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Seja bem-vindo. Esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, mestre em arqueologia, hoje faz uso dos seus galões de arqueólogo e vai nos falar destes monumentos megalíticos, alguns poucos monumentos megalíticos de Nelas e Carregal do Sal. Vamos falar de orcas, mas não aquelas que têm tido má fama nas nossas costas. Vamos falar de várias orcas que são estas antas aqui nas zonas de Nelas e de Carregal. Vamos a isso. Olá, Jorge. Bem-vindo.

Olá, João Paulo. Estas orcas nem sequer de água doce, são orcas mesmo terrestres.

Exato.

E têm pés bem assentes nos sítios onde estão.

Exato, com estes pés bem grandes.

Olha, eu vou começar dizendo que pensei em hoje falarmos sobre estas orcas, e são de dois conselhos. São monumentos que estão espalhados, digamos assim, por dois conselhos vizinhos, o conselho de Nelas e o conselho de Carregal do Sal. Mas também te quero dizer que estes monumentos são divulgados e fazem parte da Rota do Megalitismo, a chamada MEG, que foi criada no âmbito da CIM Dão-Lafões, e que integra também Sever do Vouga e uma série de municípios, de conselhos desta comunidade intermunicipal e cujo autor, ou a pessoa que coordena esta rota megalítica nesta região é o doutor Pedro Sobral, um arqueólogo que tem dedicado a sua vida, particularmente ao estudo do megalitismo regional, o megalitismo beirão. E que agora, em boa hora, fez este belíssimo roteiro, com a edição também de um belíssimo catálogo deste roteiro, não só muito bem escrito, como é óbvio, mas também muito bem ilustrado, e que nos pode levar a visitar estes monumentos que existem por esta região.

É bom saber isso.

Eu apenas queria aqui salientar dois deles no concelho de Nelas. Olha, a Orca do Folhadal, que foi um monumento escavado por um ilustre arqueólogo, infelizmente desaparecido há bem pouco tempo, o professor João Carlos Dacena Martinez, uma figura incontornável da arqueologia nacional e da arqueologia aqui da região, da Beira Alta, em particular. Também que se dedicou, fundamentalmente, ao megalitismo. E este monumento foi também escavado e estudado pelo doutor Quinta Ventura. É um dólmen de câmara poligonal, com um corredor curto, esta Orca do Folhadal. E encontra-se muito bem conservado. É um dos poucos monumentos que preserva a porta em pedra original, portanto, a obstruir a entrada do corredor. É um monumento com características que muitos outros poderiam ter, mas que este preserva essa característica. Mas há um aspecto muito importante neste dólmen, diria, que o diferencia de muitos outros que existem aqui nesta rota. Eu há pouco não referi: esta rota selecionou um conjunto de monumentos megalíticos, mas na região, e nesta região em particular, há muitos mais. Quer dizer, isto é apenas uma seleção. E este tem uma particularidade: debaixo da estrutura pétrea deste dólmen, foram encontradas, quando foram feitas as escavações, vestígios de cabanas que existiam naquele local, cabanas pré-históricas, antes de se ter construído o dólmen. Portanto, temos aqui um dólmen, que é uma estrutura funerária e religiosa, digamos assim, em termos mais latos, mas que antes existia lá um Um pequeno povoado, eventualmente um acampamento de populações que praticavam semi-nomadismo. Estamos aqui a falar no Neolítico, portanto elas também já praticam uma agricultura incipiente, mas que aqui, curiosamente, foram identificadas estas cabanas debaixo, sob a estrutura do monumento megalítico. Portanto, o que é uma particularidade. Depois, em termos de espólio: micrólitos, lâminas em sílex, enfim, uma série de objetos pré-históricos que ali foram encontrados no contexto funerário e que se encontram, é importante também referir isto, expostos, todos eles, na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim. É o fiel depositário, é ali que está em exposição todos estes objetos que foram aqui encontrados na Orca de Folhadal. Como também na Orca de Pramelas, que é o outro monumento megalítico de Anelas.

Também Anelas, sim.

Que também foi escavado pelo mesmo professor Sena Martinez e também por António Carlos Valera, e que também é um dólmen trapezoidal com corredor curto. É curioso que o chão da câmara tinha um pavimento com lajes em granito. Portanto, o que é curioso. Este lugar, como muitos outros, ou alguns outros dólmens aqui da Beira Alta, são reutilizados depois do Neolítico. Apesar de terem sido construídos ou no final do Neolítico médio ou no Neolítico final, estamos a falar no quarto milênio, fundamentalmente. Depois desse momento, muitos deles são reutilizados em épocas posteriores. Nomeadamente, aparecem vestígios romanos neste sítio. Aqui, neste dólmen, em particular, foram encontradas moedas romanas do século IV, do imperador Magnêncio, mas os objetos pré-históricos e talvez aquele mais distinto, mais raro encontrado, foi um braçal de arqueiro, portanto, utilizado por um arqueiro para esticar, para fazer tensão no fio onde estava a seta, e que é uma peça muito rara de ser encontrada para além dos micrólitos.

Mas esse braçal é romano?

Não. Neolítica. Estamos aqui a falar, pré-histórica.

Explica uma coisa, Jorge, isso é o quê, concretamente? O braçal é uma peça do arco ou é uma pulseira que o homem usava?

Para se puxar.

Está bem. Agora, de repente, lembrei-me deste filme do Homero e da Odisseia, e ele a puxar o arco pra conseguir pôr a corda em tensão. Pronto, já percebi. Pode ser essa peça. Neolítica, então, pré-histórica. Incrível.

Sim, é uma peça que é em pedra. E que era utilizada nesse-

Muito bem. Não sabia. Boa. Para os arcos, exatamente.

Quando é puxado, importa dizer, talvez não tenha sido muito claro. Quando ele é puxado, quando é feita a tensão e é disparada a seta, a corda do arco tem tendência a bater violentamente no braço, no pulso do arqueiro. Ora, aquela peça que está aí colocada impede que haja essa batida violenta.

É pra proteger.

Para proteger. Portanto, é uma peça que protege.

Incrível. Muito bem.

Portanto, é uma peça para uma utilização específica.

Raro de se encontrar. Exato.

Ora, os outros dólmens que eu gostaria de fazer referência é a Orca de Fiais da Telha.

Agora já vamos para o distrito de Portalegre. Exato.

Que foi escavada no final do século XIX por Maximiano Apolinário, logo em 1895. Portanto, é um monumento que já era conhecido há muito, como os outros, mas que foi escavado ali naquela altura. Depois, já no século XX, 100 anos depois, praticamente, foi também por Sena Martinez. E é um dólmen também de câmara poligonal, com nove esteios. É um dólmen também de grandes dimensões, daí o megalítico. E o espólio é muito semelhante aos outros. Estamos a falar de monumentos com a mesma cronologia. As tais pontas de seta, os micrólitos, as lâminas, as lamelas, machados de pedra polida. Contas de colar de diversas matérias. E também aqui, este monumento é do Neolítico final, mas depois tem Reutilização no período Calcolítico e na Idade do Bronze. Portanto, também são daqui muitos objetos de épocas diferentes e de momentos civilizacionais diferentes. Neste caso, o espólio está no Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, na sede do Conselho, ali em Carregal. O mesmo sucede com a Horta da Palheira, que estava dentro de uma casa muito rude que existe em Oliveira do Conde, lá numa zona de Pinhal, e que não foi encontrado ali nenhum espólio, mas também é um dólmen de câmara poligonal, provavelmente também com nove esteios. É curioso esse sítio, porque nós já falamos aqui de dólmens que estão em capelas.

Sim.

Incorporados em capelas. Aqui estava incorporado numa casa.

Ah, que isso.

Estava no interior de uma casa. Imagina.

Que incrível!

Imagina teres uma casa em que tens lá um dólmen dentro.

Ia-te perguntar isso, como é que este estava dentro da casa. Porque aquelas capelas sabemos, como em São Brissos, há vários sítios, Alcobertas, há em vários sítios. Este não sabia. E a de Santo Tirso?

A Orca do Santo Tirso, vou só fazer referência que é um monumento que também teve os mesmos exploradores, os mesmos arqueólogos que estiveram a fazer esse estudo, que andaram por aquela zona a fazer trabalhos arqueológicos durante vários anos. Importa destacar neste monumento um motivo pintado num dos esteios da câmara, que representou um sol. Portanto, os raios do sol, os raiosinhos do sol pintados nesse esteio. Nós já uma vez aqui falámos de um menir onde estava gravado um sol. O menir de Vale de Maria Pais, em Penedono, um grande menir que tem gravado um sol, aquilo que se interpretou como sendo um sol. Aqui é pintado dentro do dólmen, portanto, na câmara do dólmen, num dos esteios. E portanto, é um monumento que tem esta particularidade e que facilmente se pode visitar e que está à tua espera para tu visitares.

Muito bem.

Quanto ao espólio, o espólio está no mesmo museu que já referi também em Carregal do Sal.

O Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria.

Um belíssimo museu, não só de história, de arqueologia, mas também de etnografia, de pintura. Um belíssimo museu a ser visitado.

Muito bem, fica então esta dica pra ir a estes dois conselhos, em Nelas e depois Carregal do Sal. São pelo menos cinco Orcas, cinco no fundo destas antas, destes dólmens que podem ser visitados. E depois, por que não, também o espólio todo que eles estão e que está também exposto desde a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cândido dos Senhorinho até depois ao Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, no Carregal. Muito bem, Jorge, marcamos então encontro e uma série de viagens pra fazer e pra conhecer mais e melhor este nosso país. Muito obrigado pelas tuas dicas. Hoje ficámos com os monumentos megalíticos Nelas e Carregal do Sal. Para a semana há mais. Um grande abraço, Jorge. Obrigado.

Um grande abraço. Até para a semana.