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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.
Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.
A luz ao fundo do túnel.
Uma canção de coroas e lágrimas, escrita pela pandemia de Covid-19. O que escutamos é uma máquina de música que retrata a situação pandémica na Suíça. Uma pequena folha de papel com uma pauta musical representa a fita do tempo e começa a 18 de fevereiro de 2020. A batida, a nota que marca o tempo nesta canção, representa cada dia desde que a SARS-CoV-2 chegou à Suíça. Todas as outras notas representam vítimas. A escala sobe e desce em função da curva da mortalidade na Suíça ao longo desta crise pandémica. A composição é de Simon Roullier, um jornalista suíço do jornal "Tage-Anzeiger", que pegou numa antiga máquina de música e decidiu compor esta canção. É um retrato musical da curva da mortalidade por Covid-19 na Suíça. Enquanto que na primeira vaga se ouvem algumas notas soltas e alguns acordes, na segunda vaga, o rápido crescimento da mortalidade resulta na interpretação de todas as notas de uma oitava de piano. Escutamos aqui, claramente, a segunda vaga da pandemia na Suíça, através de uma caixa de música. Mas Simon fez também uma versão para piano. A fita do tempo, e com isso a fita da pauta musical, termina no passado mês de março e com a curva da mortalidade em queda. Simon Roullier escreve: "Vamos esperar que fique por aqui", mas infelizmente não fica. No ano que seria de esperança, arranca o segundo trimestre e logo com um novo volte face quanto à segurança das vacinas. Depois das dúvidas quanto ao fármaco da AstraZeneca, dúvidas que foram esclarecidas pelos reguladores, agora, tanto a Agência Europeia dos Medicamentos como a Organização Mundial de Saúde, dizem que encontraram ligação direta entre esta vacina e os coágulos sanguíneos que surgiram em algumas pessoas que receberam o fármaco. Ainda assim, as duas entidades mantêm a confiança nesta vacina, tal como em todas as outras que estão aprovadas. Em Portugal, o desconfinamento avança. Fase dois, com mais níveis de escolaridade a regressar ao ensino presencial, a reabertura de esplanadas, de museus e também de lojas até 200m² com porta para a rua. Um passo em frente no regresso à normalidade, mas com os números da situação pandémica novamente a subir. Os governantes apelam a que sejam cumpridas as medidas em vigor e também os cuidados sanitários. Passa já mais de um ano desde que se iniciou a viagem neste túnel, com dois confinamentos prolongados. É possível medir o impacto em toda a população, mas no episódio de hoje damos destaque aos mais jovens.
"The pandemic has probably affected my life mostly in terms of education and my job." "Before lockdown, I was at university. I was in my last term and I had a lot of work going on, but then it all stopped." "I think it's going to be a struggle next year with trying to learn new things without being able to speak to my tutors in person."
Escutamos relatos que chegam do Reino Unido. O governo britânico convidou vários jovens a descrever como foram afetados pela pandemia. Não a nível de saúde, mas a nível social, educacional, profissional e psicológico. A nível de saúde, os dados mostram que os jovens são menos afetados. Apesar de ficarem infectados como qualquer outra pessoa, sofrem efeitos menos graves da Covid-19 e a mortalidade é muito mais reduzida. Já nos outros parâmetros, esta faixa etária foi das que mais impacto sofreu. As perspetivas de futuro ficaram em suspenso e reina um clima de incerteza. Sofia Ramalho é vice-presidente da Ordem dos Psicólogos e faz parte de um grupo de trabalho criado pelo governo para responder ao impacto da pandemia na aprendizagem. Hoje, ajuda-nos a perceber como a pandemia de Covid-19 afetou a população mais jovem.
Estou?
Está sim. Olá, Sofia Ramalho.
Olá.
Tudo bem?
Sim, sou eu mesma. Bom dia.
Bom dia. Vamos então falar sobre jovens neste episódio da Luz ao Fundo do Túnel. Como sabemos, os jovens são menos afetados a nível de saúde por esta pandemia, têm sintomas menos graves, acabam também por ter menos mortalidade nestas faixas etárias, mas são muito afetados por esta pandemia. Já vamos com mais de um ano desta situação pandémica, com dois confinamentos. Doutora Sofia Ramalho, como é que vê os jovens neste momento, a nível social, a nível psicológico, neste momento já de uma longa pandemia?
Antes de mais, obrigada por esta oportunidade de estar aqui a participar consigo na rádio e com os nossos ouvintes. Eu gostava de chamar a atenção para uma questão que me parece importante, que é: nós temos vindo a falar muito da pandemia e daquilo que pode vir a ser o futuro próximo e o futuro mais adiante, mas nós não podemos esquecer de onde vimos e qual era o estado da arte pré-pandemia. Nós sabemos que pelo menos um em cada cinco portugueses já apresentava um problema de saúde psicológica. Tínhamos índices de ansiedade e de depressão com números, no caso da depressão, por exemplo, acima daquilo que nós observávamos na Europa. E isto também do ponto de vista das crianças e dos jovens, também se repercute. Um em cada cinco crianças ou jovens também manifestavam problema de saúde mental, que se traduzia depois em problemas de comportamento, problemas sociais, uma diminuição até do próprio potencial pra aprendizagem e do potencial emocional para resolver os problemas, e outro tipo de problemas, como o absentismo, a questão do insucesso escolar e do abandono escolar. E é importante dizer isto porque estamos aqui a falar de saúde psicológica e de saúde mental, que tem sido um dos grandes desafios para a saúde pública no momento. Nós sabemos que, de fato, os jovens estão menos afetados do ponto de vista da saúde física, mas não poderemos dizer, eventualmente, o mesmo relativamente às questões relacionadas com a saúde psicológica e com o bem-estar dos jovens, porque nós sabemos que nesta fase da pandemia, houve um agravamento das situações de ansiedade, de depressão, também de vivências associadas a mais aborrecimento, mais irritabilidade, mais preocupação dos jovens com os seus familiares e com os seus amigos, mais experiências de solidão. Por exemplo, há um estudo até mais recente que nos diz que um em cada três jovens tem experimentado a vivência da solidão. E isto traz-nos aqui outras questões em que pensar.
Estamos a falar de uma faixa etária que está constantemente em início e em fim de ciclo, mesmo a nível escolar, claro, no ciclo escolar, mas depois com decisões sobre o futuro, entrada na universidade, entrada no mercado de trabalho, saída de casa dos pais. Portanto, é uma faixa etária com constante mudança, com constante fim de ciclo, e que todas essas situações, de repente, ficaram em suspenso, principalmente para os jovens que estavam nessas idades específicas de fim ou de início de ciclo.
Sim. Imagine jovens que estão agora no primeiro ano da universidade, que no ano passado, com o início da pandemia, estavam no 12º ano, não puderam, no fundo, fazer o encerramento, a despedida, a viagem, o jantar ou convívio de fim de ano e de despedida dos seus amigos. Entraram na universidade, tendo passado por situações de constrangimento e de ansiedade face aos exames, alguns deles não puderam viver as experiências de acolhimento, que muitas vezes a praxe, enquanto rotina, ajudaria, e praticamente ainda não tiveram a oportunidade de estar presencialmente com os novos colegas. Não é o único caso. Nós estamos a falar de situações de jovens que enfrentam transições da vida, mudanças de ciclos de ensino, mudanças de escola, entrada na universidade, entrada no mercado de trabalho, e estas exigências das mudanças de ciclos e de ambientes são exigências extra, que aumentam também as dificuldades dos jovens em lidar com estes constrangimentos. E mesmo quando se trata de acontecimentos de vida positivos, por exemplo, a entrada no mercado de trabalho, a entrada na universidade, é um acontecimento positivo, mas que depois não é percepcionado exatamente da mesma forma, ou não é sentido exatamente da mesma forma, porque desencadeia fatores de estresse extra e até um sentimento de que para estar bem e para estar feliz, agora é mais difícil. E portanto, isto traz aqui exigências. Depois nós temos também situações de jovens que, inclusivamente, perderam um pouco da sua autonomia e da sua independência.
Por terem que ficar confinados?
Por terem que ficar confinados, exatamente. Vamos ver, por exemplo, estudantes universitários que estudavam fora de casa e que passam a estar a tempo inteiro novamente na família, ou aqueles que estavam já com planos de início de vida e passam a perder aqui alguma autonomia. E isto também não é fácil para os jovens. Por outro lado, depois, há outro tipo de circunstâncias que causam estresse, as vivências das situações de aprendizagem. E se no início foi, de alguma forma, se calhar, com algum entusiasmo que adquiraram as aulas online, com o tempo e com a saturação das aulas online, com a saturação da falta de convívio presencial com os amigos, com os pares, tudo isto faz com que a desmotivação aumente, o entusiasmo diminua e o sentimento de exclusão social até.
Sim, eu queria pegar nessa questão do ensino, porque para além de vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, faz também parte de um grupo de trabalho recém-criado pelo governo para responder ao impacto da pandemia na aprendizagem. E de fato, há aqui um impacto direto ligado a esta ausência de contato a nível social e de distanciamento do espaço escolar e de ter ensino à distância. Há aqui um impacto direto na aprendizagem dos alunos associado a esse ensino à distância também.
Sim, há um impacto direto, porque a saúde psicológica ou o bem-estar psicológico, o sentir-se capaz de enfrentar as situações, de lidar com as adversidades, é também importante para que o jovem se sinta bem e esteja mais disponível para aprender, esteja mais disponível do ponto de vista emocional para se envolver de forma motivada com as diferentes tarefas da escola. E portanto, nós temos aqui dimensões psicológicas que são fundamentais para que a aprendizagem aconteça. De maneira que é um facto que nós não podemos só centrar-nos na questão da recuperação das aprendizagens ou não podemos falar de recuperação das aprendizagens, sem falarmos da recuperação social e emocional dos jovens e das suas famílias, porque houve mudanças significativas ao nível das suas rotinas e das suas vidas.
E como é que se faz essa recuperação?
É importante, em primeiro lugar, que as próprias estruturas, nomeadamente as escolas, possam ter equipes preparadas para acolher os jovens, para, por exemplo, trabalhar com os próprios docentes como é que este acolhimento pode ser feito, como é que podem ativar a sua escuta face àquilo que foram as experiências e que estão a ser as experiências dos jovens e das suas famílias, criar um ambiente social e emocionalmente estável dentro das escolas, numa perspectiva de cultura de escola, que facilite, de facto, esta reintegração. E então, depois trabalharmos também aqui a dimensão do desenho de metodologias específicas de ensino para que possam ser motivadoras e dinâmicas e aproveitar também aqui outras competências dos jovens. É importante também dizer que se fala muito das aprendizagens perdidas, mas nós ainda não temos, apesar de dados que possam ter sido lançados, que têm que ser sempre contextualizados neste grande acontecimento de vida provocado pela pandemia, também é importante nós percebermos que há aqui outras competências que se calhar foram desenvolvidas durante este tempo, nomeadamente mais autonomia face à gestão das tarefas de aprendizagem ou mais criatividade, outras competências que foram desenvolvidas durante este período de tempo e que é preciso dar tempo a que estas outras competências possam se manifestar. São as tais aprendizagens alternativas que acontecem e que não correspondem de forma exata àquilo que são os conteúdos curriculares, mas que vão contribuir depois para a melhoria das aprendizagens. Mas é preciso dar tempo e respeitar o ritmo.
Claro, e só com o tempo é que vamos também perceber esse verdadeiro impacto também desta pandemia, dos confinamentos nesta população mais jovem. Mas mesmo assim, tradicionalmente, estamos a falar de uma faixa etária que acaba por conseguir adaptar-se e também recuperar mais rapidamente.
Nós temos aqui diferentes tipos de situações. Porque nós temos situações em que aqueles que apresentavam algumas vulnerabilidades psicológicas ou sociais prévias, podem ter mais dificuldade agora neste retomar e, portanto, em ultrapassar esta fase. De qualquer das formas, é também importante salientar a resiliência dos jovens, porque temos muitas experiências positivas de jovens que, por exemplo, durante este período, conseguiram construir níveis mais elevados de resiliência, de capacidade para lidar com as situações de estresse e ultrapassar estes acontecimentos exigentes, nomeadamente através até de atividades solidárias que desenvolveram, de participação em voluntariado ou em associativismo, que no fundo permitiram o desenvolvimento de competências, por exemplo, de cooperação, permitiram a experiência da generosidade e do sentimento de gratidão, e permitiram também desenvolver um propósito de vida durante este período de pandemia, trazendo aqui mais esperança, porque também há aqui muitos jovens que com este papel mais ativo que tiveram do ponto de vista social, sentiram-se mais úteis e contribuíram com a sua criatividade, com as suas ideias. E é importante também chamarmos a atenção para estas experiências e para aquilo que foram boas práticas desenvolvidas pelos próprios jovens.
Sim. Sofia Ramalho, estamos a chegar ao final da nossa conversa. Costumamos terminar a olhar para o futuro. Estamos neste mês de abril de 2021, já com mais de um ano de pandemia e com esses dois confinamentos. A vacinação parece que vai ser neste mês que vai acelerar. O que espera dos próximos meses quanto a esta situação pandémica e quanto a esta viagem neste longo túnel que estamos a atravessar?
Miguel, acima de tudo, acho que é uma palavra de esperança que nos traz a questão da vacinação e outros dados que nós vamos obtendo. Por outro lado, também é preciso que hajam ações concertadas e integradas por parte dos diferentes atores, governo e por parte das próprias escolas, no sentido de que haja um plano de ação integrado e concertado que permita atender às questões, neste caso, da saúde psicológica e do bem-estar dos jovens, do desenvolvimento social e emocional dos jovens, que possa retirar o potencial máximo dos jovens, tendo em consideração a centração naquilo que foram as boas experiências e as boas práticas dos jovens, e permitir que, mesmo dentro das diferentes estruturas, haja acesso a serviços que possam responder às necessidades de mais saúde psicológica por parte dos jovens, nomeadamente serviços de psicologia nas escolas, serviços de psicologia nos centros de saúde e centros hospitalares, que permitam respostas integradas às necessidades dos jovens e de toda a população, porque a dimensão psicológica é uma dimensão muito importante na vida das pessoas e para a produtividade, seja a nível acadêmico, seja a nível laboral de todos. Portanto, é muito importante que se cuidem e se desenvolvam estratégias muito concretas e concertadas intersectorialmente, permitindo o acesso de todos a cuidados de saúde psicológica.
Sofia Ramalho vai continuar a trabalhar junto da população mais jovem. Foram dois confinamentos e já uma longa pandemia, mas a luz surge ao fundo do túnel e com a vacinação a acelerar, espera-se o fim desta travessia atribulada.
O que eu mais desejaria? Eu desejaria que fosse a última renovação do estado de emergência. Naturalmente, vamos desejando que abril corra bem. Se toda a gente cumprir as regras, não há problema nenhum em a gente estar nas esplanadas. Tem sido uma desgraça para nós, para o nosso ramo. E agora com os serviços de esplanada esperamos trabalhar mais um bocado. Todos os estados membros da União Europeia devem respeitar as decisões da Agência Europeia de Medicamento.
As vacinas vão nos ajudar na luta contra a Covid e precisamos continuar a usar essas vacinas.