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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.
Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.
A luz ao fundo do túnel.
All right, lads. I've been a very good boy, did all social distancing. I adhered to all the rules, I didn't skip a thing. But with things going back to normal, the restrictions I'll not miss. 'Cause when I get my vaccine I'm going straight out on the piss.
"Give Us The Vax", uma canção original que nos chega a partir da Irlanda, autoria dos Foil Arms and Hog, um grupo de humoristas que decidiu compor esta canção que rapidamente fica no ouvido. Pela letra, este trio descreve os sacrifícios por que tiveram de passar nos últimos meses, como seguir as regras, fazer festas por Zoom e ver todo o catálogo da Netflix. Agora, depois de tudo pelo que passaram, querem apenas receber a vacina. E não importa qual.
Moderna, AstraZeneca, Johnson, Johnson, Pfizer. I'd even take the Sputnik, at this stage I don't care.
É ao ritmo dos irlandeses, dos Foil Arms and Hog, e da confiança que têm nas vacinas, que chegamos à semana em que a Agência Europeia do Medicamento reforçou a confiança na vacina da Janssen, apesar de reconhecer também que há ligações entre esse fármaco e a formação de coágulos. Com essa aprovação, esta vacina pode começar a ser administrada e assim ajudar nesse objetivo comum: a imunidade de grupo. Em Portugal, o desconfinamento avança em quase todo o país. Esta semana arrancou mais uma fase, com a abertura das salas de espetáculo, centros comerciais e espaços interiores dos restaurantes. No ensino, os alunos do secundário e das universidades voltaram às aulas presenciais. A situação pandémica continua estável e com isso torna-se possível este faseado regresso à normalidade. Mas os desafios não são iguais para todos. Aqui, na Luz ao Fundo do Túnel, temos olhado para o impacto e para as mudanças impostas pela pandemia. E hoje centramos atenções nas pessoas com deficiência e na forma como foram afetadas por esta crise.
A casa não é minha, tenho que perguntar. Olá, tudo bem?
Tudo bem.
Entre.
Boa tarde. Olá, boa tarde, tudo bem?
É o João.
Tudo bem? Miguel. Prazer.
Natália.
É a minha mãe.
Se quiseres.
Sim, senta. Senta à vontade. A casa é pequena, mas é humilde. Espero que te sintas confortável. Por isso, força.
No centro da freguesia de Belém, em Lisboa, somos recebidos na casa de João Almeida. Está acompanhado pela mãe e por Ester Rosa, coordenadora de projetos da Associação Salvador. De sorriso na cara, João quer contar o que mudou com a pandemia e o que quer fazer quando acabarem as restrições. Está sentado numa cadeira de rodas e com muita vontade para falar.
Eu chamo-me João Almeida, tenho 30 anos, sou portador de paralisia cerebral desde nascença. Fiz todo o meu ensino escolar em escolas normais, sem adaptações nenhumas. Sempre fiz o percurso curricular normalmente como qualquer outra pessoa. Cheguei ao 12º ano, quis ir para um curso profissional técnico de gestão e programação de sistemas informáticos. Integrei há quatro anos o projeto de empregabilidade da Associação Salvador, para poder ter um emprego e encontrar o meu espaço. Deram-me formação, ajudaram-me a construir o currículo, o LinkedIn, todas essas coisas. E passado seis anos de todo este trabalho, terminar o curso e ir procurando emprego, estou empregado.
O que estás a fazer?
Estou no departamento da Cofidis, no helpdesk. Significa dar apoio em informática a colegas de outros postos.
Como é que tem corrido?
Muito bem. Sou uma pessoa extremamente realizada, consigo mostrar o meu valor e muito importante: ter a deficiência não me limita em circunstância nenhuma e consigo desempenhar o trabalho como uma pessoa normal. E isso tem me enchido de orgulho.
Muitas pessoas estão em situação de teletrabalho agora por causa da pandemia. No teu caso, essa possibilidade de existir teletrabalho é um benefício?
No início, quando comecei com o teletrabalho, eu estava um bocado receoso, mas atualmente eu digo que será para mim o nível preferencial, porque consigo estar no conforto do meu lar, consigo ter o meu desempenho e todo o apoio necessário, sem custos adicionais, transportes, levantar-se cedo. Por isso, foi uma descoberta boa que o Covid nos trouxe, porque nos facilitou, pelo menos na minha opinião. Acho que para pessoas como nós, o teletrabalho veio abrir mais o horizonte. Para as entidades empregadoras nos terem junto delas.
Tirando a parte profissional, por todas as razões, já estarias numa situação de mobilidade difícil. E esta pandemia veio obrigar a população toda a confinar-se, muitos serviços tiveram que se adaptar e até o apoio que as pessoas vão dando também começa a ser limitado, até porque nunca se sabe quando é que o vírus pode entrar pela casa. O que é que mudou, efetivamente, com a chegada da pandemia?
Para mim, o que foi mais difícil de lidar foi a falta de convívio, porque eu sou uma pessoa muito social. Gosto de ir ao café, gosto de estar com amigos, gosto de ir à discoteca, ao cinema, ao futebol. Sou um adepto fan do Benfica. E o que mais me custou mesmo foi a falta do afeto. E isso é o que me perturbou a nível emocional, foi não poder abraçar os meus.
E isso tem recuperado aos poucos ou continua a ser difícil essa chegada de afeto e estar com as pessoas?
É complicado, porque tu hoje em dia vais vendo as pessoas, e tu acabas por não saber muito bem como lidar, se dás uma cotovelada, se dás a tua mão, se abraças. Por exemplo, eu era uma pessoa que visse quem visse, dava um abraço e um beijinho. E atualmente eu fico a olhar para a pessoa a pensar: "O que eu vou fazer?" Que era uma coisa que eu nem sequer pensava, porque era uma atitude tão intuitiva e agora obriga-te a pensar. Mas uma coisa boa que o Covid nos trouxe foi aprender a valorizar as pequenas coisas. E eu acho que isso é uma coisa que o ser humano vai guardar, pelo menos nos primeiros tempos. Não quer dizer que quando o vírus esteja mais ou menos debelado, não voltemos a ser um bocado egocêntricos. Mas eu acho que no início vamos valorizar muito. E eu vou valorizar imenso o dia em que vou poder voltar à praia e mergulhar, porque eu adoro o mar. Isso também me deixou um bocado triste, porque eu saía de casa para ir ver o mar, ouvir. Faltam essas pequenas coisas.
Sim, eu ia perguntar isso, nessa questão de valorizar as pequenas coisas. Imaginando o dia em que a situação esteja resolvida e podemos ter essa normalidade, o que querias fazer nesse dia?
Olha, eu acho que no dia que normalizar, a primeira coisa que eu vou fazer é sair de casa o dia todo, tentar estar com o máximo de pessoas possível, beber o maior número de cervejas e ir à discoteca no final do dia. Pelo menos eu imagino que seja assim. Mas se não der para ser isso tudo no dia, que seja pelo menos um dia em que o Benfica jogue no Estádio da Luz, que é para eu ir lá gritar e dizer ao Jesus para nos pôr em primeiro lugar, porque andamos a jogar muito mal.
Falávamos aqui da questão do contacto, da ausência do contacto. Houve também, a nível familiar, menos contacto com a restante família por causa da situação pandémica?
Bastante menos. E é engraçado que tu agora começas a ver a família e é um misto de emoções. Não sabes se ris, se choras, se abraças, se beijas ou manténs o distanciamento social, mas bastante menos. Na minha família, nós costumávamos fazer uns churrascos, uns convívios e tudo isso acabou. E até deixa bastante saudade. É como eu já te disse, o que me afetou mais foi as pequenas coisas, os pequenos gestos, porque não precisamos de muito dinheiro para ser felizes. Precisamos dos nossos, ao pé de nós. E o Covid tirou-nos isso.
Sim. A nível de cuidados de saúde, sentiste mais dificuldade em, caso de algum problema, ter acesso a cuidados de saúde por causa da situação nos hospitais e nos centros de saúde estar tão focada na pandemia?
Eu, por acaso, tive sorte, porque não fui muito afetado nessa parte. Só me adiaram umas consultas de dentista, umas coisas assim muito básicas, mas eu sei de situações que as pessoas tinham medo de ir ao hospital, porque um problema rotineiro era tratado como Covid, só porque o sintoma era parecido. E eu acho que a política do medo foi-te incutida. Por isso é que tu chegaste a este momento e tu não sabes muito bem o que fazer, porque a política do medo foi incutida em ti.
Ester, olhando aqui para esta questão da Da política do medo. A Ester trabalha aqui na Associação Salvador e lida com vários casos. Sente que, dos casos com que trabalham, isto aconteceu pessoas que precisavam mesmo de cuidado de saúde ou de um apoio, que havia essa questão de receio de estar com as pessoas e de sair de casa?
Sim, sem dúvida. Nós temos muitos contactos de pessoas que deixaram de ir a fisioterapia ou porque foi cancelada, ou porque tinham medo, ou pessoas que precisavam de fazer obras em casa para terem mais acessibilidade e que adiaram essas obras porque tinham medo de entrarem pessoas lá em casa. Temos muitos casos assim. Até pessoas que precisam de cuidador e que se calar diminuíram ao mínimo as horas em que precisavam para que não tivessem de o fazer. O problema é que a situação já se prolonga há muito tempo e, portanto, temos de ir ponderando onde é que fica aqui o equilíbrio justo entre um estilo de vida saudável e que atenda todas as necessidades delas, e a calcular, claro, situações que não queremos que aconteçam.
Ao longo deste ano, sentiram mais necessidade de prestar apoio? Ou seja, tiveram mais casos de pedidos de ajuda na Associação Salvador por causa da situação pandémica?
Sim, aumentamos o número de pessoas que apoiamos, porque também aumentaram os pedidos de apoio. Reparamos que os pedidos de apoio giravam muito à volta daquilo que o João estava a dizer, sobretudo da necessidade de afeto, da necessidade de algum acompanhamento psicológico, por exemplo, ou de apoio para encaminhamento para os serviços que necessitavam. Porque houve muitos serviços, muitas entidades que pura e simplesmente pararam os seus projetos e a associação nunca parou. Nós encontrámos forma de implementarmos tudo o que já estávamos a implementar e criámos ainda um projeto novo para dar resposta a estas situações, às quais não precisávamos dar antigamente. E posso dizer que foi um dos anos mais atarefados da associação. Felizmente, conseguimo-nos adaptar a tudo o que aconteceu. Claro que temos menos presencial. Não temos tantos momentos presenciais, mas mesmo assim, só para dar um exemplo, no ano passado, em 2020, fizemos 33 eventos de convívio. Passaram a ser curtos, já não têm dormidas, etc. Mas de 10 eventos de convívio por ano, passamos a 33. Portanto, aumentamos o número de eventos, diminuímos a capacidade para respeitar tudo.
Por causa da pandemia, como é que funcionavam esses eventos de convívio?
Nós detetávamos oportunidades, experiências que poderíamos fazer, ida a museus ou visita a jardins, piqueniques, etc. Depois, de acordo com a capacidade que fosse possível naquela altura, limitávamos o número de inscrições e fazíamos esses momentos em que estávamos em partilha, as pessoas reviam-se, era sempre uma festa. Fizemos desde visitas a museus, a experiências equestres com cavalos, visitas a estádios também. E tivemos também alguns momentos, alguns eventos que eram online e que permitiam que a pessoa do conforto da sua casa pudesse à mesma estar com os amigos, ver um museu, ver coisas que nunca tinha visto. E depois também reforçámos uma oferta, aliás, criámos uma oferta de momentos terapêuticos online, que se chamaram Conversas com Alma, e que depois proporcionaram às pessoas, como o João, a possibilidade de conhecer pessoas novas, falar sobre a vida, como é que estavam a lidar com a pandemia e como lidam com muitas outras coisas transversais a todas as pessoas, tenham ou não deficiência. E isso foi, sem dúvida, uma mais-valia.
A Ester Rosa é uma das coordenadoras desta Associação Salvador. Falámos aqui há pouco da questão do trabalho e de como o teletrabalho veio criar aqui muitas soluções para várias empresas e mesmo alargar essa manga de pessoas que pode contratar e de serviços que precisa que sejam mesmo prestados à distância. Sente que com este teletrabalho entrar tão rapidamente em funcionamento e com todas estas mudanças que tivemos, que acaba por ser mais fácil arranjar soluções para as pessoas que a associação apoia?
Sim, é mais fácil, mas também não queremos cair aqui numa questão que é as empresas agora contratarem só as pessoas com deficiência para teletrabalho, porque é muito importante as pessoas com deficiência, como qualquer outra, terem a possibilidade de conviver também com os colegas, de conhecer outras instalações, de mostrar à sociedade que andam por aí, são produtivas, ativas, etc. E, portanto, apesar de ser mais fácil e também para além do teletrabalho, também temos a lei das cotas que está em vigor e que há empresas que estão a recorrer mais à contratação de pessoas com deficiência. Mas o teletrabalho veio aqui dar realmente um bom impulso à contratação.
Estamos na luz ao fundo do túnel e costumamos terminar este programa, olhar um pouco para o futuro Para uma pessoa que está numa associação, que apoia dezenas de pessoas, o que se espera destes próximos meses, numa altura em que temos tanta incerteza? Temos a pandemia a continuar, as vacinas com sucessivos atrasos, muitas dúvidas sobre o futuro. O que espera agora das próximas semanas e meses?
Essa é uma pergunta difícil. Apanhou-me aqui na curva, porque ninguém tem exata noção do que esperar. Aquilo que eu tenho a certeza é que nós não podemos ficar parados e nunca ficámos, nem nunca havemos de ficar parados. E, portanto, temos de pôr mãos à obra para continuar as nossas respostas, para criar novas respostas. O que a Associação Salvador gosta de fazer é, sobretudo, atuar na falha, onde não existem respostas, onde as respostas que existem são, a nosso ver, insuficientes e, portanto, continuar a trabalhar nesta falha. Se puder ainda, só aproveitar a oportunidade para agradecer a todos os que têm apoiado a Associação Salvador, quer sejam empresas, quer sejam particulares, ou as pessoas que consignam o seu IRS e que estamos agora nessa fase. E já agora também faço esse apelo para, se puderem consignar à Associação Salvador, agradecemos, para continuarmos o nosso trabalho. Sabemos que só 16% das pessoas é que acabam por consignar o seu IRS. E isso é uma pena, porque é valor que não vai para nenhuma instituição e que poderia estar a ser capitalizado para projetos. E por isso fica o apelo. Mas agradeço do fundo do coração, em nome da equipa toda da associação e todos os beneficiários, todo o apoio que as empresas e os particulares nos têm dado.
João, a mesma pergunta: olhando para o futuro e para aquilo que estamos a viver, o que esperas agora dos próximos meses? Já sabemos o que queres fazer quando isto voltar à normalidade, mas como é que vês agora estes próximos meses que se aproximam?
Eu espero que as pessoas deixem de ter medo, comecem a normalizar as situações, sejam um pouco mais atentas, porque eu acho que isso é uma falha da sociedade, em que nós estamos tão preocupados em levar os miúdos à escola, trabalhar, dar um rendimento X ou Y, porque temos determinado objetivo. E o que eu espero mesmo é que a sociedade se torne mais unida, porque juntos conseguimos fazer mais e melhor. Sozinhos não vamos muito longe. Ou aliás, chegamos, mas esforçamo-nos mais. Isto é o que eu espero.
João Almeida está ansioso pelo fim das restrições e das regras sanitárias. Está feliz por ter conseguido o primeiro emprego durante a pandemia, mas tem saudades dos afetos, dos amigos, da família e de viver para lá das paredes de casa. Tem saudades dessa luz que parece tão longínqua, mas que está mais perto de chegar.
Porque é que a abertura das escolas é o primeiro passo? Porque a educação é o primeiro passo, sempre. Tudo começa na educação.
Há menos movimento. As pessoas param, não vêm, porque as pessoas, neste momento, não estão preparadas para o takeaway. Estar a beber café em pé, levar para casa e ir comer um bolo. Não estão preparadas para isso.
Vacinar 100 mil pessoas todos os dias, sete dias por semana, durante cerca de quatro meses, poderão perceber que não será uma tarefa fácil.
Como o vírus não tem nacionalidade, nem conhece fronteiras, as vacinas também não têm nacionalidade.