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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.
Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.
A luz ao fundo do túnel.
Grateful that you're still here after 340 days of Beatles A Day. Here's The Doctor Away.
"Uma canção de Beatles por dia, não sabe o bem que lhe faria." Este é o lema de Moe e Amélia, duas britânicas que desde abril do ano passado, em pleno confinamento, decidiram criar uma página de Facebook em que partilham uma canção de Beatles por dia. Aqui escutamos o episódio 340. Na descrição da página escrevem: "Sabem por que decidimos fazer isto? Porque no fim, é a música que nos vai salvar." Escutamos "In My Life", uma canção dos Beatles que faz parte do álbum Rubber Soul, editado em 1965. É uma canção que começa com uma estrofe que nos transporta para 2021. Numa tradução livre: "há lugares de que me recordo toda a vida, mas alguns mudaram, alguns para sempre e não para melhor. Uns desapareceram, outros por cá ficaram." Com praticamente 12 meses passados desde a chegada da pandemia à Europa, o balanço do impacto mostra um cenário muito mais devastador face àquilo que se previa, quer a nível sanitário, econômico e até social. Mas um ano volvido, os sinais de esperança são cada vez mais. Os bons resultados deste segundo confinamento, aliado aos avanços dos planos de vacinação, permitem prever prazos para um regresso à normalidade. É natural que surja a ansiedade, mas a luz ao fundo do túnel parece estar cada vez mais visível. No Reino Unido, foi apresentado esta semana o plano para o desconfinamento. Boris Johnson falou numa estrada de sentido único para a liberdade. É um plano com quatro fases que termina com um total levantamento de restrições no próximo verão. Em Israel, com metade da população vacinada com a primeira dose, o desconfinamento começou esta semana, à boleia de um green pass, um passaporte de vacinação que permite às pessoas que já receberam a vacina, que possam frequentar diferentes espaços. Em Portugal, o plano de desconfinamento ainda não é conhecido, sabendo-se apenas que o governo pretende começar pela reabertura das escolas. Para já, o mais importante é continuar a diminuir a mortalidade e os níveis de internamentos, quer em enfermaria, quer em cuidados intensivos. Enquanto o confinamento se mantém, importa acelerar o processo de vacinação e para isso há várias estratégias em cima da mesa. Hoje falamos da possibilidade de atrasar a administração da segunda dose.
Relativamente à questão dos 80% dos 80 anos. É uma preocupação. Não tenho a certeza que podemos conseguir atingir o objetivo, face ao número de vacinas que temos. Uma das alternativas para atingir este objetivo é vacinar, é alargar o período entre vacinas e vacinar mais gente, antecipando a vacinação no conceito que é a primovacinação, de forma a conseguirmos antecipar a vacinação a cerca de 200 mil pessoas.
O vice-almirante Gouveia e Melo, coordenador da task force para o plano de vacinação contra a Covid-19 em Portugal, assumiu esta semana que está em cima da mesa a possibilidade de atrasar a administração da segunda dose e que isso pode permitir vacinar mais 200 mil idosos até o final de março. Miguel Castanho é investigador do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina de Lisboa e ajuda-nos a perceber quais os riscos e benefícios desta estratégia. Estou sim?
Está.
Professor Miguel Castanho?
Sim. Ouvi-lhe bem.
Muito boa tarde. Podemos—
Posso tirar o vídeo?
Pode tirar o vídeo. Sim, para rádio não é necessário.
Não é necessário.
Antes de mais, professor Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina de Lisboa. Muito obrigado pela disponibilidade. Sei que por estes dias deve estar também com muito trabalho.
É verdade, por várias razões, não só porque fazemos investigação de medicamentos contra o vírus, nomeadamente contra as consequências neurológicas que o vírus pode ter. Portanto, estamos a tentar desenvolver medicamento que chegue ao cérebro e inactive aí assim o vírus também. Não só isso, mas porque temos que acompanhar a evolução da informação que vai aparecendo e neste momento aparece a um ritmo frenético. E, portanto, é preciso estar a par de tudo que vai acontecendo no resto do mundo e mesmo assim controlar o que fazemos no nosso próprio laboratório.
Claro que sim.
Portanto, têm sido dias agitados.
Bem sabemos. E quero olhar pra uma informação recente. Claro, esta semana o coordenador da task force admitiu que atrasar esta segunda dose em duas semanas, nas vacinas que exigem duas doses, pode permitir vacinar mais 200 mil pessoas. Eu gostaria de olhar consigo para as diferentes estratégias de vacinação, com especial destaque para este atraso na administração da segunda dose. Como é que vê esta possibilidade?
São duas opções legítimas, isto é, manter o plano tal como ele está concebido, tal como as vacinas foram testadas, ou então tentar levar o benefício das vacinas a mais pessoas numa primeira dose Retardando a segunda dose para outras pessoas. É uma espécie de, em vez de ser repartir o mal pelas aldeias, é repartir o bem pelas aldeias. De qualquer forma, é preciso termos a noção de que a vacinação completa, tal como a concebemos, só se concretiza com a segunda dose. Isto é, o fato de as pessoas terem uma segunda dose que surge mais atrasada do que estava previsto, implica que a sua proteção total também surge mais atrasada.
Sobre isso, queria olhar apenas aqui, por exemplo, para um estudo feito em Portugal pela Gulbenkian, que diz que nove em cada 10 profissionais de saúde em Portugal desenvolveram anticorpos contra a Covid-19, contra o SARS-CoV-2, logo nas três semanas seguintes à administração da primeira dose da vacina da Pfizer. Ou seja, nove em cada 10, 90%. Isto não nos dá dados que permitem chegar à conclusão de que só com uma dose conseguimos chegar a um nível de imunidade já bastante positivo e que possa, por isso, permitir esse alargamento ou esse atraso da toma da segunda dose?
Não há dúvida que após a administração da primeira dose, esperando o tempo necessário, o sistema imunitário começa logo a reagir e começa a ganhar alguma proteção. Só que é necessária uma segunda dose por alguma razão. É porque esse grau de proteção não vai tão longe quanto possível. Isto é, não cresce tanto quanto possível. É necessário uma segunda dose para levar ao máximo a proteção que a vacina pode conferir. E isso aí não há dúvida nenhuma. Mas também não há dúvida nenhuma que aquilo que foi estudado, aquilo que foi testado e aquilo que é absolutamente garantido como facto, e que nós podemos, portanto, certificar a partir de tudo o que foi feito, é que tudo foi feito com as doses a serem administradas num determinado intervalo. Portanto, quando fazemos o espaçamento, quando adiamos a segunda dose, podemos até tentar inferir o que vai acontecer. Podemos então basear-nos nesses estudos de anticorpos para tentar prever o que vai acontecer em termos de imunidade. Mas não existe o estudo real, factual e absolutamente inamovível, que nos diga em que situação estão as pessoas para quem foram administradas duas doses mais passadas. Temos essa garantia para a situação que já foi testada, que é aquele espaçamento.
Mas aquilo que nos dizem outros países e aquilo que já acontece noutros países, como por exemplo, Israel, um dos mais midiáticos, que decidiu atrasar a toma da segunda dose, administrou a primeira e depois prolongou bastante a toma da segunda e que com isso conseguiu vacinar quase metade da população, chegar a níveis de imunidade. Diga.
Dito assim, parece que faz sentido. Porque está a assumir que as pessoas estão vacinadas com a primeira dose. A vacinação em si atinge-se com a segunda dose, não com a primeira. Isto é, as pessoas começaram a ser vacinadas ou iniciaram o seu processo com essa primeira dose, mas as pessoas não estão vacinadas na verdadeira acepção do termo após a primeira dose. Elas precisam da segunda, porque só com a primeira dose ficam aquém da proteção que a vacina pode conferir. Isso quer dizer que aquelas pessoas a quem só foi administrada uma dose e que não lhes foi dada a segunda dose no tempo devido, ficaram com um grau de proteção menor. Isto é, deu um determinado grau de proteção parcial a mais pessoas, mas também deixou mais pessoas desprotegidas, digamos assim, durante um tempo maior, porque não lhes deu a segunda dose no tempo devido. Portanto, é legítimo qualquer uma das opções.
Primeiro pergunto qual é que acha mais legítimo: seguir aquilo que é a indicação que temos atualmente ou olhar para todos estes cenários e para os dados que vão surgindo, apesar de não serem consolidados, como referia, e assumir essa segunda dose atrasada? Qual é que acha que devia ser neste momento a estratégia?
Eu compreendo a estratégia de vacinar mais pessoas com a primeira dose e, portanto, deixar mais pessoas a descoberto, outras pessoas a descoberto, ainda sem a segunda dose. Eu percebo isso e percebe-se o que se quer alcançar com isso. Agora, eu acho que a única coisa que nós temos de factual, de absolutamente certo e baseado em dados que são irrefutáveis, é aquilo que vem da administração das duas doses naquele intervalo. E, portanto, eu diria que nesta altura, em que nós temos que ser muito rigorosos, nós não podemos deixar espaço ao improviso. Nós estamos com um assunto muito sério em mãos. Nós temos que cumprir um calendário estrito e, portanto, eu preferiria não deixar lugar ao improviso.
Se estivesse no lugar do vice-almirante Gouveia e Melo, não atrasava a segunda dose, não tomava essa decisão de atrasar a segunda dose.
Não, não improvisava nesta altura. Mantinha um grande rigor sobre aquilo que está testado, aquilo que é garantido Repare que os ganhos de atrasar a segunda dose, portanto, antecipando a primeira para algumas pessoas, não são ganhos até coletivos. Por quê? Porque algumas pessoas ganham alguma proteção, mas outras pessoas não ganham a proteção total e, portanto, a soma das proteções na população inteira, que é aquilo até que nos vai proteger coletivamente e que nos aproxima da imunidade do grupo, isso não tem um ganho. Aquilo que existe é que algumas pessoas ganham alguma proteção à custa do adiamento da proteção total para outras pessoas, o que é legítimo, mas do ponto de vista coletivo, se somar as proteções das pessoas todas, sendo que é uma proteção parcial, no fundo, o somatório vai ser o mesmo, em termos coletivos. E isto até nos pode dar a ilusão, uma vez que há mais pessoas que começaram a vacinação, que nós estamos mais próximos da imunidade do grupo e alcançamos a imunidade do grupo mais rápido desta forma. Mas não é verdade. Isto é, nós não ganhamos em termos de estratégia coletiva. A única coisa que está em causa ao fazer isso é redistribuir aquilo que é um bem, que é alguma proteção, por mais pessoas. Do ponto de vista dos indicadores, também acredito que é sempre mais vistoso dizer que já se vacinou em primeira dose um número maior de pessoas. Mas as pessoas que não foram vacinadas a tempo com a segunda dose vão precisar ser vacinadas com a segunda dose de qualquer maneira.
Claro. Mas Miguel Castanho, que dados é que precisava ter para considerar que poderia efetivamente ser benéfico e uma boa estratégia atrasar a toma da segunda dose?
Precisava ter os testes tal como eles foram feitos, para este espaçamento entre as duas doses, precisava repetir esses testes para um espaçamento maior entre as duas doses. Mas repare que quando os testes foram planeados, os testes clínicos, para um determinado espaçamento entre as duas doses, aquele espaçamento foi determinado por alguma razão. Era porque havia dados prévios anteriores que levavam a crer que aquele espaçamento seria o melhor. Tal como, por exemplo, agora temos a vacina da Johnson & Johnson, que é uma vacina de uma só toma, até é uma vacina que tem um mecanismo de ação comparável à vacina da Oxford, por exemplo, portanto nada as distingue intrinsecamente pelo modo de ação. Elas são semelhantes no modo de ação. Só que os dados antes dos testes e o desenvolvimento da vacina antes dos testes clínicos foram orientados de forma a ter um produto, neste caso, uma vacina, que fosse adequada para uma só dose. E, portanto, quando foram feitos os testes, os testes foram feitos para uma só dose. Nas vacinas que têm duas doses, os dados preliminares todos antes dos testes clínicos, antes dos testes em humanos, são dados analisados, são dados processados e o produto é desenvolvido para um determinado espaçamento entre as duas doses. Tudo foi feito em função daquele período, daquele distanciamento entre as duas doses. Quando se entra na fase de testes, vai se certificar que aquele espaçamento entre as duas doses é o correto e leva a uma vacinação eficaz. Mas nessa altura já está escolhido o espaçamento entre as duas doses. Tudo foi feito com aquela intencionalidade. Aquele espaçamento não é só um detalhe do desenvolvimento. Aquele espaçamento é um fator crítico e foi testado daquela forma. Aquela formulação foi testada daquela forma. Portanto, nós só podemos ter um grau de certeza equivalente se fizéssemos testes semelhantes, o que obviamente, neste momento, não é prático. Não é prático, porque demora muito tempo. Seria quase como uma vacina nova.
Doutor Miguel Castanho, estamos neste programa "Luz ao Fim do Túnel" e olhando para a vacinação e para a forma como tem avançado, o que espera dos próximos meses e quando é que acha que podemos retomar alguma normalidade?
O que eu espero dos próximos meses é que avance o plano de vacinação, é que cheguem novas vacinas, algumas delas que estão com aprovação muito recente e nomeadamente esta vacina, que é de uma dose única, vai permitir, se a vacina estiver disponível em quantidade suficiente, vai permitir um impulso no plano de vacinação, porque é só de uma dose. Portanto, nem teremos esta discussão do espaçamento entre as duas doses. Eu espero que depois ainda venham a surgir outras vacinas. Espero algo muito importante, que já começou a ser finalmente anunciado, que é a adaptação das vacinas existentes para as novas variantes. Aliás, creio que a Moderna já anunciou que ia começar a fazer a adaptação das vacinas para as novas variantes. E é importante que esta adaptação seja feita já e que os lotes de vacinas que começarem a ser produzidos sejam já adaptados para as novas variantes, porque estamos numa corrida contra o vírus, conosco a vacinar e o vírus a criar mutações e temos também notícias de que estas novas variantes já começaram a ter segundas mutações e, portanto, já há variantes de variantes e o vírus vai continuar a evoluir. E nós temos que vencer o vírus nesta corrida com o vírus a mudar e nós a vacinar. E espero que consigamos. Agora, espero também que não se criem ilusões como se criou no No Natal, em que coincidiu uma época festiva, coincidiu uma ideia de fim de ciclo, porque era final do ano e coincidiu uma ideia de que estava tudo prestes a estar controlado, porque se tinha iniciado a vacinação. Espero que não se repita um período deste tipo, que nos leve a baixar a guarda e a fazer com que o vírus tenha de novo condições para prosperar. E no meu espírito está muito concretamente o verão, onde a ideia de otimismo estival, onde a ideia de que poderemos estar a atingir a imunidade de grupo e também alguma ideia de fim de ciclo, porque para nós o verão tem um valor psicológico muito grande. Termina o ano letivo, vamos de férias e depois é que se recomeça. E eu espero que o verão não seja o novo Natal e que tenhamos aprendido qualquer coisa. E que se fizermos tudo certo, isso estou convicto, se fizermos tudo bem, se o plano de vacinação correr bem, se nós não baixarmos muito a guarda, se conseguirmos adaptar as vacinas, aparecerem novas vacinas, eu creio que o próximo inverno será muito mais calmo do que este, é pelo menos a minha esperança.
Miguel Castanho acredita que é na vacina que pode estar a chave para um total regresso à normalidade. Mas é preciso paciência, resistir ao confinamento e às regras que podem surgir depois, para conseguir chegar mais cedo ao fim deste túnel. Como sabem, estamos a assistir a uma redução muito significativa do número de casos todos os dias.
The Covid-19 pandemic has changed our world in ways we could never have imagined. É a altura ideal para antecipar a vacinação das pessoas mais frágeis.
Não é por acaso que se procurou evitar o encerramento de escolas até ao limite do possível e que o governo também já disse que é precisamente pelas escolas que recomeçará o desconfinamento.
Monday, the 8th of March, we will begin step one. And schools and colleges across England will reopen and teaching in classrooms can start again.