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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.

Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel. A luz ao fundo do túnel.

A voz é inconfundível: Sting. O cantor britânico juntou-se a Shirazi, um artista africano do Benim. Os dois interpretam uma nova versão do êxito "English Man in New York". Durante a pandemia, Shirazi fez esta nova versão do clássico de Sting. Chamou-lhe "African Man in New York". Com a ajuda da globalização dos nossos dias, o novo tema foi escutado pelo cantor britânico, que rapidamente decidiu convidar o artista do Benim para participar num álbum de duetos e também para interpretar esta nova versão ao vivo. O que escutamos é mais um episódio do "Tiny Desk Concerts", um programa da NPR que por esta altura se faz em casa dos artistas. Aqui, em casa de Sting. À boleia destas duas vozes, olhamos para a semana em que a vacina da AstraZeneca voltou a ser administrada em vários países, depois de dias de suspensão. Este regresso permite também retomar os planos de vacinação e só por isso, neste fim de semana, dezenas de milhares de professores vão ser vacinados em Portugal. Em dois dias, vai ser feita uma vacinação massiva aos profissionais das escolas e assim tornar mais um setor resistente aos efeitos mais graves do novo coronavírus. É também nesta semana que ficamos a saber que presidente e governo concordam em prolongar o estado de emergência até maio, para já renovado por 15 dias, com a Páscoa pelo meio. Está à porta mais um fim de semana festivo e com isso voltam também a apertar as medidas restritivas. As aulas param para férias e as limitações à circulação estão em vigor toda a semana. Por estes dias, continuam também a ser desenvolvidas novas vacinas e os reguladores preparam-se para aprovar novos fármacos, mas as novas variantes parecem surgir com maior rapidez. Importa, por isso, que as autoridades continuem atentas aos indicadores e que se continue a investigar todos os impactos deste novo vírus que surgiu há pouco mais que 15 meses. Hoje falamos de investigação e das diferenças entre homens e mulheres na resposta do sistema imunitário depois de ficarem infetados. Desde o início da pandemia, a partir do momento em que a primeira vaga se tornou grande o suficiente para analisar os dados, tornou-se percetível que há mais mulheres infetadas do que homens. Acontece isso em Portugal, em todas as faixas etárias, exceto nas crianças. Um fator que os especialistas apontam para questões sociais. A nível laboral, a maioria das mulheres desempenham funções de maior exposição ao vírus. Ou seja, não significa que as mulheres tenham maior risco de ficar infetadas por uma questão de género, mas sim por razões de exposição. Mas olhando para a mortalidade entre os infetados, em Portugal são os homens que mais morrem por Covid-19. Em percentagem, 2,4% dos homens infetados acabam por morrer. Nas mulheres, o valor desce para 1,7%. Vários especialistas apontam, no último ano, para piores condições de saúde entre os homens, mas não há certezas. Na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, um grupo de investigadores quer perceber por que razão a resposta imunitária à Covid-19 é diferente entre homens e mulheres. Hoje conversamos com Helena Soares, imunologista, professora e investigadora do Centro de Estudos de Doenças Crônicas da Universidade Nova de Lisboa.

Sim, bom dia.

Bom dia. Professora Helena Soares?

Sim.

Daqui Miguel Cordeiro, da Rádio Observador.

Sim, estava à espera do seu telefonema, tudo bem.

Sim. Antes de mais, obrigado pela disponibilidade. Vamos falar um pouco sobre as diferenças na resposta imunitária entre homens e mulheres. Sei que a Universidade Nova está a realizar este estudo. Queria primeiro perceber por que razão decidiram iniciar esta investigação.

Já se sabe há algum tempo que realmente as mulheres e os homens têm uma diferente resposta imunitária, mas não está muito estudado. Sabe-se que há fatores genéticos, há fatores hormonais, mas os intervenientes e os mecanismos por trás dessas diferenças não se sabe. E tem sido realmente, embora as mulheres representem 50% da população, tem sido um estudo que não tem merecido a atenção devida ou, se calhar, agora mais recentemente, começa a ter. E os ensaios clínicos durante muitos anos foram feitos quase exclusivamente com homens, por razões práticas, talvez, era mais fácil recrutar homens, porque, no geral, as mulheres podem engravidar e se engravidarem têm que ser retiradas do ensaio clínico. Também têm mais responsabilidades em casa, familiares, o que faz com que muitas vezes não consigam cumprir todas as metas dos ensaios clínicos. Agora, mais recentemente, há a obrigatoriedade de incluir tanto as mulheres como homens nos ensaios clínicos, mas esta medida é relativamente recente. Essas diferenças e o facto de em cada 10 medicamentos nos Estados Unidos, oito serem retirados por terem efeitos secundários nas mulheres, mas não nos homens, fez com que nós quiséssemos estudar no laboratório quais os efeitos Das diferenças entre o homem e a mulher na resposta imunitária e como nós podemos melhor estudar, entender os mecanismos para perceber se podemos dirigir medicamentos para cada um dos sexos.

E olhando aqui para a questão da pandemia, isto acontece o mesmo com a Covid-19? Pode haver uma resposta diferente nos organismos, quer do homem, quer da mulher? Também há pouca informação sobre isso.

Sim. No início, essa diferença até foi muito falada em termos epidemiológicos e temos que distinguir dois conceitos diferentes. A diferença de gênero, em que entra as variáveis societárias, normas culturais, o que vai afetar a distribuição de profissões entre os homens e as mulheres. Inicialmente, as mulheres têm tendência para ter profissões de prestação de cuidados, são mais enfermeiras, são mais auxiliares e assistentes nos lares, portanto, estão mais expostas. E isso reflete-se nos dados epidemiológicos, que as mulheres no geral têm uma maior frequência de infecção e de Covid-19. Mas depois lá também há a parte biológica, que também foi logo reportada no início, que é o fato de as mulheres parecerem ser mais resistentes ou estarem melhor apetrechadas para lidar com a infecção pelo SARS-CoV-2, relativamente aos homens. Eu acho que essa história começa a se complicar, mas sim, isso é verdade para o SARS-CoV-2 e para Covid, mas também é verdade para quase todas as infecções. No geral, as mulheres conseguem lidar melhor com as infecções, e agora vou introduzir outros conceitos, as infecções agudas. No entanto, como revés, têm também mais doenças autoimunes. Os homens são menos capazes de lidar com as infecções agudas, mas têm menor incidência de doenças autoimunes. Portanto, é uma questão de equilíbrio. Na Covid, é verdade, as mulheres estão mais apetrechadas e lidam melhor com a infecção, sofrem menos mortalidade na infecção aguda. No entanto, o que se está a verificar agora é que na Covid crônica, já começa a haver vários relatos que há pessoas que não chegam a recuperar 100% da infecção crônica. As mulheres têm a maior incidência e um quadro clínico mais grave na Covid crônica.

Ou seja, estamos a falar das sequelas, aquilo que fica depois da infecção, de recuperarem da infecção e patologias que podem surgir meses mais tarde ou atrasos nessa recuperação, como falta de ar constante, estamos a falar desse tipo de sequelas.

Fadiga crônica, sim. As mulheres, realmente, a infecção aguda lidam melhor, mas infecção crônica, fadiga constante, falta de ar, e alguns desses sintomas são mesmo limitantes da qualidade de vida, têm maior incidência. E mais uma vez, isto é um pouco semelhante ao que se vê com outras infecções que também têm uma fase aguda e uma fase crônica. Estou me a lembrar do HIV, que é uma infecção que nós também estudamos no laboratório, em que realmente as mulheres no HIV têm uma maior resposta ao início da infecção, mas depois quando a infecção se torna crônica e quando se envolve em sida, as mulheres têm uma progressão da doença muito mais rápida. Portanto, a parte crônica, são menos capacitadas biologicamente para ter uma resposta equilibrada, embora, de certo modo, é consequência de ter uma resposta aguda muito forte. A resposta inicial muito forte, se não for terminada, vai levar que depois haja uma patologia ou haja uma doença na fase crônica muito maior nas mulheres do que nos homens.

Professora, mas isso é uma questão hormonal? Daquilo que já foi estudado e daquilo que se percebe também dessa resposta imunitária às infecções, onde é que pode estar a chave e como é que este tipo de investigações nos pode ajudar a resolver, quer no caso dos homens, melhorar essa primeira resposta, quer no caso das mulheres, melhorar a resistência à doença crônica?

Há dois fatores principais ou dois grandes grupos. E percebendo esses dois grandes grupos e não sabemos, para nós é que é importante investigar, uma parte são os genes, há uma componente genética. As mulheres têm dois cromossomas X no par do cromossomo sexual e os homens têm um cromossomo X e um cromossomo Y. E esses cromossomas X têm muitos dos genes e muitas das proteínas que estão envolvidas na resposta imunitária, o que faz com que as mulheres, no geral, tenham o maior número de proteínas que reconhecem as infecções, portanto, respondem mais às infecções, e se calhar, e melhor na fase aguda, porque têm mais genes e mais proteínas que reconhecem os vírus e reconhecem as bactérias. Há essa parte genética, e isso ainda não está completamente elucidado, mas pelo menos para um ou outro gene, já se sabe que as mulheres têm uma maior expressão de moléculas que são ativadas em resposta a infecções virais. Por outro lado, também há uma componente das hormonas. As hormonas sexuais, o estrogênio, a testosterona, a progesterona, realmente modulam e afetam a intensidade da resposta imunitária. O que faz com que, no geral, o estrogênio é uma hormona que está enriquecida nas mulheres e que ativa o sistema imunitário, enquanto a testosterona tem um papel praticamente oposto. Não diria de inativação, mas definitivamente não ativa o sistema imunitário. Há tanto uma componente genética como também uma componente hormonal.

Sim. Professora, mas o que me está a dizer é que Com base nos dados que vão recolhendo nesta investigação e claro, noutras investigações feitas um pouco por todo o mundo sobre esta questão, isto pode ter também impacto na produção de fármacos, na produção de vacinas e talvez até desenvolver fármacos diferentes, quer para homens, quer para mulheres?

Pois, isso eu acho que é o grande objetivo. O grande objetivo é perceber como é que estes fatores todos jogam uns com os outros, de modo a desenvolver fármacos específicos e também, por exemplo, não estou a dizer, mas dar estrogénio aos homens, no caso de infecção aguda por SARS-CoV-2, talvez modular as hormonas nas mulheres na fase crônica, mas mais limpo do que isso seria mesmo identificar quais as moléculas que estão envolvidas e conseguirmos desenvolver fármacos que pudéssemos modular a resposta imunitária conforme quiséssemos aumentar ou diminuir. E basicamente, isso é o objetivo do meu laboratório. Nós queremos passar um pouco das hormonas, dos genes e identificar moléculas mais específicas para haver menos efeitos colaterais, para que pudéssemos trabalhar o sistema imune e alterá-lo de uma maneira que fosse específica e que pudéssemos ter os melhores resultados específicos possíveis, tendo em conta essas diferenças inerentes entre homens e mulheres. E mesmo nas vacinas, seria também importante, mesmo em termos de dosagem, como o sistema imunitário das mulheres é muito mais forte que o dos homens, haver também uma correção à dosagem entre mulheres e homens.

Ou seja, talvez as mulheres não necessitem de tanta dosagem, é isso que está a dizer?

Isso está estudado. No geral, as mulheres necessitariam de uma dosagem menor para ter o mesmo efeito que os homens, pela resposta imunitária ser, não estou a falar das vacinas da Covid em específico, estou a falar das vacinas em geral, as mulheres não necessitariam de uma dosagem tão alta comparativamente aos homens para ter o mesmo nível de proteção.

Compreendo. E este tipo de investigações podem ajudar a validar essa afirmação, esse dado que já referia. Este tipo de investigações, estudar mais essa resposta do sistema imunitário, não tanto uma questão genética, podem ajudar a definir essa questão e ajudar também a melhorar aquilo que é o tratamento de todos os doentes por igual e da melhor forma?

Exato. De uma maneira diferenciada, mas homogênea. Podemos diferenciar o tratamento de modo a termos os mesmos objetivos e esse seria o grande intuito para podermos atender. Agora também se fala do tratamento personalizado e isso seria uma maneira de personalizar o tratamento. As pessoas são todas diferentes, há componentes diferentes e definitivamente entre homens e mulheres há uma grande diferença logo nesses grupos, nem se quer entrando na parte do indivíduo, em que podemos personalizar o tratamento tendo em base o sexo biológico.

Professora, olhando aqui para a questão pandémica, para a situação pandémica, estamos a chegar ao final da nossa conversa e nós aqui na "Luz ao Fundo do Túnel" gostamos de olhar para frente e aquilo que nos espera nos próximos meses. A professora é também imunologista e percebe também muito sobre esta questão dos vírus e da resposta imune que os nossos organismos têm. Olhando para aquilo que já conhecemos deste novo vírus que surgiu há cerca de ano e meio, olhando para aquilo que já conhecemos desta pandemia, o que espera agora dos próximos meses, numa altura em que a vacinação começa a avançar gradualmente e em que vamos agora também desconfinar e, portanto, ficar também mais expostos ao vírus?

Eu não diria nos próximos meses, mas eu diria que o futuro será o vírus tornar-se endémico, ou seja, nós encontrarmos um equilíbrio com o vírus, como já temos com muitas outras infecções virais. E provavelmente acontecerá quando as crianças, que são quem têm melhor resposta imunitária, forem crescendo com o vírus e estabelecendo um equilíbrio que chegarão provavelmente a ficar doentes, como as constipações comuns, que são também da mesma família do vírus SARS-CoV-2. Agora, mais imediatamente, eu diria que é necessário, mesmo no desconfinamento, as pessoas continuarem a ter cuidado, uso da máscara e também a nível mais central, diria, com base naquilo que todos os países fizeram, vai ser necessário uma vigilância, estou a dizer monitorização das pessoas que são infetadas, nos testes rápidos de antigénio, os testes rápidos, mesmo de anticorpos, são necessários para vigiar o aumento ou não da frequência do vírus na população. Porque só através da vigilância constante é que nós conseguimos saber em que ponto é que está a epidemia. Eu acho que é possível desconfinar e até se calhar indicado desconfinar, necessário desconfinar, mas é necessário vigiar.

Olhando para aquilo que me está a dizer, é que não vamos deixar nunca de andar neste túnel, vamos é ter um pouco mais de luz e vamos ter uma viagem constante, ou seja, a situação endémica, vamos ter que aprender a lidar com este vírus.

Eu acho que com as vacinas, quando a população já estiver maioritariamente vacinada, haverá um grande relaxamento a partir daí, mas até a população estar grande parte vacinada, vai ser um equilíbrio. Aliás, acho que toda gente está de acordo que o vírus não vai desaparecer e até toda a gente estar vacinada, vai haver um equilíbrio de contenção, de propagação face ao desconfinamento. Agora depende também da escala e depende da rapidez com que a população for vacinada. Espero que seja até o final deste ano, se não me engano. A partir da vacinação, o equilíbrio vai ser relativamente, não quero usar simples, mas vai ser muito menos pesado em termos de regras. A partir do momento que a população adulta, pelo menos, está vacinada, o equilíbrio com o vírus vai-se atingir mais rapidamente. Mas eu diria que provavelmente só a partir, não querendo fazer vaticínios, mas provavelmente só a partir de 2022 é que será esse o caso, se a calendarização da vacinação se mantiver como equipa. Antes de as vacinas estarem na população em percentagens significativas, acima de 70%, vão ser sempre necessárias medidas de contenção, barreiras físicas, máscara, algum distanciamento social e medidas similares.

Helena Soares, juntamente com uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, vai continuar a procurar respostas quanto a estas diferenças entre homens e mulheres. Depois de infetados, o que difere na resposta do sistema imunitário? As investigações são essenciais para permitir conhecer este novo vírus que há 15 meses nos faz atravessar um longo túnel.

Havendo um plano de desconfinamento até maio, é muito provável que haja estado de emergência a acompanhar essa realidade.

Pelo menos até ao final deste processo, é necessário manter o estado de emergência.

Temos que dar confiança aos portugueses, confiança em primeiro lugar na vacinação.

Os governantes e os cientistas não querem matar assim as pessoas, querem é que nós estejamos tratados. Então agora vamos estar a pensar sempre nisso.

É fundamental que os portugueses compreendam a importância do passo que está a ser dado.