Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A nossa cultura regressa ao Museu Quinta da Cruz, em Viseu. Estamos a percorrer a primeira exposição do ciclo Peter Maker, uma mostra que reúne obras de 18 artistas contemporâneos, portugueses, estrangeiros, pertencentes a diferentes gerações e com percursos distintos. Já passamos pelas duas primeiras salas e continuamos agora a nossa visita acompanhados pelo curador da exposição, Miguel Rouge, a quem eu agradeço novamente a disponibilidade. Miguel, chegamos à terceira sala, onde há claramente um jogo entre as pinturas e as esculturas, e uma coisa que salta logo à vista, que é a parede de fundo pintada de um laranja carregado. Por que esta cor laranja?
Sim, esta sala tem algumas particularidades. Primeiro, tem o teto, um pé direito muito baixo, o que impossibilita, por exemplo, de pormos uma escultura de maior dimensão, porque abafa um bocadinho, asfixia um bocadinho a escultura. E depois temos aqui à nossa frente, por exemplo, a antiga lareira da Quinta da Cruz. Surgem estes pilares de granito, por isso as características arquitetônicas desta sala são um bocadinho particulares. O laranja da parede quase que liberta um bocadinho estas restrições e permite também dar uma identidade à própria exposição, ao próprio ciclo e, por exemplo, a cor que temos nesta parede é precisamente a cor que depois temos no catálogo e na folha de sala que acompanha a exposição.
É uma identidade visual, digamos, também da coleção. E o que o Miguel destacaria na forma como estas peças ocupam e transformam a sala? Há claramente essa diferença de uma peça ficar muito diferente ao olhar, estando numa parede branca ou numa parede com cor. Mas de resto, temos várias esculturas aqui ao centro. Como é que jogam estas pinturas com estas esculturas?
Sim, esta sala faz um olhar para a escultura de pequena dimensão, que nem sempre é frequente nesses artistas. Por exemplo, na Susana Solano, no José Pedro Croft, na Monika Sosnowska, normalmente trabalham, muitas vezes trabalham, em escala grande. Aqui temos a escala reduzida. Esse é o primeiro ponto que une estas esculturas. Depois, mais uma vez, artistas diferentes em diálogo cruzados. E depois permite, por exemplo, olhando aqui para a Susana Solano, vemos um bronze maciço pintado de negro. Está aqui um jogo entre o interior e o exterior. Mais uma vez, essa questão do espaço. Podemos juntar esta obra a analisar, por exemplo, aquela pequena obra da Monika Sosnowska. Na verdade, esta é uma maquete que estava posicionada numa estrutura muito maior de escala humana, em que as pessoas andavam por essa estrutura, andavam por essa instalação e tinham no meio dessa sala uma pequena maquete para dar essa dimensão de escala. Por isso a dimensão de escala está sempre presente, a dimensão do espaço, do dentro e o fora está sempre presente. E aqui temos, por exemplo, uma obra do José Pedro Croft, uma espécie de gruta, masmorra, em que tem aqui uma portazita, que às vezes passa despercebido. E é mais uma vez essa questão do lugar, esta questão do espaço, do que está dentro, do que está fora. E há uma particularidade interessante nesta obra. Ela é de bronze, a obra é pesadíssima, mas o José Pedro Croft pinta de branco, dando-lhe uma sensação de leveza. Por exemplo, se olharmos para este pastuque do Franz West, tem exatamente a mesma cor. Eu diria que ela pesa menos que um quilo e esta pesa 35 quilos. Ou seja, essa questão da materialidade também é interessante. Num exercício, e estamos praticamente na última sala, nós podemos relacionar esta obra de José Pedro Croft com a primeira obra que nós começamos a falar no primeiro episódio, da ponte de Rui Sanches, em que ele faz um exercício semelhante. Pinta um bronze, uma peça superpesada, de branco, dando-lhe essa leveza e quase retirando o peso da matéria. Estas esculturas estão em diálogo também com uma pintura do Wilhelm Sasnal, uma pintura do Pedro Casqueiro e dois desenhos a óleo e pastel de Pedro Calapez. Aqui temos, mais uma vez, se calhar de forma mais direta, a questão do espaço. Wilhelm Sasnal, esta pintura a óleo, parte de uma fotografia da sua cidade natal. Vemos aqui edifícios soviéticos, assim como a arquitetura, se calhar uma perspectiva muito triste, muito pesada da sociedade pós-comunista polaca, quando o artista nasceu. E se olharmos ali, por exemplo, para Pedro Casqueiro, temos uma visão superalegre e modernista da cidade, em blocos quadrados, a questão da simetria, do jogo das cores, que contrasta um bocadinho com a pouca cor que temos daqueles campos áridos e negros que vemos na pintura do Wilhelm Sasnal. Por último, temos estes dois desenhos do Pedro Calapez, que entram em relação direta com, por exemplo, uma espécie de gruta de José Pedro Croft, entram em ligação direta com a maquete da Monika Sosnowska, com a Susana Solano, porque relaciona mais uma vez a questão do espaço, do que está dentro, do que está fora.
Muitas temáticas, muitos artistas. Quando se constrói uma coleção assim ao longo de tantos anos, qual é o critério da aquisição das obras? Ou seja, o Miguel já explicou que por vezes até pode ser meramente pela vida pessoal do colecionador, que se cruza com alguns artistas e com algumas culturas e adquire algumas obras. Mas não sei se aqui nesta sala encontramos alguma em particular que possa contar a história da aquisição?
Pedro Alves Ribeiro parte sempre de uma profunda paixão pelos artistas que coleciona. Daí ter 700 obras e apenas 40 artistas. E a coleção parte, por exemplo, também de um interesse pelo próprio artista e depois de desenvolver uma amizade e uma relação de proximidade. Por exemplo, José Pedro Croft e Pedro Alves Ribeiro são amigos de infância e é uma amizade que se mantém e José Pedro Croft é um dos artistas mais representados na coleção. Esta obra é do início, meados da década de 80 e o colecionador tem obras da década de 80, de 90 e tem obras recentes com um, dois anos. Por isso, há essa questão de proximidade, de amizade, de ir aos ateliês, falar com os artistas, estar presente, acompanhar e apoiar os artistas.
Esse cuidado na construção da coleção. Para terminarmos este episódio também de uma maneira diferente, aqui nesta sala, se tivéssemos que dedicar mais tempo a analisar diante de uma obra desta sala, qual é que o Miguel escolheria e por quê? E terminamos esse episódio à frente dessa peça.
Sim, se calhar ainda não falei dela, deste pequeno punho da Monika Sosnowska, em aço, em que a artista, basicamente, se nos aproximarmos um pouquinho, vemos que coloca a sua mão e molda a maçaneta. Aqui há uma característica interessante, a forma como ela é montada, ou seja, ela está suspensa. Há a questão da luz que projeta uma sombra, exatamente. E esta obra pode nos remeter à questão da passagem. E nós tínhamos a passagem, por exemplo, no barco de Francisco Tropa, no bom livro vazio do Miroslaw Balka, mas também nos desenhos do Pep Espaliú, por exemplo. Eu acho que esta obra é representativa também do que é o objetivo da própria exposição, de interligar salas, criar diálogos entre os artistas, por vezes inesperados, mas que nós conseguimos fazer esse exercício de exploração e é isso que importa, e é esse o convite que fazemos às pessoas que visitam a exposição.
Uma exposição com várias obras, algumas temáticas que se cruzam, uma coleção que começou a ser construída há cerca de quatro décadas, no início dos anos 80, acabou por reunir artistas, países, gerações e linguagens muito diferentes. Continuamos a descobrir algumas destas obras no próximo episódio de "A Nossa Cultura", aqui no Museu Quinta da Cruz, em Viseu.