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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.
Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.
A luz ao fundo do túnel.
A partir da Nigéria, chega mais uma canção para comunicar cuidados a ter devido à pandemia. Aqui a iniciativa é da Orama Studios, que fez esta canção para divulgar o número de telefone que deve ser utilizado caso sejam detectados sintomas de Covid-19. É ao ritmo desta canção nigeriana que entramos no final do mês de abril e na semana com mais casos de Covid-19 a nível mundial desde o início da pandemia. Apesar de em Portugal a situação estar praticamente controlada, em várias partes do globo vive-se neste momento uma situação de crise, com destaque para a Índia. Neste país, de forma consecutiva, tem-se registado mais de 300 mil casos por dia. Os hospitais indianos estão em ponto de rutura e, por isso, vários países estão prestes a enviar apoio, como oxigénio, medicamentos e equipamento de proteção. O descontrolo da crise pandémica na Índia já levou ao desenvolvimento de uma nova variante e são esses fenômenos que podem atrasar o regresso à normalidade. Uma variante resistente às vacinas pode deitar por terra o trabalho de imunização. Em Portugal, já foram identificados pelo menos seis casos desta variante, numa altura em que o país tem a situação pandémica controlada. Pela segunda vez desde o início da pandemia, esta semana Portugal teve um dia sem qualquer vítima mortal por Covid-19. O número de novos casos também não revela uma tendência de crescimento e a nível de testagem estão a ser atingidos novos máximos. Foi também nesta semana que foram revelados dados sobre a imunização em Portugal. Os dados preliminares da segunda fase do inquérito serológico nacional feito pelo Instituto Ricardo Jorge mostram que, em Portugal, 15,5% da população tem anticorpos. Ao fundo do túnel, está a meta de vacinar 70% da população portuguesa para conseguir essa desejada imunidade de grupo. Hoje olhamos para esse objetivo, que o governo espera que seja atingido já durante o verão.
Tenho a esperança, que não é o compromisso, é só a esperança, de que tenhamos a confirmação daquilo que os dados aparentam indicar: que estamos no bom caminho e que com segurança podemos dar o passo que falta dar.
O primeiro-ministro volta a estar confiante e a sorrir. Depois de meses críticos e de uma fase de desconfinamento que está a chegar ao fim, António Costa vê com bons olhos os dados da pandemia e espera que seja a última vez que Portugal passe por uma situação destas. O primeiro-ministro deposita também muita esperança no processo de vacinação. E no Ministério da Saúde, o secretário de Estado Diogo Serras Lopes até fala numa antecipação das metas definidas.
Se as previsões se concretizarem daquilo que são as vacinas, então durante o verão, mais para o início do que para o final, chegaremos aos 60% da população adulta vacinada.
A imunidade de grupo pode ser antecipada. São agora, pelo menos, essas as projeções dos governantes. Mas antes de falar em previsões, que já nos atraiçoaram várias vezes ao longo desta crise, importa olhar para os dados que existem neste momento. O Instituto Ricardo Jorge divulgou que, até o final de março, 15,5% da população conseguiu desenvolver anticorpos para o vírus SARS-CoV-2. Nuno Alves é imunologista do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde e é também vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia. E hoje ajuda-nos a explicar o que significam estes dados e qual a importância de atingir a imunidade de grupo. Estou sim. Professor Nuno Alves?
Sim, pode tratar por Nuno. Nuno Alves. Obrigado.
Doutor, vamos falar um pouco sobre a imunidade, sobre aquilo que já é a imunidade em Portugal e as metas que temos para atingir essa imunidade de grupo anunciada pelo governo para este verão, que se aproxima também. Doutor Nuno Alves é imunologista e também vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia. E olhando para os dados que foram divulgados esta semana, mostram que 15,5% da população já desenvolveu anticorpos ao novo coronavírus, ao SARS-CoV-2. O que significa, ao certo, este valor? Já nos dá alguma segurança?
Antes de mais, obrigado pelo contacto e pelo convite. É um prazer colaborar com a Rádio Observador nestas iniciativas. Relativamente à sua pergunta, estes valores indicam que estamos no bom caminho para atingir a esperada imunidade do grupo. Obviamente, com o decorrer do tempo, com o resultado de infeções naturais do vírus, pelo SARS-CoV-2, ou como resultado das inoculações com as vacinas, obviamente, este valor vai aumentar, estes 15% vão tendencialmente continuar a aumentar e, portanto, eu acho que estamos numa trajetória positiva, tendo em conta todas as contingências e limitações que existem Nomeadamente o número de vacinas disponíveis.
Mas olhando para estes valores, para este 15,5% da população com anticorpos em Portugal, sabemos que grande parte dessa população está entre as pessoas mais velhas, porque estamos a olhar para pessoas que ficaram infetadas e também para pessoas que já foram imunizadas e grande parte das vacinas foram ministradas à população mais idosa. Isto quer dizer que, neste momento, imunizando essa população, que é o principal grupo de risco, ou seja, com mais idade, acima dos 70, 80 anos, Portugal dificilmente pode voltar a entrar numa situação de rutura hospitalar ao garantir imunidade dessa população?
Esta é uma pergunta complexa e temos que talvez ir respondendo por partes. O valor que temos ao nível populacional, à escala nacional, é um valor ainda baixo, relativamente baixo. No entanto, quando fracionado por grupos etários e nomeadamente para alguns grupos de risco que existem, obviamente esse número aumenta. E a imunidade nesses grupos específicos, na verdade, está muito próxima de uma chamada imunidade de grupo. É um valor, uma cifra quase mágica que ronda os 70%. E as expectativas são, tendo em conta o desenvolvimento da pandemia e na ausência de alterações abruptas no desenvolvimento da própria pandemia, nomeadamente ao nível do desenvolvimento de novas variantes e aparecimento de novas variantes que se tornem muito prevalentes e que não possam ser cobertas por estas vacinas que existem atualmente. Tendo em conta todas essas limitações e todos esses possíveis riscos, é provável que, continuando este processo de desconfinamento com bastante cautela e gradual, é provável que não se atinja o grau de saturação que foi atingido, nomeadamente na segunda onda. Segunda e terceira onda.
Sim, falava já dessa meta, desses 70% que têm sido apontados, 70% da população imunizada para chegar a essa imunidade de grupo. Mas queria olhar primeiro para o que referia também de se tivermos um processo gradual, dificilmente vamos voltar a ter dificuldades. Mas como sabemos, têm surgido novas variantes e é aqui que está a principal preocupação. Podemos estar a imunizar pessoas contra aquilo que é o vírus neste momento, mas uma variante pode deitar por terra todo este trabalho. Uma variante mais difícil de lidar pode deitar por terra todo este trabalho que tem vindo a ser feito.
Eu acho que temos que ter alguma cautela na forma como colocamos esses diferentes cenários. Principalmente, quer um cenário muito positivo, quer um cenário muito negativo. O que temos, no fundo, é que estar preparados para os diferentes cenários e estar cientes de todos os problemas e todos os desafios que eles apresentam. Neste momento, com o desenvolvimento que está a ocorrer e com as previsões que existem, é pouco provável um cenário mais catastrófico, uma nova variante que apareça e que não esteja coberta pelas vacinas existentes. Só temos é que estar cientes que esse risco pode existir. Temos que estar preparados. E preparados quer dizer a diferentes níveis, ao nível individual, mas também ao nível das diferentes instituições e mesmo ao nível das indústrias farmacêuticas. Elas estão preparadas para, na eventualidade de um caso mais catastrófico, uma variante que comece a aparecer, reformular as vacinas e voltar novamente a uma diminuição desse aumento de casos que decorreriam dessa nova variável. Com base nas etapas que estamos a desenvolver, esse cenário é pouco provável. Por outro lado, o cenário muito positivo, também temos que ter alguma cautela. Apesar de tudo, esta pandemia ainda tem pouco tempo. E nós ainda temos algumas perguntas por responder, nomeadamente, qual é a durabilidade desta imunidade, que ao nível populacional é particularmente analisada pela presença de anticorpos.
É, essa é uma das grandes questões, perceber quanto tempo é que dura essa imunização.
Exatamente. E também perceber até que ponto é que os anticorpos, obviamente eles são importantíssimos, mas a resposta imune ao vírus é mais complexa e em muitos casos, uma ausência em indivíduos que já foram infetados via natural ou que foram inoculados com a vacina e que tiveram anticorpos, mas provavelmente com o tempo poderão desaparecer esses anticorpos. Essa ausência de anticorpos não quer dizer diretamente que esses indivíduos não estão imunes, porque existe a possível imunidade celular que permanece e ainda há muitas respostas em aberto. Mas a perspectiva, mais uma vez, tendo em conta os dados existentes, é que estamos numa trajetória positiva. Mas temos que ter alguma cautela, quer para os cenários muito positivos, quer para os cenários catastróficos que possam existir.
É um bom conselho. Doutor Nuno Alves, olhando para essa meta dos 70% para chegar a essa imunidade de grupo, por que é importante chegarmos a esse valor?
Esses valores são todos valores indicativos. Obviamente, é uma referência e quantos mais indivíduos estiverem imunes ou estiveram a ter o contato com o vírus, mais uma vez, pela via natural ou através Da inoculação com a vacina. Eles estarão preparados para uma resposta quando uma segunda infecção ou uma primeira infecção. Obviamente, o risco de contágio desses indivíduos é muito menor. Por outro lado, o desenvolvimento de sintomas mais severos vai obviamente diminuir, com todas as consequências que isso acarreta ao nível do sistema de saúde. Portanto, é uma questão de números. Quanto mais tivermos com esse grau de proteção, o resultado desta batalha, desta guerra que temos tido contra esse organismo microscópico é mais positivo.
Sim, e essa meta ajuda a controlar melhor a propagação do vírus entre a população?
Exatamente. Um indivíduo que está imune, teoricamente, será um vetor menos eficaz na propagação do vírus a outro. Isso é um aspecto.
Tem menos carga viral?
A resposta será mais rápida e, portanto, esta luta entre o sistema imunitário e o crescimento do vírus terá a vantagem do nosso organismo. O sistema imune vai responder de uma forma mais rápida em indivíduos que estão imunes e, portanto, essa propagação do vírus será diminuída significativamente. O aspecto da propagação é um ângulo. O outro ângulo é a própria saúde dos indivíduos que são novamente infectados. Os sintomas vão ser menores. Nós vimos no decorrer da pandemia. A infecção natural provoca diferentes graus de patologia. Há indivíduos assintomáticos, esses indivíduos, à partida, numa segunda infecção, vão continuar assintomáticos, mas há alguns indivíduos que desenvolvem sintomas moderados, outros mais severos e, portanto, esses indivíduos que estão imunizados, teoricamente, os que têm moderados vão passar a ter sintomas ligeiros. E os que têm sintomas muito severos vão passar a ter moderado, ou vice-versa, assim gradualmente. E, portanto, a expectativa é que, cobrindo um leque mais alargado da população, essa pressão ao nível das instituições de saúde, mas também a pressão que ocorre ao nível do próprio indivíduo, seja muito menor.
E a Covid-19 acaba por não ser uma doença tão grave, foi isso também que referia.
Exato. O impacto ao nível global será menor e, portanto, com tudo isto, as nossas atividades regulares poderão ser restabelecidas.
Claro. Aqui na "Luz ao Fundo do Túnel", costumamos olhar para aquilo que são os próximos meses e convidar os nossos convidados a olhar para esse futuro. Olhando para as semanas que se aproximam e também para este aumento de vacinação em Portugal, para estes níveis de imunização que já conseguimos atingir, o que espera agora destes próximos meses?
Os indicadores que nós temos, como eu já disse no início desta nossa conversa, são positivos. Se tudo continuar a correr como o expectável e as doses de vacinas continuem a chegar nas quantidades necessárias e o processo de vacinação continue a decorrer como tem corrido, a previsão é que, como têm indicado as instituições que coordenam esse processo de vacinação, no final do verão, nós consigamos alcançar essa tal meta da imunidade do grupo. Dito isto, e voltando àquela questão da ressalva dos cenários muito positivos ou muito negativos, acho que temos que ter alguma cautela e alguma avaliação gradual. Eu penso que o governo, e bem, mantém essa cautela, mesmo agora no processo de desconfinamento e, portanto, vamos ter que continuar a monitorizar muito bem o desenvolvimento da pandemia, mas os cenários são positivos. Temos que ir analisando quase quinzena a quinzena ainda a implementação da vacinação e depois também numa escala temporal um pouco mais alargada, temos que perceber bem qual será a durabilidade desta chamada imunidade. Que é um fator também a ter em conta e que poderá ter repercussões não imediatas, mas mais a médio prazo.
Nuno Alves vai continuar a estudar a imunização, um fator-chave para conseguir garantir o regresso à normalidade, para conseguir garantir, em permanência, a luz que se esconde ao fundo do túnel.
Sei que cada abertura implica mais responsabilidade e que os tempos próximos serão ainda muito exigentes.
Tenho a esperança, que não é o compromisso, é só a esperança, que estamos no bom caminho e que com segurança podemos dar o passo que falta dar.
Se as previsões se concretizarem daquilo que são as vacinas, então durante o verão, mais para o início do que para o final, chegaremos aos 60% da população adulta vacinada.
Some countries are racing to vaccinate their entire populations, while other countries have nothing. As long as the virus continues to circulate anywhere, people will continue to die.