, por exemplo.
Ou duodécimos, que seria outra hipótese.
Até porque assim dá menos uma desculpa ao governo, se quiser.
Precisamente.
Miguel, o teu mau não pode apanhar boleias.
Não pode. É a ministra do Ambiente. Eu fiquei de coração partido há umas semanas. Fiquei, Paulo, fiquei, porque eu sou uma pessoa sensível.
Eu sei.
Escusas de fazer esses comentáriozinhos.
Essas lágrimas furtivas.
Então o que se passa? Há umas semanas, Maria da Graça Carvalho tinha recomendado aos portugueses que partilhassem carros como forma de lidar com o aumento do preço dos combustíveis. Se duas pessoas vão pro mesmo sítio, uma leva a outra. Ontem, durante o debate sobre o orçamento, uma deputada do Chega fez a pergunta óbvia à ministra: tendo em conta o conselho que dera, será que ela própria tinha ido pro Parlamento naquele dia à boleia de alguém? Será? E a resposta de Maria da Graça Carvalho foi de gargalhada. Eu vou citar: "Só não venho à boleia porque não posso, porque das coisas que mais me custam no governo é vir de motorista." E, de facto, coitadinha. Eu ouvindo aquilo, eu tive tanta vontade de estar ali presente pra poder tranquilizar um pouco mais Maria da Graça Carvalho neste momento de sofrimento extremo que foi o ter de ir de motorista pra Assembleia da República. Eu só gostava de saber quem é que a impede de se deslocar como bem entender. Em primeiro lugar, o Ministério do Ambiente, penso eu, que está agora no chamado Campus 21. Se não estivesse, também não havia problema, mas eu penso que está no Campus 21, que é aquele gigantesco edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, onde se concentram vários outros ministérios. Está lá o da Presidência, o da Reforma do Estado. Estão lá vários ministérios, portanto, havia ali muita gente que podia ter partilhado uma boleia pra ir pro debate do orçamento. Mas além disso, Maria da Graça Carvalho pode deslocar-se de transportes públicos, por exemplo, ou de bicicleta. Aliás, na Suécia, na Holanda e noutros países nórdicos, aqueles países para os quais nós olhamos com admiração, nós estamos sempre a suspirar que queremos ser a Suécia e a Holanda. Lá até há mau tempo, cá não. E nesses países nórdicos, os ministros não têm direito a carro oficial, nem a motorista, e não lhes acontece nada. Continuam a chegar aos sítios, a horas, em segurança, não há problema nenhum. E, portanto, eu não sei, de facto, se a ministra está à espera que tenhamos muita pena dela. Coitadinha da ministra, que a coisa que mais adorava era apanhar uma boleia pro Parlamento, mas não pode, não dá.
Miguel, ali em Alcântara, a linha verde do metrô vai direto, ainda por cima, do Campo Pequeno até ao Rato. Depois, era só descer um bocadinho ali, à Rua do Savento.
Certo. Não consigo entender. Ou então andar de carro próprio. Nada impede os ministros de conduzirem o seu próprio carro. Luiz Neves não anda num carro, esse nem é dele, mas enfim, não anda num carro ele a conduzir.
E já houve um ministro que foi pra tomada de posse de mota.
Sim, é certo, mas aí ele foi de mota antes de ser ministro. Exato. Mas Marcelo Rebelo de Sousa conduzia o seu próprio carro. Enfim, há tantas possibilidades. Portanto, Maria da Graça Carvalho não precisa de estar aqui prisioneira de um carro com motorista. Vamos lá, senhora ministra, não há planeta B. Portanto, vamos a isto. Eu até acho que a greve do metrô foi cancelada, não foi?
Foi cancelada.
Então, que maravilha! O que mais é que nós podemos querer?
Quem é o teu vilão, Miguel?
Olha, Maria João, estava tão bem disposto e agora vens com isto. Então, o vilão é a justiça. Eu tenho a certeza que já estão a adivinhar, mas ontem nós tivemos mais uma reviravolta no caso Sócrates. Por favor, amiguinhos, concentrem-se, fiquem comigo. Eu vou evitar os detalhes para isto não ser uma confusão completa e vou explicar o que está em causa. Por causa de uma decisão absurda do juiz Ivo Rosa, nós temos dois processos que envolvem José Sócrates. Dois. Um é o chamado processo principal, já está a ser julgado há alguns meses e é aquele em que Sócrates já teve mais advogados do que eu consigo contar. Já não tenho dedos da mão. O outro, o chamado processo secundário, deveria começar a ser julgado agora. Já devia ter começado. Ontem, o juiz deste processo secundário decidiu que os factos em apreciação são iguais nos dois casos e que, por isso, este processo secundário deve juntar-se ao principal e haver apenas um julgamento. Ora, o que se passa é que a juíza do caso principal já tinha recusado isso por entender que os dois processos estão em fases diferentes. Um tem vários meses de julgamento, o outro não, estar a juntar as duas coisas agora era uma confusão. Se a juíza do caso principal continuar a recusar essa junção, um outro tribunal pode ainda vir a obrigá-la a fazer isso. E se acontecer essa junção, o processo principal poderá ter, claro, um atraso de vários meses e, no limite, José Sócrates pode pedir uma anulação desse julgamento. Pode dizer: "Não, meus amigos, temos que voltar ao início. Eu agora volto ao início, volto ao meu primeiro advogado e depois vamos lá voltar a isto." Se isso acontecer, se voltarmos ao início, enfim, está que a zero, exceto para uma coisa. Está que a zero para tudo, menos para uma coisa: para os prazos de prescrição, porque esses continuam a contar. Ora, perante isto, nós só podemos concluir que as nossas leis e o nosso sistema de justiça precisam de uma vassourada gigantesca e eu só gostava de saber quem foram as cabeças que desenharam este sistema penal e este sistema de justiça. Só gostava de saber quem foram as cabeças competentes que fizeram, que criaram esta enorme confusão que permite tudo isto. Não é por nada, é só para lhes dar uma medalha.
Foi um trabalho de equipa, certamente, ao longo de muitos anos.
Não tenho dúvida, Paulo, não tenho a menor dúvida. Um trabalho de equipa de vários deputados advogados.
Deixe-me só fazer-
Ou não, deputados advogados, ou deputados engenheiros, ou deputados economistas, ou deputados canalizadores, enfim.
Mas está muito bem feito, de facto.
Se fosse de propósito, não ficaria melhor.
Só uma correção, há pouco disse que era a linha verde que fazia a ligação aqui entre o Campo Pequeno. Na verdade, é a linha amarela, a verde é a nossa que passa aqui ao lado. Não vá a ministra perder-se um dia desses, que a culpa é minha.
Exato, aparece aqui à porta.
Mas se calhar já está no sítio errado, porque deve estar a ir agora para o debate do Parlamento, ouviu-nos, meteu-se na linha errada. Ó Santo Deus! Senhora ministra? E agora não há rede no metro, ai Santo Deus.
Pronto, meu Deus. A culpa é minha.
Pronto. Olha.
Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é José Luís Carneiro, o mau é a ministra do Ambiente e o vilão é a nossa justiça. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.