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Olá e sejam bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e mais uma vez acolhemos Alberto Correia. Ele em Viseu vai desfiando as suas memórias tão curiosas, sempre tão bonitas. Esta refere um senhor, o Sr. João da Adélia, que era nada mais, nada menos que o tocador de sinos da sua aldeia. Vamos saber mais sobre este João da Adélia. Bem-haja e bem-vindo, Alberto.

Sempre o vi chamar-lhe João da Adélia, como se esse fosse o nome que os padrinhos lhe tivessem dado no batismo. Morava na rua do Lagar e era forneiro. Tinha a seu cargo um dos dois fornos comunais onde na aldeia se cozia todo o pão. Ao domingo, o Sr. João da Adélia era tocador de sinos. Uma hora antes da missa da manhã, subia à torre da igreja e punha-se a tocar. O povo chamava-lhe as primeiras. Era nessa hora que as mães chamavam os filhos mais pequenos para vestir a roupa lavada domingueira. O lume estava aceso na lareira e as panelas de água quente a fumagar. E o Sr. João voltava à torre e tocava os sinos. Eram as segundas, era um tocar mais demorado, bom de ouvir sob o céu límpido da aldeia. Despachavam-se alguns homens no barbeiro, os miúdos corriam para o adro a brincar, as mulheres cobriam lenços novos de merino e um xaile e chamavam de caminho as mulheres que eram vizinhas. Ajoelhavam na aldeia no lugar habitual, mais ao fundo, e punham-se a rezar. Chegava nessa hora de outra aldeia o senhor padre e enquanto vestia na sacristia os paramentos, o Sr. João voltava à torre e dava o longo toque da entrada. Entravam, vindas de mais longe, as últimas mulheres. Os rapazes ajoelhavam sobre a boina nos lugares costumados. Mais três badaladas que o povo chamava o tocar aos homens e entravam na igreja os homens que conversavam encostados pelo adro e o abade, paramentado, subia então para o altar. Não sei quando foi que o Sr. João da Adélia deixou de ser forneiro, de subir à torre para tocar os sinos. Talvez eu andasse então por longe, lá onde não ouvia o badalar do sino da aldeia. O certo é que eu guardo desde os tempos de rapaz o cheiro ao pão cozido no seu forno e o som familiar dos sinos da aldeia, dos quais eu gostava de ouvir as sonoras badaladas aos domingos de manhã.

Que curioso ainda haver. Alberto, é tão bom. Pela província ainda se ouve muito este pontuar e também em Lisboa e nas grandes cidades ainda há igrejas que tocam os sinos, embora hoje já seja uma coisa mecânica na maior parte das vezes. Já não é um tocador de sinos como era o João da Adélia, mas é bonito ainda pontuar a vida dos fins de semana e também dos dias de semana pelo toque dos sinos, que é uma coisa muito nossa, uma tradição antiga que ainda se vai ouvindo e não se perdeu completamente. Muito bem. Alberto, estamos conversados hoje, ficámos a conhecer o João da Adélia e marcamos encontro para amanhã. Bem-haja.

Até amanhã.