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Continuamos aqui no Centro Interpretativo das Termas Romanas de São Pedro do Sul. Neste momento estamos fora do edifício e conseguimos ouvir o correr do rio Vouga pelos microfones da Rádio Observador. Estamos, Eduardo Nuno Oliveira, junto à piscina exterior.

De facto, é a piscina exterior romana de fundação no século I d.C. Era uma área que era uma praça, cujo centro dessa praça é uma grande piscina, uma natatio, de grandes dimensões, que era rodeada por um pórtico, ou seja, por uma cobertura. Uma cobertura não exatamente por cima da piscina, mas em redor da piscina.

Nós conseguimos, se calhar, ver a presença dessa cobertura, ou pelo menos presumir a presença dessa cobertura, através destas colunas.

Exatamente. Um conjunto de colunas, algumas inteiramente romanas. Foram colunas retiradas das várias cavações arqueológicas e agora recuperadas e reconstruídas com a base, o fuste, uns belíssimos capitéis da ordem jónica. Como disse, algumas constituídas apenas por peças antigas e originais romanas, mas outras já por peças de substituição. É uma pedra mais polida, é um corte mecanizado e até tem uma tonalidade granito diferente de um granito amarelado desta região. Mas com essa reconstrução, o visitante pode perfeitamente perceber esse aspecto arquitetónico desta área exterior.

E nós, para esta piscina, estamos mesmo à frente do rio Vouga e um pouco à nossa, neste caso, direita, temos a tal capela de São Martinho.

A capela de São Martinho do Banho, que é aqui um elemento histórico, cultural, religioso importantíssimo desta área arqueológica. Aquela capela que nós agora temos aqui é do ano de 1508, tem lá gravada na fachada essa data. No entanto, já em 1508, esta capela foi construída por cima de uma igreja mais antiga, no sítio da capela-mor de uma igreja mais antiga, que era a igreja original de São Martinho do Banho, construída na transição do século IX para o século X. Era uma igreja maior, chegou a ser um importante centro religioso desta antiga e medieval terra de Lafões, o que também significa que já no século X, ou ainda no século X, estas termas estavam em funcionamento, uma vez que foi aqui construída uma igreja. Essa igreja original, com as guerras, as pestes, as fomes, com o correr dos séculos, foi decaindo, degradou-se e quando chegamos ao princípio do século XVI, e quando se procedem às obras para se instituir o Hospital Real das Caldas de Lafões, resolveram derrubar o que restava da igreja original e com as pedras do derrube construíram esta capela que se pode ver. De maneira que a capela ainda integra nas suas paredes elementos arquitetónicos que pertenceram à igreja original, principalmente uma pedra trabalhada que se pode ver na parede traseira da capela por fora. É o que resta de uma antiga janela dessa igreja original. Eram ajimezes. Eram umas janelas com características específicas, tinham arcos geminados em ferradura, mas também aqui com um aspecto muito importante: é que os ajimezes são raros a sul do rio Douro e são elementos característicos da arquitetura e da artística asturiana, leonesa, galega, ou seja, dos antigos reinos cristãos do norte da península Ibérica. E assim faz-se uma pergunta: por que nós tínhamos aqui, neste lugar, arte, arquitetura de inspiração asturiana? A história é capaz de nos dar uma resposta. É que precisamente nesse período, século IX, X, estabeleceu-se nesta terra de Lafões uma importante corte constituída por cavaleiros da aristocracia asturiana, leonesa, galega. Eram liderados por um príncipe de nome Bermudo Ordonhes. Era um dos filhos do rei Ordonho das Astúrias e irmão do rei Afonso III. Mas irmão desavindo, porque os dois envolveram-se numa guerra muito grande, que durou anos, o Bermudo perdeu e quando perde, tem que fugir dessa região das Astúrias, sobretudo dali da zona histórica, e vem precisamente refugiar-se neste vale de Lafões.

Por isso a presença dessa influência dessa pedra traseira.

Exatamente, dessa influência arquitetônica e artística construtiva asturiana aqui neste lugar. Esse ajimez ou essa antiga janela encontra muitas semelhanças com uma janela ainda hoje existente perto de Oviedo, na igreja do Mosteiro de São Salvador de Valdios.

Continuamos aqui no exterior deste centro interpretativo. Já falamos da piscina exterior, falamos da capela de São Martinho. E um dos elementos que agora consigo olhar à minha frente é uma espécie de brasão, uma coroa, que está ali junto a uma destas colunas que suportava essa cobertura. É mais um elemento ligado à realeza.

Nós temos aqui nesta área exterior duas epígrafes, mais duas pedras escritas. Essa do brasão corresponde a uma requalificação que foi feita neste espaço no século XVI É uma pedra de 1583 e está colocada no sítio onde, em 1583, foi construída uma casa da Câmara, Tribunal e Cadeia do Couto ou Conselho das Caldas de Lafões ou do Banho. Era a Câmara do Banho. Essa casa foi desmantelada já no século XX para o alargamento da estrada e ficou a pedra fundacional, agora colocada no preciso sítio onde se erguia essa antiga Casa da Câmara, Tribunal e Cadeia. E depois, um pouco mais ao fundo da Capela de São Martinho, uma segunda inscrição, que é de 1638 e corresponde também ao sítio onde se ergueu a chamada Casa do Corregedor. Era também uma estrutura da administração local, que também foi desmantelada no mesmo período em que a Casa da Câmara o foi. Não queria também deixar de referir outro aspecto importante desta área exterior e ainda relacionado com a capela de São Martinho do Banho. É que a tal igreja do século X, quando foi construída, já foi construída por cima de estruturas romanas derrubadas e intocadas, o que significa que ali por baixo da capela, à volta da capela, naquele pequeno adro da capela e até um bocado para baixo da rua principal, ainda existem vestígios arqueológicos romanos. É uma área que ainda não foi convenientemente estudada, abriram-se ali umas sondagens, encontraram-se vestígios de edifícios, mais colunas romanas e capitéis romanos, o que leva a concluir a existência de uma pequena praça romana ali no sítio onde está a capela de São Martinho. Seria uma praça já do século II depois de Cristo. Tinha também um pórtico, com colunas que seguravam uma cobertura, e edifícios que provavelmente correspondiam a lugares para os alojamentos, para a administração das termas. Teria lojas, as tabernae romanas, para prestar apoio aos aquistas que frequentavam este lugar e provavelmente um pequeno santuário religioso. Mas agora temos que esperar melhores dias, mais investigação, principalmente mais financiamento e vontade política para se continuarem lá fora os trabalhos arqueológicos.

Fizemos então aqui quase que um resumo de todas as infraestruturas que estavam aqui ligadas, agora bem descritas aqui pelo Eduardo Nuno Oliveira, um espaço que tem muita história e muitos elementos de vários estilos. Voltamos dentro de momentos ao Centro Interpretativo das Termas Romanas de São Pedro do Sul para um novo episódio.