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Olá, sejam muito bem-vindos. Já sabe, esta é a história das histórias. É bom estar consigo aí desse lado. Hoje temos Alberto Correia, aqui em Viseu, nos vai dar mais uma crônica tão deliciosa, tão boa, das coisas que ele nos vai contando ao longo do tempo. Hoje falamos do Senhor dos Milagres, este senhor que fica ali para os lados do Carregal, no Conselho de Sernancelhe. Bem-vindo, Alberto. Vamos a isso.
"Eram as alminhas do purgatório a arder por entre labaredas, como estavam representadas no nicho do Senhor dos Milagres." Aquilino Ribeiro, em "Cinco Reis de Gente". Quem desce do Carregal, essa pequena terra da província da Beira, que o nome de Aquilino Ribeiro ponteou no mapa como terra de castanheiros e que teve o sortilégio de ser o seu berço, quem desce do lugar da Portela e segue, a partir das últimas casas, a estrada que corre para a ribeira do Távora, onde as terras do demo se afogam, passa quase logo às espaldas de um pequeno nicho de devoção de que mal aperceberá a estranha arquitetura de pedra, do que julgará ser velho abrigo de caminho. E talvez tivesse sido, há muito tempo, ali, na cruz do antigo caminho, de onde se derivava para a aldeiazinha da Forca, que um aceitável pudor fez depois chamar de Aldeia de Santo Estêvão. Nos finais do século XIX, quando no Adro Fronteiro já se elevava uma capela dedicada a um Cristo crucificado, identificado como Senhor dos Milagres, um piedoso devoto faz pintar, a um vizinho artista do povo com alguma nomeada, uma cruz na justa medida de um homem que é acoplada à parede fronteira no interior do abrigo. Um Cristo de suaves tintagens, que depois o tempo diliu, estende os braços nos braços da cruz, que o pintor marcou com o martelo e uma turquesa da iconografia clássica da paixão. Aos pés de Cristo, o pintor, respondendo decerto à encomenda do devoto, pinta dois coloridos registros idênticos no tamanho e no formulário, ainda que a um o tempo tenha desgastado, registros popularmente chamados de alminhas, onde, no clássico mar do fogo, os corpos nus de alguns pobres pecadores aguardam que um braço se baixe do crucificado. A habitual legenda: "Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós com um padre nosso e com a vossa bendita esmola", no ano de 1884, constitui-se como apelo a quem passa, que ali suspenda a voz para uma oração e, se é homem ou rapaz, leva cada um a descobrir-se da boina ou do chapéu. O pintor, devoto também, não deixou o nome, mas o desenho de algum rigor, a pincelada ligeira, as cores de sangue e anil do seu habitual uso, permitem com rigor atribuir esta obra a Carlos Augusto Massa, que vive entre 1842 e 1926, nascido em Sernancelhe, proprietário, como diz nos registros do civil, tesoureiro que depois foi encartado da Câmara de Sernancelhe por mais de 30 anos, credenciado pintor de ex-votos por ali nos santuários, ainda cobre uma larga geografia e que, como lhe era caro, gostava de deixar registro da era, não do nome, que apenas conhecemos de um quadro de milagre. E ali inscreveu a era 1884. Aquilino vinha aqui ao Senhor dos Milagres em menino com os companheiros, a Maria Loi, o Manuel, irmão da Loíta, o Chiquinho e tantos mais. Conta-nos isso no seu romance "Cinco Reis de Gente". Vinha sempre de memória quando a mãe o chamava para rezar com ela sobre a noite, o pai ausente, sabe Deus por que caminhos, nomeando as almas dos ausentes para quem se pedia a rápida subida para a glória. E então o rapazinho, meio assustado, mal entendendo que as chamas do quadro não devorassem aqueles corpos nus da pintura, lá ia balbuciando os padre-nossos, acompanhando a magoada prece de sua mãe. Agora que este nicho de devoção já pertence ao povo, pode ser que alguém tenha pena, como Aquilino, das alminhas e do apagado Senhor dos Milagres e mande restaurar as tintas dilídas e mande colocar porta segura no arco da porta voltada ao sol. Aquilino, se fosse vivo, talvez pedisse à sua gente que fizesse, ela agora, este milagre.
Uma boa maneira, Alberto, de responsabilizar-nos e chamar a atenção para este restauro e esta conservação, que era bem importante nesta alminha. E é engraçado como conseguiu também identificar o nome do Carlos Augusto Massa por ter pintado também um ex-voto. É muito engraçada esta investigação que se faz, porque de facto quase nunca são assinados e, portanto, isso ao menos sabe-se que deve ser deste artista local, que tinha algum jeito e, portanto, era usado para pintar estas memórias. Muito importante este patrimônio das alminhas, tão descurado hoje em dia pelas câmaras, e se calhar pelas igrejas locais, as freguesias, as paróquias, deviam encarregar-se também disso, com pessoas qualificadas para o fazer, para não cometerem atentados contra o patrimônio com alguns restauros mal feitos que às vezes podem ser feitos. Muito bem. Estamos então conversados por esta semana, Alberto. Resta-me continuar a desejar-lhe um bom ano e marcamos encontro para a semana. Bem-hajas, Alberto, por mais esta série de crônicas. Muito obrigado.
Reporto os votos de bom ano e até para a semana.