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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.

Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.

A luz ao fundo do túnel.

This is for everyone who's had to teach during lockdown. This is the "Lockdown Teacher Blues". "In 2020 and 21, we got sent home to learn on our bums."

Uma canção para todos os professores que tiveram de dar aulas durante a pandemia. Um blues por parte deste professor norte-americano, com uma letra focada nas dificuldades em comunicar com os alunos e de dar aulas à distância. O ensino à distância é um dos principais desafios levantados por esta pandemia. Professores e alunos tiveram que se adaptar a uma nova realidade para tentarem manter a atividade escolar. Ainda assim, todos concordam: não há como superar o ensino presencial. Com a situação pandémica a abrandar, em Portugal, o governo avança com o plano de desconfinamento e as escolas servem de ponto de partida para este alívio das regras restritivas. Ao mesmo tempo, pela Europa, os números sobem em vários países e já se fala mesmo em quarta vaga. Um aviso para o que pode acontecer se o desconfinamento não for feito com o máximo de cuidados. A pandemia chegou à Europa há pouco mais de um ano. Com as vacinas, o fim parece estar à vista. Mas no futuro, como nos vamos lembrar desta crise? Hoje, olhamos para os registos que estão a ser feitos.

Um novo coronavírus, Covid-19, desafia-nos a todos. Precisamos de estar prontos para enfrentar esta ameaça juntos. Peço a todos que se cuidem, que sigam os conselhos médicos e científicos e que cumpram passos simples e práticos, como limpar as mãos e outras recomendações das autoridades de saúde. Que estejam informados e atualizados com as diretrizes de governos e da Organização Mundial da Saúde, e que sejam gentis para assegurar que ninguém é discriminado neste momento. Juntos, vamos lutar de forma inteligente contra a Covid-19 em solidariedade como Nações Unidas. "As United Nations. Thank you."

No início de março de 2020, António Guterres, secretário-geral da ONU, deixava conselhos para enfrentar a pandemia, que na altura era ainda desconhecida por todos nós. Já passou um ano e muito mudou. Mas afinal, no futuro, como vamos recordar esta crise? O Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto quer responder a essa pergunta. Iniciou um projeto para recolher materiais e histórias associadas à pandemia. A ideia é criar um repositório que permita contar, no futuro, como se viveu esta crise. Rita Gaspar é a curadora deste projeto.

Estou?

Estou, sim. Boa tarde.

Sim, boa tarde.

Rita Gaspar?

Exato.

Fala Miguel Cordeiro, da Rádio Observador. Falámos.

Tudo bem. Falámos, sim.

Rita Gaspar, obrigado por se juntar a nós aqui na Luz ao Fundo do Túnel. Vamos falar sobre este projeto. O Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto quer contar a história da Covid-19 às próximas gerações, podemos dizer assim. E, portanto, começa a recolher materiais para formar um arquivo, um repositório. Antes de mais, gostaria de perceber como é que surgiu esta ideia.

Em março do ano passado, de 2020, quando Portugal praticamente fechou e muitos de nós viemos para casa trabalhar. Eu, especificamente, trabalhando no museu, fui ficando atenta. Como é que a comunidade portuguesa e um pouco por toda a Europa e pelo mundo, nós, as várias comunidades, rua a rua, cidade a cidade ou mesmo país a país, íamos conseguindo dar resposta a este grande problema, a esta pandemia, este problema de saúde pública. E eu penso que é um pouquinho inato. Qualquer curador de museu começa logo a pensar como é que vai registar este momento que efetivamente é único nas nossas vidas.

E começaram logo a recolher materiais nessa altura?

Efetivamente, em março ainda não, portanto a ideia começou a germinar e foi apenas em maio que começámos com este projeto. Claro que internamente primeiro falámos com a equipa reitoral da universidade para saber se este projeto tinha pés para andar, que acolheu a ideia com grande agrado, como é óbvio. E foi a partir de maio que iniciámos os contactos, efetivamente, primeiro dentro da nossa comunidade, dentro da Universidade do Porto, para angariar alguns materiais que estavam a ser ou recolhidos ou produzidos, sobretudo para a proteção à Covid. Ao vírus.

Sim.

Até porque a Universidade do Porto foi também pioneira e esteve muito envolvida na angariação de material que pudesse ser entregue em meio hospitalar para proteção. Material esse que no início da pandemia faltava um pouco por todo lado.

Sim. E então desde maio até agora, o que já conseguiram recolher?

Efetivamente, os contactos começaram em maio. Nós temos feito contactos a nível nacional, muitas entidades nacionais, para além da nossa universidade, de várias faculdades na nossa universidade, e também fizemos alguns contactos internacionais. O nosso foco é sobretudo que respostas é que nós desenvolvemos Formalmente ou informalmente, desenvolvemos para esta pandemia. A nossa coleção não se foca tanto nos diários que foram feitos em casa, nos desenhos que as crianças realizaram quando estavam confinadas, mas sim nesta resposta, por vezes até mais empresarial ou desenvolvimento de novas soluções ou adaptação de outras soluções preexistentes.

Portanto, a mobilização de universidades e do setor empresarial, a disponibilização que houve nessa altura para ajudar a responder à pandemia.

Também. E mesmo a resposta informal, mesmo a vizinha do lado que fez máscaras para a própria família ou para a família do vizinho, os grupos de avós ou outro qualquer grupo informal que se organizou e que fez máscaras, cógulas, viseiras. Todas estas organizações, até informais, diria, também nos interessam e é por aí que temos andado. Temos feito os contactos, já conseguimos recolher bastantes máscaras, bastante equipamento de proteção individual. Alguns que demonstram efetivamente esta mudança do tecido empresarial. Por exemplo, temos algumas empresas do centro do país, da zona Oeste do país, que trabalhavam com a cortiça, faziam os seus produtos normais em cortiça e de um momento para o outro começaram a produzir máscaras. Conseguimos contactá-las e recolhemos objetos que são indicadores efetivamente desta alteração, desta mudança. Conseguimos ter, por exemplo, também máscaras em plástico transparente, que são tão úteis até para a comunicação entre a comunidade surda. Mais uma vez, uma empresa que trabalhava com moldes, que não tinha nada a ver com isto, e que alterou a sua produção para produzir estas máscaras também. Temos também contactos feitos, por exemplo, a empresas que alteraram a produção de cotonetes para zaragatoas. Não nos podemos esquecer que há um ano havia muitas falhas de abastecimento em Portugal. Hoje já não, hoje já temos os materiais acessíveis, mas há um ano, quando nós começámos esta recolha, havia falta de material em todo lado. Lembro-me inclusive que as primeiras empresas que começaram a produzir máscaras sociais em Portugal não tinham sequer aquele clipezinho que nos prende o nariz. O clipezinho de metal não era produzido. Portanto, tiveram que se adaptar a fazê-lo.

Esta recolha que estão a fazer, está a ser feita apenas nesses contactos com empresas e com organizações, ou estão também a pedir à população que vos ajude nesta recolha de material?

Numa primeira fase, efetivamente, nós não fizemos um apelo à população. Contactámos mais as empresas e mesmo as entidades que ajudaram, dentro da academia ou outras, que ajudaram no desenvolvimento destas soluções. Temos também os testes, por exemplo, de ADN e temos estado a fazer contactos para obter outro tipo de material. Temos também material produzido pelas comunidades de makers em impressões 3D. E numa primeira fase, efetivamente, não contactámos a comunidade, não fizemos um apelo ao cidadão comum, que é uma coisa que gostaríamos de começar agora a fazer. Eu acho que efetivamente, se alguém sentir que tem em sua casa ou que produziu algum material que possa ter interesse e que possa ser visto no futuro como uma solução para esta crise pandémica, acho que sim, que nos pode contactar e se tiver interesse, falar conosco e deixar o seu material no nosso museu.

E portanto, basta contactar.

Será o próximo praça dar. O próximo praça dar será esse.

Basta contactar a Universidade do Porto. Este é um repositório que começa a ser criado ainda em plena pandemia, portanto, estão a registar a história ainda com a história a decorrer. Este é um trabalho que pode durar ainda vários meses, uma vez que ainda estamos nesta situação pandémica.

Nós, apesar de termos começado a recolha em maio de 2020, consideramos que este projeto está quase no início. Porque efetivamente falta recolher muito material. Nós chegámos a contactar a comunidade de makers que desenvolveu na Itália os projetos para impressão de válvulas, não sei se se lembram desse caso, que em abril faltavam em todos os hospitais italianos. Nós vamos receber os planos desenvolvidos por eles e é exatamente por aí que nós queremos seguir. Nós queremos agora fazer cada vez mais contactos para recolher o máximo de material tipologicamente distinto. Desde o produzido basicamente para nossa proteção individual, mas também para desenvolvimento de testes ou até protótipos feitos. Conheço outros casos aqui dentro da Universidade do Porto, outros protótipos que foram desenvolvidos para proteção de doentes em meio hospitalar, mas que não têm diretamente a ver com a primeira fase da pandemia. Há outras dificuldades que agora se levantaram, se reconheceram, para as quais as soluções continuam a ser desenvolvidas. Apesar de termos começado há um ano, praticamente há um ano, não tanto, mas praticamente há um ano, nós temos neste momento novos desenvolvimentos de novas soluções. Estamos sempre a acrescentar esta coleção e percebemos que cada vez haverá mais materiais distintos.

E com tantas mudanças que temos tido no último ano, certamente vão surgir outros materiais que possam interessar para este repositório também. Rita, a ideia é depois, no futuro, poder abrir também uma exposição ao público sobre o que foi, o que está a ser esta pandemia?

Temos falado um pouco sobre isso. Não estava na premissa original da recolha da constituição da coleção, mas efetivamente está em cima da mesa essa hipótese. Achamos que ainda é um pouco cedo. Eu acho que ainda estamos muito aquento nesta pandemia. E nesta fase estamos, sobretudo, a viver muita saturação. Sentimos a população muito saturada, o que nós queremos é sair de casa, já não queremos ouvir falar de pandemia. Mas efetivamente eu acho que é um plano que está em cima da mesa. Será até interessante articular as várias coleções que estão a ser constituídas no nosso país. Dentro da nossa universidade, o Museu da Faculdade de Engenharia também está a constituir a sua própria coleção Covid, mais baseada nos projetos desenvolvidos internamente, portanto projetos realizados dentro da Faculdade de Engenharia. E temos vindo até a conversar e a fazer algum alinhamento de recolha. Portanto, será bastante interessante articular dentro da universidade estas duas coleções e depois articular com outras coleções que sei que estão a ser construídas em Lisboa. Será interessante daqui a um ano, dois anos, perceber o que é que existe efetivamente nas coleções, que direções cada coleção tomou e depois então fazer, quem sabe, uma exposição. A coleção, a partir do momento em que entra no nosso museu, está efetivamente disponível pra qualquer pessoa, pra fazer consulta ou pra pesquisar qualquer assunto. Ela pode ser também usada cientificamente.

Sim. Rita, apesar de não ter esse distanciamento, nenhum de nós tem esse distanciamento, enquanto curadora de coleções de arqueologia, etnografia e antropologia biológica no Museu da Universidade do Porto e já com muita ligação a isto de contar a história, olhando para o que se está a passar, mesmo não tendo esse distanciamento, como é que acha que vai ser a memória coletiva desta pandemia?

Eu acho que no futuro vamos ter várias visões sobre esta pandemia. E não falo apenas do fato de cada indivíduo olhar pra pandemia da sua própria perspectiva. Mas eu penso que pelo simples fato de uns terem conseguido confinar e outros terem sido obrigados a continuar a trabalhar, as crianças terem ficado em casa, os adultos terem estado mais ou menos sujeitos à pandemia, todos nós vamos ter lembranças muito distintas. Eu penso que apesar de sabermos que historicamente já passamos por várias fases destas e que elas são cíclicas, que a seguir a esta pandemia virão mais, com certeza, se calhar não no nosso tempo de vida, mas provavelmente sim. Temos sempre tendência para pensar que esta é a pandemia, é a única que estamos a viver, portanto, consideramos que ela é única. E curiosamente foi vivida de um modo muito global. Não tenho ideia de todos os países do mundo terem sido afetados tão duramente como foram. Acho que vai ser interessante tentar perceber no futuro como é que as crianças, por exemplo, se vão lembrar dela. Crianças que tiveram praticamente dois anos letivos fechados em casa, que perderam muito as ligações com os seus colegas. Como é que vão viver isso? Como é que a população mais idosa, que também esteve bastante isolada, vai lembrar da pandemia no futuro? Vai ser também interessante perceber como é que o público, quando nós efetivamente fizermos uma exposição e pusermos estes materiais disponíveis, como é que o público se vai relacionar com eles. Vai ser muito interessante perceber isso.

Rita Gaspar vai continuar a recolher materiais e histórias que ajudam a retratar a pandemia no futuro. Para já, a história continua. A luz está mais visível, mas ainda há caminho por trilhar neste longo túnel.

Verificamos que a tendência é decrescente, que a 15 de março, como podemos ver, já estamos provavelmente numa situação muito perto dos 60 casos por 100 mil habitantes e que também a 15 de março já estamos muito perto da taxa de ocupação desejada para as unidades de cuidados intensivos.

A manterem-se os indicadores que são conhecidos, há condições para iniciar um processo lento, gradual, de desconfinamento.

Consideramos que o desconfinamento tem de se iniciar de uma forma cautelosa, mas este é o tempo.

Segundo a informação que o presidente da República nos deu, o valor do R teria subido outra vez, estaria já acima de 0,9. Isso, naturalmente, é uma notícia má. Vivemos, de facto, um ano de pesadelo e espero que estamos a sair do pesadelo.